Mostrar mensagens com a etiqueta Natal. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Natal. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
O PRESÉPIO (QUASE) ENDÉMICO
O PRESÉPIO (QUASE) ENDÉMICO
No Largo do Pelourinho, em Vila Franca do Campo, encontra-se um presépio que foi inaugurado recentemente com toda a pompa e circunstância pelas autoridades locais.
Acho-o muito bonito, havendo a originalidade de estarem representadas todas as freguesias do concelho com aquilo que cada uma tem (ou teve) que as individualiza. Não vou descrever cada uma, limito-me, a título de exemplo, a referir o caso da freguesia onde nasci, a Ribeira Seca, que está representada por um moinho.
Nunca estudei a fundo a questão dos moinhos, mas apenas me lembro de moleiros de Água d’Alto e da Ribeira Seca, embora conheça ruínas de um moinho em Ponta Garça. A ribeira que atravessa a Ribeira Seca, segundo o senhor Manuel Soares Ferreira, chegou a alimentar 21 moinhos, desde a nascente, na Granja, até à foz onde se localiza as ruínas do moinho da “tia” Leopoldina.
Mas, o que mais me espantou no Presépio do Largo do Pelourinho foi a presença de espécies da nossa vegetação natural, algumas delas protegidas ao abrigo de legislação nacional e internacional. Não faço ideia qual entidade responsável pelo presépio, mas com certeza deverá ter a devida autorização da Direção Regional do Ambiente que terá aberto uma exceção ao apelo que lançou há alguns dias onde comunicava que era proibida “a colheita, apanha, corte, deterioração intencional da espécie vegetal designada por Leiva ou Musgo, nos termos do artigo 2.º do DL 316/89, de 22 de setembro” e que iria “reforçar na época natalícia a vigilância e fiscalização dos locais onde a mesma se desenvolve”, de modo a evitar a apanha da referida espécie vegetal.
Recordo que, em anos anteriores, os serviços oficiais têm tomado medidas para penalizar quem não cumpre a lei e que, no ano de 1997, os vendedores de árvores de Natal que o faziam na Avenida D. João III viram ser apreendidas, pelos Serviços Florestais de São Miguel, cerca de 80 sacas de musgão.
Não vamos aprofundar a questão da importância da manutenção da vegetação autóctone dos Açores, apenas recordo que em 1992, uma petição lançada pelos Amigos dos Açores – Associação Ecológica e pelo Núcleo Regional dos Açores da Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza, então com sede na cidade da Horta, mencionava o facto de as comunidades vegetais autóctones dos Açores serem o seu mais valioso património natural terrestre pelo que “a sua conservação se torna imperativa e urgente por razões científicas, ecológicas, educacionais, recreativas, económicas e de preservação de tipos genéticos únicos, que transcendem o âmbito regional”.
No caso do presépio em apreço, entre outras e para além do musgo ou leiva, pude observar a presença das seguintes espécies nativas, algumas endémicas dos Açores: hera, queiró, urze, feto-pente, bracel-do-mato, louro, canicão, tamujo, folhado e sargasso.
Desde o povoamento e durante muitos anos, entre outras espécies, o queiró, a urze, o louro e o tamujo forneceram a matéria-prima e a energia usadas por quem cá passou a residir.
O louro forneceu as bagas de onde se extraiu um óleo vegetal que, para além de ser usado na iluminação, também era utilizado como remédio para curar as feridas do gado. A madeira de louro, muito leve, mas resistente, era usada para o fabrico de charruas e de cangas para as juntas de bois.
A urze, para além de combustível, foi usada, em tinturaria vegetal, para a obtenção do verde e no fabrico de vassouras.
A madeira do folhado era, por sua vez, usada no fabrico de alfaias agrícolas.
Defensor de que as boas tradições devem ser preservadas, também considero que é possível mantê-las, adaptando-as aos novos tempos. No caso dos presépios não é nada difícil fazê-los com novos materiais, tornando-os instrumentos de educação religiosa para os crentes e de educação ambiental e cívica para todos.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31109, 21 de dezembro de 2016, p.19)
segunda-feira, 19 de dezembro de 2016
Plantas do Natal
Plantas do Natal
Neste texto, pretendo dar a conhecer as principais plantas usadas pelos açorianos, na época natalícia, recorrendo a diversa bibliografia nomeadamente de cariz etnográfico e ao depoimento de algumas pessoas, que desde já agradeço.
Os irmãos Joseph e Henry Bulhar que visitaram os Açores e por cá permaneceram, entre Dezembro de 1838 e julho de 1839, passaram um Natal, em Vila Franca do Campo. No seu livro “Um Inverno nos Açores e um Verão no Vale das Furnas” que, segundo Armando Cortes Rodrigues, é uma obra “cujo valor etnográfico, social e humano não se torna necessário encarecer”, aqueles autores recordam como as pessoas passavam o Natal naquela localidade, tendo a dado passo feito a descrição de uma modesta habitação:
“A um canto do quarto via-se a cama, que em todos os casebres e em todas as ocasiões está sempre limpa e arranjada, mas que hoje se encontra decorada com uma colcha de musselina finamente bordada e uma elegante coberta, acolchoada de branco, sobre a qual se espalhavam flores. O chão estava juncado de verduras e as paredes e o tecto cobertos de ramos verdes de faia. No meio daquela mansão, alumiada por uma candeia em cruxifixo, cuja ténue luz a custo revelava o quadro do interior do casebre, passava o tempo a família dos Bichos”.
O padre vila-franquense Manuel Ernesto Ferreira, no seu livro “A Alma do Povo Micaelense”, editado pela primeira vez em 1926, dedica um texto ao Natal que segundo ele é a festa de todo o ano pois “leva-se seis meses a esperá-la com anseio e outros tantos a recordá-la com saudade”.
Depois de falar na Novena do Natal, que começava no dia 16 de dezembro, e antes de mencionar o presépio, “tradição fortemente arraigada na alma do povo micaelense”, onde segundo ele “vicejam pequenas plantas e flores de freiras”, isto é flores artificiais feitas nos conventos, o padre Ernesto Ferreira menciona algumas plantas usadas pelo Natal nos seguintes termos:
“Já alguns dias antes, em cada casa, se deitara a grelar a ervilhaca, o trigo, o milho, o tremoço, a alpista, com que se há de enfeitar o presépio, de que se acercarão as criancinhas, buliçosas e contentes, saudando-o com sorrisos de inocência.”
No seu livro “Pedras de Santa Maria, publicado em 1968, o mariense Armando Monteiro dá a conhecer uma tradição caída no esquecimento, que abaixo se transcreve:
“Dizem que antigamente o povo desta ilha costumava, na noite de Natal, arranjar um cepo de urze e deitava-lhe lume. Quando estava todo em brasa, apagavam-no com água-benta e, em certas ocasiões de muito furacão e tempestade, acendiam o cepo e colocavam-no no lado da casa donde a ventania soprava.
E feitas estas cousas, logo sucedia chegar a bonança.”
O poeta, natural da Ribeira Grande, Oliveira San-Bento, num soneto intitulado Presépio Antigo, publicado no seu livro “Riscos na Bruma” , editado em 1953, menciona algumas plantas usadas no Natal, do seguinte modo:
Nas horas tão saudosas
Daquele Natal distante,
Há verde pinho odorante
E doce cheiro de rosas…
Vejo as velas luminosas
Mais o trigo verdejante
E a cabeleira ondeante
De ervilhacas graciosas
O etnógrafo terceirense Luís da Silva Ribeiro, no livro Etnografia Açoriana, publicado em 1982, depois de referir que o Natal na Terceira é semelhante ao do Continente, embora com transformações devidas às especificidades do ambiente insular, faz menção às ornamentações natalícias.
No que diz respeito aos enfeites, Luís Ribeiro escreve que “no meio da casa põem ramos de faia do norte contra as paredes ou, dependurados dos tirantes, ramos de laranjeira com frutos, que já nessa época estão amarelos e, se o chão é térreo, atapetam-no com feno (frança de pinheiro) como no Espírito Santo. Na ilha de São Miguel, nas casas térreas o chão também era coberto de junco, de rama de funcho e mais tarde de ramos de criptoméria picados.
Na década de sessenta do século passado, na casa dos meus avós maternos os preparativos para o Natal iniciavam-se com o colocar de molho o trigo e a ervilhaca, a que se seguia a sua deposição em vasos que eram colocados em sítio escuro para que crescessem branquinhos. Mais próximo do dia 25 de dezembro, a casa era enfeitada, através da colocação de ramos com laranjas ou mandarinas e funcho da Madeira nas paredes.
Outra tradição, que quase sempre marcava presença, era a do presépio que terá sido ideia, de São Francisco de Assis, concretizada pela primeira vez em 1223, na comuna italiana de Greccio. Na altura, a árvore de Natal ainda não era muito generalizada, apesar de já em 1933 o Dr. Armando Cortes Rodrigues ter escrito o seguinte: “Hoje, a febre da desnacionalização anda erguendo árvores de Natal por todos os lares e até nas próprias igrejas é bom recordar que a tradição dos presépios e das lapinhas é profundamente cristã e latina e que não há necessidade de ir copiar aos países do norte um costume que nada tem que ver com o nosso fundo tradicional”.
Muito mais tarde, na casa dos meus avós, surgiu a árvore de Natal que era sempre de criptoméria, mas, mais raramente, havia quem usava pinheiros ou mesmo cedros.
De acordo com uma vila-franquense, em sua casa entre outros enfeites havia “galhos de laranjeiras com laranjas, tangerinas e ananás”. Havia também a ervilhaca, o trigo, as favas e o milho, no presépio musgo, “uma pequena planta…galinhos…catos e outras plantas nos vasos”. A árvore era de cedro ou de abeto e nos últimos anos de criptoméria. Também havia o “altarinho” onde não faltava a ervilhaca, o trigo e as tangerinas.
No Pico da Pedra, de acordo com informação recolhida, para além da ervilhaca e do trigo, havia o tremoço e na árvore de Natal eram colocadas tangerinas. A casa era também enfeitada com ramos de cedro e de nespereira pintados com tinta prateada ou dourada. No presépio era usado musgo verde e branco e “pés de galo”.
Em resposta a um apelo que lancei numa rede social uma pessoa referiu que na sua casa era muito usado o azevinho. Numa fotografia de um “altarinho” verifiquei que para além da ervilhaca e do trigo havia dois ramos de gilbardeira.
Embora o levantamento efetuado seja muito incompleto, justificando-se a sua continuação, e sendo difícil a identificação das espécies referidas pelos diversos autores e pelas pessoas que deram o seu contributo para que este trabalho se tornasse realidade, das cerca de 25 espécies usadas no presépio, nos “altarinhos” ou na ornamentação das casas, a esmagadora maioria não é nativa dos Açores.
Nativas dos Açores, no Natal, apenas eram ou ainda são usadas a urze (Erica azorica), os pés de galo (Polypodium azoricum) e vários musgos (leiva, musgão) do género Sphagnum, cuja utilização está proibida, nos termos do artigo 2.º do DL 316/89, de 22 de setembro.
Não obtivemos nenhuma informação que nos desse garantias de que o azevinho dos Açores (Ilex azorica) era ou ainda é usado. Pelo contrário todas as imagens que vimos de plantas a que as pessoas chamavam de azevinho eram de uma espécie introduzida com fins ornamentais cujo nome comum, segundo o botânico Rui Teles Palhinha, é erva-dos-vasculhos, gibalbeira ou pica-rato (Ruscus aculeatus) ou de azevinhos introduzidos na nossa região.
Teófilo Braga
8 de dezembro de 2016
(Atlântico Expresso, 19 de dezembro de 2016)
quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
Natal na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo
Memórias do Natal na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo
Durante muitos anos, na década de sessenta do século passado, a ausência de meu pai emigrado no Canadá, fez com que vivesse em casa dos meus avós, Manuel Soares e Maria dos Santos Verdadeiro, na rua do Jogo, então local da freguesia de São Miguel.
Foi na casa dos meus avós que passei muitos natais da minha infância na sua companhia, bem como na de minha mãe, irmão e tias, Zélia e Rosa.
A aproximação ao dia de Natal, que para mim era sobretudo o da receção das prendas, fazia-se sentir através da participação de minhas tias na Novena de Natal que seguia a regra, mencionada pelo Padre Ernesto Ferreira, de se realizar “de madrugada, porque está no amago da tradição que deve ser de manhã, muito cedo”.
De igual modo, a aproximação era sentida pelos preparativos que se iniciavam com o colocar de molho o trigo e a ervilhaca, a que se seguia a sua deposição em vasos que eram colocados em sítio escuro para que crescessem branquinhos.
Mais próximo do dia, a casa era enfeitada, através da colocação de ramos com laranjas ou mandarinas e funcho da Madeira nas paredes.
Outra tradição, que quase sempre marcava presença, era a do presépio que terá sido ideia, de São Francisco de Assis, concretizada pela primeira vez em 1223, na comuna italiana de Greccio. Na altura, a árvore de Natal ainda não era muito generalizada, apesar de já em 1933 o Dr. Armando Cortes Rodrigues ter escrito o seguinte: “Hoje, a febre da desnacionalização anda erguendo árvores de Natal por todos os lares e até nas próprias igrejas é bom recordar que a tradição dos presépios e das lapinhas é profundamente cristã e latina e que não há necessidade de ir copiar aos países do norte um costume que nada tem que ver com o nosso fundo tradicional”.
O presépio feito em casa da minha avó não se distinguia de muitos outros já que tinha como figuras centrais o menino Jesus e os seus pais, colocados numa cabana construída de madeira coberta com palha. No interior da mesma, também, figurava um burro e uma vaca e, sobre ela, um galo.
Como não podia deixar de ser não faltavam os três reis magos que por vezes eram seis. Com efeito, existiam três reis magos muito pequeninos e muito antigos que montavam camelos e também existiam outros três muito maiores, mais modernos, que montavam cavalos e por vezes todos figuravam no mesmo presépio. Para não haver conflitos, eram colocados em posições distintas, os primeiros, próximos da cabana, dirigiam-se para essa, os outros, mais afastados, já tinham cumprido o seu dever de visitar o menino Jesus e caminhavam em sentido contrário.
No presépio, também, figuravam muitas ovelhas e vacas, o que era obrigatório, em casa de um lavrador, uma cafua de milho e todos os figurantes de uma matança de porco, tendo este fruto dos anos e dos trambolhões as pernas partidas.
As casas mais antigas eram de papel tendo sido desenhadas, recortadas e coladas pelos meus familiares mais velhos, as mais recentes, também de papel, já tinham origem em moldes comprados numa papelaria.
Durante a época de Natal, existiam sempre disponíveis figos passados, comprados em cestinhas ou ao peso, alfarrobas, massa sovada, vinho abafado e raramente licores caseiros.
A ceia de Natal pouco diferia das refeições de outros dias festivos, existindo normalmente carne de galinha caseira e carne de vaca, esta comprada num talho do mercado de Vila Franca do Campo, aquando das festividades religiosas.
Mas, o melhor das festas, para as crianças, eram as prendas que eram deixadas, pelo São Nicolau nos sapatos que colocávamos na cozinha, debaixo da chaminé, e que eram exibidas na rua no dia seguinte. Para as raparigas eram obrigatórias as bonecas e os utensílios usados em casa, sobretudo na cozinha, para os rapazes eram as navalhinhas ou os canivetes e as “flautas” (gaitas de beiços), a maioria muito baratinhas e eram, também, os carrinhos de folheta ou de plástico.
A época natalícia terminava com o tradicional cortejo dos reis magos, manifestação genuinamente popular, com texto do poeta camponês João Jacinto Januário, sendo figurantes pequenos criadores ou tratadores de gado e trabalhadores rurais com muito pouca escolaridade, mas como muito saber e cultura.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30517, 24 de dezembro de 2014, p. 16)
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Subscrever:
Mensagens (Atom)

