quarta-feira, 15 de maio de 2013

Brincadeiras e maldades de rapazes e de adultos



Brincadeiras e maldades de rapazes e de adultos

Antes de ir viver para Ponta Delgada para poder compatibilizar os meus estudos no Instituto Universitário dos Açores com o meu trabalho de professor provisório na Escola Preparatória Roberto Ivens, onde lecionei Matemática e Ciências da Natureza, sempre morei na Rua do Jogo, na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo.
Para justificar o nome da rua, que era térrea, era nela que tanto rapazes como raparigas brincavam. Eram os desafios de futebol, com as balizas assinaladas com duas pedras, era o jogo do pião e era o do berlinde que para ser jogado necessitava de três “coveletas”, pequenos buracos escavados no solo.
Na altura, tanto eu como os meus colegas, discordávamos da substituição da terra da rua pelo alcatrão, pois com este algumas das nossas brincadeiras deixariam de poder continuar. Esquecíamo-nos de que com o progresso, as brincadeiras também evoluíam e as tradições também definhavam e acabavam por desaparecer.
Um dos jogos que se faziam eram as corridas de carros de duas rodas de madeira que poucos possuíam. Os restantes em vez de rodas de madeira usavam pedaços de carrilhos de milho – espigas, depois de tirados os grãos.
Para além dos carros de duas rodas, existiam também carros de uma só roda que se movia, na maior parte dos casos, num eixo que era colocado numa cana, planta que servia para fazer sebes e que era usada para suporte das vinhas.
Tinha eu os meus sete ou oito anos, vivia na rua o senhor João A. que estava de relações cortadas com a senhora D. a qual por sua vez tinha, em casa, um familiar que estava gravemente doente ou mesmo, como se costuma dizer, às portas da morte.
Para fazer arreliar a senhora D. ou para abreviar a vida ao doente, o senhor João lembrou-se de ser generoso com todos os rapazes que viviam perto da sua casa e decidiu oferecer aos mesmos um carro de uma só roda, com a particularidade desta ser dentada de tal modo que, ao bater num pedaço da cana que era flexível, produzia um ruido que se não matava uma pessoa saudável devia ser deveras incómodo para quem estava a sofrer.
Mas, a maldade era tanta que a oferta só era válida se fosse cumprida uma condição que era, nem mais nem menos, a de as corridas terem de se realizar num troço pequeno da rua que incluía o da localização da casa da senhora D. e dos seus familiares.
No início da década de sessenta do século passado, não havia saneamento básico e todas as águas pluviais e outras como as das cozinhas, as de lavar roupa ou mesmo as dos currais de porco, eram canalizadas para a rua por onde corriam em valetas que ficavam em ambos os lados daquela.
Nas valetas mais modernas, que eram de cimento, surgiam limos que eram ótimos para facilitar a vida aos rapazes que costumavam deslizar em cima de cascas de melancia. Terá sido esta brincadeira que mais tarde deu origem às corridas de patins ou ao surf?
O outro entretimento dos rapazes e de algumas raparigas era o de amesquinhar alguns dos moradores da rua, nomeadamente os que, por uma razão ou outra, eram mais pobres, possuíam alguns vícios ou doenças, nomeadamente o alcoolismo, ou algum defeito físico.
Um dos casos que irei mencionar era o do senhor A. I., ex-emigrante que vivia só, numa casa que estava a cair e que era alimentado, não sei se por esmola, por uma familiar. O senhor A. gostava de beber a sua pinga numa das três tabernas existentes e quando regressava trôpego a casa era perseguido e às vezes apedrejado por rapazes que gritavam: “A. I, bye, bye. caganitas para o teu pai”.
Outro caso era o de um senhor que foi um grande artista na arte de trabalhar o vime e que sofria de doença psiquiátrica. Lembro-me dele sentado às portas de algumas casas lá na rua, sendo também apedrejado por alguns rapazes que também arranjaram uma rima para o irritar.
Anos mais tarde, era já eu quase adulto encontrei-o na Praça Bento de Gois, muito bem vestido e a conversar com outras pessoas. Curioso, aproximei-me para tentar perceber se ele estava curado ou não e assisti a uma explicação sua sobre a chegada do homem à Lua, onde ele misturava um pouco da realidade com uma grande dose de imaginação, de tal modo que se não o conhecesse diria que ele havia lido a Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne.
Por último, havia uma família de gente muito humilde e trabalhadora que vivia numa casa arrendada e que passava por muitas dificuldades, tal como muitas outras.
Ainda hoje não sei a verdadeira razão da sua escolha para vítima das muitas rimas que a ela eram dedicadas, mas possivelmente terá sido devido ao facto da sua casa ser um pouco metida dentro de modo que propiciava uma aglomeração dos mais novos que com o seu barulho incomodavam sobretudo a pessoa mais idosa da família que, de vez em quando, vinha à porta afugentar quem lá estava. Quando tal acontecia choviam as “canções” de protesto, a mais inocente das quais era:
Maria A.
Folha de couve
Foi comprar sapatos
Para oferecer ao noivo
TB
(Correio dos Açores, nº 2797, 15 de Maio de 2013, p. 9)

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Educadores açorianos



O Professor Catedrático da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, António Sampaio da Nóvoa, é autor de uma obra fabulosa editada, em 2003, pelas Edições Asa intitulada “Dicionário de Educadores Portugueses”. Nesta obra o autor reúne 900 biografias de homens e mulheres que durante os séculos XIX e XX dedicaram as suas vidas à educação e ao ensino.

No seu livro, António da Nóvoa não se esqueceu dos Açores, tendo apresentado as biografias de alguns açorianos, como Alice Moderno, Ana Augusta Castilho, António Augusto Riley da Mota, João Anglin e Maria Evelina de Sousa.

Em textos anteriores já fiz referência a alguns dos educadores mencionados acima, com destaque para Alice Moderno e Maria Evelina da Sousa, pelo contributo que deram à proteção dos animais, João Anglin, por na sua juventude ter sido adepto do anarquismo e António Augusto Riley da Mota, pela defesa do ensino experimental.

No caso do desprezo a que tem sido votado o ensino das ciências experimentais recordo que estamos a caminhar para a situação denunciada pelo Dr. António Augusto Riley da Mota que deu a conhecer o facto de ter feito o ensino liceal, em Ponta Delgada, entre 1905 e 1910, sem nunca “ter visto um tubo de ensaio, nem o ácido sulfúrico.”

Maria Evelina de Sousa, que foi professora primária oficial e jornalista, distinguiu-se pela criação da Revista Pedagógica, órgão do professorado oficial açoriano, que se publicou entre 1906 e 1916.

Republicana, como Alice Moderno, Maria Evelina de Sousa ainda durante o regime monárquico defendeu “a proibição do ensino de matéria religiosa nos estabelecimentos escolares, congratulando-se com o decreto republicano que extingue, nas escolas primárias e normais, a doutrina cristã”.

Até à relativamente pouco tempo desconhecida para mim, a terceirense Ana Augusta de Castilho (1866- 1916) que foi professora e escritora, distinguiu-se a nível nacional por ter participado ativamente em várias associações feministas e por ser considerada pelas pessoas que com ela conviveram e defenderam as mesmas causas “uma das mais prestigiadas defensoras dos direitos das mulheres”.

Sobre a sua dedicação à concretização dos seus ideais, Alice Moderno escreveu: “D. Ana de Castilho era uma figura neste meio desfalecido, apagado, em que as individualidades cedem aos preconceitos, atrofiando-se, aniquilando-se com medo do ridículo. Ela nunca receou o ridículo, nunca se importou com os sorrisos ineptos que se esboçavam à sua passagem, nunca perdeu a fé no seu credo social, no seu apostolado, de inteligência, de bem, de paz. Foi e era a alma de todas as associações femininas de propaganda e de beneficência que se têm fundado entre nós”.

Segundo Maria Evelina de Sousa, Ana Augusta de Castilho “procurava sempre, com brilho e eloquência, demonstrar a necessidade absoluta e inadiável de se praticar Justiça na humanidade, levantando-se o nível moral das sociedades pela emancipação da mulher como estabelecimento da igualdade de direitos e deveres entre os dois sexos de que essa humanidade se compõe, a fim de que a civilização não continue a ser uma palavra vã e possa significar a perfeição a que todo o ser aspira”.

Para terminar, apresento aqui um dos seus argumentos, extraídos da obra Republicanas quase desconhecidas, da autoria de Fina d’Armada, para combater quem era contrário ao direitos das mulheres votarem:

“Diz-se que a mulher, tendo o voto, descurará as suas ocupações domésticas. Que argumento tão pueril! Porventura o operário, que tem a faculdade de votar, abandona, por esse facto, o labor da sua profissão?”

Por último, para Ana Castilho a não concessão do voto à mulher é justificado porque “ é o predomínio, é o direito de posse [do homem], é a supremacia sobre a mulher de que ele não se quer ver privado”
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 2791, 8 de Maio de 2013, p.18)

sexta-feira, 3 de maio de 2013

quarta-feira, 24 de abril de 2013

O assalto



O assalto aos Paços do Concelho de Vila Franca do Campo

A 25 de Abril de 1974 era presidente da Câmara Municipal de Vila Franca do Campo o professor primário Orlando Augusto Borges Brandão que durante alguns anos foi presidente da Comissão Concelhia da Ação Nacional Popular, organização política que resultou da União Nacional, e dirigente da Legião Portuguesa”, organização criada, em 1936, para “defender o património espiritual da Nação e combater a ameaça comunista e o anarquismo".
Como seria de esperar, com o derrube de Marcelo Caetano, os adeptos do Estado Novo não se renderam e nalguns casos resistiram o mais que lhes foi possível para se manterem nos cargos que antes ocupavam. Por outro lado, os adversários da ditadura começaram a organizar-se e a mobilizar as pessoas com vista à substituição daqueles.
Com quase 17 anos de idade, sem nenhuma formação política a não ser as aulas de Organização Política e Administrativa da Nação que estavam a ser ministradas pelo Dr. Álvaro Dâmaso, no Liceu Nacional de Ponta Delgada, fui assistindo com atenção ao que se passava e participando de forma passiva em alguns acontecimentos, como ocorreu na primeira manifestação do Dia do Trabalhador, em Vila Franca do Campo, e no processo de substituição dos “inquilinos” da Câmara Municipal de Vila Franca do Campo.
No final de Maio, os partidários da democracia elaboraram um abaixo-assinado que, para além de contestar o aumento da taxa da água, solicitava a destituição da administração municipal. Este abaixo-assinado, que teve 1056 subscritores, foi enviado à comissão do Movimento Democrático Português de Ponta Delgada que por sua vez remeteu um telegrama ao Ministério da Administração Interna, dando conhecimento do conteúdo do mesmo.
Os adeptos do antigo regime não permaneceram quietos e começaram a pressionar algumas pessoas para reagir à iniciativa dos democratas, tendo um grupo de cidadãos, de que faziam parte Eduardo Manuel Mendes Araújo, Eduíno Manuel Simas Couto, José Lopes e Manuel da Costa Braga, enviado uma Declaração aos jornais onde afirmavam que haviam assinado um texto a pedir a redução da taxa da água e não a solicitar a demissão da Edilidade de que não tinham razão de queixa.
Na mesma altura, o professor Orlando Brandão reagiu violentamente, tendo, numa nota datada de 5 de Junho de 1974, afirmado que o referido abaixo-assinado era “um documento reconhecidamente falso, onde até crianças inocentes ainda em idade escolar, irresponsavelmente apuseram a sua assinatura” e aproveitado a ocasião para denunciar o facto da Comissão do Movimento Democrático estar a “ser manobrada pelos fascistas que forjaram o abaixo-assinado, um dos quais foi presidente da Comissão de Freguesia de São Miguel de Vila Franca do Campo, até ao dia 25 de Abril e em cuja casa a Comissão de Concelho da extinta ANP se reuniu e planeou a ação a desenvolver”.
A 11 de Junho do mesmo ano, pelas 10 horas, algumas centenas de pessoas reuniram-se junto à Câmara Municipal de Vila Franca do Campo e elegeram uma comissão administrativa composta por Raul Eduardo Vale Raposo Borges, licenciado em direito, Armando Botelho Henrique, lavrador, Alfredo Moniz Gago da Câmara, industrial, João José Sardinha, lavrador, e Elias Pimentel Costa, comerciante.
De acordo com a ata da eleição, o povo de Vila Franca reuniu em frente aos Paços do Concelho e de forma “espontânea e conscientemente manifestou o seu desejo aberto e claro de deixar de ter na sua administração municipal as pessoas que a executavam há muito tempo”.
Não satisfeitos com o rumo dos acontecimentos, os partidários do antigo regime convocaram uma concentração, para o dia 14 de Junho, em frente aos Paços do Concelho, com vista à escolha de uma outra Comissão Administrativa para a Câmara Municipal. A iniciativa não resultou e transformou-se num “assalto” ao edifício da Câmara Municipal e na queima de alguns documentos.
Assisti à eleição da comissão administrativa e ao “assalto” à Câmara junto ao muro do jardim, em frente ao estabelecimento comercial “A Construtora”, tendo presenciado a situação caricata por que passou o Dr. Raúl Borges que, por não querer ser levado em “triunfo” para a escadaria da Câmara Municipal, esteve, durante muito tempo aos ombros de duas pessoas, agarrado aos ramos de uma árvore.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 2782, 24 de Abril de 2013, p.16)

sábado, 13 de abril de 2013

EXAMES E ENSINO EXPERIMENTAL




Há mais de trinta anos escrevi alguns textos contra a realização de exames como forma de classificar os alunos. Entre as razões apontadas ainda é perfeitamente válida, do meu ponto de vista, a de ser profundamente injusto avaliar, em noventa minutos ou em pouco mais tempo, tudo o que uma pessoa aprendeu durante um, dois ou mesmo três anos letivos. Felizmente esta injustiça é minorada pelo facto da classificação interna ter, por enquanto, um peso bastante inferior à classificação do exame.

Virem dizer que a vida também não é justa, não é argumento que deva ser tido em consideração, pois nunca uma injustiça se combate com outra injustiça.

Os acérrimos defensores de exames para tudo e para nada consideram que pura e simplesmente deviam ser os exames a ditar a classificação final de todos os alunos, argumentando que os mesmos são a única forma de combater o facilitismo. Esquecem-se eles de mencionar que se o facilitismo está implantado entre nós não é por obra e graça do Espirito Santo, nem pela cabeça dos docentes dos mais diversos graus de ensino.

O facilitismo tem sido um objetivo nacional devidamente legislado e levado à prática por quem apenas se preocupa com o sucesso escolar estatístico.

Como já sei que haverá a tentação de me acusarem de muita coisa e sobretudo de ser fruto das facilidades introduzidas com o 25 de Abril, às más-línguas informo que fiz exame da quarta classe no tempo de Salazar, fiz exame do 2º ano do ciclo preparatório e do 5º ano dos liceus ainda no tempo de Marcelo Caetano e no Instituto Universitário dos Açores fiz poucos exames porque estudei para dispensar dos mesmos. Por último, já com mais de cinquenta anos de idade fiz frequências no âmbito de um mestrado que frequentei na Universidade dos Açores.

De toda esta minha experiência como examinando conclui que os exames apenas terão servido para me atribuírem uma classificação pois para mim para nada serviram, já que com eles não fiquei a saber mais do que já sabia.

O Dr. António Augusto da Mota Frazão, que era partidário dos exames escritos, já em 1932, levantava outra questão que é perfeitamente atual. Segundo ele, “um dos maiores defeitos que lhes aponte está em levarem muitos professores a ensinar para exame”.

O caso mais aberrante é o das ciências experimentais, onde nos exames é realizada apenas uma prova escrita, quando na avaliação interna a componente prática/experimental tem um peso de 30%. Concordo com João Paiva quando, no seu livro “O Fascínio de ser professor”, afirma que “ Para avaliar competências de trabalho laboratorial, justificam-se provas práticas. Está por confirmar se o esforço de incluir perguntas sobre atividades laboratoriais em exames nacionais de Química pressiona alunos e professores para valorizarem o laboratório ou se, por outro lado, incentiva à indesejável «teorização do laboratório» (um paradoxo...)”.

A associar ao paradoxo referido, a crise atual, que acabará por morrer solteira já que ninguém assume a responsabilidade pela sua existência, tem levado ao desinvestimento no apetrechamento dos laboratórios de tal modo que muita da Física e da Química que se faz não é experimental, mas de giz ou, modernamente, virtual, isto quando os projetores funcionam.
Se ninguém tiver coragem para dar a volta a isto, facilmente chegaremos à situação existente no início do século passado que foi descrita do seguinte modo, pelo já mencionado Dr. António Augusto Riley da Mota, numa dissertação apresentada em 1919:
“A educação secundária no nosso país é, toda ela, péssima. Mas o ensino das ciências físico-naturais é mais do que isso – é vergonhoso! Observação e experiência são letra morta. […] Pouco se recorre à intuição, quase nada aos conhecimentos da vida prática. Não se desperta o interesse nem se procura manter o natural espírito de investigação- carácter essencial do espírito científico. Estimula-se a abstração prematura e sem bases; hipertrofia-se a memória, que depois definha; leva-se à passividade mental, ao verbalismo; provoca-se a ignorância pretensiosa; favorece-se o pedantismo”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 2770, 10 de Abril de 2013, p.16)

terça-feira, 9 de abril de 2013

PODAS



Podas?
Quase todos os anos com a aproximação da Primavera, ou mesmo em pleno Inverno, nas várias ilhas dos Açores, assiste-se a um autêntico massacre promovido pelas mais diversas entidades oficiais, sobretudo por alguns departamentos do Governo Regional dos Açores e por autarquias locais.
São as impropriamente chamadas podas radicais que são sempre justificadas em nome da segurança de pessoas e bens. Entre nós, é sobretudo nas bermas das estradas que, em nome da pretensa segurança, que deve ser garantida a todos os utilizadores, são cometidos verdadeiros abusos que consistem no corte de ramos saudáveis ou mesmo na retirada de toda a copa.
Esquecem-se, os responsáveis pelas podas que uma árvore saudável e bem escolhida para um determinado lugar não tem necessidade de ser podada, sendo mais do que suficiente a eliminação de ramos mortos e de outros que pela sua inserção são mais vulneráveis à queda.
Se é verdade que se podem fazer podas por razões de saúde das árvores, como para travar um ataque de parasitas, ou por razões estéticas, também não deixa de ser verdade que, como escreveu Emmanuel Michau: “O homem não pode ter para com um ser vivo a mesma atitude que tem face aos materiais inertes. A gestão das árvores não se deve fazer com menosprezo da sua saúde e da sua estética”.
Penso que é no mínimo uma autentica falta de sensibilidade o decapitar árvores a torto e a direito como se tem visto em algumas das nossas estradas. Contudo, se as malfadadas podas ou mais propriamente decapitações são feitas em locais onde se deviam estar a formar jovens, como são as escolas, considero-as um verdadeiro crime, sobretudo quando os responsáveis forem os próprios professores.
Depois de tantos protestos, depois de algumas formações que se têm realizado, não é compreensível que, ano após ano, e por mais promessas que têm sido feitas de rever posições e comportamentos, se continuem a cometer os mesmos erros.
Teimosia, memória curta, ausência de bom gosto ou incompetência?
T. Braga

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Quem corre por gosto não cansa?

Quem corre por gosto não cansa?



Com 55 anos de idade, depois de mais de 30 anos dedicados ao ensino oficial e com algumas incursões pelo ensino profissional, sinto que o ponto alto da minha carreira já foi ultrapassado e que neste momento o esforço que estou a fazer por vezes ultrapassa a minha capacidade física.
Embora tenha um número reduzido de turmas e de alunos, o desgaste provocado pela vida na escola e algumas mazelas a nível da saúde, dizem alguns que próprias da idade, fazem com que, quase todos os dias, chegue a casa esgotado e sem vontade de trabalhar. Digo trabalhar, pois trabalho mais em casa para a escola do que no tempo que estou obrigado a permanecer no edifício escolar.
Como os leitores não fazem ideia do que antes escrevi, vou tentar explicar, com algum pormenor, o que se passa comigo na escola.
Tenho duas turmas do 10º ano de escolaridade que graças (infelizmente) ao facto da Escola das Laranjeiras estar em franco processo de "desertificação", onde o ensino regular caminha para ser minoritário, possuem na sua totalidade, neste momento, menos de 30 alunos.
Por semana passo, com estas duas turmas, 14 segmentos de 45 minutos (430 min) o que do meu ponto de vista corresponde ao único tempo verdadeiramente útil e o único em que sinto prazer em estar na escola.
Semanalmente, sou também obrigado a estar 4 segmentos de 45 minutos na sala de estudo, onde desde o início do ano aguardo que me surjam alunos com dúvidas nas disciplinas da minha área para lhas poder tirar.
Como ainda não aprendi a ser um profissional e de vez em quando penso que sou missionário, solicitei autorização ao Conselho Executivo para, embora estragando o meu horário semanal e implicando gastos em transportes que ninguém os paga, trocar um dos segmentos em que estava na sala de estudo às 10 horas da manhã por outro às 16 horas (depois de ter saído da escola pelas 13h 30 min) para ter a possibilidade de dar apoio, gratuito como não podia deixar de ser, a alguns alunos das minhas turmas.
Para além do referido, tenho também no meu horário 90 minutos dedicados à substituição de colegas, em caso de necessidade. Se para a tutela esta parece ser uma aposta ganha, para quem vive o dia-a-dia numa escola sabe que nalguns casos a substituição feita em turmas onde não se conhece os alunos é uma verdadeira afronta à dignidade dos professores, pois estes não são bem recebidos quando não são mal tratados, quer verbalmente, quer, nalguns casos, fisicamente. Conheço colegas que se recusaram a ir para determinadas turmas, colegas que “apressaram” a sua aposentação, depois de terem saído de aulas de substituição a chorar por não saberem como lidar com gente sem princípios ou por não estarem preparados para enfrentar determinadas turmas com necessidades educativas especiais.
Por último, tenho também 270 minutos de componente não letiva de estabelecimento. Este tempo, bem como o tempo que passo na sala de estudo sem alunos ou em que não vou fazer substituições podia ser aproveitado na preparação de aulas, elaboração de fichas de trabalho ou de avaliação, ou a criação de materiais didáticos de apoio às aulas. Escrevi, podia, pois apenas uma pequena parte do que mencionei poderá ser feito já que nem sempre tenho condições para o fazer. Com efeito, nem sempre tenho um computador disponível, pois na sala de estudo os poucos computadores em funcionamento são muito procurados pelos alunos, na sala de professores quase sempre os mesmos estão ocupados e no departamento o único computador existente, se não é do tempo da “guerra de catorze” deverá andar por lá perto tem andado avariado. Além disso, se quiser incluir qualquer figura numa ficha de trabalho ou de avaliação também não posso pois desconheço a existência de qualquer “scanner” acessível aos docentes.
Enfim, depois de passar todo o tempo a que legalmente sou obrigado a estar na escola, fora das aulas, muitas vezes com a única possibilidade de ler os manuais ou outros documentos, tendo de suportar um ruído de fundo que se não mata incomoda, tenho que passar grande parte das minhas tardes e noites a trabalhar, muito mais horas, para além das que, por lei, sou obrigado a fazer.
Se grande parte da minha vida corri por gosto, hoje, cansado, corro por necessidade.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 2764, 3 de Abril de 2013)