domingo, 12 de abril de 2020

Fábricas de cimento e poluição

Correio dos Açores, 21 de março de 1985

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Haverá touradas, nos Açores, em 2020?

Haverá touradas, nos Açores, em 2020?
 Em todo o mundo têm sido canceladas touradas devido à pandemia do novo coronavírus. Em Espanha, todas as touradas previstas para os meses de março, abril e maio, foram suspensas por tempo indeterminado.

Na Terceira, as duas Câmaras Municipais não estão a licenciar touradas à corda e as Sanjoaninas foram canceladas, em reunião realizada a 27 de março de 2020, subentendendo-se que também foram cancelas as touradas associadas àquelas festividades.

Um pretenso festival tauromáquico de apoio a obras em igrejas da Terceira, previsto para 23 de maio, foi adiado.

Conhecendo bem o espírito dos adeptos da tortura animal, sabemos que tudo farão para matar o vício e à primeira oportunidade irão promover o máximo de touradas que puderem.

Será que, em 2020, haverá touradas na ilha Terceira? Será que, no passado, já houve algum ano em que não se realizaram touradas naquela ilha?

Se não vamos fazer futurologia, portanto nada vamos dizer sobre o que acontecerá este ano, sobre o passado, com recurso à Tauromaquia Terceirense, de Pedro de Merelim, relataremos o que aconteceu.

Com a implantação da República não houve qualquer alteração em relação às touradas, tanto a nível nacional como na ilha Terceira. Com efeito o projeto de Boto Machado apresentado na Constituinte para acabar com as touradas, não foi bem-sucedido.

Apesar da proibição das touradas à corda pelo General António Augusto de Oliveira Guimarães, em 1916, em plena Guerra Mundial, a deliberação foi revogada dois meses depois e naquele ano continuou a haver touradas, primeiro só aos domingos para não prejudicar os dias de trabalho.

Com o derrube da ditadura do Estado Novo, apenas houve uma tentativa de redução das touradas à corda, através de um edital do Dr. Oldemiro de Figueiredo, onde este estabeleceu que para evitar exageros, para além das 80 touradas tradicionais, só concedia licenças aos sábados, domingos e feriados.

Nem o sismo de 1 de janeiro de 1980 fez com que não houvesse touradas na Terceira. No que diz respeito às touradas à corda e apesar do apelo de alguns à moderação e para que a ociosidade fosse evitada, realizaram-se 90 touradas, 45 no concelho da Praia da Vitória e 45 no de Angra do Heroísmo.

Face ao exposto, se a situação se alterar um pouco, acreditamos que, acima das preocupações com a saúde pública, acima do respeito pelos direitos dos animais, acima do direito das crianças terem uma educação respeitadora de todos os seres vivos, vão prevalecer os interesses da indústria tauromáquica, com a cumplicidade de governos, autarcas e dos responsáveis pela diocese de Angra do Heroísmo.

Oxalá estejamos enganados.

Açores, 5 de abril de 2020

José da Agualva










http://iniciativa-de-cidadaos.blogspot.com/2020/04/havera-touradas-nos-acores-em-2020.html

terça-feira, 7 de abril de 2020

As feministas e o trabalho

Maria Evelina de Sousa

As feministas e o trabalho

Algumas correntes de esquerda, suponho que minoritárias, criticam os movimentos feministas atuais pelo facto de ignorarem as questões do trabalho, como o facto das mulheres terem ordenados mais baixos do que os homens para a mesma função, serem as principais vítimas dos empregos precários e, por último, não porem em causa o sistema de exploração que domina todo o mundo.

No passado, embora não ignorassem por completo o acesso ao trabalho e as condições deste fora de casa, também me parece que as principais questões levantadas pelas feministas eram, essencialmente, o direito ao voto e o acesso à educação.

Alice Moderno considerava que era importante a mulher ter acesso à educação, que era melhor do que ter um bom dote, para possibilitar ter um bom trabalho e uma vida não dependente de outrem. Segundo Maria da Conceição Vilhena, Alice Moderno defendia o seguinte:

“O papel social da mulher começa em casa, junto da família, onde a mulher burguesa deverá deixar de ser um dispendioso objeto de luxo ou “um cabide de vestidos” que o marido compra”

Maria Evelina de Sousa, a menos conhecida das duas companheiras feministas açorianas, numa carta a Ana de Castro Osório, que então ocupava o cargo de Inspetora dos Trabalhos Femininos de Portugal, publicada, no dia 1 de abril de 1917, no jornal “A Folha”, é clara na importância que dá ao trabalho feminino. Assim, depois de referir a importância de serem criadas “indústrias femininas” pelo contributo que poderiam dar “para a economia política do país”, acrescenta o seguinte:

“Não só compreendo a vantagem material que semelhantes indústrias nos proporcionariam, mas também avalio o simpático papel que desempenhariam, no campo moral porque, habituando a mulher a bastar-se a si própria, vivendo dos recursos do seu trabalho honesto, dignificavam-se, fazendo com que desprezasse o servil estado de alimentada do marido, do pai, do irmão ou, na falta deste, do amante”.
E por isso a criação de indústrias femininas seria o melhor, o mais eficaz e enérgico de todos os expedientes para fazer desaparecer a cancerosa pústula da prostituição, vergonha social, que enxovalha as famílias e corrompe as sociedades, desde os mais remotos tempos.”

Maria Evelina de Sousa, na carta referida, também, recordou que dedicou ao assunto da criação de indústrias femininas alguns textos na sua Revista Pedagógica, nomeadamente aquando da criação, em Ponta Delgada, da efémera Escola de Rendas de Bilros e voltou a referir a importância da criação em São Miguel de indústrias de rendas e bordados que poderiam ser exportados para o Novo Mundo.

Ana de Castro Osório, que foi jornalista, escritora, pedagoga, feminista e ativista republicana, por sua vez, no jornal “Açoriano Oriental, de 22 de setembro de 1917, num artigo intitulado “Respeito pelo trabalho”, aborda a questão do trabalho da mulher, denunciando que em Portugal o valo pago pelo trabalho feminino é uma coisa ridícula, para não dizer uma coisa odiosa”.

No seu texto Ana de Castro Osório denuncia que o que é pago pelo trabalho da mulher não é suficiente para ela “viver honestamente do seu próprio labor” e acrescenta que a mulher recebe um terço ou menos do que seria pago a um homem.

Termino este texto, ainda com um excerto do artigo de Ana de Castro Osório, muito elucidativo do pensamento de então (e de hoje?):

“Já dissemos a falta de respeito pelo trabalho da mulher, que esse é matéria corrente numa sociedade em que de alto a baixo das classes sociais os homens olham as suas companheiras como umas bonecas fabricadas pelo bom Deus providencial para o seu único proveito e divertimento…”

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 32101, 8 de abril de 2020, p.14)

sábado, 4 de abril de 2020

A Pandemia de 1918 em Vila Franca do Campo




A Pandemia de 1918 em Vila Franca do Campo

Estou a escrever este texto, onde darei a conhecer alguns dados sobre uma pandemia que atingiu Vila Franca do Campo, em 1918, a pensar em meu avô Manuel Soares que a viveu enquanto estava cumprir o serviço militar e em minha  tia Zélia Soares que hoje, 27 de março de 2020, faz 90 anos e que está a viver a pandemia do coronavírus (COVID.19), sem compreender por que não pode sair de casa e ir para o Centro de Dia, na Casa do Povo do Pico da Pedra.

Antes de ir ao assunto, queria referir que é urgente uma nova relação entre o homem e a natureza, mais respeitadora desta, o que só será possível quando o motor da vida na Terra não for o lucro a qualquer preço e a ânsia de produzir e consumir desenfreadamente, mas a solidariedade entre as pessoas e uma melhor utilização dos recursos naturais.

De acordo com alguns especialistas, 75% das doenças infeciosas têm origem na vida selvagem e a procura, em todo o mundo, de produtos de origem animal “pode colocar os seres humanos em risco de surtos como a pandemia de coronavírus”.

Em 1918, meu avô estava a cumprir o serviço militar no Regimento de Infantaria RI 26 e durante a gripe espanhola (pandemia de influenza), teve que transportar “mortos” do hospital para o cemitério. Contava ele, com alguma vaidade que, na altura, comia e bebia alimentos que eram destinados aos doentes e que estes recusavam, dizendo que tinha de comer bem para ficar forte e não ser atingido pela doença. Também contou que uma ou duas vezes terá deixado os corpos na capela do cemitério e que no dia a seguir tinha verificado que os mesmos não estavam na mesma posição.

Confinado em casa, não tendo, portanto, acesso a muita bibliografia, para descrever o que terá acontecido em Vila Franca do Campo em 1918, vou recorrer, apenas, a um artigo publicado no jornal “Autonómico”, no dia 9 de novembro de 1918.

Depois de referir que “a epidemia que, por infelicidade, não nos poupou, vai-se alastrando consideravelmente por todo o concelho, de dia para dia, sendo já grande o número de pessoas atacadas; porém atualmente, mercê de Deus, nenhuma com sintomas de gravidade”, o autor contradiz-se ao afirmar que “até agora, apenas dois óbitos se registaram: um, por falta de mais cautela d’um rapaz novo, casado, deixando viúva e três filhinhos, e outro, por a epidemia bater à porta d’um doente, já adiantado em anos e cansado bastante das grandes lutas pela vida”.

Pela leitura do texto, verifica-se que, em 1918, o que valeu aos mais desfavorecidos foi a caridade dos que mais possuíam, ricos e remediados, e que os tratamentos se resumiam a ir à cama por alguns dias e passar a leite e a caldos.

O jornal também relata as condições sub-humanas em que viviam algumas pessoas em 1918, como se pode constatar através do seguinte extrato:

“E já que falamos do hospital, permitam-nos os leitores que lhe contemos a miséria que pela nossa terra vai e que ali mais se vai descobrindo agora!
Alguns doentes nem camisa têm par se mudarem!...
Estamos certos, até, que muitas pessoas honestas, com vergonha, a forças do coração teimarão em ficar em casa, por carecerem de roupas que se apresentem no hospital.
Ah! Quantas?!!!”

Depois de mencionar um conjunto de pessoas que se ofereceram para fazer serviço de enfermagem, de referir o trabalho incansável das comissões locais de assistência e vigilância, de enaltecer o trabalho dos médicos que “não se poupam a sacrifícios e esforços no cumprimento dos seus deveres profissionais”, o jornal faz um apelo “aos corações generosos da nossa terra” para contribuírem para uma subscrição destinada a “socorrer a pobreza enferma”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 32098, 4 de abril de 2020, p.17)

quarta-feira, 18 de março de 2020

José Ventura de Almeida





José Ventura de Almeida

Filho de Manuel Bernardo de Almeida e de Guilhermina Boa Ventura, José Ventura de Almeida nasceu na freguesia do Pico da Pedra no dia 3 de junho de 1936 e faleceu na mesma freguesia no dia 18 de março de 2009.

Aprendeu as primeiras letras na Escola Primária do Pico da Pedra, tendo sido aprovado nas provas de exame do Ensino Primário Elementar no dia 1 de julho de 1947. Interessado em saber mais, voltou à escola, tendo concluído as provas de exame da sexta classe, do ciclo Complementar do Ensino Primário em 11 de junho de 1974.

Depois de ter trabalhado no campo com o pai, optou pela profissão de carpinteiro/marceneiro, tendo sido obrigado a filiar-se no Sindicato Nacional dos Operários da Construção Civil e Ofícios Correlativos do Distrito de Ponta Delgada, em 1953. Com efeito, de acordo com a legislação existente na altura, nenhuma entidade patronal podia admitir ou manter no seu serviço operários que não possuíssem o cartão do sindicato devidamente em dia, isto é, com as quotas pagas. Já depois da chamada revolução dos cravos, aderiu ao Sindicato dos Profissionais das Indústrias Transformadoras do Distrito de Ponta Delgada, sendo o sócio nº 2731, com a categoria profissional de carpinteiro.

Depois de ter trabalhado por conta de outrem, em 1958 montou a sua própria oficina manual e mecânica, na Rua Dr. Dinis Moreira da Mota, 40, no Pico da Pedra, onde fazia de tudo um pouco, dando especial preferência à recuperação de móveis antigos e à criação de novos que ele mesmo desenhava. Um trabalho que lhe deu um grande prazer executar foi a reconstrução, em 1974, do moinho de vento localizado na Abelheira no prédio do senhor Luís Agnelo Borges.

Desconhecemos o seu grau de envolvimento na política antes do 25 de abril de 1974, apenas poderemos registar que terá sido um dos picopedrenses que terá acreditado na abertura marcelista. Com efeito, a 14 de setembro de 1973, foi eleito para a comissão de freguesia do Pico da Pedra da Ação Nacional Popular, de que faziam parte as seguintes pessoas: Prof. José Carreiro de Almeida, Fernando Luís do Couto Alves, José Leonardo Bernardo Soares, Humberto Alves Botelho, Honorato da Cruz Avelino, João Faustino Pereira Ramos, João Carlos da Câmara Alves, Manuel Tavares Cordeiro Jr., Álvaro Manuel Tavares Labão, António Bairos Amaral e Isidro Gonçalves Fonseca.

Com a implantação da democracia, aderiu ao Partido Socialista, tendo nas suas listas sido eleito para a Junta de Freguesia do Pico da Pedra, onde foi tesoureiro entre 1982 e 1985, e para a Assembleia de Freguesia, sendo vogal da mesma entre 1986 e 1989.

Esteve ligado à Cooperativa de Consumo do Pico da Pedra, sendo o seu sócio nº 22, onde teve um papel ativo na fase de instalação da mesma. Com efeito, foi presidente da direção entre 14 de agosto de 1980 e 23 de novembro de 1983.

O número de abril de 2009, da Voz Popular, Boletim da Casa do Povo do Pico da Pedra, publicou uma nota dando conta do seu falecimento que retrata com rigor a maneira de ser e agir de José Ventura de Almeida Do referido boletim transcreve-se , abaixo, um longo extrato:

“Mestre Ventura, como todos o tratavam, mais do que um marceneiro era um verdadeiro artista na arte de trabalhar a madeira, pelo que a sua fama ultrapassou há muitos anos as fronteiras da nossa freguesia e, o seu nome era como uma marca de qualidade, pois simbolizava rigor e perfeição.

De entre muitas obras, destacamos a construção do nosso salão paroquial e a grande intervenção efetuada na nossa Igreja paroquial, ambas de grande envergadura, e que estiveram sobre a sua competente orientação.

É de realçar, que pela sua oficina passaram ao longo dos anos dezenas de jovens, que após terem aprendido com o mestre ventura, acabaram por se montar por sua conta, sendo hoje todos eles profissionais competentes.

Era possuidor de uma forte personalidade, com um apurado sentido de independência, pelo que dizia sempre aquilo que pensava, demonstrativo de um homem íntegro e frontal.”
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 32083, 18 de março de 2020, p. 15)

quarta-feira, 11 de março de 2020



Recordando Carlos Pato
Carlos António Gago de Bulhão Pato, nasceu a 7 de março de 1950 e faleceu no dia 11 de janeiro de 2020. Licenciado em Economia, pelo Instituto Superior de Economia, ao longo da sua vida teve várias atividades profissionais, não foi alheio à atividade política e teve uma participação cívica em associações formais e movimentos informais.

Carlos Pato, que ainda hoje é recordado positivamente por muitos dos seus alunos, foi durante muitos anos professor contratado em várias escolas da ilha de são Miguel, como a Escola Secundária das Laranjeiras, onde lecionou disciplinas da área da Economia e Organização de Empresas, a Escola Gaspar Frutuoso, onde lecionou matemática e a Escola Ruy Galvão de Carvalho, onde lecionou matemática e foi responsável pela dinamização da biblioteca e pelas novas pedagogias ligadas à introdução da informática.

Em Angola, Carlos Pato foi consultor do Ministério da Construção da República Popular de Angola e Diretor do Gabinete do Plano da SONANGOL, empresa do ramo petrolífero.

Em São Miguel, para além da docência já referida, Carlos Pato, entre outras ocupações profissionais, esteve ligado à Secretaria Regional da Economia, onde exerceu o cargo de coordenador do Gabinete de Apoio ao Turismo de Natureza e em Espaço Rural, foi assessor do Secretário Regional da Economia para o Turismo Rural e de Natureza. e foi assessor do Diretor Regional de Telecomunicações dos Açores (DRT-CTT).

No que diz respeito ao seu envolvimento em associações formais, Carlos Pato esteve ligado à Terra-Mar, Associação para o Desenvolvimento Local nos Açores, onde foi diretor e entre outras atividades prestou apoio ao desenvolvimento de iniciativas particulares na área do turismo de natureza.

Muito ligado ao mar, Carlos Pato, no Clube Naval de Ponta Delgada, foi Formador e Examinador em Náutica de Recreio. Foi, também, presidente da Associação para a Defesa do Património Marítimo dos Açores que pretendeu voltar a por a navegar o barco “Maria Eugénia”, uma das últimas memórias vivas da construção naval açoriana, e transformá-lo num barco-escola.

Carlos Pato, teve um envolvimento de destaque no movimento cívico, participando de vários grupos não formais, dando o seu generoso contributo em defesa de causas em que acreditava. Assim, ao contrário de outros que se juntam às iniciativas para ganhar visibilidade e as usar como trampolim, Carlos Pato, por amor à camisola, esteve presente no Movimento SOS- Lagoas que pugnou pela implementação de medidas para salvar da eutrofização as Lagoas das Furnas e das Sete Cidades.

Carlos Pato também esteve ligado ao movimento que contesta a construção de uma incineradora de resíduos sólidos na ilha de São Miguel.

Durante o Estado Novo, Carlos Pato foi um dos subscritores da Declaração de Ponta Delgada, a plataforma eleitoral apresentada, em 1969, por um grupo de candidatos independentes, opositores ao regime, às eleições para deputados à Assembleia Nacional.

Aquando da organização de um Festival da Canção por um grupo de jovens para o dia 5 de junho de 1969, a realizar num jardim particular em Ponta Delgada, que acabaria por não ser autorizado pelas entidades oficiais, Carlos Pato teve de ir, por três vezes, prestar declarações à PIDE, polícia política de então. Assim, Carlos Pato foi dos poucos açorianos que não se submeteu à paz podre da ditadura salazarista/marcelista, a qual no dizer de Natália Correia “nem mesmo ousou graduar-se fascista”.

Mais recentemente Carlos Pato, esteve ligado ao Movimento Tempo de Avançar, candidatura cidadã que se apresentou às eleições legislativas de 2015, no quadro legal do partido Livre.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 32077, 11 de março de 2020, p.17)

quinta-feira, 5 de março de 2020

Batalhas de flores, limas ou plásticos?



Batalhas de flores, limas ou plásticos?
Nos últimos anos, parece-nos que tem crescido a oposição à denominada Batalha das Limas que na verdade é uma Batalha de Plásticos. Este ano houve mesmo uma associação de proteção do ambiente e um partido político que manifestaram a sua oposição à sua realização, sobretudo devido à utilização de sacos de plástico.
Nas redes sociais, as opiniões dividem-se entre os que apresentam como principal argumento a proteção do ambiente, onde incluem o desperdício de água e o uso dos plásticos e os que apresentam como grande argumento, e talvez único, o da tradição.
Neste texto, não vou esgrimir argumentos a favor ou contra a referida batalha. Vou limitar-me a provar, com alguns exemplos, que estão errados aqueles que defendem a batalha das limas, em detrimento das de flores, argumentando que apenas terá existido uma batalha de flores.
Em 1915, realizou-se uma Batalha de Flores, promovida pela Câmara Municipal de Ponta Delgada, no Domingo Gordo, 14 de fevereiro, pelas 12 horas, no Largo 5 de Outubro (Campo de São Francisco). A referida batalha, para além do divertimento das pessoas, apresentava fins humanitários, neste caso as receitas obtidas foram distribuídas pela Cruz Vermelha e pela Federação Operária.
De entre os carros presentes, destacaram-se um alusivo à conflagração europeia e outro da Federação Operária “alusivo à crise que, segundo consta, é também interessante, embora menos jocoso, visto a alusão não se prestar, pelo seu simbolismo, à charge carnavalesca”.
Não sabemos se chegou a haver Batalha de Flores em 1918, pois de acordo com os jornais da altura, a dois dias do Carnaval ainda não se falava na tradicional batalha que se realizava anualmente.
O jornal “Diário dos Açores” sugeriu que naquele ano as receitas da batalha revertessem para a “Cruz Vermelha Portuguesa e Comissão Suíça para os soldados portugueses prisioneiros dos alemães…”
O Açoriano Oriental, estranhando a falta de notícias defendeu o seguinte: “Agora mais do que nunca se impunha uma confraternização com os nossos benquistos hóspedes americanos, que presentemente guardam a nossa ilha…”.
O mesmo jornal que reprovava “os folguedos carnavalescos pelas ruas”, apoiava uma “Batalha de Flores, decente e sem mascaradas, assim como os bailes nos teatros e festas de flores, porque serão festas civilizadoras e altruístas”. O que escreveriam os redatores do referido jornal se assistissem à atual batalha de plásticos?
Em 1920, coube aos alunos do liceu a organização de “batalhas de flores”, na Praça 5 de Outubro. Sobre as mesmas o Diário dos Açores publicou uma nota onde a dado passo pode ler-se: “São dois dias de folia carnavalesca e a ninguém ficará mal divertir-se um bocado, quer tomando parte direta nas batalhas, quer vendo os seus efeitos sobre os combatentes, ao longe.”
Em 1950, no domingo, 19 de fevereiro, cerca de 10 mil pessoas assistiram à Batalha de Flores que se realizou, uma vez mais, na Praça 5 de Outubro, em Ponta Delgada.
No ano referido, o cortejo abriu com a Filarmónica Rival das Musas a que se seguiram carros representando várias empresas da ilha, como a fábrica de Tabaco Micaelense, os “adubos Labor”, a casa de modas Eliela, a empresa Azevedo e Ca. Sucrs., a Fábrica de Tabaco da Maia e a Casa Africana. A presença de danças de cadarços também foi muito bem acolhida pelos assistentes não só devido ao colorido das suas roupas, mas também pelas suas músicas e cantigas populares.
No mesmo ano, na terça-feira, dia de Carnaval, o Governador Civil do Distrito entregou prémios. Para além de taças aos carros que se distinguiram, foram entregues prémios pecuniários às danças dos cadarços, a que se seguiu um desfile dos premiados pelas ruas da cidade de Ponta Delgada.
Tal como era tradição, as receitas da Batalha reverteram para uma instituição, neste caso o Albergue Distrital.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 32071, 4 de março de 2020, p.17)
Imagem: Instituto Cultural de Ponta Delgada -PT/ICPD/CFD.01505