terça-feira, 14 de abril de 2020
Ponta Delgada: contributo para um roteiro ambiental do concelho
Ponta Delgada contributo para um roteiro ambiental do concelho, suplemento do Açoriano Oriental 500 anos do concelho de Ponta Delgada 19 de julho de 1999
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segunda-feira, 13 de abril de 2020
domingo, 12 de abril de 2020
quinta-feira, 9 de abril de 2020
Haverá touradas, nos Açores, em 2020?
Haverá touradas,
nos Açores, em 2020?
Em todo o mundo têm sido
canceladas touradas devido à pandemia do novo coronavírus. Em Espanha, todas as
touradas previstas para os meses de março, abril e maio, foram suspensas por
tempo indeterminado.
Na Terceira, as duas Câmaras Municipais não estão a licenciar
touradas à corda e as Sanjoaninas foram canceladas, em reunião realizada a 27
de março de 2020, subentendendo-se que também foram cancelas as touradas
associadas àquelas festividades.
Um pretenso festival tauromáquico de apoio a obras em igrejas
da Terceira, previsto para 23 de maio, foi adiado.
Conhecendo bem o espírito dos adeptos da tortura
animal, sabemos que tudo farão para matar o vício e à primeira oportunidade
irão promover o máximo de touradas que puderem.
Será que, em 2020, haverá touradas na ilha Terceira?
Será que, no passado, já houve algum ano em que não se realizaram touradas
naquela ilha?
Se não vamos fazer futurologia, portanto nada vamos
dizer sobre o que acontecerá este ano, sobre o passado, com recurso à
Tauromaquia Terceirense, de Pedro de Merelim, relataremos o que aconteceu.
Com a implantação da República não houve qualquer
alteração em relação às touradas, tanto a nível nacional como na ilha Terceira.
Com efeito o projeto de Boto Machado apresentado na Constituinte para acabar
com as touradas, não foi bem-sucedido.
Apesar da proibição das touradas à corda pelo General
António Augusto de Oliveira Guimarães, em 1916, em plena Guerra Mundial, a
deliberação foi revogada dois meses depois e naquele ano continuou a haver
touradas, primeiro só aos domingos para não prejudicar os dias de trabalho.
Com o derrube da ditadura do Estado Novo, apenas houve
uma tentativa de redução das touradas à corda, através de um edital do Dr.
Oldemiro de Figueiredo, onde este estabeleceu que para evitar exageros, para
além das 80 touradas tradicionais, só concedia licenças aos sábados, domingos e
feriados.
Nem o sismo de 1 de janeiro de 1980 fez com que não
houvesse touradas na Terceira. No que diz respeito às touradas à corda e apesar
do apelo de alguns à moderação e para que a ociosidade fosse evitada,
realizaram-se 90 touradas, 45 no concelho da Praia da Vitória e 45 no de Angra
do Heroísmo.
Face ao exposto, se a situação se alterar um pouco,
acreditamos que, acima das preocupações com a saúde pública, acima do respeito
pelos direitos dos animais, acima do direito das crianças terem uma educação
respeitadora de todos os seres vivos, vão prevalecer os interesses da indústria
tauromáquica, com a cumplicidade de governos, autarcas e dos responsáveis pela
diocese de Angra do Heroísmo.
Oxalá estejamos enganados.
Açores, 5 de abril de 2020
José da Agualva
http://iniciativa-de-cidadaos.blogspot.com/2020/04/havera-touradas-nos-acores-em-2020.html
terça-feira, 7 de abril de 2020
As feministas e o trabalho
Maria Evelina de Sousa
As feministas e o trabalho
Algumas correntes de esquerda, suponho que minoritárias, criticam os movimentos feministas atuais pelo facto de ignorarem as questões do trabalho, como o facto das mulheres terem ordenados mais baixos do que os homens para a mesma função, serem as principais vítimas dos empregos precários e, por último, não porem em causa o sistema de exploração que domina todo o mundo.
No passado, embora não ignorassem por completo o acesso ao trabalho e as condições deste fora de casa, também me parece que as principais questões levantadas pelas feministas eram, essencialmente, o direito ao voto e o acesso à educação.
Alice Moderno considerava que era importante a mulher ter acesso à educação, que era melhor do que ter um bom dote, para possibilitar ter um bom trabalho e uma vida não dependente de outrem. Segundo Maria da Conceição Vilhena, Alice Moderno defendia o seguinte:
“O papel social da mulher começa em casa, junto da família, onde a mulher burguesa deverá deixar de ser um dispendioso objeto de luxo ou “um cabide de vestidos” que o marido compra”
Maria Evelina de Sousa, a menos conhecida das duas companheiras feministas açorianas, numa carta a Ana de Castro Osório, que então ocupava o cargo de Inspetora dos Trabalhos Femininos de Portugal, publicada, no dia 1 de abril de 1917, no jornal “A Folha”, é clara na importância que dá ao trabalho feminino. Assim, depois de referir a importância de serem criadas “indústrias femininas” pelo contributo que poderiam dar “para a economia política do país”, acrescenta o seguinte:
“Não só compreendo a vantagem material que semelhantes indústrias nos proporcionariam, mas também avalio o simpático papel que desempenhariam, no campo moral porque, habituando a mulher a bastar-se a si própria, vivendo dos recursos do seu trabalho honesto, dignificavam-se, fazendo com que desprezasse o servil estado de alimentada do marido, do pai, do irmão ou, na falta deste, do amante”.
E por isso a criação de indústrias femininas seria o melhor, o mais eficaz e enérgico de todos os expedientes para fazer desaparecer a cancerosa pústula da prostituição, vergonha social, que enxovalha as famílias e corrompe as sociedades, desde os mais remotos tempos.”
Maria Evelina de Sousa, na carta referida, também, recordou que dedicou ao assunto da criação de indústrias femininas alguns textos na sua Revista Pedagógica, nomeadamente aquando da criação, em Ponta Delgada, da efémera Escola de Rendas de Bilros e voltou a referir a importância da criação em São Miguel de indústrias de rendas e bordados que poderiam ser exportados para o Novo Mundo.
Ana de Castro Osório, que foi jornalista, escritora, pedagoga, feminista e ativista republicana, por sua vez, no jornal “Açoriano Oriental, de 22 de setembro de 1917, num artigo intitulado “Respeito pelo trabalho”, aborda a questão do trabalho da mulher, denunciando que em Portugal o valo pago pelo trabalho feminino é uma coisa ridícula, para não dizer uma coisa odiosa”.
No seu texto Ana de Castro Osório denuncia que o que é pago pelo trabalho da mulher não é suficiente para ela “viver honestamente do seu próprio labor” e acrescenta que a mulher recebe um terço ou menos do que seria pago a um homem.
Termino este texto, ainda com um excerto do artigo de Ana de Castro Osório, muito elucidativo do pensamento de então (e de hoje?):
“Já dissemos a falta de respeito pelo trabalho da mulher, que esse é matéria corrente numa sociedade em que de alto a baixo das classes sociais os homens olham as suas companheiras como umas bonecas fabricadas pelo bom Deus providencial para o seu único proveito e divertimento…”
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 32101, 8 de abril de 2020, p.14)
As feministas e o trabalho
Algumas correntes de esquerda, suponho que minoritárias, criticam os movimentos feministas atuais pelo facto de ignorarem as questões do trabalho, como o facto das mulheres terem ordenados mais baixos do que os homens para a mesma função, serem as principais vítimas dos empregos precários e, por último, não porem em causa o sistema de exploração que domina todo o mundo.
No passado, embora não ignorassem por completo o acesso ao trabalho e as condições deste fora de casa, também me parece que as principais questões levantadas pelas feministas eram, essencialmente, o direito ao voto e o acesso à educação.
Alice Moderno considerava que era importante a mulher ter acesso à educação, que era melhor do que ter um bom dote, para possibilitar ter um bom trabalho e uma vida não dependente de outrem. Segundo Maria da Conceição Vilhena, Alice Moderno defendia o seguinte:
“O papel social da mulher começa em casa, junto da família, onde a mulher burguesa deverá deixar de ser um dispendioso objeto de luxo ou “um cabide de vestidos” que o marido compra”
Maria Evelina de Sousa, a menos conhecida das duas companheiras feministas açorianas, numa carta a Ana de Castro Osório, que então ocupava o cargo de Inspetora dos Trabalhos Femininos de Portugal, publicada, no dia 1 de abril de 1917, no jornal “A Folha”, é clara na importância que dá ao trabalho feminino. Assim, depois de referir a importância de serem criadas “indústrias femininas” pelo contributo que poderiam dar “para a economia política do país”, acrescenta o seguinte:
“Não só compreendo a vantagem material que semelhantes indústrias nos proporcionariam, mas também avalio o simpático papel que desempenhariam, no campo moral porque, habituando a mulher a bastar-se a si própria, vivendo dos recursos do seu trabalho honesto, dignificavam-se, fazendo com que desprezasse o servil estado de alimentada do marido, do pai, do irmão ou, na falta deste, do amante”.
E por isso a criação de indústrias femininas seria o melhor, o mais eficaz e enérgico de todos os expedientes para fazer desaparecer a cancerosa pústula da prostituição, vergonha social, que enxovalha as famílias e corrompe as sociedades, desde os mais remotos tempos.”
Maria Evelina de Sousa, na carta referida, também, recordou que dedicou ao assunto da criação de indústrias femininas alguns textos na sua Revista Pedagógica, nomeadamente aquando da criação, em Ponta Delgada, da efémera Escola de Rendas de Bilros e voltou a referir a importância da criação em São Miguel de indústrias de rendas e bordados que poderiam ser exportados para o Novo Mundo.
Ana de Castro Osório, que foi jornalista, escritora, pedagoga, feminista e ativista republicana, por sua vez, no jornal “Açoriano Oriental, de 22 de setembro de 1917, num artigo intitulado “Respeito pelo trabalho”, aborda a questão do trabalho da mulher, denunciando que em Portugal o valo pago pelo trabalho feminino é uma coisa ridícula, para não dizer uma coisa odiosa”.
No seu texto Ana de Castro Osório denuncia que o que é pago pelo trabalho da mulher não é suficiente para ela “viver honestamente do seu próprio labor” e acrescenta que a mulher recebe um terço ou menos do que seria pago a um homem.
Termino este texto, ainda com um excerto do artigo de Ana de Castro Osório, muito elucidativo do pensamento de então (e de hoje?):
“Já dissemos a falta de respeito pelo trabalho da mulher, que esse é matéria corrente numa sociedade em que de alto a baixo das classes sociais os homens olham as suas companheiras como umas bonecas fabricadas pelo bom Deus providencial para o seu único proveito e divertimento…”
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 32101, 8 de abril de 2020, p.14)
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sábado, 4 de abril de 2020
A Pandemia de 1918 em Vila Franca do Campo
A Pandemia de 1918 em Vila Franca do Campo
Estou a escrever este texto, onde darei a conhecer
alguns dados sobre uma pandemia que atingiu Vila Franca do Campo, em 1918, a
pensar em meu avô Manuel Soares que a viveu enquanto estava cumprir o serviço
militar e em minha tia Zélia Soares que
hoje, 27 de março de 2020, faz 90 anos e que está a viver a pandemia do
coronavírus (COVID.19), sem compreender por que não pode sair de casa e ir para
o Centro de Dia, na Casa do Povo do Pico da Pedra.
Antes de ir ao assunto, queria referir que é urgente
uma nova relação entre o homem e a natureza, mais respeitadora desta, o que só
será possível quando o motor da vida na Terra não for o lucro a qualquer preço
e a ânsia de produzir e consumir desenfreadamente, mas a solidariedade entre as
pessoas e uma melhor utilização dos recursos naturais.
De acordo com alguns especialistas, 75% das doenças infeciosas
têm origem na vida selvagem e a procura, em todo o mundo, de produtos de origem
animal “pode colocar os seres humanos em risco de surtos como a pandemia de
coronavírus”.
Em 1918, meu avô estava a cumprir o
serviço militar no Regimento de Infantaria RI 26 e durante a gripe espanhola (pandemia de influenza), teve que
transportar “mortos” do hospital para o cemitério. Contava ele, com alguma
vaidade que, na altura, comia e bebia alimentos que eram destinados aos doentes
e que estes recusavam, dizendo que tinha de comer bem para ficar forte e não
ser atingido pela doença. Também contou que uma ou duas vezes terá deixado os
corpos na capela do cemitério e que no dia a seguir tinha verificado que os
mesmos não estavam na mesma posição.
Confinado
em casa, não tendo, portanto, acesso a muita bibliografia, para descrever o que
terá acontecido em Vila Franca do Campo em 1918, vou recorrer, apenas, a um
artigo publicado no jornal “Autonómico”, no dia 9 de novembro de 1918.
Depois de
referir que “a epidemia que, por infelicidade, não nos poupou, vai-se
alastrando consideravelmente por todo o concelho, de dia para dia, sendo já
grande o número de pessoas atacadas; porém atualmente, mercê de Deus, nenhuma
com sintomas de gravidade”, o autor contradiz-se ao afirmar que “até agora,
apenas dois óbitos se registaram: um, por falta de mais cautela d’um rapaz
novo, casado, deixando viúva e três filhinhos, e outro, por a epidemia bater à
porta d’um doente, já adiantado em anos e cansado bastante das grandes lutas
pela vida”.
Pela
leitura do texto, verifica-se que, em 1918, o que valeu aos mais desfavorecidos
foi a caridade dos que mais possuíam, ricos e remediados, e que os tratamentos se
resumiam a ir à cama por alguns dias e passar a leite e a caldos.
O jornal
também relata as condições sub-humanas em que viviam algumas pessoas em 1918,
como se pode constatar através do seguinte extrato:
“E já que falamos do hospital, permitam-nos os
leitores que lhe contemos a miséria que pela nossa terra vai e que ali mais se
vai descobrindo agora!
Alguns doentes nem camisa têm par se mudarem!...
…
Estamos certos, até, que muitas pessoas
honestas, com vergonha, a forças do coração teimarão em ficar em casa, por
carecerem de roupas que se apresentem no hospital.
Ah! Quantas?!!!”
Depois de
mencionar um conjunto de pessoas que se ofereceram para fazer serviço de
enfermagem, de referir o trabalho incansável das comissões locais de
assistência e vigilância, de enaltecer o trabalho dos médicos que “não se
poupam a sacrifícios e esforços no cumprimento dos seus deveres profissionais”,
o jornal faz um apelo “aos corações generosos da nossa terra” para contribuírem
para uma subscrição destinada a “socorrer a pobreza enferma”.
Teófilo
Braga
(Correio
dos Açores, 32098, 4 de abril de 2020, p.17)
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