SOBRE A PARTICIPAÇÃO CÍVICA E POLÍTICA DE NATÁLIA CORREIA
Teófilo Braga
Filha de Manuel de Medeiros Correia e de Maria José de Oliveira, Natália Correia nas-ceu na freguesia da Fajã de Baixo, concelho de Ponta Delgada, no dia 13 de setembro de 1923 e faleceu em Lisboa a 16 de março de 1993. Ao longo da sua vida, Natália Cor-reia distinguiu-se como uma lutadora contra as ditaduras, tendo sido a mãe a intro-duzi-la nos meios da oposição ao Estado Novo. Se é verdade que recebeu o fim da ditadura com entusiasmo, também é verdade que seguiu com apreensão os aconte-cimentos ocorridos após o 25 de abril de 1974, tendo manifestado alguma da sua de-silusão na imprensa e no livro Não Percas a Rosa.
Não se subordinando a nada nem a ninguém, pode parecer contraditório com o seu pensamento a sua participação política após o 25 de Abril de 1974, nomeadamente a sua experiência como deputada na Assembleia da República, eleita em listas do PSD e do PRD. Sobre este assunto, Dacosta (2013) refere que “a passagem pela Assem-bleia da República depressa a desiludiria das formações políticas existentes entre nós. Interesses lobísticos, jogos pessoais, disciplina partidária, rigidez burocrática, não se coadunavam com as suas posturas de defesa da liberdade, da cultura, do bem comum” (p.148). Também será estranha a sua ligação ao movimento independentista dos Açores, cujos dirigentes tinham sido apoiantes do Estado Novo que ela combateu.
Mulher inigualável, cidadã independente, que não se vergava perante os contratem-pos, Natália Correia não deixou ninguém indiferente, merecendo que a sua vida e obra sejam mais conhecidas do grande público. Neste texto, necessariamente incom-pleto, pretendemos dar a conhecer alguns aspetos da sua participação cívica e políti-ca antes e depois do 25 de Abril de 1974.
Em ditadura
Natália Correia chega a Lisboa em 1934, acompanhada da mãe e da irmã, um ano após ter sido aprovada a Nova Constituição que da-va início ao Estado Novo, acabando com a Ditadura Militar instaurada com o golpe de 28 de maio de 1926. Em Lisboa, frequenta o Liceu Filipa de Lencastre onde será expulsa ou retirada pela mãe, por se recusar a fazer o “caderno diário” ou “porque a sua mãe não autori-zou o ingresso na Mocidade Portuguesa Feminina”. (Magalhães, 2006, pp. 41 e 42) Em 1933, foi publicada legislação diversa que cri-ava as bases da organização do regime, da qual destacamos a cria-ção, a 29 de agosto, da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, a PVDE que, por várias vezes, atormentou a vida de Natália Correia.
Em 1945, de acordo com Mário Soares, citado por Ângela Almeida (1994, p.5) Natália Correia fez parte do Partido Trabalhista que teve uma vida muito curta, tendo em 1947 sido integrado no Partido Socia-lista Português, onde se distinguia António Sérgio, com quem Natália Correia colaborou no âmbito do cooperativismo. Natália Correia terá sido, segundo Ângela Almeida, uma das subscritoras das listas de adesão ao MUD – Movimento de Unidade Democrática, nascido em 8 de outubro de 1945, organização de oposição ao regime fascista de Salazar, tendo integrado a sua Comissão dos Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos.
Depois de ter sido uma das 8 mulheres, ao lado de 200 homens, a assinar, em 1946, uma carta, iniciativa da comissão referida anteri-ormente, dirigida ao Presidente da República a exigir a democratiza-ção do país, Natália Correia passou a ser vigiada regularmente pela polícia política. A 10 de abril de 1947 falhou mais uma tentativa de golpe militar por parte da Junta Militar de Libertação Nacional, em que estiveram envolvidos civis como João Soares e Castanheira Lobo, bem como as irmãs Natália e Cármen que iriam prestar serviço de lo-cutoras do “Serviço de Libertação Nacional”. (Pimentel, 2013, pp. 249 e 252 e Magalhães (2006, p.52)
Depois de ter aderido, em 1947, Natália Correia foi vogal da dire-ção da Cooperativa Fraternidade Operária, de Lisboa, tal como Antó-nio Sérgio, sendo presidente da organização Amílcar Ramada Curto (1886-1961), advogado que pertenceu ao antigo Partido Socialista Português, fundado em 1875 (Magalhães, 2006, p.53). No âmbito do movimento cooperativista, Natália Correia, em 1948, foi autora de dois textos: um intitulado “Cooperativismo”, publicado no jornal Sol, a 1 de maio, e outro com o título “Verdadeira Cooperação”, publicado, no mês de novembro”, no “Boletim Informativo das Cooperativas” (Correia, 2018, p.15 e 19) Também em 1948, Natália Correia, foi inter-rogada pela PIDE/DGS em virtude de sua mãe Maria José de Olivei-ra, que pertenceu ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, a convite de Maria Lamas, ter sido acusada de fazer propaganda contra o Estado Novo.
Em 1949, Natália Correia apoia publicamente a candidatura do General Norton de Matos à Presidência da República (Magalhães, 2006, p. 54), que acaba por não ir às urnas, tendo apesar disso obti-do “bons resultados em partes do império onde a notícia da sua reti-rada não tinha chegado, acabando por ganhar na cidade angolana de Benguela (Meneses, 2014, p.36).
No 1.º Congresso Republicano, realizado no dia 6 de outubro de 1957, no Teatro Aveirense, Natália Correia “denunciou o “malthusia-nismo intelectual” de elites muito restritas e ciosas do seu domínio sobre uma sociedade arcaica e maioritariamente iletrada” (Pimentel, 2013, p. 311). De acordo com Magalhães (2006), “Natália participa neste congresso com a comunicação intitulada Política de espírito desnacionalizante. Nesta comunicação a autora sublinha o facto de a acção da censura e a proibição de obras de carácter científico, por versarem determinados assuntos sensíveis aos olhos do regime, conduzirem a uma desnacionalização da formação académica, uma vez que era necessário procurar os livros nas suas línguas originais. Embora o tema da comunicação seja revestido de um carácter sim-ples e quase inocente, traduziu-se num feroz ataque às instituições repressivas do Estado Novo.”
Em 1958, Natália Correia envolveu-se na candidatura de Humberto Delgado, tendo participado em jantares, onde era figura de destaque ao lado daquele general. Em novembro do ano seguinte, 1959, Natá-lia Correia vê o seu livro Comunicação ser apreendido pela PIDE, depois de ter sido, no mês anterior, proibido pela Censura (Maga-lhães, 2006, p.65). Depois deste, Natália Correia viu durante o Estado Novo outras obras suas serem apreendidas, como a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica: dos cancioneiros medievais à actualidade, em 1966, A pécora, em 1967 e O Encoberto, em 1969.
A tomada do paquete Santa Maria, em 1961, por Henrique Galvão e seus companheiros do Diretório Ibérico de Libertação, foi seguida atentamente por Natália Correia que, em homenagem, escreveu um poema a que intitulou de Cântico do País Emerso (Magalhães, 2006, p.67), editado pela Contraponto, de Luiz Pacheco.
Em 1966, em resultado da publicação da Antologia de Poesia Por-tuguesa Erótica e Satírica: dos cancioneiros medievais à actualidade, Natália Correia, bem como o editor Fernando Ribeiro de Melo, e al-guns dos poetas autores de textos incluídos na obra, são alvos de um processo que só terminaria em 27 de junho de 1973. Natália Cor-reia foi julgada em Tribunal Plenário, tendo sido condenada a três anos de cadeia com pena suspensa.
Em 1969, realizaram-se em Portugal eleições legislativas. A oposi-ção ao Estado Novo dividiu-se e, enquanto o PCP apoiou as CDE – Comissões Democráticas Eleitorais, a ASP – Ação Socialista Portu-guesa decidiu lançar a CEUD – Comissão Eleitoral de Unidade De-mocrática. Natália Correia, esteve ao lado dos socialistas na CEUD e dos também escritores José Régio, Sophia de Mello Breyner Andre-sen e Ruy Belo.
Mulher de coragem, Natália Correia, sempre que podia, manifesta-va publicamente a sua opinião. Mesmo no enterro do pensador António Sérgio, em 1969, quando o seu caixão descia à terra, Natália Cor-reia gritou: “É uma vergonha que este homem seja enterrado sem um morra ao fascismo” (Tomé, 2010, p.179).
Em 1972, Natália Correia voltou a ter problemas com a justiça, na sequência da publicação do livro Novas Cartas Portuguesas, de Ma-ria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Isabel Barreno, considerado de “conteúdo insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pú-blica”, pois era, na altura, a diretora literária dos Estúdios Cor. A situa-ção foi ultrapassada, pois estando ela ainda a cumprir a pena de pri-são suspensa, a responsabilidade pela edição foi assumida por intei-ro por Romeu de Melo, administrador daquela editora.
Em Democracia
Natália Correia, durante o Verão Quente, esteve na oposição “às tentativas de tomada de poder por forças do PCP”. De acordo com Dacosta (2001, p.184): Não Percas a Rosa diário que ela escreveu sobre esses meses de brasa, tornou-se uma premonição: do fim do 25 de Abril, da queda do bloco de Leste, da supremacia liberalista, da ditadura mercantilista, da perversão globalizadora”.
No que diz respeito ao modo como Natália Correia era vista no meio libertário, Dacosta (2013, p.55) refere que, num colóquio sobre homossexualidade, ocorrido a seguir ao 25 de abril, no Centro Naci-onal de Cultura, o espaço foi esgotado pelas “correntes mais jovens e libertárias (anarquistas e independentes)”. O jornal Voz Anarquista, de 28 de março de 1975, que apresenta Natália Correia como “nossa camarada e digna escritora”, transcreve um texto publicado em pri-meira mão no jornal vespertino A Capital intitulado “Que democra-cia?”, onde ela critica algumas limitações à liberdade por medo do excesso de democratismo. No seu texto, entre outras chamadas de atenção, Natália Correia alerta para o seguinte: Que o projecto de li-berdade individual foi pervertido pelo liberalismo que lhe deu forma; que a esperança de liberdade colectiva foi gorada pelo socialismo que a hasteou; que a aspiração do homem total foi atraiçoada pelas ideologias marxistas que a encarceraram. Quaisquer destas ilusões fizeram cair nos ardis do poder as liberdades que prometeram.
Durante o chamado PREC, e mesmo após o 25 de novembro de 1975, Natália Correia aliou-se ao movimento independentista açoria-no que então tinha como principais dirigentes figuras que haviam si-do apoiantes e dirigentes do Estado Novo, o que estava em contradi-ção com o seu espírito, de algum modo, libertário, tendo participado em várias reuniões “conspirativas”, sobretudo na ilha de São Miguel. Margarida Victória, relata várias reuniões onde esteve presente Natá-lia Correia na sua casa na Fajã de Baixo e no ilhéu de Vila Franca do Campo, onde a FLA, que reuniu à volta de um cozido cerca de meia centena de independentistas, convidou “Vitorino Nemésio a ser o Presidente da República se os Açores se tornassem independentes.” (Victória, 2004, p.168)
Relativamente ao independentismo/separatismo, Fagundes Duar-te, num texto intitulado “Quando se descobriu que Natália era açoria-na”, relata um episódio caricato, que abaixo se transcreve: Nemésio encontrava-se em Barcelona, sofria de…, e na noite de 30 para 31 de Março de 1976 foi acordado por Margarida Vitória e por Natália Cor-reia que, ao telefone, lhe pediam que regressasse de imediato a Lisboa, onde seriam recebidos – os três – pelo Gen. Ramalho Eanes, futuro candidato à Presidência da República, a quem iriam expor a situação que então se vivia no Arquipélago, e pedir apoio para a cau-sa da independência dos Açores. (…) Em resposta ao pedido das duas amigas, o poeta regressou a Lisboa, de maca, e de maca terá sido levado ao Palácio da Cova da Moura, sede do Conselho da Re-volução, onde, segundo consta, expôs as suas preocupações ao general – e dele recebeu palavras de sossego. (Duarte, 2010, p. 56)
A convite de Francisco Sá Carneiro, Natália Correia foi deputada, eleita nas listas do PSD, entre 1979 e 1983. Dacosta (2001, p. 204) escreveu que ela averbou “popularidades, irreverências, chistes, po-lémicas, ousadias, subversões, grandezas, como ninguém fez, por outro partido, na Assembleia da República”. Durante o período atrás referido há diversas posições tomadas por Natália Correia que cho-caram com o pensamento oficial do partido por que foi eleita ou são contrárias ao conservadorismo da sociedade portuguesa. Assim, em 1982, Natália Correia defendeu a despenalização do aborto, tendo ficado famoso o poema “Truca-truca” que escreveu a propósito de uma intervenção do deputado do CDS, João Morgado, na Assem-bleia da República, onde este afirmou que “o acto sexual é para fazer filhos”.
A propósito da discussão da despenalização do aborto, Mário To-mé, (2010, pp.176 e 177) cita os seguintes “argumentos” apresenta-dos por Natália Correia no parlamento: os que não são capazes de mudar uma sociedade em que a asfixia económica é, quantas vezes, causa do recurso infortunado ao aborto, não têm qualquer espécie de autoridade para legalmente o penalizarem” e “a despenalização do aborto não o encoraja. Desencoraja sim os malefícios do aborto ilegal”.
Ainda em 1982, Natália Correia subscreveu o Projeto-Lei 319/II que visava amnistiar os crimes de fim exclusiva ou predominantemente político entre 25 de abril e 30 de novembro de 1981, não abrangidos por anteriores amnistias independentemente da conjuntura em que tivessem ocorrido. Na votação ocorrida a 21 de maio de 1982, Natália Correia voltou a não seguir a orientação do seu partido. Assim, o pro-jeto foi rejeitado com votos contra do PSD, CDS, PPM e a favor do PS, PCP, ASDI, UEDS, MDP/CDE, UDP e de Francisco De Sousa Tavares (PSD), de Natália Correia (PSD) e de Helena Roseta (PSD).
Ainda no que diz respeito aos presos do PRP, Natália Correia mos-trou a sua visão humanista, tendo-se pronunciado, aquando da sua greve de fome, nos seguintes termos: Mas o padre Max, o Torres com a rede bombista do Norte ou com aqueles que incendiaram as sedes do PCP, como o vejo excitado (Narana Coissoró) em relação a presos que estão em risco de perder a sua vida, quando os outros, os que praticaram os crimes que referi, andam por aí a flanar liberda-de, isso não é humanismo, sr. Deputado. Gostaria de perguntar-lhe se acaso lhe repugna a memória de Aquilino Ribeiro, lembrando-lhe que ele foi terrorista, foi bombista. E teve que fugir para Paris porque participou nos preparativos do atentado que veio a matar D. Carlos, e tratava-se também de um regime estabilizado. (Tomé, 2010, p.184)
Lutadora pela liberdade, Natália Correia, em 1984, subscreveu um protesto conta a Lei de Segurança Interna, que surgiu após o início da Operação Oríon que levou ao desmantelamento das FP-25. De acordo com Tomé (2010), aquela lei “propunha limitar as liberdades em nome da luta contra o terrorismo” (p.185). De 1987 a 1991, a sua presença na Assembleia da República deve-se à sua eleição como deputada nas listas do PRD. Natália Correia condenou a guerra con-tra o Iraque, na Assembleia da República e na comunicação social. Mário Tomé, menciona que Natália afirmou na Assembleia da Repú-blica, no dia 26 de fevereiro de 1991, que a guerra “só poderá abrir abismos de ódios insanáveis entre civilizações” e que “a nós (ociden-tais) cabem responsabilidades especiais de sermos os fundadores dos direitos humanos. Solidariedade num mundo onde há crianças que morrem de fome a cada minuto ou é universal ou não é!” (Tomé, 2010, p. 174). Foi acusada de ser “amiga de Sadam”!
Natália Correia apoiou Jorge Sampaio quando se candidatou à Câmara Municipal de Lisboa (Dacosta, 2001, p. 180), em 1989, na coligação com o PCP “Por Lisboa” que contou com a adesão do PEV, UDP, MDP/CDE e PSR.
Bibliografia
Almeida, A. (1994). Retrato de Natália Correia. Lisboa: Círculo de Leitores; Correia, N. (2018). Entre a Raiz e a Utopia: Escritos sobre António Sérgio e o cooperativis-mo. Lisboa: Ponto de Fuga; Dacosta, F. (2001). Nascido no Estado Novo. Lisboa: Editorial Notícias; Dacosta, F. (2013). O Botequim da Liberdade. Alfragide: Casa das Letras; Duarte, L. (2010). Quando se descobriu que Natália era açoriana. In Abreu, M., Fernandes, M., Goulart, R., Mourão, J. (Orgs.) (2010), Natália Correia. A Festa da Escrita. Lisboa: Edições Colibri e Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Uni-versidade Nova de Lisboa; Magalhães, M. (2006). Natália Correia escritos autobio-gráficos. Dissertação de Mestrado em Literaturas Modernas e Contemporâneas apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa; Meneses, F. (2014). Salazar-Uma Biografia Política. Vol. V. Alfragide: Dom Quixote; Pimentel, I, (2013). História da Oposição à Ditadura 1926-1974. Porto: Figueirinhas; Tomé, M. (2010). Pela Mão de Natália. In Abreu, M., Fernandes, M., Goulart, R., Mourão, J. (Orgs.) (2010), Natália Correia. A Festa da Escrita. Lisboa: Edições Colibri e Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa; Victória, M. (2004). Amores da Cadela “Pura” II. Lisboa: Bertrand Editora.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2023
quinta-feira, 5 de janeiro de 2023
A propósito de plátanos
A propósito de plátanos
Quase todos os anos os plátanos são alvo de muitas conversas e são o tema de muitos textos publicados na comunicação social geralmente devido às denominadas podas camarárias ou radicais.
No final de 2022, a questão das podas voltou a ser abordada, nomeadamente pelo Núcleo Regional dos Açores da IRIS-Associação Nacional de Ambiente que denunciou as podas realizadas pela Câmara Municipal da Ribeira Grande, na Rua das Giestas, na freguesia do Pico da Pedra. A mesma associação e os Amigos dos Açores- Associação Ecológica também denunciaram a realização de obras que poderão pôr em causa a bonita Alameda dos Plátanos, no concelho da Povoação.
Neste texto, iremos disponibilizar algumas informações sobre os plátanos, nomeadamente sobre os mais comuns nos Açores.
O plátano (Platanus acerifolia (Aiton.) Willd.), pertencente à família Platanaceae, é uma árvore de folha caduca, de crescimento rápido que pode atingir 35 m de altura e uma longevidade de 300 anos, originária da Europa Ocidental.
O plátano que é cultivado em todas as ilhas dos Açores, segundo Virgílio Vieira, Mónica Moura e Luís Silva, é casual, isto é, pode surgir como escapada da cultura e, geralmente, sem capacidade de formar populações persistentes, nas ilhas de Santa Maria, São Miguel, Faial e Flores.
Desconhece-se, com rigor, a data exata da chegada dos primeiros plátanos aos Açores.
É conhecida a presença de plátanos no Jardim José do Canto, em 1856, através de uma lista elaborada pelo seu proprietário.
Sabe-se que no início da década de 50 do século XX houve uma plantação massiva nas bermas das estradas em São Miguel, havendo alguma contestação não pela presença da espécie em si, mas em defesa da diversidade de espécies a usar.
Ao contrário do que por vezes se pretende fazer crer, a plantação de plátanos sem sempre foi bem-sucedida. Com efeito, através de um texto de 1953, o autor menciona o seguinte: “Há 50 anos que assisto a sucessivos esforços para ladear de plátanos o troço de estrada que vai do Poço Velho de São Roque à Igreja: novas plantações, novas casotas de madeira, bem caiadas… Todos morrem! A água salobra mata-os? Ou o rocio do mar? Ou o péssimo terreno? Não sei. Mas em 50 anos só um resistiu, junto ao adro, raquítico, enfezado, moribundo.”
Não foi por mero capricho de uns poucos que os plátanos passaram a ser usados como árvores ornamentais. Com efeito, de acordo com António Saraiva, os plátanos proporcionam “uma agradável sombra e frescura (dado o rápido crescimento a árvore elimina por evaporação muita água, o que contribui para baixar a temperatura).”
A madeira clara e resistente pode ser utilizada em carpintaria, marcenaria ou como combustível. As folhas, a casca e os frutos foram outrora utilizados na medicina popular.
Como não há bela sem senão, há algumas pessoas que são alérgicas ao pólen dos plátanos.
Pico da Pedra, 4 de janeiro de 2022
Teófilo Braga
sexta-feira, 30 de dezembro de 2022
A Sumaúma-bastarda, uma cruel invasora
A Sumaúma-bastarda, uma cruel invasora
A sumaúma-bastarda (Araujia sericifera Brot.) também conhecida por seda, pepino-de-seda, planta-cruel, etc., é uma planta trepadora, pertencente à família Apocynaceae,, que pode atingir 6 metros, originária da América do Sul.
A sumaúma-bastarda foi descrita por Félix de Avelar Botero (1744-1828), lente de Botânica e Agricultura na Universidade de Coimbra. O nome genérico Araujia, foi dado em homenagem ao botânico amador António de Araújo e Azevedo, o 1º conde da Barca, e o “apelido” específico sericifera está relacionado com os filamentos sedosos que rodeiam as sementes.
Não se sabe, é sempre difícil conhecer, quando e quem introduziu a sumaúma-bastarda nos Açores. Sabe-se que chegou à Europa no século XIX como ornamental e têxtil, para aproveitamento da fibra do fruto, e que a espécie já estava presente, em 1856, no Jardim José do Canto, em Ponta Delgada.
Em 1966, no seu “Catálogo das Plantas Vasculares dos Açores”, Ruy Telles Palhinha considerava a sumaúma-bastarda subespontânea em São Miguel e na Terceira. Hoje, a espécie pode ser encontrada em todas as ilhas dos Açores, exceto em São Jorge e no Corvo.
De acordo com informação colhida no livro “Flora Terrestre dos Açores”, de Virgílio Vieira, Mónica Moura e Luís Silva, a sumaúma-bastarda que é utilizada como ornamental escapou-se da cultura e tornou-se uma espécie invasora, sendo “frequente em arribas, matos de Morella e Pittosporum, sebes, terrenos abandonados, muros nas margens de matas e beiras de estradas; geralmente até 300 m de altitude.”
Embora se desconheça qualquer uso da planta na medicina popular e na alimentação nos Açores, a sumaúma-bastarda possui propriedades medicinais, sendo muito usada pelos nativos das regiões de onde é originária. As folhas, os frutos e sobretudo as sementes são também usadas na alimentação humana.
As folhas da sumaúma-bastarda constituem uma alternativa às da planta-da-seda (Gomphocarpus physocarpus E. Mey.) como fonte de alimento para as lagartas das borboletas monarca.
Pico da Pedra, 30 de dezembro de 2022
Teófilo Braga
(Membro do Núcleo Regional dos Açores da IRIS-Associação Nacional de Ambiente)
A sumaúma-bastarda (Araujia sericifera Brot.) também conhecida por seda, pepino-de-seda, planta-cruel, etc., é uma planta trepadora, pertencente à família Apocynaceae,, que pode atingir 6 metros, originária da América do Sul.
A sumaúma-bastarda foi descrita por Félix de Avelar Botero (1744-1828), lente de Botânica e Agricultura na Universidade de Coimbra. O nome genérico Araujia, foi dado em homenagem ao botânico amador António de Araújo e Azevedo, o 1º conde da Barca, e o “apelido” específico sericifera está relacionado com os filamentos sedosos que rodeiam as sementes.
Não se sabe, é sempre difícil conhecer, quando e quem introduziu a sumaúma-bastarda nos Açores. Sabe-se que chegou à Europa no século XIX como ornamental e têxtil, para aproveitamento da fibra do fruto, e que a espécie já estava presente, em 1856, no Jardim José do Canto, em Ponta Delgada.
Em 1966, no seu “Catálogo das Plantas Vasculares dos Açores”, Ruy Telles Palhinha considerava a sumaúma-bastarda subespontânea em São Miguel e na Terceira. Hoje, a espécie pode ser encontrada em todas as ilhas dos Açores, exceto em São Jorge e no Corvo.
De acordo com informação colhida no livro “Flora Terrestre dos Açores”, de Virgílio Vieira, Mónica Moura e Luís Silva, a sumaúma-bastarda que é utilizada como ornamental escapou-se da cultura e tornou-se uma espécie invasora, sendo “frequente em arribas, matos de Morella e Pittosporum, sebes, terrenos abandonados, muros nas margens de matas e beiras de estradas; geralmente até 300 m de altitude.”
Embora se desconheça qualquer uso da planta na medicina popular e na alimentação nos Açores, a sumaúma-bastarda possui propriedades medicinais, sendo muito usada pelos nativos das regiões de onde é originária. As folhas, os frutos e sobretudo as sementes são também usadas na alimentação humana.
As folhas da sumaúma-bastarda constituem uma alternativa às da planta-da-seda (Gomphocarpus physocarpus E. Mey.) como fonte de alimento para as lagartas das borboletas monarca.
Pico da Pedra, 30 de dezembro de 2022
Teófilo Braga
(Membro do Núcleo Regional dos Açores da IRIS-Associação Nacional de Ambiente)
quarta-feira, 21 de dezembro de 2022
Onde residiu Alice Moderno em Ponta Delgada?
Onde residiu Alice Moderno em Ponta Delgada?
Desconhecemos onde morou Alice Moderno quando vivia com os pais em Ponta Delgada. Sabe-se que, em 1883, o pai possuía o consultório na Rua do Colégio, nº 65 (atual rua Carvalho Araújo). Não sabemos se o consultório se localizava no mesmo edifício da moradia.
Foto1- Rua do Colégio, 65 (porta da direita)
Em 1887, quando a família foi viver para a Achada do Nordeste, Alice Moderno fica, em Ponta Delgada, em casa da Dona Rosa Emília de Sequeira Morais, localizada na Rua dos Mercadores, nº 21, 2º andar.
Foto 2- Rua dos Mercadores, nº 19 (o nº 21 não existe atualmente, a porta a meio tem o número 19)
Em princípios de 1893, Alice Moderno já se encontrava a viver no número 69 da Rua dos Mercadores, em casa da senhora Maria Augusta de Morais.
Foto 3- Rua dos Mercadores, 69 (porta à direita)
Ainda no ano de 1893, Alice Moderno começa a viver em casa de D. Maria Emília Borges de Medeiros, na Rua da Fonte Velha, nº 36 (atual Rua Manuel da Ponte). Viveu nesta casa, cujo usufruto vitalício lhe fora legado por aquela senhora, até ao fim da sua vida em 1946.
Foto 4- Rua Manuel da Ponte, 36 (porta ao centro debaixo da placa)
Todas as imagens estarão corretas se não foram, ao longo do tempo, alterados os números de polícia.
Fonte: Vilhena. M. (1987). Alice Moderno: A mulher e a obra. Angra do Heroísmo. Direção Regional dos Assuntos Culturais-Secretaria Regional de Educação e Cultura
Pico da Pedra, 21 de dezembro de 2022
Teófilo Braga
Desconhecemos onde morou Alice Moderno quando vivia com os pais em Ponta Delgada. Sabe-se que, em 1883, o pai possuía o consultório na Rua do Colégio, nº 65 (atual rua Carvalho Araújo). Não sabemos se o consultório se localizava no mesmo edifício da moradia.
Foto1- Rua do Colégio, 65 (porta da direita)
Em 1887, quando a família foi viver para a Achada do Nordeste, Alice Moderno fica, em Ponta Delgada, em casa da Dona Rosa Emília de Sequeira Morais, localizada na Rua dos Mercadores, nº 21, 2º andar.
Foto 2- Rua dos Mercadores, nº 19 (o nº 21 não existe atualmente, a porta a meio tem o número 19)
Em princípios de 1893, Alice Moderno já se encontrava a viver no número 69 da Rua dos Mercadores, em casa da senhora Maria Augusta de Morais.
Foto 3- Rua dos Mercadores, 69 (porta à direita)
Ainda no ano de 1893, Alice Moderno começa a viver em casa de D. Maria Emília Borges de Medeiros, na Rua da Fonte Velha, nº 36 (atual Rua Manuel da Ponte). Viveu nesta casa, cujo usufruto vitalício lhe fora legado por aquela senhora, até ao fim da sua vida em 1946.
Foto 4- Rua Manuel da Ponte, 36 (porta ao centro debaixo da placa)
Todas as imagens estarão corretas se não foram, ao longo do tempo, alterados os números de polícia.
Fonte: Vilhena. M. (1987). Alice Moderno: A mulher e a obra. Angra do Heroísmo. Direção Regional dos Assuntos Culturais-Secretaria Regional de Educação e Cultura
Pico da Pedra, 21 de dezembro de 2022
Teófilo Braga
sábado, 17 de dezembro de 2022
Uma palmeira-da-geleia, uma brassaia e algumas mélias no Pico da Pedra
Uma palmeira-da-geleia, uma brassaia e algumas mélias no Pico da Pedra
Ao contrário dos textos anteriores em que fiz menção a plantas existentes em ruas do Pico da Pedra ou em espaços públicos, hoje faço referência a três plantas existentes em espaços privados, mas visíveis para todos os transeuntes que passem na Rua Fernando Dias Martins Carreiro, na Avenida da Paz e na Rua da Saudade.
Na Rua Fernando Dias Martins Carreiro podem ser vistas duas palmeiras-da-geleia (Butia capitata).
A palmeira da-geleia é uma planta da família Arecaceae, originária do Brasil, Uruguai e Argentina que floresce geralmente nos meses de maio a agosto.
A palmeira-da-geleia, que normalmente possui uma altura com 3 a 5 m, é uma bonita planta ornamental que produz uns frutos comestíveis, chamados coquinhos, ricos em vitaminas A e C, que podem ser utilizados para o fabrico de sumos, gelados, compotas, geleias e licores.
Embora haja várias receitas para o fabrico do doce de coquinho, abaixo transcrevo uma delas, retirada o blogue O Avental da Ana (https://oaventaldaana.blogspot.com/):
Ingredientes: 800 g de frutos (pesados sem caroço) e 400 g de açúcar
Preparação: Colocam-se numa panela os frutos e o açúcar, leva-se ao lume até a fruta cozer. A seguir, com o auxílio de uma varinha mágica desfaz-se até ficar numa pasta grossa.
No passado dia 1 de novembro, ao passar na referida rua vi que os proprietários das palmeiras-da-geleia ofereciam a todos os interessados os frutos daquela planta, os coquinhos. A generosidade era tanta que também cediam sacos para o transporte. Uma brilhante ideia, que embora comum em alguns países sobretudo nórdicos, é rara entre nós, sendo por isso louvável.
Na Avenida da Paz, encontra-se uma planta ornamental muito bonita, sobretudo quando está no período de floração, denominada brassaia ou árvore-guarda-chuva (Schefflera actinophylla).
Pertencente à família Araliaceae, a brassaia é uma planta oriunda da Austrália e da Nova Guiné que floresce nos meses de agosto, setembro e outubro. Podendo crescer até 15 m de altura, a brassaia pode produzir até 1000 flores que dão origem a grandes quantidades de néctar.
Muito rara na ilha de São Miguel, para além do exemplar existente no Pico da Pedra, apenas conhecemos outras brassaias na Avenida Gaspar Frutuoso, em Ponta Delgada, e na Rua do Passal, na cidade da Ribeira Grande.
Na Rua da Saudade, é possível observar mais do que uma mélia, também conhecida por amargoseira, lilás-da-índia ou sicómoro (Melia azederach).
Pertencente à família Meliaceae, a mélia, que pode atingir 20 m de altura ou mais, é originária da Ásia-Sul e Oriente, e está em flor, entre nós, nos meses de abril e maio.
A mélia é cultivada como ornamental em quase todo o mundo e é usada em jardins ou em arruamentos. As suas folhas são usadas com fins medicinais e as flores são muito aromáticas e muito visitadas pelas abelhas e outros polinizadores. A sua madeira é muito fácil de trabalhar pelo que pode ser usada em carpintaria.
Pico da Pedra, 19 de novembro de 2022
(Voz Popular, 202, dezembro de 2022)
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sexta-feira, 9 de dezembro de 2022
Luís Rocha Monteiro: Biólogo, cientista e ambientalista notável
Luís Rocha Monteiro: Biólogo, cientista e ambientalista notável
A 11 de dezembro faz 23 anos que faleceu, no acidente aéreo ocorrido na ilha de São Jorge, o biólogo e investigador do Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP) da Universidade dos Açores, Luís Manuel Ribeiro da Rocha Monteiro.
Luís Monteiro, que tem o seu nome perpetuado através do painho-de monteiro (Oceanodroma monteiroi), uma nova espécie de ave marinha que descobriu e estudou, foi muito mais do que um mero investigador universitário. Com efeito, nos seus curtos 37 anos de vida, desenvolveu uma atividade cívica digna de registo, quer através da sua participação associativa, quer através das campanhas de defesa do património natural que implementou.
No que diz respeito ao associativismo ambiental, Luís Monteiro foi o principal dinamizador do Núcleo do Faial da Quercus e foi membro dos Amigos dos Açores-Associação Ecológica.
No que concerne a ações de sensibilização e educação ambientais e de pressão política, destacamos o “Projeto Azorica”, a campanha “Um espaço para os Garajaus” e “A Escola e o Cagarro/SOS Cagarro”.
Entre 1990 e 1995, Luís Monteiro foi o criador e principal dinamizador do “Projeto Azorica” que consistiu numa petição intitulada “Pela Sobrevivência da Vegetação Autóctone dos Açores”. A petição tornada pública em março de 1990, recolheu 6527 assinaturas, tendo sido entregue, em 1992, aos órgãos de soberania regionais, nacionais e comunitários. Como resultado desta petição, em 1995, a Assembleia Legislativa Regional aprovou uma Resolução (nº 13/95/A) onde recomendava que o governo implementasse um plano visando a proteção e conservação efetiva das zonas ecologicamente mais valiosas do Arquipélago, do ponto de vista botânico.
Em março de 1993, por iniciativa de Luís Monteiro e com a colaboração dos Amigos dos Açores, foi lançada a campanha “Um espaço para os garajaus”, em defesa dos garajaus, comum e rosado, tendo naquele ano e nos seguintes sido editados milhares de folhetos sobre as duas espécies, que foram distribuídos essencialmente nas escolas, e foram promovidas pequenas exposições, também em escolas e em sedes de juntas de freguesia.
Por iniciativa de Luís Monteiro as ações em defesa dos cagarros começaram em novembro de 1993, altura em que foi lançada a campanha “A escola e o cagarro” no âmbito da qual foi aplicado um inquérito, sobre a espécie, destinado a alunos das escolas, nomeadamente do 1º e 2º ciclos do ensino básico e distribuídos 10 mil folhetos informativos sobre a espécie.
Dois anos depois também por iniciativa de Luís Monteiro, surgiu a campanha “SOS Cagarro”, no âmbito do projeto LIFE “Conservação das comunidades de aves marinhas dos Açores”. Para a concretização do projeto a Direção Regional do Ambiente colaboraria com o DOP na coordenação e execução das ações de conservação direta e participaria nas ações de inventariação e monitorização de espécies. Por seu turno, os Amigos dos Açores apoiariam as ações de conservação direta, nomeadamente informação e sensibilização.
Com a sua morte prematura a Ciência e a sociedade perderam um grande investigador e um ativista ambiental que muito teria a dar para a construção de uma sociedade açoriana mais respeitadora de todos os seres vivos.
O Núcleo Regional dos Açores da IRIS-Associação Nacional de Ambiente recorda-o com saudade e não o esquecerá.
Açores, 10 de dezembro de 2022
P'lo Núcleo Regional dos Açores da IRIS
Teófilo Braga
Fotografia: http://siaram.azores.gov.pt/.../luis-rocha.../galeria/2.html
A 11 de dezembro faz 23 anos que faleceu, no acidente aéreo ocorrido na ilha de São Jorge, o biólogo e investigador do Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP) da Universidade dos Açores, Luís Manuel Ribeiro da Rocha Monteiro.
Luís Monteiro, que tem o seu nome perpetuado através do painho-de monteiro (Oceanodroma monteiroi), uma nova espécie de ave marinha que descobriu e estudou, foi muito mais do que um mero investigador universitário. Com efeito, nos seus curtos 37 anos de vida, desenvolveu uma atividade cívica digna de registo, quer através da sua participação associativa, quer através das campanhas de defesa do património natural que implementou.
No que diz respeito ao associativismo ambiental, Luís Monteiro foi o principal dinamizador do Núcleo do Faial da Quercus e foi membro dos Amigos dos Açores-Associação Ecológica.
No que concerne a ações de sensibilização e educação ambientais e de pressão política, destacamos o “Projeto Azorica”, a campanha “Um espaço para os Garajaus” e “A Escola e o Cagarro/SOS Cagarro”.
Entre 1990 e 1995, Luís Monteiro foi o criador e principal dinamizador do “Projeto Azorica” que consistiu numa petição intitulada “Pela Sobrevivência da Vegetação Autóctone dos Açores”. A petição tornada pública em março de 1990, recolheu 6527 assinaturas, tendo sido entregue, em 1992, aos órgãos de soberania regionais, nacionais e comunitários. Como resultado desta petição, em 1995, a Assembleia Legislativa Regional aprovou uma Resolução (nº 13/95/A) onde recomendava que o governo implementasse um plano visando a proteção e conservação efetiva das zonas ecologicamente mais valiosas do Arquipélago, do ponto de vista botânico.
Em março de 1993, por iniciativa de Luís Monteiro e com a colaboração dos Amigos dos Açores, foi lançada a campanha “Um espaço para os garajaus”, em defesa dos garajaus, comum e rosado, tendo naquele ano e nos seguintes sido editados milhares de folhetos sobre as duas espécies, que foram distribuídos essencialmente nas escolas, e foram promovidas pequenas exposições, também em escolas e em sedes de juntas de freguesia.
Por iniciativa de Luís Monteiro as ações em defesa dos cagarros começaram em novembro de 1993, altura em que foi lançada a campanha “A escola e o cagarro” no âmbito da qual foi aplicado um inquérito, sobre a espécie, destinado a alunos das escolas, nomeadamente do 1º e 2º ciclos do ensino básico e distribuídos 10 mil folhetos informativos sobre a espécie.
Dois anos depois também por iniciativa de Luís Monteiro, surgiu a campanha “SOS Cagarro”, no âmbito do projeto LIFE “Conservação das comunidades de aves marinhas dos Açores”. Para a concretização do projeto a Direção Regional do Ambiente colaboraria com o DOP na coordenação e execução das ações de conservação direta e participaria nas ações de inventariação e monitorização de espécies. Por seu turno, os Amigos dos Açores apoiariam as ações de conservação direta, nomeadamente informação e sensibilização.
Com a sua morte prematura a Ciência e a sociedade perderam um grande investigador e um ativista ambiental que muito teria a dar para a construção de uma sociedade açoriana mais respeitadora de todos os seres vivos.
O Núcleo Regional dos Açores da IRIS-Associação Nacional de Ambiente recorda-o com saudade e não o esquecerá.
Açores, 10 de dezembro de 2022
P'lo Núcleo Regional dos Açores da IRIS
Teófilo Braga
Fotografia: http://siaram.azores.gov.pt/.../luis-rocha.../galeria/2.html
domingo, 4 de dezembro de 2022
Alice Moderno e o Hino das Sociedades Protetoras dos Animais
Alice Moderno e o Hino das Sociedades Protetoras dos Animais
No dia 11 de abril de 1915, Alice Moderno publicou, no seu jornal “A Folha”, o Hino das Sociedades Protetoras dos Animais.
A letra é do jornalista Alberto Bessa (1861-1930) e a música da autoria de Thomaz de Lima (1887-1950). Alberto Bessa foi escritor e jornalista e António Thomaz de Lima foi violinista, compositor, maestro e professor no Conservatório Nacional de Lisboa, tendo residido em São Miguel, onde nasceu o seu filho Eurico Thomaz de Lima, na cidade de Ponta Delgada, em 1908.
Embora, hoje, o entendimento que se tem do “papel” dos animais no mundo seja bastante diferente do que havia no início do século XX, a letra do hino é clara ao afirmar que devemos amar e proteger todos os seres vivos, como se pode concluir através da leitura dos dois últimos versos:
“Sejamos todos bons para tudo o que é vivente:
- Árvore ou animal, insetos ou passarinho.”
Hino das Associações Protetoras dos Animais
Se o homem foi fadado o rei da criação,
E à frente dos mais seres a natureza o pôs,
É seu dever prestar aos outros proteção,
Sem ter jamais direito a ser o seu algoz.
Um povo civilizado
Só é o que souber
A tudo o que é criado
Amar e proteger
No mundo os animais são nossos companheiros,
E embora a natureza os fizesse inferiores,
É certo que lhes deu afetos verdadeiros,
Tornando muitos deles em nossos servidores.
Um povo civilizado
Só é o que souber
A tudo o que é criado
Amar e proteger
Devemos todos, pois, tratá-los com piedade,
Que há uma só justiça, com uma só razão,
Ambas a condenar toda a barbaridade,
Ambas a reclamar para eles compaixão.
Ser bom é uma virtude augusta e resplandecente,
Da qual cumpre seguir o largo e bom caminho,
Sejamos todos bons para tudo o que é vivente:
-Árvores ou animal, inseto ou passarinho.
Pico da Pedra, 4 de dezembro de 2022
Teófilo Braga
No dia 11 de abril de 1915, Alice Moderno publicou, no seu jornal “A Folha”, o Hino das Sociedades Protetoras dos Animais.
A letra é do jornalista Alberto Bessa (1861-1930) e a música da autoria de Thomaz de Lima (1887-1950). Alberto Bessa foi escritor e jornalista e António Thomaz de Lima foi violinista, compositor, maestro e professor no Conservatório Nacional de Lisboa, tendo residido em São Miguel, onde nasceu o seu filho Eurico Thomaz de Lima, na cidade de Ponta Delgada, em 1908.
Embora, hoje, o entendimento que se tem do “papel” dos animais no mundo seja bastante diferente do que havia no início do século XX, a letra do hino é clara ao afirmar que devemos amar e proteger todos os seres vivos, como se pode concluir através da leitura dos dois últimos versos:
“Sejamos todos bons para tudo o que é vivente:
- Árvore ou animal, insetos ou passarinho.”
Hino das Associações Protetoras dos Animais
Se o homem foi fadado o rei da criação,
E à frente dos mais seres a natureza o pôs,
É seu dever prestar aos outros proteção,
Sem ter jamais direito a ser o seu algoz.
Um povo civilizado
Só é o que souber
A tudo o que é criado
Amar e proteger
No mundo os animais são nossos companheiros,
E embora a natureza os fizesse inferiores,
É certo que lhes deu afetos verdadeiros,
Tornando muitos deles em nossos servidores.
Um povo civilizado
Só é o que souber
A tudo o que é criado
Amar e proteger
Devemos todos, pois, tratá-los com piedade,
Que há uma só justiça, com uma só razão,
Ambas a condenar toda a barbaridade,
Ambas a reclamar para eles compaixão.
Ser bom é uma virtude augusta e resplandecente,
Da qual cumpre seguir o largo e bom caminho,
Sejamos todos bons para tudo o que é vivente:
-Árvores ou animal, inseto ou passarinho.
Pico da Pedra, 4 de dezembro de 2022
Teófilo Braga
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