sábado, 22 de abril de 2023
Dia da Terra 2023
DIA DA TERRA 2023- HÁ RAZÕES PARA CELEBRAR?
Desde 22 de abril de 1970, comemora-se em vários países do mundo o Dia da Terra. Naquele ano, por iniciativa do senador Gaylord Nelson, ocorreu um grande protesto nos Estados Unidos da América que juntou cerca de 20 milhões de pessoas preocupadas com os impactos negativos das atividades humanas na Terra.
Nos Açores, o dia foi comemorado pela primeira vez a 22 de abril de 1990, pelos Amigos dos Açores-Associação Ecológica, através de um encontro com o então presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, Dr. Mário Machado, no Jardim António Borges. Na ocasião, foi entregue um memorando onde, entre outros assuntos, foi defendida “a necessidade das próprias populações gerirem mais convenientemente os seus resíduos de modo a diminuir a sua produção e a proceder à seleção dos restantes, facilitando a sua posterior reciclagem”.
Com o objetivo de promover a conservação do ambiente e conciliar as necessidades económicas, sociais e ambientais dos habitantes do planeta, no presente e no futuro, a 22 de abril de 2009, a Assembleia Geral das Nações Unidas, através da Resolução 63/278, designou o dia 22 de abril como o Dia Internacional da (Mãe) Terra.
Para nós, os dias disto e daquilo para pouco servem, pois por parte dos organizadores de eventos o que lhes interessa, muitas vezes, é apenas ficar registado que o comemoraram, com atividades que não passam de pura propaganda ou mesmo com iniciativas contraproducentes, como o é afixar ninhos para aves numa escola, sem saber se os mesmos fazem falta e tendo conhecimento de que a espécie mais comum na área é o pardal, espécie introduzida nos Açores que apresenta características invasoras.
De qualquer modo, o Dia da Terra e os outros dias comemorativos acabam por ter alguma importância, devendo ser aproveitados para refletirmos sobre a situação do planeta, avaliarmos o que temos feito para a melhorar e o que é possível fazer em cooperação para superar os problemas existentes.
Entendemos que não é possível separar os problemas ambientais dos problemas sociais, por isso não nos podemos esquecer que a nível global, apesar dos avanços da ciência e da tecnologia, a pobreza e a fome no mundo, como recentemente denunciou o Secretário-Geral da ONU, têm aumentado.
Por muito que se fale em paz, o pesadelo das guerras continua no mundo e a ameaça do uso de armas nucleares paira sobre as nossas cabeças. Em vez do mundo caminhar para a desmilitarização, o negócio das armas continua de vento em popa.
Os efeitos das alterações climáticas são cada vez mais visíveis. É o aumento da seca e escassez de água em algumas regiões, é o aumento de chuvas e inundações noutras, é a extinção de algumas espécies e a proliferação de pragas e é o aumento gradual do nível das águas do mar levando à submersão de pequenas ilhas e regiões costeiras.
Apesar de todos mostrarem preocupação com as alterações climáticas e das sucessivas cimeiras e dos acordos alcançados, como o Acordo de Paris, as medidas tomadas pelos governos para a redução dos gases causadores do efeito de estufa são inexistentes ou insuficientes.
A desflorestação, a intensificação da agricultura e da pecuária e o comércio ilegal da vida selvagem têm efeitos bastante adversos na vida do Planeta, pois contribuem para a crescente extinção de espécies, estimada pela WWF em cerca de 200 espécies em cada ano.
Nos Açores, preocupamo-nos com a incapacidade da Região, apesar de muitos fundos comunitários recebidos, para eliminar a pobreza, acabar com a exclusão social e elevar significativamente o grau de escolarização da nossa população, isto apesar do forte investimento em edifícios e outros equipamentos escolares.
No que diz respeito à educação, mais propriamente à educação ambiental, apesar do programa Eco-Escolas que abrange um número reduzido de alunos, houve um desinvestimento na mesma com a extinção das várias Ecotecas, que em São Miguel existiam em Ponta Delgada, na Ribeira Grande e na Lagoa, passando a uma só que ninguém dá por ela, pois transformou-se numa “Eco-toca”.
Não se educa com ações pontuais, a educação tem de ser continuada no tempo e abranger os mais variados níveis etários. Plantar árvores num dia é bom, mas os plantadores precisam de saber que aquele ato é apenas o primeiro passo, pois as plantas são como um bebé, precisam de ser cuidadas até se tornarem autónomas. Quantos milhares de plantas já foram cedidos a escolas açorianas e quantas plantas sobreviveram ao primeiro Verão?
Para além da ausência de uma gestão efetiva das áreas protegidas terrestres e marinhas, no caso das primeiras para quando um combate efetivo e com os recursos humanos adequados às espécies invasoras, uma grande ameaça à nossa flora endémica?
Para quando o fim do desrespeito para com as árvores vítimas do desinteresse de alguns responsáveis e da falta de preparação dos executantes das podas e dos operadores das roçadoras?
Por que não se avança com a criação do “regime jurídico da gestão do arvoredo urbano nos Açores”, já que a nível nacional o Governo da República não tem sido capaz de regulamentar a Lei nº 59/2021? Com esta legislação as autarquias poderiam avançar com os seus “regulamentos municipais de gestão do arvoredo em meio urbano” e com os “inventários municipais do arvoredo em meio urbano”. Além disso, por fazer falta para tratar convenientemente o nosso património natural, permitiria criar a profissão de arborista, técnico credenciado para a execução de operações de manutenção de arvoredo.
Por que se está à espera para regulamentar o “regime jurídico de classificação do arvoredo de interesse público na Região Autónoma dos Açores”?
Por que razão, não se aposta na região no primeiro dos três R, isto é, na redução dos resíduos? É preciso não esquecer que tal como na energia, a melhor é a que não se produz porque se consome de modo eficiente, no caso dos resíduos, o melhor não é o que é reciclado, mas sim o que não é produzido.
Por último, é preciso afirmar que não é suficiente a alteração dos comportamentos dos cidadãos, é preciso, ao mesmo tempo, alterar as políticas públicas porque a causa primeira da degradação ambiental e social é o nosso modelo de desenvolvimento (modo de produção e consumo) que é responsável, por um lado, pelo consumismo e, pelo outro, pela exclusão social.
A exclusão social está ligada à miséria e à fome e o consumismo à opulência e ao desperdício. Ambos levam à degradação ambiental e à perda da qualidade de vida na Terra
.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 33016, 22 de abril de 2023, p. 13)
Imagem: Dia da Terra 2005
sexta-feira, 21 de abril de 2023
terça-feira, 11 de abril de 2023
segunda-feira, 27 de março de 2023
segunda-feira, 20 de março de 2023
As plantas e a medicina popular no Pico da Pedra (1)
As plantas e a medicina popular no Pico da Pedra (1)
Em 1992, com a ajuda dos jovens do Programa OTL-J, apliquei um inquérito a algumas senhoras sobre as plantas usadas na medicina popular na freguesia do Pico da Pedra.
Através das respostas aos vários inquéritos fiquei a saber que eram cerca de 30 as plantas utilizadas no Pico da Pedra, sendo as principais o poejo, o funcho, o limoeiro (limão), a malva, o eucalipto e a arruda.
Antes de dar a conhecer a arruda, nomeadamente algumas características, propriedades e usos, quero deixar bem claro que o uso das plantas na medicina popular não é isento de riscos, pois algumas delas apresentam contraindicações e um perigo enorme é a confusão que existe na identificação das mesmas, pois plantas com propriedades terapêuticas diferentes apresentam o mesmo nome comum em localidades diferentes. Sobre o assunto, em 1955, o tenente-coronel José Agostinho escreveu que “o nome que numa terra pode indicar uma planta boa para remédio, pode noutra ser dado a uma planta que não tenha qualquer virtude ou até seja prejudicial”.
A arruda, cujo nome científico é Ruta chalepensis é uma das plantas mais usadas, nos Açores, quer na medicina popular quer associada a várias superstições. Este facto é comprovado pelo seguinte provérbio: “Eu sou a arruda, que sou a tua ajuda”.
A quadra popular, que a seguir se apresenta, mostra que se acreditava que a arruda era uma boa ajuda para “clarear a voz”:
Eu bem queria cantar alto,
Mas esta voz não me ajuda,
Vou esfregar a garganta
Com um raminho de arruda
O Dr. Carreiro da Costa, depois de referir que era possível encontrar a planta nos quintais de todas a povoações, menciona a ligação da arruda não só à medicina popular, como também a várias superstições. Assim, no nº 15 do Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, pode-se ler que “figueira, debaixo da qual se criem uns pés de arruda, dá pela certa os mais lindos e deliciosos figos que imaginar se possa” e mais adiante “galhos da mesma arruda presos ao pescoço das rezes as livra do mau-olhado”. E por último, “o fumo da arruda queimada sobre uma brasa viva imune as casas de maus-olhados e feitiços- e não só as casas como também as pessoas”.
Yolanda Corsépius (1997) aconselha manter alguns ramos da planta fresca nos locais onde se quer evitar a presença de ratos.
A arruda é um subarbusto de pequeno porte que pode atingir 60 cm de altura. As folhas são acinzentadas, segmentadas e fétidas. As suas flores são amarelas e pequenas.
Em 1894, Cândido de Abranches referia o uso da arruda para tratamento de padecimentos histéricos e uterinos, tomada em chá ou cheirando-a.
Em 2002, nas Sete Cidades, dizia-se que a arruda “tirava as dores do corpo e era boa para o estômago e vias urinárias”.
Nos questionários aplicados no Pico da Pedra, a arruda era usada em tisana ou numa solução em aguardente de vinho com macela (Chamaemelum nobile) para tratar problemas do estomago.
Pico da Pedra, 8 de março de 2023
Teófilo Braga
Em 1992, com a ajuda dos jovens do Programa OTL-J, apliquei um inquérito a algumas senhoras sobre as plantas usadas na medicina popular na freguesia do Pico da Pedra.
Através das respostas aos vários inquéritos fiquei a saber que eram cerca de 30 as plantas utilizadas no Pico da Pedra, sendo as principais o poejo, o funcho, o limoeiro (limão), a malva, o eucalipto e a arruda.
Antes de dar a conhecer a arruda, nomeadamente algumas características, propriedades e usos, quero deixar bem claro que o uso das plantas na medicina popular não é isento de riscos, pois algumas delas apresentam contraindicações e um perigo enorme é a confusão que existe na identificação das mesmas, pois plantas com propriedades terapêuticas diferentes apresentam o mesmo nome comum em localidades diferentes. Sobre o assunto, em 1955, o tenente-coronel José Agostinho escreveu que “o nome que numa terra pode indicar uma planta boa para remédio, pode noutra ser dado a uma planta que não tenha qualquer virtude ou até seja prejudicial”.
A arruda, cujo nome científico é Ruta chalepensis é uma das plantas mais usadas, nos Açores, quer na medicina popular quer associada a várias superstições. Este facto é comprovado pelo seguinte provérbio: “Eu sou a arruda, que sou a tua ajuda”.
A quadra popular, que a seguir se apresenta, mostra que se acreditava que a arruda era uma boa ajuda para “clarear a voz”:
Eu bem queria cantar alto,
Mas esta voz não me ajuda,
Vou esfregar a garganta
Com um raminho de arruda
O Dr. Carreiro da Costa, depois de referir que era possível encontrar a planta nos quintais de todas a povoações, menciona a ligação da arruda não só à medicina popular, como também a várias superstições. Assim, no nº 15 do Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, pode-se ler que “figueira, debaixo da qual se criem uns pés de arruda, dá pela certa os mais lindos e deliciosos figos que imaginar se possa” e mais adiante “galhos da mesma arruda presos ao pescoço das rezes as livra do mau-olhado”. E por último, “o fumo da arruda queimada sobre uma brasa viva imune as casas de maus-olhados e feitiços- e não só as casas como também as pessoas”.
Yolanda Corsépius (1997) aconselha manter alguns ramos da planta fresca nos locais onde se quer evitar a presença de ratos.
A arruda é um subarbusto de pequeno porte que pode atingir 60 cm de altura. As folhas são acinzentadas, segmentadas e fétidas. As suas flores são amarelas e pequenas.
Em 1894, Cândido de Abranches referia o uso da arruda para tratamento de padecimentos histéricos e uterinos, tomada em chá ou cheirando-a.
Em 2002, nas Sete Cidades, dizia-se que a arruda “tirava as dores do corpo e era boa para o estômago e vias urinárias”.
Nos questionários aplicados no Pico da Pedra, a arruda era usada em tisana ou numa solução em aguardente de vinho com macela (Chamaemelum nobile) para tratar problemas do estomago.
Pico da Pedra, 8 de março de 2023
Teófilo Braga
Etiquetas:
Casa do Povo do Pico da Pedra,
plantas medicinais,
Voz Popular
sábado, 11 de março de 2023
George Hayes 88 anos
O dia de hoje foi marcado pela homenagem que um grupo de cerca de 20 amigos fez ao senhor George Hayes que fez 88 anos.
Deixo abaixo o meu depoimento/apelo:
Conheci o sr. George Hayes nos primeiros anos da década de 70 do século passado e com ele comecei a participar em diversos passeios pedestres em que ele era o guia e em que muitos dos participantes eram seus explicandos de inglês.
Quando regressei da ilha Terceira, para onde fui lecionar, entre outubro de 1980 e junho de 1983, com ele retomei os passeios pedestres que a partir de janeiro de 1984 passaram a ser organizados pelo Núcleo dos Açores dos Amigos da Terra, que mais tarde se transformou na associação Amigos dos Açores.
Entre 1984 e a minha saída da direção dos Amigos dos Açores a 13 de setembro de 2008, o calendário anual dos passeios pedestres era elaborado, contando sempre com as suas sugestões e era ele que nos guiava na maioria dos passeios pedestres, em virtude de já conhecer os trilhos.
Em 1988, foi com ele que conheci a localização de algumas grutas e que um pequeno grupo de associados dos Amigos dos Açores realizou a primeira exploração espeleológica na ilha de São Miguel.
O senhor George Hayes foi durante longos anos o tradutor “oficial” dos Amigos dos Açores e o autor da versão inglesa das dezenas de roteiros de percursos pedestres editados por aquela associação.
No que diz respeito à vida associativa dos Amigos dos Açores, o senhor Georg que aderiu à associação no dia 1 de janeiro de 1987, sendo o associado nº 57, foi membro da direção ente 1988 e 1997, e foi membro do Conselho Fiscal entre 1998 e 2008.
Foi com ele que se reforçou a minha sensibilidade para com a proteção dos Animais e tive a sua autorização para colocar o seu nome em todos os apelos, abaixo-assinados ou campanhas contra a tortura de bovinos e cavalos nas touradas ou em defesa dos animais de companhia.
Por tudo isto e pela profunda amizade que tenho por ele considero que será mais do que justo, proceder a uma singela homenagem, cantando os “parabéns a você” no próximo dia 11 de março, data em que ele comemorará 88 anos de vida.
Imagens: 1- Num jantar promovido pela associação Animais de Rua em 2017
2- Em dia de aniversário
11 de março de 2023
Subscrever:
Mensagens (Atom)






