domingo, 31 de dezembro de 2023

Agradecimento

Agradecimento Junta de Freguesia do Pico da Pedra pela colaboração numa exposição sobre o 25 de Abril, maio 1984

sábado, 30 de dezembro de 2023

A galinha e os pintos do Jorge


A galinha e os pintos do Jorge

Num ano que não posso indicar com precisão, um conhecido professor do Externato de Vila Franca, que possuía uma quinta, numa das suas aulas, perguntou aos alunos se conheciam alguém que possuísse uma galinha choca, pois queria chocar ovos para colocar os pintos na sua propriedade.

O Jorge, esforçou-se por satisfazer o desejo do professor e foi um pouco mais longe, tendo feito com que os pais oferecessem uma galinha já com quase uma dezena de pintos.

O ano foi-se passando e as notas do Jorge já não foram boas no segundo período de tal modo que, juntando à sua fé o facto de suavizar o castigo, decidiu ir naquele ano na romaria quaresmal.

Ao receber as notas, já no final do terceiro período, verificou que tinha apanhado negativa na disciplina do professor presenteado.

Ao encontrar um colega alguns dias depois exclamou: “Nem com uma galinha com pintos consegui positiva!”

31 de dezembro de 2023

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Entra Asno


Entra Asno

As personagens desta história são um professor de francês, muito conhecido, apreciador de jardins e de culinária, um aluno desportista que sabia as capitais dos países da Europa, decorando-as através do relacionamento que fazia com os nomes dos seus clubes de futebol e o burro do moleiro José Cabral, que possuía a moagem localizada na Rua do Jogo na Ribeira Seca e percorria algumas ruas da Vila a recolher o milho e a devolver a farinha aos seus clientes.

Estávamos todos em silêncio, naquele tempo não havia a liberdade, por vezes libertinagem, que há hoje, numa aula de Francês, quando o professor puxa de um lenço de tamanho avantajado e escarra para o mesmo. Ao mesmo tempo, o burro do moleiro já referido estava a passar pela Rua Gonçalo Velho, mesmo por baixo da sala de aula, e começou a zurrar.

O José Augusto, quebra o silêncio e exclama em voz bastante audível: “Entra asno”.

O professor, pensando que era consigo, levanta-se, puxa as calças para cima e grita: “que falta de respeito”.

Seguiu-se uma verdadeira gincana que foi ganha pelo José Augusto, pois o professor pela idade que já tinha e pela dificuldade oferecida pelo vestuário não conseguia saltar as carteiras que constituíam um obstáculo ao movimento dos dois.

29 de dezembro de 2023

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

O Irró


O Irró do Manuel Baia

Ao Carlos Moniz

Todos os vila-franquenses conhecem a festa do Irró que se celebra anualmente a seguir à Páscoa. É a festa dos homens do mar de Vila Franca do Campo que veneram São Pedro Gonçalves.

Em data que não posso precisar, mas no final da década de 60 ou início da de 70 do século passado, frequentávamos o Externato de Vila Franca do Campo, e tínhamos aulas numa sala situada na cave do edifício.

Naquele tempo eram mais os dias “santos” e por vezes acontecia que algumas celebrações ocorriam em dia de trabalho.

Num determinado dia, estávamos em aulas e sabíamos que ia passar a procissão do Irró. Assim, alguns alunos decidiram ver a procissão antes de irem para a aula de História, ministrada pelo padre Manuel Rei.

Estava dentro da sala com o professor e com alguns colegas quando, um bocado atrasado chega à sala o Carlos do C. a cantar:

Irró de Santo Irró

O Manuel Baia….

O Padre levanta-se, vai ao quadro, tira o compasso, para quem desconhece é um instrumento de desenho que faz arcos de circunferência, onde numa ponta coloca-se o giz e a outra é pontiaguda, feita de metal, e atira-o em direção ao aluno.

Felizmente o compasso não atingiu o Carlos, tendo ficado enfiado na porta de madeira da sala a vibrar.

Se há alguma ficção no texto é porque a memória já não é o que era.

28 de dezembro de 2023
T.B.

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Rícino


Rícino

Quando observo uma planta de rícino sou transportado para a minha infância, mais propriamente para o ano em que frequentava a escola primária da Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, quando alguns alunos ao observarem as sementes do rícino que existia no recreio da escola decidiram comê-las, dizendo que eram feijões. Recordo que muitos deles se sentiram mal e que tiveram de ser assistidos no Hospital da Santa Casa da Misericórdia da Vila. Eu que não havia ingerido nenhuma fui alvo, em casa, de um interrogatório quase pidesco, por parte da minha mãe que queria confirmar se havia ou não provado “o fruto proibido”.

Durante muito tempo, pensei que aquela planta “venenosa” não tinha qualquer utilidade, até que já adulto comecei a interessar-me pelos livros e pelo mundo animal e vegetal que me rodeava. Estava redondamente enganado, como se poderá constatar a seguir.

O rícino, mamona, bafureira ou carrapateira (Ricinus communis L.) é uma planta pertencente à família Euphorbiaceae, oriunda da África Oriental. Hoje, o rícino encontra-se naturalizado em todas as ilhas dos Açores

É um arbusto ou pequena árvore, que pode atingir 3 m de altura, com caule lenhoso na sua base que apresenta folhas de tonalidades avermelhadas, alternas, palmadas e lobadas. As flores femininas são verdes ou avermelhadas e as masculinas são amarelo esverdeadas, podendo ser vistas de abril a novembro. Os frutos são cápsulas globosas.

Desconhece-se a data da introdução do rícino no nosso arquipélago, mas já em 1799 o Governador dos Açores, em ofício dirigido a D. Rodrigo de Sousa Coutinho, menciona o uso do óleo de rícino na iluminação particular.

Depois de algumas dificuldades em arranjar mercado, em 1849, o “Agricultor Micaelense” dá conta da venda em Lisboa de sementes de rícino produzidas em São Miguel “a razão de 600 rs moeda insulana, por cada alqueire de mamona, também medida insulana.”

No ano seguinte, no mesmo jornal, José do Canto informa que um laboratório de Lisboa estava a preparar o óleo de rícino para ser usado com fins medicinais e que os agricultores micaelenses não tiveram capacidade para satisfazer as encomendas de sementes. Também menciona que gostaria que “nunca a nossa indústria agrícola pudesse ser tratada de negligente e descuidosa”.

Francisco de Carvalhal que se dedicou à adaptação da cultura do rícino nos Açores, desde 1914, escreveu no Correio dos Açores de 1931 que a cultura do rícino era mais rentável a partir do segundo ano de produção do que a do trigo, do milho, do tabaco e da beterraba sacarina. Sobre o uso da planta também menciona que “as sementes de rícino, esmagadas e misturadas em farinha e qualquer gordura, são consideradas excelente veneno para os ratos”.

Ramos (1871) refere que das suas sementes é extraído “o óleo de rícino, que é um laxante suave e d’um uso frequente em todas as partes do globo.”

Gomes (1993) menciona que o óleo de rícino é “um purgante” para combater a “solitária (ténia)”.

Corsépius (1997) refere o uso do óleo como purgante, mas adverte que a planta “é tóxica não devendo por isso ser utilizada em preparações caseiras. A ingestão das sementes pode mesmo causar a morte!”

Dadas as contraindicações e os efeitos secundários o seu uso só deverá ser feito mediante o acompanhamento de um especialista. De acordo com o livro “Segredos e Virtudes das Plantas Medicinais” As sementes de rícino não devem ser ingeridas, pois 3 ou 4 podem matar uma criança, e cerca de 15, um adulto”.

Hoje, o óleo de rícino é ainda muito usado na indústria química e o biodiesel produzido a partir do rícino é um dos melhores do mercado.

27 de dezembro de 2023

Ulmeiros


Ulmeiros

O ulmeiro, olmo ou negrilho (Ulmus minor Mill.) é uma árvore caducifólia, pertencente à família Ulmaceae, originária da Europa Norte, de África e do sudoeste da Ásia que floresce nos meses de fevereiro e de março.

Espontaneamente, o ulmeiro prefere solos frescos, sendo comum a sua presença junto a margens de cursos de água.

Embora por cá o ulmeiro seja usado sobretudo como planta ornamental, a sua madeira é muito boa dadas as suas características: dureza, elasticidade e resistência à humidade, sendo utilizada no fabrico de móveis, cabos de ferramentas e artigos de desporto.

O ulmeiro, que já era plantado pelos Romanos com fins ornamentais e para suporte das vinhas, possui uma longevidade muito grande, que pode atingir ou mesmo ultrapassar os 350 anos.

As folhas que na base são assimétricas e constituíram uma boa forragem para o gado, sendo também usadas para fins medicinais por possuírem propriedades depurativas, tónicas, sudoríferas e diuréticas. As sias flores são melíferas. A casca exterior é rica em tanino e a interior apresenta propriedades calmantes.

Desconhece-se a data da introdução de ulmeiros nos Açores, mas, em 1856, José do Canto já os incluía na sua lista de plantas existentes no seu jardim, em Ponta Delgada. Embora não muito abundantes, hoje, é possível, em São Miguel, encontrar ulmeiros nos seguintes locais: Parque de Estacionamento da Rua de Santana, Jardim do Palácio de Santana, Jardim Botânico José do Canto, Jardim da Universidade, Relvão, Parque Terra Nostra e Mata-Jardim José do Canto-Lagoa das Furnas.

Nas nossas ilhas o ulmeiro está classificado como casual, isto é, ocasionalmente escapado de cultura e pode ser encontrado em São Miguel, Santa Maria, Terceira, São Jorge, Graciosa e Faial.

Caso singular nos Açores foi o conjunto de ulmeiros existentes na Alameda Duque de Bragança (Relvão), cujo arranjo e primeiras plantações ocorreram em 1862.

O Relvão tem um valor histórico pois foi lá que se concentrou o exército libertador, para ouvir missa campal e uma proclamação de D. Pedro IV, antes do embarque para o Mindelo, donde arrancou para a vitória sobre o miguelismo. Os ulmeiros lá existentes, para além de constituírem um património natural têm também um forte simbolismo histórico por representarem os soldados do exército liberal.

A proteção dos ulmeiros nos Açores é uma medida importante para a proteção da espécie sabendo-se que os mesmos têm sido dizimados pela grafiose por toda a Europa e na América do Norte.

Sobre o negrilho da sua terra, o escritor Miguel Torga escreveu o poema que se transcreve na íntegra:

A UM NEGRILHO

Na terra onde nasci há um só poeta.

Os meus versos são folhas dos seus ramos.

Quando chego de longe e conversamos,

É ele que me revela o mundo visitado.

Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,

E a luz do sol aceso ou apagado

É nos seus olhos que se vê pousada.

Esse poeta és tu, mestre da inquietação

Serena!

Tu, imortal avena

Que harmonizas o vento e adormeces o imenso

Redil de estrelas ao luar maninho.

Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso

Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!

26 de dezembro de 2023

domingo, 24 de dezembro de 2023

Gigante: uma beldade que esconde um monstro


Gigante: uma beldade que esconde um monstro

O gigante (Gunnera tinctoria (Molina) Mirb.) é uma planta herbácea perene, com rizomas volumosos, que pode atingir 2 m de altura. As suas folhas alternas podem atingir até 1,5 m de diâmetro. A floração ocorre entre os meses de junho e setembro.

Originário da América do Sul (Andes), o gigante encontra-se naturalizado em algumas regiões do mundo, não se sabendo exatamente a data da sua chegada aos Açores e quem foi o responsável pela sua introdução.

Esta vistosa planta, que veio para cá para ser usada com fins ornamentais, é comestível e apresenta propriedades medicinais. Assim, os pecíolos das folhas são utilizados crus, em saladas, as folhas são usadas na preparação de um prato típico do arquipélago de Chiloé (Chile) e o caule é usado medicinalmente devido às suas propriedades adstringentes.

Todos os autores consultados são unanimes em considerar que o gigante se escapou ao cultivo nos jardins das Furnas, tendo o botânico sueco Erik Sjögren, no livro “Plantas e Flores dos Açores”, publicado em 2001, escrito que “a invasão da vegetação açoriana por esta nova planta exótica começou há algumas décadas. No entanto ainda é possível fazer alguma coisa para que não ocorra outro desastre, como foi a invasão pela conteira (Hedychium gardnerianum).

Naturalizado nos Açores desde 1966, o gigante, que estava circunscrito à zona oriental da ilha de São Miguel, devido a ser uma planta altamente competitiva já ocupa áreas muito grandes da ilha de São Miguel, não apenas da zona referida, mas também na zona ocidental, de que é exemplo a Serra Devassa, próximo da freguesia das Sete Cidades.

A dispersão desta invasora na ilha de São Miguel, pondo em risco a floresta nativa da ilha é um exemplo da negligência dos sucessivos governos regionais dos Açores que pouco ou nada fizeram para combater esta praga enquanto ela ocupava uma área muito mais pequena, apesar dos apelos dos cientistas e das organizações não governamentais de ambiente, como os Amigos dos Açores-Associação Ecológica.

Neste momento, acho que já será quase impossível a sua erradicação e o seu controlo é urgente, mas com custos muito mais elevados para os contribuintes do que os envolvidos se o combate fosse feito atempadamente quando surgiram os alertas.

Para avivar a memória dos mais esquecidos, recordo um comunicado, datado de 1991, da responsabilidade da direção dos Amigos dos Açores:

“… Já em 1989, os Amigos dos Açores alertaram as entidades oficiais, nomeadamente a Secretaria Regional do Turismo e Ambiente, para a necessidade de se desenvolver um efetivo, eficaz e urgente combate àquela infestante. Numa reunião havida em 4 de abril de 1990, voltamos a alertar a SRTA e a Direção Regional do Ambiente para o problema, tendo como resposta que o assunto estaria a ser tratado pela Secretaria Regional da Agricultura e Pescas e Universidade dos Açores.

Por outro lado, já algumas vezes foi tornada público a existência de uma verba disponível e afetada para o efeito, mas o combate àquela praga continua a não passar das secretárias …”

A confirmar a negligência governamental, no Açoriano Oriental, de 13 de outubro de 1991, o diretor dos Serviços Florestais, eng. Albano Salvador, afirmou o seguinte: “os serviços florestais já fizeram parte de uma comissão que nunca mais funcionou e que trata das plantas e árvores dentro das reservas e não fora delas”, tendo acrescentado que “os serviços, por sua iniciativa, estão a tentar, dentro do perímetro florestal, sendo o caso de uma área entre a Achada e a Algarvia, dar cabo da Gunera”.

No artigo intitulado «“Gigante” Ataca Pastagens e Vegetação Primitiva», Ana Paula Fonseca, jornalista que se interessava por abordar questões ambientais, dá a conhecer que, segundo declarações do eng. Albano Salvador, aqueles serviços estavam a ensaiar o combate àquela espécie com herbicidas, mas que ainda não havia resultados, pois a experiência havia começado há pouco tempo.

Pico da Pedra, 23 de dezembro de 2023

Teófilo Braga