terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Açucena


Açucena

A açucena (Lilium longiflorum Thunb.) é uma planta pertencente à família Liliaceae, oriunda do Japão e de Taiwan, mas que desde há muitos anos passou a ser cultivada em várias partes do mundo, tendo chegado a Inglaterra, em 1819, através de Carl Peter Thunberg, explorador, naturalista e botânico sueco.

Tal como muitas outras plantas não podemos indicar com precisão a data nem o nome de quem introduziu a açucena nos Açores, mas a açucena já fazia parte das plantas existentes na primavera de 1856, no Jardim de José do Canto, em Ponta Delgada, que havia sido criado 10 anos antes.

A açucena é uma herbácea ereta que pode atingir de 40 cm a cerca de 1 metro de altura. Apresenta folhas verdes lanceoladas e brilhantes e flores grandes brancas em forma de trombeta que surgem no verão.

Também conhecida como lírio-japonês, devido à sua origem, a açucena é tal como a rosa uma das mais apreciadas plantas ornamentais, sendo cultivada em filas ao longo de caminhos, muros, paredes, etc. ou em maciços.

A açucena já foi cultivada, nos Açores, com fins económicos, como se pode depreender de um anúncio publicado no jornal “A Folha”, fundado e dirigido pela feminista e defensora dos Animais Alice Moderno:

AÇUCENAS

Alice Moderno encarrega-se de exportar

açucenas para New York.

Fornece todas as informações

Rua do Castilho nº 1

Ponta Delgada

De acordo com um texto publicado no Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, nº 10, publicado em 1949, da autoria do Dr. António da Silveira Vicente, professor do Liceu de Antero de Quental e produtor de açucenas, em São Miguel cultivavam-se duas variedades a “Formosum” e a “Harrisii”.

De acordo com a mesma fonte, a plantação de açucenas deve ocorrer na primeira quinzena de outubro, sendo os bolbos colocados a uma distância de 20 a 25 cm e a colheita deve ser feita no final de julho ou início de agosto.

A beleza das suas flores faz com que a açucena seja muito usada para ornamentação das casas de muitos açorianos e é a flor rainha na ornamentação em algumas festividades religiosas que ocorrem em todas as ilhas dos Açores.

Na minha infância e juventude, lembro-me sempre de ver no meu quintal e em algumas terras que meu pai cultivava, nomeadamente na Courela, na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, pelo menos um rego de açucenas que serviam para ornamentar a casa de meus pais e de alguns familiares ou para oferecer aos mordomos do Espírito Santo.

A açucena é alvo da escrita de vários autores. Por assemelhar a várias quadras da cultura popular açoriana, transcrevo uma da brasileira, recolhida por João Simões Lopes Neto:

Açucena quando nasce,

Arrebenta pelo pé:

Assim arrebenta a língua

De quem diz o que não é.

Teófilo Braga

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Perrexil


Perrexil

O perrexil, perrexil-do-mar ou funcho-do- mar (Crithmum maritimum L.) é uma planta da família Apiaceae, nativa das costas do mar Mediterrâneo e do Atlântico europeu, das Canárias, da Madeira e dos Açores, existindo em todas as ilhas açorianas.

O perrexil é uma planta herbácea de porte pequeno, podendo atingir 50 cm. E uma planta suculenta com folhas carnudas, lanceoladas e acinzentadas. As flores apresentam-se em umbelas terminais com pétalas verde-amareladas. Os frutos são ovoides amarelados.

O perrexil encontra-se preferencialmente em zonas supralitorais rochosas, geralmente até aos 20 m de altitude.

Utilizado desde os primeiros tempos do povoamento dos Açores, Gaspar Frutuoso no capítulo XLII do livro IV das Saudades da Terra, ao descrever o litoral da Lagoa, ilha de São Miguel, fez referência ao perrexil nos seguintes termos:

Deste lugar donde saíram os franceses a dois tiros de besta, correndo a costa direita, está uma pequena ponta que por ser alta se chama o Muimento, onde há muito perrexil;

Indo dali para loeste, está o biscoutal grande, em comparação dos outros pequenos, seus vizinhos, que terá légua de comprido por aquela costa, toda de pedra de biscouto seco e raso, com o mar, sem rocha nenhuma alta, onde se acha muito perrexil, agradável e apetitoso manjar para enjoados e famintos no mar, e fartos e enfastiados na terra; e pela banda da terra, vinhas e pomares ornados com quintas e casas alvas, antre sua fresca verdura, com que fica todo aquele sítio muito aprazível à vista de quem o vê e muito mais deleitoso a quem o goza.

Durante as navegações já se conheciam as propriedades curativas do perrexil de modo que a planta era usada para combater o escorbuto.

De acordo com o médico Acúrcio Garcia Ramos, no seu livro “Noticia do Archipelago dos Açores e do que ha mais importante na sua história natural”, publicado em 1871, costumava “servir-se nas mesas em conserva de vinagre”.

Em 1884, António Borges do Canto Moniz, ao escrever sobre a flora e fauna da ilha Graciosa faz referência ao perrexil nos seguintes termos: “encontra-se grande abundância d’esta planta nas rochas e vinhas próximas do mar, e d’ella fazem os graciosenses apreciável conserva.”

Na página “Produtos Tradicionais Portugueses” da Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural, apresenta o modo de preparar o perrexil para uso na alimentação:

“Ingredientes utilizados: Perrexil; cebolinha; pimento vermelho; sal e vinagre.

Modo de preparação: Separar a flor da planta, deixando somente as folhas a reservar. Lavar as folhas, mergulhando-as em água por algum tempo para lhes retirar alguma sujidade e reservar. Descascar a cebolinha e reservar; cortar o pimento em tiras finas e reservar. Preparar os recipientes para conserva (frascos). Escorrer as folhas do excesso de água, e separá-las em pequenos galhos com três ou quatro folhas cada e reservar. Colocar os galhos dentro dos frascos, adicionar a cebolinha e o pimento vermelho, borrifar com um salpico de sal grosso. Encher os frascos com vinagre de vinho e fechar. O curtume está pronto a consumir quando a planta atingir a tonalidade verde azeitona, ou seja, um verde desmaiado, o que acontece entre os 15 e 30 dias, mínimo/máximo; retirar do recipiente e passar por água corrente.” (https://tradicional.dgadr.gov.pt/pt/)

O Dr. Oliveira Feijão, no livro “Medicina pelas Plantas” refere o uso das “folhas frescas em infuso ou cozimento…como diuréticas (gota, hidropisias, etc.)”.

Teófilo Braga

sábado, 10 de fevereiro de 2024

Ginco


Ginco

O ginco ou nogueira-do-japão (Ginkgo biloba L.) é uma espécie caducifólia, pertencente à família Ginkgoaceae, oriunda da China que é considerada um fóssil vivo, pois é contemporânea dos dinossauros.

O ginco é também conhecido como a árvore de Hiroxima, pois um exemplar da espécie sobreviveu à explosão atómica ocorrida naquela cidade japonesa em 1945, durante a Segunda Guerra Mundial, numa altura em que a Alemanha já estava derrotada, a Itália já se havia rendido e Hitler e Mussolini, já se encontravam no Inferno a pagar pelos seus pecados. Apenas restava o Japão que ainda resistia, mas já estava de joelhos.

Pelas 8 horas e 15 minutos do dia 6 de agosto um avião dos Estados Unidos lançou uma ogiva secreta, cujo resultado, segundo Ireneu Gomes, foi a morte de 78 150 pessoas só no primeiro segundo após a detonação da bomba, 13 983 desaparecidos e 130 mil pessoas mortas, ao longo dos anos, vítimas da radiação.

O ginco foi dado a conhecer ao ocidente através do médico e botânico alemão Engelbert Kaempfer que foi quem primeiro descreveu a espécie e possivelmente a introduziu na Europa.

Em Portugal continental é cultivada em Parques e Jardins, sobretudo no Norte e Centro, destacando-se pelo seu porte um exemplar existente no Parque das Virtudes, na cidade do Porto.

Não possuindo dados para afirmar quem e quando terá sido introduzido o ginco nos Açores, sabe-se que a espécie já existia na primavera de 1856 no Jardim José do Canto.

Nos Açores surge, também em vários parques e jardins públicos e privados, sendo na ilha de São Miguel possível a sua observação no Jardim do Palácio de Santana, no Pinhal da Paz, no Jardim da Universidade, no Jardim da Escola Secundária das Laranjeiras, no Parque Terra Nostra, no Viveiro Florestal das Furnas, no Jardim do Piquinho, nas Furnas, na Mata-Jardim José do Canto-Lagoa das Furnas e na Mata do Dr. Fraga, na freguesia da Maia e nos espaços ajardinados da Fábrica de Chá da Gorreana.

O geógrafo madeirense Raimundo Quintal, num texto intitulado “Árvores monumentais nos jardins, parques e matas de São Miguel-Proposta de classificação”, publicado em 2019, defendeu que fosse classificado como de interesse público o conjunto de gincos da Alameda dos Gincos do Parque Terra Nostra.

O ginco é uma árvore dioica que, em média, atinge os 40 m de altura e que apresenta uma copa cónica ou piramidal. O seu ritidoma é espesso e fendido e apresenta uma coloração castanho-acinzentado. As suas folhas são flabeliformes, podendo ser inteiras ou bilobadas, de cor verde-claro, tornando-se douradas no outono. O período de floração ocorre no mês de maio. Não produz frutos, mas apenas sementes globosas por vezes ovoides que amarelecem com uma pruína acinzentada.

O ginco foi considerado uma árvore sagrada. Na China e no Japão é plantado próximo de templos ou no lugar de templos desaparecidos.

Devido à sua grande resistência à poluição, o ginco é muito usado como planta ornamental em arruamentos. A sua madeira é usada na construção de móveis, o seu ritidoma é utilizado para curtimentas e os “frutos” são usados na alimentação e com fins medicinais. As folhas também são utilizadas para fins medicinais.

Embora haja algumas dúvidas acerca de alguns efeitos benéficos do uso do ginco, vários autores consideram que o mesmo pode melhorar o rendimento cerebral e a concentração, evitar a perda de memória, combater a ansiedade e a depressão, regular a tensão arterial, etc.

Sobre os usos etnomédicos e médicos do ginco, Cunha, Sila e Roque, no livro “Plantas e produtos vegetais em fitoterapia”, publicado pela Fundação Calouste Gulbenkian escrevem o seguinte:

“Em casos de diminuição do rendimento intelectual. Perda da memória, zumbidos, dores de cabeça e ansiedade devido a insuficiência vascular cerebral dos idosos. Claudicação intermitente. Demência senil tipo Alzheimer. Prevenção da arteriosclerose e da formação de trombos. Útil em cardiopatias isquémicas e na diabetes mellitus nomeadamente nas complicações vasculares.”

Teófilo Braga

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Marmeleiro


Marmeleiro

Os marmelos, que eram conhecidos pelos gregos pelo menos desde o século VII a. C., foram considerados como um dos frutos mais úteis, sendo utilizados na medicina popular devido à sua adstringência.

Em 1884, António Borges do Couto Moniz numa descrição que faz da ilha Graciosa menciona que naquela ilha existem muita abundância de marmeleiros, “que se exportam milhares de marmelos para as ilhas de S. Miguel e Terceira”.

O marmeleiro ou marmelo (Cydonia oblonga Mill.), pertencente à família Rosaceae, é uma planta originária do sudoeste e centro da Ásia, sendo cultivado em quase todo o mundo, especialmente em regiões de clima mediterrânico.

O marmeleiro chegou aos Açores nos primeiros anos do povoamento das ilhas, como se pode comprovar através da leitura das Saudades da Terra. Com efeito, ao descrever a costa sul da ilha de São Miguel, Gaspar Frutuoso, menciona a existência, em São Roque, de várias fruteiras:

“…porque tem um rico e grande pomar, com cento e sete grandes laranjeiras, todas arruadas por boa ordem, e um pinheiro de grande sombra e muitos limoeiros, limeiras, cidreiras e outras muitas fruteiras, de toda sorte de boa pomage, e diversas enxertias novamente feitas, pereiros, albricoqueiros, macieiras, marmeleiros, figueiras e amoreiras, tanta cópia que, do sobejo e podado, sustenta quase todo o ano a sua grande casa de lenha; grande vinha com seu lagar e casa; batatal, horta de toda a hortaliça, onde se criam muitos galipavos, patos e galinhas, em grande número;…”

Trata-se de uma árvore ou arbusto que pode atingir, em média, 4 m de altura, de folhas caducas e ovais e flores hermafroditas brancas ou ligeiramente cor-de-rosa. Os frutos são em forma aproximada de pera, de cor amarelo-dourado, quando maduros, e polpa áspera e muito aromática.

O marmeleiro, que pode ser plantado de outubro a março e prefere terras ricas e permeáveis, segundo Henrique de Barros e L. Quartim Graça, no seu livro “Árvores de Fruta”, multiplica-se “por mergulhia ou por meio de estacas que se obtêm os porta-enxertos para variedades de qualidade. No que diz respeito a podas, os mesmos autores escrevem o seguinte: “Deve ser muito moderada, não passando de simples limpeza no Inverno para equilíbrio e arejamento da copa que é muito ramificada.”

É cultivado para a produção de frutos que apesar de poderem ser comidos em fresco, devido à sua polpa áspera, é aconselhado o seu uso na preparação de compota ou marmelada.

Augusto Gomes no seu livro Cozinha Tradicional da Ilha Terceira apresenta a receita de “doce de marmelo” que a seguir se transcreve:

“Descascados os marmelos, pesam-se e deitam-se em água fria para não ficarem escuros, e em seguida cozem-se. Depois de cozidos, ralam-se e vão ao lume em um tacho com o mesmo peso de açúcar, deitando-lhe um pouco de sal, e deixando ferver até atingir o ponto de rebuçado.”

Numa brochura publicada nos primeiros anos do século XX, da autoria de Rosa Maria, intitulada “Cem maneiras de fazer doces económicos”, a autora explica como fazer geleia de marmelo. Segundo ela:

” A geleia de marmelo aproveita-se sempre dos desperdícios dos marmelos quando se faz a marmelada. Fervem-se as pevides, cascas e outros restos que ficaram na peneira, aproveitando a água que cozeu os marmelos. Depois de tudo bem fervido côa-se por um pano, mede-se depois e por cada medida de litro junta-se um quilo de açúcar; leva-se ao lume, estando pronta, logo que, deitando-se um pouco num pires e abrindo com um dedo o caminho, esse rasto permaneça”.

Entre outras utilizações, o Dr. Oliveira Feijão (1986) menciona o uso da “geleia de marmelo” como “alimento tónico e reconstituinte de crianças, convalescentes, doentes de peito, etc.”

Teófilo Braga

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Costela-de-adão


Se é verdade que a costela-de-adão é uma planta ornamental muito conhecida entre nós não será menos verdade dizer que muito poucos conhecem o agradável sabor do seu fruto que para a princesa Isabel (1846-1921), filha do Imperador D. Pedro II do Brasil, era o melhor de todos.

A costela-de-adão, banana-d’água, filodendro, banana-de-macaco ou fruto-delicioso, na Madeira (Monstera deliciosa Liebm.), é uma planta pertencente à família Araceae, nativa da América Central e cultivada em todo o mundo, sobretudo em regiões tropicais e temperadas.

A designação científica da planta é explicada por João Santos Costa, na página Web da revista Jardins, do seguinte modo:

“O epíteto específico do seu nome deliciosa significa “delicioso”, referindo-se objetivamente ao seu fruto comestível e enormemente apreciado por todo o mundo, sendo que o seu género, Monstera, tem origem na palavra latina com tradução de “monstruoso” ou “anormal” e refere-se às folhas incomuns com buracos naturais que os membros do género têm, chamadas tecnicamente fenestrações.” (https://revistajardins.pt/)

A costela-de-adão é uma planta trepadeira, facilmente identificável pela forma e tamanho das suas folhas que são muito grandes, cordiformes, perfuradas e com longos pecíolos. O caule é lenhoso, podendo atingir até 3 m de comprimento. A suas flores, que surgem durante todo o ano, são esbranquiçadas e muito aromáticas. Os frutos são verdes, em forma de pinha alongada e quando maduros apresentam aroma a banana-ananás.

Nos Açores, é cultivada ou encontra-se naturalizada no Faial, Flores, Graciosa, Pico e São Miguel, surgindo na floresta de incenso, ravinas, locais incultos, geralmente abaixo dos 300 m de altitude.

O seu valor ornamental foi reconhecido por José do Canto que ao construir o seu jardim em Ponta Delgada, incluiu a costela-de-adão entre as plantas que lá colocou. Assim, em 1856, faziam parte da lista das plantas existentes naquele espaço a Monstera linnei e a Monstera pertusa.

Mais tarde, em 1868, os mesmos taxa faziam parte de uma lista de plantas, de José do Canto, multiplicadas em maior número, disponíveis para doação ou permuta.

A costela-de-adão é muito usada como planta ornamental de interior e existe em vários jardins, tanto públicos como privados, como o Jardim António Borges ou o Jardim José do Canto, em Ponta Delgada.

Os seus frutos quando bem maduros são comestíveis e muito deliciosos. Podem ser comidos frescos isoladamente ou em salada de frutas. Por conterem uma elevada percentagem de oxalato de cálcio os frutos verdes ou não completamente maduros não devem ser consumidos, pois podem provocar irritações na garganta.

Yolanda Corsépius, no seu livro “Algumas Plantas Medicinais dos Açores”, na segunda edição, de maio de 1997, menciona o uso medicinal de 40 g das folhas secas, em decocção num litro de água durante 5 minutos. A mesma autora apresenta as seguintes recomendações: “Para se comer o polme do fruto- doce, carnudo e laxante- deve apanhar-se o fruto maduro e deixar que os discos da cobertura caiam espontaneamente. Come-se o polme com o auxílio de um garfo.”

Vieira, Moura e Silva (2020) referem que as folhas e os frutos da costela-de-adão são usados medicinalmente, pois possuem as seguintes propriedades: antiartrítica, antirreumática e laxante.

Teófilo Braga

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Reflexões a propósito de “O Sargento Tavares: Memórias do Meu Avô”


Reflexões a propósito de “O Sargento Tavares: Memórias do Meu Avô”

Antes de mais, os meus parabéns ao Júlio Tavares Oliveira por mais uma publicação que tem um cunho especial, pois trata-se de uma homenagem ao seu avô António Tavares na altura certa, isto é, em vida do homenageado.

A iniciativa de Júlio Tavares Oliveira é louvável numa altura em que muitas vezes se ignora quem é digno de ser reconhecido pelo seu contributo à sociedade em que está inserido e se homenageia quem não merece, isto é, “homens [e mulheres] insignificantes que conhecem a arte de adornar-se com o mérito dos demais, dos desconhecidos e esquecidos pela história, que são na realidade os que fazem a história” (Rudolf Rocker).

Não vou abordar com pormenor, todo o conteúdo do livro, que já foi dado a conhecer através de entrevistas e reportagens publicadas na comunicação social. Limitar-me-ei a destacar alguns aspetos que de algum modo me marcaram ou suscitaram a minha reflexão:

1- A guerra colonial;

2- Salazar, o ditador solidário;

3- Salgueiro Maia e o 25 de Abril de 1974;

4- A cultura musical e a igualdade de género;

5- A partidarite uma “doença” que nos persegue.

1- A guerra colonial

Um tema que me é querido, pois vivi a minha juventude com o medo de ter de ir parar à guerra colonial, depois de ter assistido aos funerais de dois professores primários que lecionaram na minha escola, um da Ribeira das Tainhas e outro da freguesia de São Miguel, e de um outro jovem, meu vizinho que morava na Ribera Seca de Vila Franca do Campo.

Em relação à Guerra Colonial que ocorreu entre 1961 e 1974 e que estaria perdida na Guiné e impossível de ganhar em Angola e em Moçambique, não podemos esquecer os 600 mil jovens mobilizados, os treze mil mortos e os milhares de feridos.

O relato do assassinato de um nativo, em Angola, por parte de António Tavares, apenas porque um militar português não quis ter o trabalho de o vigiar, fez-me lembrar os massacres de populações indefesas cometidos pelas tropas coloniais, de que é, talvez, mais conhecido o de Wiriyamu, ocorrido em Moçambique, em 1972, onde pelo menos 385 pessoas foram assassinadas.

Só a ganância de alguns que se dizem humanos justifica a guerra. A guerra é um crime contra a humanidade.

2- Salazar, o ditador solidário

A hipocrisia de Salazar manifestou-se num episódio relatado pelo Júlio Oliveira. Com efeito, o ditador ofereceu uma viagem de barco a uma pessoa que não via os pais há alguns anos por terem sido deportados pelo seu regime para Angola.

Pelo conhecimento que tenho, Salazar mais do que solidário foi caridoso, isto é, satisfez alguns pedidos dos mais desfavorecidos, mas não tomou medidas a sério para combater a pobreza. Recordo que, em 1950, Salazar ofereceu a uma jovem da Povoação, cujo pai estava desempregado, uma máquina de costura. Tal ato não respeitou o terá dito Jesus: "Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita", pois a sua atitude foi amplamente relatada pela comunicação social micaelense na altura.

Mas Salazar também recebeu milhares de cartas de amigos, ministros e figuras ilustres do Estado Novo a mendigar lugares e favores que satisfazia. Tudo era motivo de pedido, desde um cargo, uma promoção, uma casa em Lisboa e até tinha uma palavra “em casos de crime, violência e adultério envolvendo figuras notáveis da sociedade.” (“Salazar Confidencial” Marco Alves, 2023)

3- Salgueiro Maia e o 25 de Abril de 1974

Do contato de António Tavares com várias personalidades que ficaram na nossa história, destaco a figura de Salgueiro Maia que foi um militar injustiçado.

Já li muito sobre a presença do capitão de abril; Salgueiro Maia, na ilha de São Miguel, nomeadamente que desafiou alguns elementos da FLA e que procedeu ao arranque de bandeiras e estandartes daquela organização, recorrendo a petardos para detonar as rochas onde eram colocados os tubos galvanizados onde aqueles símbolos se encontravam. O que não sabia era que, segundo se pode ler no livro de Júlio Oliveira, ele “quando estava de serviço no Quartel-General, como oficial de dia, porque normalmente as noites são divididas por vários homens, dispensava todos dos seus turnos noturnos, passando a noite toda, sozinho, de vigia ao quartel.”

Recordo que Salgueiro Maia poderia ter sido um alvo fácil de abater no Largo do Carmo, no dia 25 de Abril de 1974 e que por manter-se não alinhado relativamente a qualquer fação político-militar foi marginalizado e prejudicado na sua carreira. Um dos castigos foi a sua colocação em Ponta Delgada onde esteve entre 10 de março e 21 de dezembro de 1977.

Em 1988, também viu recusada, por um primeiro-ministro, uma pensão vitalícia do Estado por “serviços excecionais ou relevantes prestados ao país”. Por incrível que pareça pelas mesmas razões uma pensão veio a ser atribuída, mais tarde, a dois inspetores da PIDE.

4- A cultura musical e a igualdade de género

O livro de Júlio Tavares de Oliveira é também um livro de denúncia de quem pretende reescrever a história, mesmo que para tal recorra à omissão ou mesmo à mentira. Assim, ficamos a saber que através do livro “A Joia da Arte Musical da Lagoa”, que devia retratar fielmente a história da Sociedade Filarmónica Estrela D´Álva,, alguém teve a ousadia de afirmar que António Tavares tinha sido responsável pela má gestão financeira e pela “insolvência” da filarmónica.

Outro aspeto que me chamou a atenção, foi a abertura das atividades da filarmónica pela primeira vez às raparigas, no tempo em que António Tavares presidiu à sua direção.

5- A partidarite “uma doença que nos persegue

António Tavares também foi vítima da partidarite que reina na nossa terra. Com efeito, Júlio Tavares Oliveira relata que o seu avô, depois de ter servido com dedicação, como vereador, a população do seu concelho, foi “marginalizado” e viu a sua ação boicotada pelos detentores do poder autárquico por querer o melhor para a sua terra, independentemente das opções partidárias. Tal aconteceu depois de ter afirmado num café que conhecendo muito bem as qualidades de um determinado candidato a uma Assembleia de Freguesia iria votar nele e não no candidato indicado pelo Partido Socialista.

Termino agradecendo ao Júlio Tavares Oliveira por me ter proporcionado a leitura deste livro que me fez voltar à minha juventude e refletir sobre um período da história de Portugal e dos Açores que vivi intensamente: o fim do Estado Novo, o Golpe militar do 25 de Abril de 1974 e o PREC. Fiquei mais rico, pois também somos fruto do que lemos.

Ribeira Seca de Vila Franca do Campo e Pico da Pedra, 4 de fevereiro de 2024

Teófilo Braga

domingo, 4 de fevereiro de 2024

Vidália


Vidália

A vidália é considerada por alguns autores a mais “importante” das espécies endémicas dos Açores, sendo a única espécie do seu género.

A vidália é um pequeno arbusto perenifólio que pode atingir cerca de 1,5 m de altura, possuindo folhas glabras, lanceoladas a lineares, de cor verde-escura ou verde- acastanhado. As flores, que surgem de março a setembro, têm a forma de sinos e são brancas a cor-de-rosa.

O seu nome científico é Azorina vidalii (H. C. Watson) Feer e pertence à família Campanulaceae.

Virgílio Vieira, Mónica Moura e Luís Silva, no seu livro “Flora Terrestre dos Açores”, editado pela Letras Lavadas edições, em 2020, sobre esta espécie escreveram o seguinte: “Estudos moleculares recentes demonstraram que esta planta pertence ao género Campanula, tal como originalmente foi proposto por H.C.Watson”, botânico inglês, pioneiro da biogeografia e da ecologia vegetal que visitou os Açores em 1842, onde colheu plantas para herbários de várias instituições científicas e para o seu.

A designação vidalii foi atribuída por Watson em homenagem ao capitão da marinha real britânica Alexander Thomas Emeric Vidal (1792 – 1863), responsável pelo levantamento hidrográfico dos Açores, entre 1841 e 1845.

Sobre o trabalho realizado por pelo capitão Vidal nos Açores, na Wikipédia (1) podemos ler o seguinte:

Para além do levantamento hidrográfico e de defesa das ilhas, as expedições do Capitão Vidal permitiram a realização de alguns estudos de história natural. Entre os estudos realizados, contam-se os trabalhos de herborização e pesquisa botânica de Hewett Cottrell Watson, levados a cabo durante a campanha que teve lugar de Maio a Setembro de 1842. Tais trabalhos originaram a publicação de várias listas das plantas existentes nos Açores, posteriormente consolidadas no capítulo sobre botânica (intitulado Botany of the Azores), escrito por Watson e inserto na obra Natural History of the Azores or Western Islands, editada em 1870 por Frederick du Cane Godman.

A vidália encontra-se sobretudo junto ao litoral, em arribas costeiras, praias de calhau rolado ou areia. Também pode ser encontrada em zonas urbanizadas, nomeadamente em muros de pedra ou construções abandonadas.

Virgílio Vieira, Mónica Moura e Luís Silva (2020) sobre a distribuição nos Açores referem que a vidália existe em “todas as ilhas e ilhéus de Vila Franca do Campo (ilha de São Miguel) e da Praia (ilha Graciosa).

A presença da vidália no ilhéu de Vila Franca do Campo é recente e tudo leva a crer que terá sido introduzida por mão humana. Posso comprovar o referido, pois fiz vários levantamentos da flora existente naquele ilhéu, que como vila-franquense visitei várias vezes, e o professor Frias Martins não menciona a sua presença naquela área protegida em mais do que uma publicação sobre a mesma, de que é exemplo o seu livro “O Anel da Princesa”, publicado em 2004.

A vidália, que se encontra protegida pela Convenção de Berna e pela Diretiva Habitats, de acordo com o livro “Top 100. As cem espécies ameaçadas em termos de gestão da região europeia biogeográfica da Macaronésia” encontra-se ameaçada pelo que é sugerido, entre outras medidas, o ordenamento da zona costeira, o controlo de exóticas e campanhas de informação e consciencialização social.

A vidália está presente em vários jardins botânicos fora dos Açores, tendo tido a oportunidade de a observar na Quinta do Palheiro Ferreiro na ilha da Madeira, no dia 13 de agosto de 2002.

Apesar da beleza das suas flores, a vidália muito raramente é cultivada como planta ornamental, nos Açores, não havendo qualquer justificação para tal, pois não é exigente em termos de solos e multiplica-se muito bem por semente.

(1)https://pt.wikipedia.org/wiki/Alexander_Thomas_Emeric_Vidal

Teófilo Braga