quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Mariana Belmira de Andrade e Alice Moderno

Mariana Belmira de Andrade e Alice Moderno A professora primária Mariana Belmira de Andrade foi uma romancista e poetisa que nasceu, em São Jorge, no dia 31 de dezembro de 1844 e faleceu na mesma ilha no dia 17 de fevereiro de 1921. Dotada de uma inteligência excecional, segundo Alice Moderno, Mariana de Andrade foi para aquela escritora “uma distinta mulher de letras, que foi uma das boas mentalidades do arquipélago açoriano, bem privilegiado, aliás, sob o ponto de vista da intelectualidade dos seus habitantes.” Mariana de Andrade, que não frequentou qualquer estabelecimento de ensino secundário ou superior, segundo Alice Moderno “aprendeu quase sozinha a tocar piano e a ler e traduzir a língua francesa”. A sua vasta cultura deve-se também ao convívio com outros intelectuais, como João Caetano de Sousa e Lacerda e com a senhora Delfina Vieira Caldas, que foi perceptora dos filhos do Conselheiro José Pereira Silveira e Cunha. Os seus conhecimentos são devidos também, segundo Ilda Soares de Abreu, às leituras que fez de Vítor Hugo, Michelet, Gomes Leal e Antero de Quental. Mariana Belmira de Andrade casou-se, aos 34 anos, com António Maria da Cunha, não tendo o casamento sido feliz o que levou à separação dos dois logo após o batizado do único filho do casal, Inocêncio, cujo nome foi motivo de discórdia entre os progenitores. Alice Moderno, sobre este assunto, escreveu o seguinte: “Contava a ilustre poetisa que entre os cônjuges se travara acesa discussão, que foi até à pia batismal, tendo sido a contenda finalizada pelo pároco, que acedeu aos desejos do pai, objetando à mãe do neófito que: onde há galo não canta galinha.” Depois da separação, Mariana de Andrade foi para a ilha Terceira, onde obteve o diploma de professora primária, o que lhe permitiu obter os recursos para a sua sobrevivência, bem como a do seu filho. Mariana de Andrade foi autora de muitos poemas, publicados em vários jornais e revistas, entre os quais o jornal “A Folha”, dirigido por Alice Moderno, de que era sua hóspede aquando das suas viagens de e para Lisboa. Panteísta, Mariana de Andrade, depois do romantismo inicial, entusiasmou-se com as ideias republicanas e socialistas, tendo escrito poemas a exaltar o trabalho e os trabalhadores, como se pode constatar através do seguinte extrato de A Sibila: “Levanta-te plebeu! … Tu, aviltado, pobre, Tu és igual ao grande, ao potentado, ao nobre! … Tombam por sobre o nada os absurdos preitos, As velhas tradições, os velhos preconceitos, Onde o século destrói, esmaga n’um sorriso De zombaria e dó … Razão! … luz peregrina! Ó imortal farol que as almas ilumina! Levanta-te, plebeu! Se o nobre tem a espada, Herança dos avós, tu tens a dura enxada, A picareta, o escopro, a serra, o rijo malho! Eis teus troféus de glória, ó filho do trabalho!” Indignada com o regicídio que vitimou D. Carlos e D. Luís Filipe, Mariana Belmira de Andrade abandonou as suas ideias revolucionárias e reconciliou-se com a igreja católica. Sobre a sua desilusão com os republicanos, mal que também atormentou Alice Moderno, esta escreveu o seguinte: “Sonhara a revolução pela evolução e o derramamento de sangue acordou nela a sensibilidade feminina de que fora a primeira a duvidar. Poupou-lhe a morte o desgosto de ver que a Revolução, como Saturno, devorava os próprios filhos!”. Teófilo Braga (Correio dos Açores, 32287, 18 de novembro de 2020, p.14)

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Livros para os amantes das plantas

 


Livros para os amantes das plantas

 

Depois de ter editado em novembro de 2019, o livro “Árvores dos Açores - Ilha de São Miguel”, onde os interessados poderão recolher informação sobre 175 árvores que se distinguem pela sua monumentalidade, pelas suas flores vistosas ou por serem endémicas ou nativas, a editora Letras Lavadas acaba de editar o livro “Flora Terrestre dos Açores”, da autoria de Virgílio Vieira, Mónica Moura e Luís Silva.

 

De acordo com o professor convidado da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade dos Açores, José Batista, que é autor do prefácio, o livro da autoria de três investigadores da Universidade dos Açores “é uma valiosa obra de compilação para todos os que pretendam conhecer o valor ornamental das árvores, plantas herbáceas, suas flores e frutos, o seu potencial nutricional, assim como fitoterapêutico e sinergético de alguns dos seus componentes que nos ajudam a desafiar a herança genética e a prolongar a qualidade da longevidade”.

 

No livro cujo primeiro autor é Virgílio Vieira, que para além de ser doutorado em Biologia é um poeta de mérito, os leitores poderão ter acesso a informação sobre 284 das plantas conhecidas nos Açores, colocadas por ordem alfabética do seu nome científico. Para além deste, há também a indicação da família, do nome comum, o hábito, a época de floração, o tipo fisionómico, o tipo de dispersão e a utilização de cada uma das plantas.

 

Para além da qualidade gráfica e da preciosa informação disponibilizada, este livro vem preencher um vazio criado pela não disponibilidade de outros, editados anteriormente, no mercado livreiro, como “Plantas e Flores dos Açores”, da autoria de Erik Sjogren, e “Flora of the Azores”, de Hanno Schafer.

 

Com duas edições, o Livro “Plantas e Flores dos Açores” na sua segunda edição apresenta 95 plantas vasculares, sendo 17 da costa, 57 da floresta de louro-cedro e 21 introduzidas. 

Na introdução o seu autor, o botânico sueco, Erik Sjogren, chama a atenção para a diminuição da vegetação primitiva dos Açores, nos seguintes termos: “O impacto da atividade humana nas florestas da zona-de-nuvens fez diminuir consideravelmente as suas áreas, principalmente durante o século XX. Houve uma contínua redução, em consequência da procura por madeira para combustível e construção, bem como das arroteias para implantação de novas pastagens.”

 

Profusamente ilustrado, tal como todos os restantes livros já referidos, o livro “Flora of the Azores”, do botânico Hanno Schafer, apresenta a descrição de 650 espécies da flora vascular. No livro é dado destaque às espécies endémicas e não são esquecidas as espécies invasoras que são uma grande ameaça para os ecossistemas do nosso arquipélago.

 

Recordo que o primeiro livro que comprei sobre botânica foi o “Catálogo das Plantas Vasculares dos Açores”, editado, em 1966, pela Sociedade de Estudos Açorianos Afonso Chaves, com o apoio das Juntas Gerais dos Distritos Autónomos de Ponta Delgada e Angra do Heroísmo, da autoria de Rui Teles Palhinha (1871-1957), natural de Angra do Heroísmo. Ainda hoje a ele recorro quando pretendo conhecer os nomes comuns de algumas plantas. O segundo livro que adquiri foi a primeira edição do livro já referido de Erik Sjogren, então com a descrição de 90 plantas, durante a minha presença na semana do Mar, na Horta, em 1984.

 

Outra obra que consulto amiúde e que também recomendo, é a “Iconographia Selecta Florae Azoricae”, com três fascículos publicados na década de 80 do século passado pela Direção Regional dos Assuntos Culturais da Secretaria Regional da Educação e Cultura da Região Autónoma dos Açores, da autoria de Abílio Fernandes e Rosette Batarda Fernandes.

 

Com estampas a preto e branco para cada planta, o texto contém, entre outros aspetos, informação sobre o nome científico, a família, uma descrição completa, informações relativas à ecologia, a sua distribuição nos Açores e geográfica geral, processos de disseminação, importância na flora açoriana e valor económico.

 

Boas leituras.

 

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 32281, 11 de novembro de 2020, p.14)

terça-feira, 3 de novembro de 2020

O dr. Lúcio Miranda e o encanto dos números

 



O dr. Lúcio Miranda e o encanto dos números

 

Em 2015, publiquei, neste jornal, um texto sobre o professor de matemática do Liceu Nacional Antero de Quental, atualmente Escola Secundária Antero de Quental, Lúcio Miranda, natural de Goa, que tinha uma predileção pelas artes, nomeadamente pela música. Foi fundador e vice-presidente da Academia Musical de Ponta Delgada e criou o “Centro de Estudos de Matemática e Física do Liceu Nacional de Antero de Quental.

 

Recentemente reli o seu texto “O encanto das Matemáticas”, publicado no Correio dos Açores, de 8 de outubro de 1932 que não perdeu atualidade. No texto de hoje, partilho com os leitores mais curiosos alguns dos conhecimentos que ele transmitiu e que para mim foram novidade.

 

A dado passo do seu texto, o Dr. Lúcio Miranda refere-se a Platão que manifestava tal predileção pelas matemáticas puras que dizia ser a Geometria “um método próprio de dirigir as almas para Deus”. E, querendo glorificar as harmonias da Natureza, tem esta síntese magnífica: «Deus geometriza eternamente»”.

 

Ainda sobre Platão, o Dr. Lúcio Miranda escreveu que tal foi a sua paixão pelos números que “levado pelo exagero da sua imaginação fantasista, chegou a conceber o número nupcial - aquele que havia de influenciar as consequências do matrimónio!”

 

Fomos tentar saber que número seria aquele e apenas encontramos dois textos na Internet. Segundo a resenha feita por Tassos Lycurgo a um trabalho de Glenn Erickson e Johun Fossa intitulado “Estudos sobre o número nupcial”, “Platão disse que o período de maior vigor do homem se dá dos 25 aos 35 anos de idade e das mulheres, dos 20 aos 40”. Tasso Lycurgo acrescenta que os autores mencionados concluem que “os filhos mais bem capacitados nasceriam, de acordo com a interpretação da passagem de Platão …. quando o pai tivesse 40 anos e a mãe, 30.”

 

De acordo com o distinto professor de Matemática que vimos referindo, “os números chegam a adquirir uma verdadeira personalidade aos olhos dos que lidam com eles. E na Aritmética aparecem, por isso, designações como a dos números amigos, primos entre si, perfeitos, abundantes e deficientes, exprimindo os laços de afinidade que os ligam aos outros ou as propriedades que os caracterizam.”

 

Como os números primos entre si eram os únicos que conhecia e que é do conhecimento da maioria dos alunos, pelos menos dos meus que estão no 8º ano de escolaridade, com recurso à internet, abaixo faço referência aos restantes.

 

Dois números são amigos quando um deles é igual à soma dos divisores próprios do outro, como por exemplo 284 e 220.

 

Para o nº 220 – 1+2+4+5+10+11+20+22+44+55+110= 284

Para o nº 284 – 1+2+4+71+142 =220

 

Um número é perfeito quando a soma dos seus divisores próprios é igual ao próprio número, como 28.

 

Para o nº 28 – 1+2+4+7+14 = 28

 

Um número é abundante quando é menor do que a soma dos seus divisores próprios, por exemplo o número 12

 

Para o nº 12 – 1+2+3+4+6 = 16

 

Por último, um número é deficiente se for maior do que a soma dos seus divisores próprios, como o número 10

 

Para o nº 10 – 1+2+5 = 8

 

No final do seu artigo o Dr. Lúcio Miranda referiu que havia duas disciplinas que inspiravam o terror aos alunos: o Latim e a Matemática. Hoje talvez seja a Físico-química e a Matemática.

 

Será que o modo como é ensinada a Matemática deste a mais tenra idade leva os alunos a se aperceberem da sua Perfeição, Harmonia e Beleza” ou faz com ao longo dos anos cresça a sua aversão à mesma?

 

Teófilo Braga

 

(Correio dos Açores, 32275, 4 de novembro de 2020, p.14)

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

O Padre Manuel Vicente e a paixão pelas flores

 



O Padre Manuel Vicente e a paixão pelas flores

 

Em textos anteriores associamos o padre Manuel Vicente à recuperação do Jardim António Borges, em 1922. O tema de hoje é a sua paixão pelas flores.

 

Não conhecendo qualquer escrito da sua autoria, este texto tem por base o livro de Breno de Vasconcelos, intitulado “Paz cinzenta …os Açores através de algumas figuras e episódios de uma época”, publicado em Lisboa, em 1979, e alguns jornais da época.

 

O Diário dos Açores de 17 de fevereiro de 1938 quando faz uma retrospetiva da vida do Padre Manuel Vicente recorda “as exposições de lindos crisântemos no Palácio Fonte Bela, atualmente Liceu Antero de Quental, e que marcaram duma forma bem vincante, com seu aspeto ao mesmo tempo de Jogos Florais”. De acordo com a mesma fonte, “eram certames a que acorria tudo quanto a Ilha tinha de mais distinto no campo intelectual e no meio social, sendo acolhidos com palpitante interesse pelo público”.

 

A paixão do padre Manuel Vicente pelas flores não foi esquecida no poema da autoria do poeta micaelense Francisco Espínola de Mendonça (1891-1944) escrito por ocasião do funeral daquele sacerdote e publicado no Correio dos Açores, do dia 17 de fevereiro de 1938. Abaixo transcreve-se um extrato:

 

Amou a Arte, as flores, a Poesia,

Votando-lhes profunda idolatria,

Um acendrado amor.

Sacerdote bondoso, tolerante.

Na família um exemplo edificante:

-Amigo e Protetor

Amarilis, crisântemos, as flores

A que mais consagrou os seus amores,

Cobriam-lhe o caixão.

E, curvadas, pendendo enternecidas,

Pareciam dizer-lhe agradecidas,

A sua gratidão.

 

Depois de referir que embora vivesse modestamente, sem fortuna própria, e que o padre Manuel Vicente “foi figura da alta sociedade micaelense, não propriamente pelos seus pergaminhos genealógicos, mas muito mais pelo seu espírito e afabilidade no trato”, Breno de Vasconcelos, no livro já mencionado, relata o seguinte:

 

“Não posso precisar em que local organizou uma primorosa exposição de flores, com entradas pagas.

 

Muitas pessoas afluíram a visitar a exposição e a admirar não só as raras espécies, como a elegância com que as mesmas se encontravam dispostas.

 

O Bispo da diocese, nessa altura, estava de visita em São Miguel. Convidado a visitar esta exposição, o Bispo apreciou devidamente o bom gosto do padre Vicente e também as espécies florícolas. Ao despedir-se perguntou a que se destinava o produto daquela exposição. O expositor, muito diplomaticamente e com um sorriso reverenciado, respondeu que a receita revertia exclusivamente a favor da cozinha económica do padre Manuel Vicente …da sua própria e bem necessitada cozinha”.

 

Não se fique com a ideia de que todas as iniciativas do Padre Vicente eram realizadas para benefício do próprio. Com efeito, entre outras ações, organizou com fins caritativos “A Coroação da Menina do Asilo” para apoio ao Asilo da Infância Desvalida.

 

Com os seus projetos, o Padre Vicente conseguia mobilizar a comunidade para ajudar os mais necessitados, tendo sido a Cozinha Económica, de que foi secretário, a instituição que mais beneficiou da sua dedicação.

 

Teófilo Braga

 

(Correio dos Açores, 32269, 28 de outubro de 2020, p.14)

 

terça-feira, 20 de outubro de 2020

José Henrique Borges Martins, o Ferreirinha das Bicas e o Bravo

 



José Henrique Borges Martins, o Ferreirinha das Bicas e o Bravo

 

Hoje, faço uma singela homenagem ao poeta terceirense José Henrique Borges Martins e a dois improvisadores da ilha Terceira que ele tão sabiamente acarinhou e de algum modo os imortalizou, Francisco Ferreira dos Santos (o Ferreirinha das Bicas) e Manuel Borges Pêcego (o Bravo).

 

José Henrique Borges Martins que comigo esteve presente em diversas reuniões, onde um grupo de cidadãos preparou a criação, em Angra do Heroísmo, de um jornal independente dos poderes instalados, o “Directo”, que foi dirigido pelo meu colega da Escola Secundária Padre Jerónimo Emiliano de Andrade, António Neves Leal, foi um poeta de mérito e um destacado investigador da cultura popular, tendo, entre outos, publicado trabalhos sobre os cantadores e improvisadores populares e sobre crendices e feitiçarias.

 

Para além de dar o seu contributo ao “Directo”, Borges Martins, que combateu o Estado Novo com a sua poesia, colaborou com o extinto jornal “A União” e com o “Jornal da Praia”.

 

Com os livros “Cantadores e improvisadores da ilha Terceira”, de 1984, e “Improvisadores da Ilha Terceira. suas vidas e cantorias”, de 1993, Borges Martins homenageou alguns heróis do povo, os cantadores populares.

 

De entre eles, destacamos o Ferreirinha das Bicas que terá sido, segundo alguns, o maior de todos e o Bravo que foi um homem livre e que por isso teve problemas com as autoridades por dizer verdades que as incomodavam.

 

Sobre o Ferreirinha das Bicos, existe uma brochura que foi editada pela Cooperativa Semente, em agosto de 1978, no âmbito de uma homenagem que lhe foi prestada. Segundo aquela organização, a “cultura popular está em perigo” por isso “é necessário e urgente não deixar esquecer, não deixar que matem, que apaguem o que de mais belo temos. O que é verdadeiramente nosso património.”

 

O Ferreirinha das Bicas nos seus improvisos mostrou preocupações sociais e denunciou as desigualdades e a sociedade hipócrita onde vivia.

 

As duas quadras abaixo ilustram bem o pensamento do seu autor:

 

Vai preso quem rouba um pão

Por sua necessidade,

Mas quem rouba meio milhão

Passeia pela cidade

 

Eu conheço falsos sábios

Que pregam religião

Que mostram Cristo nos lábios

E o diabo no coração

 

A temática das desigualdades sociais também foi por diversas vezes abordada por Manuel Borges Pêcego. Para além de ilustrar a sua condição social, a quadra abaixo revela o seu espírito crítico:

Fui pagar a contribuição,

Mas não foi com dinheiro falso,

P’ra calçar tanto ladrão

Que por mim, ando descalço

 

O Bravo teve problemas com a polícia que o mandou internar na casa de saúde de São Rafael. A causa terá sido uma quadra dita em frente à cadeia, onde denunciou as injustiças existentes neste mundo:

Oh, como esta vida é feia

Presos, meditai a fundo.

Só nunca vão à cadeia

Os maiores ladrões do mundo.

 

Teófilo Braga

                                                                        (Correio dos Açores, 32263, 21 de outubro de 2020, p.17)

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Maria Mendonça

 



Sobre Maria Mendonça

 

Já há algum tempo havia pensado conhecer melhor a vida e a obra da escritora e jornalista Maria Mendonça, mas só agora decidi fazê-lo, depois de uma pessoa residente no Nordeste me ter chamado a atenção para o facto dela nas suas conversas fazer referência à obra e vida da multifacetada Alice Moderno que continuo a investigar.

 

Maria da Trindade de Mendonça, natural de Nordeste, nasceu a 16 de fevereiro de 1916 e faleceu na mesma localidade no dia 28 de fevereiro de 1997, depois de ter vivido uma parte significativa da sua vida, 35 anos, na Ilha da Madeira.

 

Tal como Alice Moderno, Maria Mendonça foi mulher que “tocou vários instrumentos” ou que teve “sete ofícios”, pois para além de se dedicar ao jornalismo e à cultura, foi também uma mulher de negócios.

 

Tendo começado a escrever para os jornais aos 16 anos, Maria Mendonça foi correspondente de vários jornais portugueses.

 

Na área do jornalismo, destacamos a sua passagem pelo jornal “Eco do Funchal” de que foi chefe de redação e depois diretora. Maria Mendonça introduziu alterações no jornal, como a inclusão de novas seções culturais e recreativas o que levou a que o mesmo passasse de semanal a trissemanal.

 

Sobre os escritos de Maria Mendonça no “Eco do Funchal”, João Carlos Abreu, no Correio dos Açores, de 7 de junho de 2020, escreveu o seguinte: “enfrentado a censura da altura, ela chamava a atenção dos governos de Lisboa de sofrerem de amnésia em relação às duas ilhas atlânticas, criando-lhes claustrofobia, promovendo-lhes o atraso.”

 

Maria Mendonça esteve também ligada ao jornal o “Re-Nhau-Nhau” que, de acordo com informação constante da página web da Direção Regional do Arquivo e Biblioteca da Madeira, “marcou presença na imprensa regional madeirense pelo seu carácter caricaturista e humorístico. As caricaturas, bem como o conteúdo satírico, pretendiam denunciar as diferenças existentes nas várias camadas sociais e o período político conturbado que se vivia nessa altura”.

 

Na área dos negócios Maria Mendonça foi sócia da escritora Natália Correia e do marido Alfredo Machado numa empresa que explorava um estabelecimento comercial de nome “Rodapé” que, na Rua do Salitre, em Lisboa, vendia móveis e antiguidades.

 

Na Madeira, em 1972, Maria Mendonça comprou o estúdio de uma família de fotógrafos que em 1979 foi adquirido pelo Governo Regional da Madeira que, em 1982,  o transformou no Museu Vicentes.

 

No quintal do estúdio referido, localizado na Rua da Carreira, durante alguns anos funcionou o restaurante-esplanada “O Pátio”, onde Maria Mendonça promoveu encontros literários e tertúlias que contaram com a presença de algumas personalidades da oposição ao regime político da altura, não agradando à Censura e à PIDE, como a escritora Maria Lamas que era próxima do Partido Comunista Português ao qual aderiu depois de 25 de Abril de 1974, e da escritora  Etelvina Lopes de Almeida, colaboradora de Maria Lamas em alguns projetos, opositora ao Estado Novo que mais tarde foi deputada na Assembleia Constituinte e na Assembleia da República pelo Partido Socialista.

 

Sobre o papel de Maria Mendonça na promoção da literatura e dos livros, Thierry Proença dos Santos escreveu o seguinte: “Depois de realizada a “Semana do livro Açoriano”, no Funchal, em 1951, pelo impulso de Rogério Correia e de Maria Mendonça, os mesmos organizam a “Semana do Livro Madeirense”, em 1953. É também nesse período que é criada a primeira Casa Editora na Madeira, a “Eco do Funchal” por iniciativa da açoriana Maria Mendonça. A mesma agente ergue em Lisboa, em 1954, aquando da 24.ª Feira do Livro, o pavilhão do “Livro Insular” que ocupou lugar de destaque”.

 

Autora de várias obras, destacamos “A Madeira Vista por Intelectuais e Artistas Portugueses”, de 1954, e “Férias nos Açores- Ligeiros Apontamentos”, sem data, “A Personalidade Multifacetada do Jornalista Manuel Inácio de Melo”, de 1984, e “Os Açores através da Saudade”, de 1991,

 

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 32257, 14 de outubro de 2020, p.17)

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

O Jardim António Borges ontem e hoje

 


Com os pés na terra (473)

O Jardim António Borges ontem e hoje

Em textos anteriores sobre o Jardim António Borges tenho escrito sobre o papel do Padre Manuel Vicente na sua recuperação em 1922.  Por esclarecer, está ainda o papel que desempenharam na altura o mestre Manuel de Oliveira (Panela) e seus irmãos.

 

Hoje, volto a escrever sobre o mesmo espaço verde, referindo algumas alterações nele introduzidas que mereceram a minha oposição no passado e no final apresento algumas sugestões para a dinamização do mesmo, nomeadamente por parte das escolas que lhe ficam próximas.

 

Um desdobrável editado recentemente informa que a Câmara Municipal de Ponta Delgada, em 1968-70, construiu um aviário, um recinto para macacos e uma cerca para uma zebra.

 

Após uma consulta ao meu arquivo, recordei que 10 anos depois a Câmara Municipal de Ponta Delgada, pretendeu (não recordo se o fez) ampliar as referidas instalações. Na ocasião manifestei a minha oposição, publicada no Correio dos Açores, de 23 de janeiro de 1987, nos seguintes termos: “ A ideia do senhor Presidente da Câmara de Ponta Delgada de “encher” o Jardim António Borges de diversas espécies animais com o objetivo de constituir um polo de atração para a população citadina, que passava a frequentar, com mais assiduidade, aquela zona verde e a gozar os benefícios daí advindos, foi colhida sem aparente oposição no meio local”.

 

No mesmo texto, depois de ter apresentado várias razões para a não manutenção de animais selvagens em cativeiro, defendi que “o Jardim António Borges deveria sofrer todos os melhoramentos possíveis e continuar, como até aqui, como Jardim Botânico. Basta o “espetáculo” degradante que nos é dado pelos “reclusos” que já lá estão.”

 

Em 1999, finalmente a Câmara Municipal de Ponta Delgada, através do vereador Melo Medeiros, numa reportagem publicada no Diário dos Açores, no dia 9 de julho, deu a conhecer que “as principais preocupações da atual vereação em relação a esses espaços verdes [Jardim António Borges, Jardim Antero de Quental, Jardim Padre Sena Freitas e Relvão] são a sua conservação, embelezamento, dignificação e segurança” e  reconheceu “que no passado foram introduzidos elementos estranhos e incompatíveis com a natureza do Jardim António Borges, como a de animais de grande porte” e “o parque infantil”. Na mesma reportagem, o vereador Melo Medeiros garantiu a manutenção do parque infantil “por razões sentimentais, por servir de espaço de divertimento a muitas gerações”.

 

Hoje, o parque infantil continua a ser uma das principais razões para a presença de pessoas no Jardim e por isso a sua manutenção em boas condições é fundamental, pois quanto maior for a presença humana menos espaço há para o vandalismo.

 

Imprescindível é também a tomada de medidas para a dinamização de atividades no jardim, como a realização de “peddy papers”, exposições temporárias ou permanentes, sessões para crianças e jovens, tendo como instalações as do antigo reservatório de água/cisterna que não estão a ser devidamente aproveitadas.

 

Por último, há que envolver as escolas localizadas nas proximidades, algumas das quais ostentam a Bandeira Verde do Projeto Eco-Escolas.

 

Para estas, não menosprezando as ideias dos seus docentes e alunos, sugiro a implementação de um projeto intitulado “Adote uma árvore” que poderia ter como objetivos gerais, entre outros, os seguintes: conhecer a importância das árvores para os ecossistemas e para a vida na Terra e colaborar no esforço de valorização dos espaços verdes da cidade.

 

Como tarefas a realizar, apresento as seguintes sugestões: a seleção de uma árvore e a localização num mapa do jardim, a criação de um “herbário” coletivo com as folhas das várias árvores escolhidas pelos alunos, a fotografia ou o desenho da árvore em diferentes estações do ano, a realização de uma pesquisa sobre cada planta que inclua a sua designação científica, o nome comum, a sua origem geográfica e a sua utilização.

 

Os trabalhos dos alunos, sob a forma de textos, cartazes, pequenas apresentações em “powerpoint” ou filmes, deverão ser sempre apresentados à comunidade, na escola ou no próprio jardim.

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 32252, 8 de outubro de 2020, p. 17)