quinta-feira, 28 de abril de 2016

O Padre Manuel António Pimentel


O Padre Manuel António Pimentel

Nascido na freguesia das Furnas, em 1939, na ilha de São Miguel, o Padre Manuel António Pimentel ordenou-se a 3 de junho de 1962, tendo depois ido para Roma, onde estudou Direito Canónico e Teologia Moral.

Depois de ter regressado à ilha Terceira foi, durante dois anos, professor do Seminário Maior de Angra do Heroísmo e em seguida esteve em São Miguel, durante três anos, onde foi Diretor Espiritual do Seminário Menor de Ponta Delgada.

Regressou à Terceira, voltando a lecionar no Seminário até ao ano de 1975, ano em que foi “expulso” daquela ilha, juntamente com outros três colegas (Padre Avelino Soares, Padre Olegário Paz e Padre António Moniz), por exigência de alguns lavradores terceirenses que se reuniram no Reguinho, no dia 18 de agosto daquele ano. A razão apresentada pelos lavradores para a transferência dos quatro sacerdotes “para fora dos Açores” foi a seguinte: “por estarem a fomentar o ódio no seio da comunidade católica desta terra”.

A sua ligação ao jornal O Trabalhador, a sua luta em prol dos pobres e oprimidos e os seus textos e entrevistas a vários órgãos da comunicação social terão sido a causa do pedido do seu afastamento por parte de alguns dos lavradores cujas reivindicações, na época, eram bastantes “politizadas”.

Sobre o seu pensamento em relação à sociedade açoriana após o 25 de Abril de 1974 transcreve-se, abaixo, um extrato de uma entrevista dada por ele ao jornal “República”:

“Parece que o 25 de abril está a representar para o povo açoriano a possibilidade e a esperança de “ser gente”, ouvida e respeitada nos seus direitos, e conseguir que a sua terra deixe de ser quinta útil a uma minoria de privilegiados e exploradores para ser a terra de todos.

Dada, porém, a despolitização existente o povo açoriano tornou-se presa fácil das manobras reacionárias que entrincheiradas, no medo e no anticomunismo, fazem crer que o 25 de abril não passou dum simples golpe de Estado. Em S. Miguel, por exemplo, o grau de despolitização e alienação é tal que o explorado chega, por vezes, a defender o próprio explorador”.

O Padre Manuel António Pimentel lutou ao longo da sua vida por uma sociedade mais livre e solidária, tendo-se empenhado no combate ao Estado Novo. Com efeito foi um dos subscritores da Declaração de Ponta Delgada, que mais não foi do que “a plataforma eleitoral com vista às eleições de 1969” e um dos dinamizadores da Cooperativa Sextante.

Sobre o combate ao Estado Novo, o Padre Manuel António explica, num texto publicado no livro “A oposição ao salazarismo em São Miguel e em outras ilhas açorianas (1950-1974) que o mesmo era mais do que a luta contra a ditadura pois tratava-se de “um projeto humanista e cultural, de cultura democrática e de anúncio da Boa Nova, a partir das aspirações profundas das chamadas camadas populares; um projeto que, na verdade, se aproximava muito das intensões fundamentais da teologia da libertação.”
Depois de 75, em França, o Padre Manuel António Pimentel trabalhou junto dos emigrantes portugueses, tendo nos anos oitenta sido assistente do Movimento dos Trabalhadores Cristãos.

Mais tarde, voltou a Portugal, onde foi pároco na diocese de Setúbal e, no ano 2000, por iniciativa do Bispo D. António de Sousa Braga regressou aos Açores, onde desempenhou a função de Vigário Episcopal para a Formação e, na delegação de Ponta Delgada, a de coordenador do Tribunal Eclesiástico.

Depois do seu falecimento a 10 de setembro de 2004, tem sido alvo de algumas homenagens. Assim, no dia 26 de janeiro de 2005, a Assembleia Legislativa dos Açores aprovou um voto de pesar pelo seu falecimento e a 14 de Setembro de 2014, em Setúbal, foi homenageado por amigos e colegas.

Teófilo Braga
( Correio dos Açores, 3092, 28 de abril de 2016, p.12)

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Gonçalves Correia


O sonho de Gonçalves Correia

O escritor Raul Brandão, muito conhecido entre nós pelo seu livro “As ilhas desconhecidas”, quando morreu, em 1930, deixou uma obra incompleta “Os operários” que, embora anunciada durante a sua vida, só foi publicada, em 1984, pela Biblioteca Nacional, com fixação do texto, notas, prefácio e introdução da responsabilidade de Túlio Ramires Ferro.

Para a sua obra Raul Brandão entrevistou o caixeiro viajante António Gonçalves Correia, que, em 1910, passou pela ilha de São Miguel e que segundo ele era “um revolucionário que quer levar a humanidade a uma vida mais perfeita e mais bela pela bondade”.

Gonçalves Correia foi um homem coerente com os seus ideais tolstoianos, tendo estendido o amor e a compaixão a todos os seres vivos, de tal maneira que na Comuna da Luz, que fundou, suprimiu da alimentação o consumo de animais e defendeu como primeiro passo o vegetarianismo para atingir a meta que era o crudivorismo.

Ainda em relação aos animais, um autor anónimo que escrevia para um jornal anarquista resolveu surpreender Gonçalves Correia em casa e ficou atónito ao “encontrá-lo com um jarro de água na mão, aguardando que algumas formigas saíssem do lavatório onde se queria lavar.

Outro episódio contado no mesmo jornal está relacionado com o facto de, perante a crise de trabalho, alguns trabalhadores rurais irem apanhar pássaros para depois os vender no mercado. Para que os animais não sofressem “Gonçalves Correia, quando se encontrava em Beja, ia ao mercado e, no centro da cidade, às portas de Mértola, comprava a passarada e, abrindo as gaiolas, punha os pássaros a voar em liberdade. Este ato era para ele uma grande alegria, ver os passaritos sair do cativeiro. Cofiando a barba, ria; ria até sair o último prisioneiro”.

Na Comuna da Luz, as crianças, também, eram ensinadas a “respeitar a vida dos animais e não os fazer sofrer”.

Para Gonçalves Correia o objetivo dos seus projetos, Comuna da Luz e Comuna Clarão era tolstoiano. O que pretendia era salvar as crianças das ruas e fazer delas pessoas honradas.

Sobre Gonçalves Correia, escreveu Raúl Brandão: “De maneira que Gonçalves Correia dá-me vontade de rir pela sua ingenuidade, pelo seu tolstoianismo – mas acaba por se me impor. Este homem, que pretende realizar um sonho, dá a esse sonho tudo o que ganha, e, apesar da guedelha, das considerações ingénuas, faz-me pensar”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30920, 27 de abril de 2016, p 15)
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terça-feira, 19 de abril de 2016

Algumas histórias pouco conhecidas da PIDE


Algumas histórias pouco conhecidas da PIDE

De acordo com o livro “PIDE, a história da repressão”, editado pela Jornal do Fundão, Editora, em junho de 1974, um dos grandes suportes do Estado Novo foi a polícia política que assumiu, ao longo dos tempos, os seguintes nomes: Polícia Especial, Policia Internacional Portuguesa, Polícia de Defesa Política e Social, Polícia de Vigilância e Defesa do estado, Policia Internacional e de Defesa do Estado e Direção-geral de Segurança.

De acordo com a mesma fonte, desde que aquela organização foi criada, para manter o regime ditatorial, mais de 200 mil pessoas colaboraram com as suas atividades, desde os inspetores, passando pelos simples funcionários administrativos e acabando nos informadores.

Para além da feroz perseguição às pessoas que tinham alguma intervenção cívica e política com ligações à oposição, a polícia política também chegou a ameaçar e a prender pessoas que de algum modo estavam ligadas ao regime em todo o território nacional.

Neste texto, apresentarei alguns exemplos ocorridos nos Açores ou com açorianos que demonstram a arbitrariedade da atuação da polícia política que perseguia, sem atender a idades e a opções políticas. Nalguns casos, omitirei os nomes, só referindo os mesmos quando os factos, de alguma forma, já tenham tido divulgação, quer na comunicação social, quer em livros.

Um jovem açoriano, com idade de 17 ou 18 anos, da ilha Terceira, que se envolveu no movimento associativo estudantil e em organizações oposicionistas viu a sua correspondência com os seus familiares ser violada e apreendida pela polícia política. Só teve conhecimento do facto, depois do 25 de abril, quando pediu para consultar o seu processo na PIDE/DGS.

Muitos outros poderão estar na mesma situação, mas para o saberem terão de solicitar autorização para consultar os seus processos.

Num concelho da ilha de São Miguel, um membro do partido que apoiava a ditadura, a ANP- Ação Nacional Popular, organização que sucedeu à União Nacional, acusou, não sabemos se com fundamento ou não, o presidente da Câmara Municipal de utilizar trabalhadores camarários na construção da sua casa. Foi obrigado a comparecer na PIDE por diversas vezes, onde foi alvo de vários interrogatórios.

Um dos poucos oposicionistas ao Estado Novo, nos Açores, foi o senhor António Guilherme Francisco, que foi cabo de mar e depois comerciante e industrial em Vila Franca do Campo.Tal como aconteceu com outros oposicionistas também foi perseguido pelo Estado Novo, nem sempre por razões políticas. O que lhe aconteceu, numa das vezes, está bem descrito no seguinte extrato publicado no livro “História dos Açores 1935-1974”, do Dr. Carlos Melo Bento:

“António Guilherme Francisco foi vítima de denúncias feitas por encomenda de rivais comerciais e sem mais nem menos a PIDE foi, um dia, algures em 1939, busca-lo a casa remetendo-o para o Forte de Angra do Heroísmo, onde um tribunal militar sumariamente o condenou a alguns anos de prisão. Mercê dos seus contactos junto da Seara Nova e da República, conseguiu que o seu caso fosse revisto e posteriormente considerado sem fundamento, pelo que o libertaram após uma detenção de 15 a 18 meses.”

Termino, apresentando o caso da prisão, pela PIDE, do Dr. Luís Bernardo Leite Ataíde e do filho, pertencentes a “uma família inquestionavelmente conservadora”, tão bem descrita, pelo Dr. Augusto de Ataíde, no livro “Percurso Solitário”.

De acordo com o autor referido, a prisão do pai e do avô deveu-se a um artigo publicado no Correio dos Açores “com criticas mal disfarçadas a prepotências das autoridades” e a outro tão bem exposto no extrato seguinte:

“ O Governador Civil tinha uma amante cuja família explorava um negócio ao qual o Correio dos Açores, na mesma linha desbocada, teceu críticas duras e, aparentemente, fundadas. Foi demais. A amante em fúria e prantos exigiu desforra! Acusados, pai e filho, da prática de delito antieconómico numa venda de chá, foram presos, sem mais conversas e com base num telegrama em que o segundo dizia ao primeiro que parecia possível negociar um bom preço junto de um comprador lisboeta... Foi o que bastou ao Governador, amante ofendido e dedicado: a referência a um «bom preço» era inquestionável prova de especulação...”

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 30915, 20 de abril de 2016, p.15)
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Uma ministra amiga dos animais


Uma ministra amiga dos animais

Numa conferência realizada recentemente, em Lisboa, na Assembleia da República, por iniciativa do PAN – Pessoas, Animais, Natureza, a Ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, defendeu que devia haver uma mudança no Código Civil de modo a que os animais deixassem de ser uma coisa e passassem a ser classificados como algo “entre uma coisa e um ser humano”.

Esta posição da ministra foi muito bem acolhida quer pelo partido promotor da iniciativa, quer pela esmagadora maioria das associações de proteção dos animais a nível nacional, desconhecendo-se qualquer reação por parte das organizações afins a nível regional.

Se se vier a concretizar a alteração referida, Portugal seguirá as pisadas de outros países europeus, como a Suíça, a Alemanha, a Áustria ou a França.

No caso da Áustria, de acordo com o advogado brasileiro Roberto Macedo, o Código Civil “dispõe expressamente que os animais não são objetos, são protegidos por leis especiais e as leis que dispuserem sobre objetos não se aplicam aos animais exceto se houver disposição em contrário”.

No caso da França, o Código Civil, alterado em Janeiro de 2015, segundo a mesma fonte afirma “que os animais são seres vivos dotados de sensibilidade”.

A posição da ministra portuguesa será similar ao que consta no Código Civil francês pois, segundo o Diário de Notícias, ela terá afirmado o seguinte: "É comum reconhecermos que muitos animais são dotados de uma vida mental consciente. Sentem prazer e sentem dor. Têm diversos tipos de experiências sensoriais, são capazes de sentir medo, ter fúria ou alegria, agem segundo memória, desejos e intenções".

Na mesma conferência a ministra reafirmou a sua posição favorável a uma maior proteção aos animais, citando o filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham que em relação àqueles dizia que não importava se pensavam ou não, o que importava é que sofriam.

Esperemos que os promotores da iniciativa de alterar o Código Civil tenham sucesso e que mais membros do governo pensem como a ministra que, diga-se em abono da verdade, não está muito bem acompanhada.


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30914, 19 de abril de 2016, p.15)

terça-feira, 12 de abril de 2016

Cuidado com as introduções


Cuidado com as introduções

No passado dia 4 de abril, a AAC- Associação Amigos do Calhau denunciou à Câmara Municipal de Ponta Delgada, à Junta de Freguesia de São Roque, à Direção dos Assuntos do Mar, à Brigada Sepna da GNR, à Policia Marítima e ao Parque de Ilha de São Miguel uma plantação ilegal de chorão trepadeira (Carpobrotus edulis) na Avenida do Mar, em São Roque.
O chorão trepadeira é uma planta originária da África do Sul, introduzida nos Açores com fins ornamentais, que facilmente se naturalizou, sendo uma invasora que facilmente ocupa o espaço das plantas nativas. Por este motivo está “incluído entre as cem espécies infestantes da fauna e da flora macaronésica determinadas como potencialmente mais perigosas no âmbito do projeto BIONATURA”.
Para além do mencionado, o texto da AAC refere que a legislação regional (Decreto Legislativo Regional n.º 15/2012/A, Regime jurídico da conservação da natureza e da proteção da biodiversidade) classifica o chorão como “um taxon com risco ecológico conhecido” e "prioritário para controlo ou erradicação".
Não sabemos que entidade procedeu às plantações e quem as mandou retirar pouco tempo depois, mas, uma coisa é certa, não deviam ignorar a legislação e deviam ter conhecimento que a AAC tem em curso um plano de erradicação do chorão “na zona da Praia das Milícias, plano este devidamente autorizado pela Direção dos Assuntos do Mar”.
Infelizmente, nos Açores, por mais sensibilizações que se façam, por mais informação que se difunda, continua-se a cometer os mesmos erros e a assobiar para o ar, chegando-se ao cúmulo de ignorar os apelos para a conservação ambiental e a menosprezar as cada vez menos vozes que ainda não se calaram.
Podia preencher o espaço que me resta deste texto com exemplos semelhantes mas, para não maçar os leitores, refiro-me, apenas, à plantação de lantana (Lantana camara) uma planta invasora que existia cá, mas que os responsáveis importaram de viveiros, se não estou em erro, do Porto e as mais recentes plantações de erva-confeiteira (Polygonum capitatum) nas Portas do Mar, esta imediatamente retirada, e do penacho (Cortaderia selloana), ao longo das estradas, e que só agora está a ser retirado. Nos três casos mencionados estão envolvidos custos desnecessários que indiretamente ficam a cargo de todos nós contribuintes.
A chamada de atenção para o perigo de introdução de espécies animais ou vegetais exóticas em arquipélagos insulares não é de agora. No que aos Açores diz respeito, se não estou enganado, os primeiros alertas foram dados pelo NPEPVS - Núcleo Português de Estudos e Proteção da Vida Selvagem- Delegação dos Açores, organização não-governamental de ambiente que teve sede em Vila Franca do Campo e que teve como principais dinamizadores o vila-franquense Duarte Furtado e o francês Geral de Grand, que durante alguns anos esteve ligado à Universidade dos Açores.
Numa altura em que as entidades oficiais estavam pouco sensíveis para as questões ambientais e não existiam muitos estudos disponíveis, no início da década de oitenta, o NPEPVS chegou a esboçar uma campanha de sensibilização, tendo editado alguns autocolantes com os seguintes dizeres: “Cuidado com as introduções. Uma bela exótica pode esconder um monstro”.
Cerca de dez nos depois, os Amigos dos Açores iniciaram uma campanha, que mantiveram durante alguns anos, no âmbito da qual editaram algumas dezenas de milhares de exemplares de um folheto intitulado “Cuidado com as Introduções”, dirigido a jovens e adultos, e também uma brochura intitulada “As Plantas Invasoras, uma história contada pela faia-da-terra”, com tiragem semelhante.
Hoje, passados cerca de 30 anos, depois de tantas brochuras distribuídas pelas escolas e depois de tanta informação fornecida pela comunicação social, é incompreensível que se continue a agir como se agia no século passado.
Será que as ONGA e as entidades oficiais, que timidamente têm tentado atacar o problema, não souberam ou não sabem transmitir a mensagem ou as pessoas não estavam e continuam a não estar abertas a recebê-la?
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30909, 13 de abril de 2016, p.10)

José Fontana da Silveira e os gatos


José Fontana da Silveira e os gatos

José Fontana da Silveira (1891-1974) foi um jornalista e escritor que, para além de ser autor de muitas obras de caráter literário, colaborou com diversos jornais, entre os quais os micaelenses “A Folha”, de Alice Moderno, e o Proletário, órgão da Federação Operária e do Operariado em geral, cujo primeiro número foi publicado no dia 1 de maio de 1913, sob a direção de Luís Jacinto de Teves.

José Fontana da Silveira foi, de acordo com informações que recolhemos na página do projeto MOSCA, membro do Grupo “Jovens Libertários” e mais tarde “cerca de 1914 pareceu estar próximo dos Socialistas, mas nunca entrou no PSP (Partido Socialista Português) ”.

Fontana da Silveira foi um grande defensor dos animais, tendo colaborado na revista “O Vegetariano” com textos onde associa a proteção aos animais e o vegetarianismo.

Na revista “O Vegetariano” publicada em julho de 1914, Fontana da Silveira escreve um texto intitulado “Os gatos”, onde começa por denunciar a perseguição de que são vítimas aqueles animais sem razão para tal, “a não ser a falta de critério de certos homens”.

Sobre os gatos, a dado passo do artigo pode ler-se o seguinte:

“Esses animais, como tantos outros, prestam-nos mil serviços, como a devastação dos ratos, e, sobretudo, são uns grandes amigos do lar doméstico que amam, conhecem e respeitam. Sentem prazer em estar na casa de família, e é raro quebrarem qualquer objeto ou danificar seja o que for, pois têm nisso muito cuidado”.

O texto termina com uma citação do Dr. Alberto Bramão que escreveu o seguinte:
“De resto ele foi o amigo íntimo de Baudelaire, o grande poeta e essa amizade é título mais que suficiente para impor ao respeito e admiração de nós todos. Homem que passas, ali tens um gato: tira o chapéu e segue o teu caminho!”

Infelizmente passados mais de cem anos, os gatos continuam a ser maltratados e são abandonados um pouco por todo o lado, como por exemplo em alguns miradouros da ilha de São Miguel.

O abandono de gatos, para além de ser uma crueldade, pode constituir uma ameaça à fauna selvagem pois aqueles são exímios caçadores.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30908, 12 de abril de 2016, p.18)

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Dinheiros públicos usados na construção da Praça de Touros de Angra do Heroísmo


Dinheiros públicos usados na construção da Praça de Touros de Angra do Heroísmo

Em 1983, começou a construção da atual praça de touros da ilha Terceira, cujo projeto foi da autoria do Eng.º Fernando Ávila e a primeira fase foi adjudicada por 25 mil contos à firma Matos & Santos.

No ano seguinte, em 1994, o centro de tortura de Angra do Heroísmo, foi inaugurado no dia 21 de junho, tendo assistido à cerimónia pessoas sem coração, como o ministro da República, general Conceição e Silva; o presidente do Governo Regional dos Açores, Dr. Mota Amaral e Manuel de Sousa Mancebo, o maior acionista da Praça, emigrante nos Estados Unidos.

Com a “mania” das grandezas, os promotores fizeram uma praça maior do que a do Campo Pequeno, mais dois metros de diâmetro, com 28 camarotes e com uma lotação de 5.028 lugares, destes 4720 destinam-se a venda e 308 destinados às autoridades. Mas a cereja no topo do bolo ou o cúmulo da hipocrisia está na presença de uma capela que tinha como orago Nossa Senhora do Pilar.

A praça da tortura era (é) pertença da Sociedade Tauromáquica Progresso Angrense- promotora de espetáculos taurinos, SARL, sendo a Tertúlia Tauromáquica Terceirense um dos sócios fundadores.

De acordo com o historiador Pedro de Merelim, “o redondel custou 50 milhões de escudos. O Executivo Regional comparticipou com 17.500 contos e o industrial Manuel de Sousa Mancebo, radicado em Tulare desde 1922, comprou ações no valor de 16.500.000$” e como se não bastasse o dinheiro de todos nós dado pelo governo “a Camara Municipal, por si, cedeu o terreno necessário a construção”.

De acordo com a ata nº 5/2015, da Reunião da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, realizada no dia 6 de março de 2015, ficou decidido, por unanimidade, “Doar à Sociedade Progresso Tauromáquica Terceirense, com o NIPC 512009481 e sede na Avenida Jácome de Bruges, o direito de propriedade plena relativamente ao prédio onde se encontra edificada a Praça de Toiros da Ilha Terceira, correspondente ao lote n.º 1, inscrito na matriz sob o artigo 1381 provisório, sito na Avenida Jácome de Bruges, referente ao loteamento titulado pela Certidão emitida pelos serviços municipais, no dia 1 de outubro de 2014, atribuindo para efeitos do mesmo contrato o valor de € 200.000,00 (duzentos mil euros).

Para além da deliberação anterior a Câmara “exige” que o fim principal seja a tortura de animais, como se poderá ver pelo ponto dois da referida deliberação: “ Incluir no contrato de doação uma cláusula que limite o fim de utilização do mesmo lote à manutenção e funcionamento em pleno da Praça de Toiros da Ilha Terceira para o exercício de atividades taurinas, sem prejuízo de outras atividades que visem a respetiva sustentabilidade económico financeira, sob pena da respetiva resolução caso se verifique o incumprimento desta obrigação, tendo por consequência a reversão do prédio objeto de doação para a esfera jurídica do Município, nos termos do artigo 960.º do Código Civil”.

5 de abril de 2016

José Ormonde

terça-feira, 5 de abril de 2016

Júlio Quintino um algarvio que se apaixonou pelos Açores



Júlio Quintino um algarvio que se apaixonou pelos Açores

Júlio Quintino foi meteorologista e geofísico do Observatório “Afonso Chaves” entre 1957 e 1975, que muito deu aos Açores, quer no que diz respeito ao desenvolvimento da ciência, quer como exemplo de participação cívica e política em condições bastante adversas.

Neste texto não mencionaremos a primeira dimensão, a científica, recomendando aos interessados a leitura do livro “Estudos de Geotermia e Geofísica e outros Escritos”, editado pela Sociedade Afonso Chaves. Sem pretender esgotar o assunto, vamo-nos limitar a fazer uma breve referência à participação de Júlio Quintino na construção de uma sociedade melhor.

Segundo a sua filha Joana Quintino, em texto publicado na “Açoreana”, revista da Sociedade Afonso Chaves, datada de Dezembro de 2001, Júlio Quintino “esteve próximo do MUD enquanto estudante, manteve-se atento a todas as manifestações e publicações que protagonizavam uma mudança: Seara Nova, O Tempo e o Modo, A República, o Comércio do Funchal …”

Mas, Júlio Quintino não se limitou a assistir passivamente aos acontecimentos, pelo contrário e apesar das suas limitações de saúde teve uma participação ativa, quer durante a ditadura, quer depois da chamada Revolução dos Cravos. Assim, ele foi um dos poucos que nos Açores se bateram pelo derrubamento do Estado Novo e, a seguir ao 25 de Abril de 1974, esteve com o Movimento Democrático de Ponta Delgada.

Nas eleições de 1969, foram candidatos pela oposição democrática Manuel Barbosa, João Silvestre e António Borges Coutinho. Júlio Quintino, que esteve para ser um dos candidatos, tendo sido proibido de o ser pelo Ministério das Comunicações, desempenhou um papel ativo. Com efeito, ele foi uma das pessoas que fez parte de um grupo de trabalho criado em Dezembro do ano anterior para preparar as eleições e que no mês de janeiro apresentou a Declaração de Ponta Delgada, algumas reuniões realizaram-se em sua casa que esteve sob vigilância da PIDE e foi um dos membros da mesa de uma sessão realizada, durante a campanha eleitoral, no Coliseu Micaelense, a qual segundo Manuel Barbosa contou com a presença de mais de 3000 pessoas.

Em 1970, Júlio Quintino foi um dos subscritores de uma carta aos deputados pelo Círculo de Ponta Delgada à Assembleia Nacional, Teodoro de Sousa Pedro, Deodato Magalhães de Sousa e João Bosco da Mota Amaral, a solicitar as suas diligências com vista à libertação de Jaime Gama que se encontrava preso em Caxias por ter participado num congresso da IUSY- International Union of Socialist Youth.

A 28 de Abril de 1974 realizou-se uma reunião onde foi eleita a Comissão Democrática Provisória de Ponta Delgada que se propunha, entre outras medidas, “promover a consciencialização das populações deste distrito, com vista a uma participação politica de que até agora têm estado afastadas”. Júlio Quintino foi um dos eleitos, os restantes foram: Álvaro Soares de Melo, engenheiro agrónomo, António da Silva Melo, licenciado em direito, Eduardo Pontes, empregado de escritório, Humberto Pereira, comerciante, Jacinto da Câmara Soares de Albergaria, engenheiro químico e Manuel Barbosa, professor.

Terminamos com um excerto de um texto intitulado “Contra os Profissionais do Oportunismo”, da autoria de Júlio Quintino, publicado no dia 1 de maio de 1974, no jornal “A Ilha”:

“Quarenta e oito anos na vida da Nação – tempo suficiente e tempo demasiado. Suficiente para institucionalizar o medo; demasiado para a vida dos opressores e dos oprimidos, demasiado ainda para a cupidez dos oportunistas e a saudade dos exilados.

A reconciliação, o diálogo aberto, a compreensão, o respeito mútuo, têm de ser as novas tónicas da vida nacional. Ninguém tem sede de sangue, mas de justiça; ninguém quer transformar o novo país num Chile esmagado pelas botas da soldadesca embrutecida”.

Será que estamos a construir hoje uma sociedade verdadeiramente democrática, onde os medos não têm razão de existir? Será que estamos a construir a sociedade mais justa por que lutou o Dr. Júlio Quintino e muitos outros antes e depois de abril?

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 30903, 6 de abril de 2016,p.11)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Luís Leitão



Luís Leitão e o Correio dos Açores

Desde sempre o jornal Correio dos Açores teve entre os seus colaboradores pessoas que deram o seu contributo à causa da proteção dos animais.

De entre os colaboradores, de que se destacou Alice Moderno, um deles foi Luís Leitão que também colaborou com aquela no jornal “A Folha” e com Maria Evelina de Sousa, na “Revista Pedagógica”, no “Autonómico”, de Vila Franca do Campo e no “Correio Micaelense”.

Luís Albino da Silva Leitão (1866-1940) foi um escritor e jornalista que colaborou com centenas de jornais e revistas em todo o território nacional e no Brasil, tendo dirigido a “Revista do Bem”.

De entre os temas que mais abordava destacam-se a luta contra a guerra, o alcoolismo, o tabagismo e a caça e a defesa dos direitos da criança, dos animais e do vegetarianismo, tendo nesse sentido colaborado com a revista “O Vegetariano”, órgão da Sociedade Vegetariana de Portugal.

No que diz respeito à defesa dos animais Luís Leitão foi membro da direção da Sociedade Protetora dos Animais de Lisboa e sócio benemérito de várias outras.

Através das pesquisas efetuadas até ao momento no Correio dos Açores, apenas temos conhecimento de um texto da sua autoria intitulado Sagacidade Canina, publicado em outubro de 1934.

Numa nota da responsabilidade da redação do jornal, Luís Leitão é apresentado como “o autor cuja obra tão volumosa quanto notável, representa uma verdadeira cruzada em prol dos animais, tem sido por diferentes vezes galardoado pelo seu aturado esforço em favor do aperfeiçoamento moral da raça”.

No seu texto, Luís Leitão faz a referência a dois cães, um que salvou o seu dono de ser assassinado e o outro que denunciou o matador do seu dono.

Sobre o segundo caso podemos ler o seguinte:

“Viajando Pirro, que foi rei do Epiro, encontrou um dia certo cão faminto junto ao cadáver do dono.
Acariciou-o, fez enterrar o morto, e ordenou por último que se levasse o animal para o palácio, onde o sustentariam. Um dia, passando o monarca revista às suas tropas, o cão, que parecia dormitar, lançou-se a um soldado que pretendeu morder. O monarca, admirado, mandou abrir um inquérito e verificou-se que o soldado fora o assassino do antigo dono do animal.”
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30902, 5 de abril de 2016, p.11)

sábado, 2 de abril de 2016

Apontamentos sobre a tauromaquia em São Jorge




Apontamentos sobre a tauromaquia em São Jorge

Como é sabido a Ilha Terceira tem sido ao longo dos tempos o bastião da vil prática de torturar bovinos e o centro irradiador da tauromaquia para outras ilhas do arquipélago, com destaque para as ilhas da Graciosa e São Jorge.

De acordo com o historiador Pedro de Merelim, a primeira tourada à corda, em São Jorge, realizou-se a 7 de setembro de 1934, durante as festas de São Mateus da Calheta. Segundo o autor citado: “Os rapazes de S. Jorge apesar de a tal, não estarem habituados, demonstraram arrojo e entusiasmo. José Veríssimo, o Prosa, natural da ilha Terceira, dirigiu a corrida. Gente das freguesias circunvizinhas acorreu, dando ao acontecimento esfusiante alegria. Outras touradas a corda se perspetivaram, para a mesma vila e freguesia da Urzelina”.

Com touros vindos da ilha Terceira, em São Jorge começou a prática de desrespeitar animais, de assocair as touradas às festas religiosas, sem que a igreja se manifestasse contra aquela prática viciante e que, inclusive, desvia dinheiro dos paroquianos que poderiam reverter para a própria paróquia para os bolsos dos ganadeiros.

Depois da introdução da chamada tauromaquia popular, a indústria tauromáquica, que é insaciável em sangue e em dinheiro sem esforço, partiu para a introdução das touradas mais sangrentas para os animais, as de praça. Assim, de acordo com o autor citado, em 1948, “Alfredo Ovelha deslocou-se a S. Jorge, onde foi estudar, sem êxito, a possibilidade de realizar naquela ilha uma tourada de praça.”

Mais tarde, em 2005, o Governo Regional dos Açores, presidido por Carlos César, deu uma ajudinha à prática da tortura, através da “cedência, a título definitivo e oneroso, à Tertúlia Tauromáquica Jorgense – Amigos da Festa Brava Jorgense, de dois prédios rústicos sitos ao Pico da Caldeira de São Jorge, freguesia e concelho de Velas, inscritos na matriz predial rústica sob os artigos 2432.º e 1458.º e descritos na competente Conservatória do Registo Predial, respetivamente sob os n.ºs 804 e 608/Velas, ao abrigo do artigo 1.º do Decreto-Lei n.º 97/70, de 13 de Março, conjugado com o n.º 3 do artigo 5.º do Decreto Legislativo Regional n.º 3/2004/A, de 28 de Janeiro”

De acordo com a Resolução do Conselho do Governo n.º 74/2005 de 19 de Maio de 2005, os terrenos que custaram a quantia irrisória de 6 000 euros e destinavam-se à” construção de uma Escola de Equitação e parque de estacionamento de apoio à Praça de Touros”. Ainda de acordo com a mesma resolução “, os terrenos ora cedidos regressam ao património da Região Autónoma dos Açores se lhes for dado fim diferente do assinalado ou em caso de incumprimento das condições da cedência”.

A justificação para a cedência dos terrenos é uma autêntica afronta a todas as pessoas que têm e usam o cérebro para pensar. Com efeito, entre as diversas cabeças existentes no Governo Regional dos Açores de então, ninguém viu que era um disparate o seguinte:

“Considerando que a Câmara Municipal das Velas classifica a Tertúlia Tauromáquica Jorgense como uma instituição de grande valor no concelho, quer do ponto de vista turístico quer cultural, e que a construção de uma Escola de Equitação se apresenta como um projeto de grande importância.”

Quando é que uma instituição que fomenta os maus tratos a animais tem valor cultural? Que turistas vão a São Jorge para assistir à tortura de um animal numa praça de touros? Onde anda a Escola de Equitação? Porque não exige o Governo a devolução dos terrenos ao património da região?

O ano de 2014 foi um ano negro para São Jorge, que se traduziu na morte, perfeitamente evitável, do senhor Horácio Borges numa tourada à corda e num número de feridos que nunca entra nas estatísticas porque há hospitais e centros de saúde e corporações de bombeiros que os escondem.

Foi, também, em 2014 que, depois de um interregno, regressaram as touradas de praça, com o ferimento de pelo menos um forcado. Para além do referido, regista-se a falta de vergonha por parte da Tertúlia Tauromáquica Jorgense que pediu o apoio no valor de 35 000 (trinta e cinco mil euros) para a realização de uma tourada de praça no âmbito da Semana Cultural (?) das Velas. Vergonhosa foi, também, a ação da Câmara Municipal das Velas que atribuiu 3500 € à referida Tertúlia contra a cedência de 50 bilhetes para a tourada a distribuir por Instituições de Solidariedade Social do Concelho.


José Ormonde
2 de abril de 2016