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sexta-feira, 18 de julho de 2025

A IRIS-Açores, o PAN e o Regime Jurídico de Classificação do Arvoredo de Interesse Público

 


 A IRIS-Açores, o PAN e o Regime Jurídico de Classificação do Arvoredo de Interesse Público

O Núcleo Regional dos Açores da IRIS-Associação Nacional de Ambiente tomou conhecimento, através de alguns órgãos de comunicação social, de um requerimento do PAN a questionar o Governo Regional dos Açores sobre a aplicação do Decreto Legislativo Regional nº 27/2022/A, que criou o Regime Jurídico de Classificação de Arvoredo de Interesse Público na Região Autónoma dos Açores.

 

O Núcleo Regional dos Açores da IRIS recorda que foi aprovado, por unanimidade, na Assembleia Legislativa Regional, o Projeto de Decreto Legislativo Regional n.º 72/XII – “Regime jurídico de classificação do arvoredo de interesse público na Região Autónoma dos Açores”, apresentado pelos Grupos Parlamentares do PS, PSD, CDS-PP, BE, PPM e pela Representação Parlamentar do PAN e que tal como estava legislado no artigo 23º, o Governo Regional dos Açores tinha a obrigação de proceder à sua regulamentação nos 60 dias após a sua publicação.

 

O Núcleo Regional dos Açores da IRIS saúda a iniciativa do PAN que, entre as questões efetuadas, pretende saber o número de exemplares e conjuntos arbóreos registados, o número de pedidos indeferidos ou excluídos e o número de pedidos a solicitar a classificação.

 

O Núcleo Regional dos Açores lamenta a inação do Governo Regional ao não proceder à Regulamentação do Decreto Legislativo Regional nº 27/2002/A, tornando inviável qualquer proteção de exemplares arbóreos notáveis, de elevado valor ecológico, cultural, social e paisagístico, assegurando a salvaguarda do património arbóreo da região através da sua identificação, preservação, fiscalização e gestão adequada.

 

Finalmente, o Núcleo Regional dos Açores da IRIS comunica que no prazo de um mês após a regulamentação da legislação já mencionada irá apresentar uma lista de árvores a classificar, algumas delas incluídas numa lista da autoria do Doutor Raimundo Quintal, publicada no catálogo “Plantas e Jardins : A paixão pela horticultura ornamental na ilha de São Miguel”, editado em 2019, pelo Green Gardens Azores e pela Direção Regional da Cultura- Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, em 2019, sob a coordenação da Doutora Isabel Soares de Albergaria.

 

Açores, 18 de julho de 2025

 

O Núcleo Regional dos Açores da IRIS-Associação Nacional de Ambiente

 

quarta-feira, 21 de maio de 2025

Viburno-doce

 


Viburno-doce

 

O viburno-doce ou viburno-cheiroso (Viburnum odoratissimum Ker Gawl.) é uma pequena árvore ou arbusto grande, perenifólio, pertencent à família Adoxaceae, oriundo da Ásia oriental e tropical (Japão, China, Vietname, Tailândia, Malásia e Índia).

 

O nome Viburnum tem origem no latim clássico, e era utilizada pelos antigos romanos para designar várias espécies de arbustos (IA). O nome científico odoratissimum também deriva do latim e significa "muito perfumado". Esta designação pode referir-se ao forte aroma libertado pela folhagem quando é cortada ou esmagada, além do perfume intenso das suas flores.

 

O viburno-doce pode atingir uma altura de 9 m. As suas folhas, que são brilhantes e elípticas, podem ter até 20 cm de comprimento. As flores, que surgem nos meses de março, abril e maio, são brancas, perfumadas, dispostas em cachos em forma piramidal. Os frutos são bagas vermelhas que escurecem até ficarem pretas quando amadurecem.~

 

O vibruno-doce é usado como planta ornamental é parques e jardins, mas também é utilizado em sebes e barreiras naturais, devido à sua folhagem densa e ao seu crescimento rápido. Os apicultores também podem a ele recorrer, pois as suas flores são muito apreciadas pelas abelhas.

 

O viburno-doce que, prefere sólos húmidos, mas bem drenados e locais bem expostos ao sol ou meia-sombra, aceita bem a poda, podendo ser moldado de acordo com as preferências do seu cultivador.

 

Tal como acontece com muitas plantas, não se conhece com exatidão quem introduziu e quando o viburno-doce nos Açores. Contudo, sabe-se que José do Canto, em 1856, já possuia esta espécie, bem como várias outras do mesmo género, no seu jardim em Ponta Delgada.

 

Na ilha de São Miguel é possível encontrar o viburno-doce no Jardim António Borges, no Jardim do Palácio de Santana, no Jardim da Uivrsidade dos Açores, no Jardim de Santa Cruz (Lagoa) e no Jardim Padre Fernando Gomes (Santa Clara).

sexta-feira, 21 de março de 2025

A propósito das plantas na obra de Camões

 



A propósito das plantas na obra de Camões

 

(Apontamentos para a sessão realizada, na Escola Secundária da Ribeira Grande, no dia 21 de março de 2025)

 

1º slide- Mostra-nos uma vidália, espécie endémica dos Açores, protegida por lei.

 

2º slide- Jorge Paiva, Botânico e Biólogo Jubilado da Universidade de Coimbra, 91 anos. Ainda hoje passa treze horas por dia no seu gabinete e está a preparar um livro sobre as plantas na obra de Camões que deve sair em breve. O meu trabalho sobre plantas usadas na medicina popular nos Açores em parte deve-se à sugestão que ele me fez para fazer inquéritos junto da população e a apresentação que faço hoje baseia-se num texto da sua autoria.

 

3º slide- Como selecionei as plantas para este trabalho? Consultei o texto “As plantas na obra poética de Camões (épica e lírica) de Jorge Paiva que faz parte da publicação “Humanismo Ciência- Antiguidade e Renascimento” e depois fui verificar quais das plantas por ele mencionadas estavam nos livros “Árvores dos Açores” e “Plantas usadas na medicina popular nos Açores”, tendo selecionado 22 plantas. Camões nos Lusíadas refere cerca de 50, a maioria asiáticas e aromáticas; na Lírica menciona cerca de 30, a maioria europeias, campestres e ornamentais

 

4º slide- Alho (Adivinha)

Qual a coisa qual é ela,

Que tem barbas como home,

Tem dentes e não come?

 

5º slide- Castanheiro, introduzido no século XVII.

(Cancioneiro, Ferreira Moreno)

Encostei-me ao castanheiro,

Das folhas fiz um encosto,

Tenho visto caras lindas

Só tu foste a do meu gosto

 

 

6º slide- Erva-das-verrugas, andorinha, erva de golpe

         Não deve ser usada em feridas profundas. Usava-se para acabar com os “cravos”

 

7º slide- Laranjeira-azeda

A laranjeira (género Citrus) foi introduzida no século XVI

Atirei c´uma laranja

À menina da janela

A laranja caiu dentro,

Ó menina, quem na dera.

 

8º slide- Limoeiro

A madressilva cheirosa

Anda no seu limoeiro,

Anda de ramo em raminho,

Se cae no chão, perde o cheiro.

9º slide- Cipreste

Introduzido no século XIX

 

10º slide- Faia, Faia-europeia

Nos Açores há uma espécie nativa a faia-da-terra que é usada em sebes

 

11º slide- Figueira

Não é correta a informação desta quadra, pois as flores existem e estão no interior daquilo que designamos por figo.

Quero ir para a figueira

Já que não tenho amor;

Que a figueira é árvore

Que dá fruto sem dar flor.

Que tal uma pesquisa na internet para saber como é feita a polinização das flores das figueiras?

 

12º slide- Alface

Bom alimento e calmante

 

13º slide- Louro

Há um louro ou loureiro endémico, no passado usado para extração do “azeite” de baga de louro usado na alimentação e em mezinhas nas fogueiras de Santa Antão e de São João

São João é divertido

Amigo das brincadeiras

Abençoa as criancinhas

Quando saltam as fogueiras

 

De acordo com a “tradição popular que, quem saltar uma fogueira na noite de S. João, em número ímpar de saltos, ficará todo o ano protegido contra todos os males.”

 

14º slide- Hortelã

Hortelã é crueza,

Menina, não seja crua;

Seu pai não a tem pr´a freira,

Aceite quem a procura.

15º slide- Murta

Aquele que estiver doente

Vá tomando chá de murta

Que os remédios da botica

Põem a vida mais curta

Cantador Tenrinho (Terceira):

Eu louvo o desembaraço

Da medicina moderna;

A gente queixa-se dum braço

E corta-se logo uma perna

João Caetano da Rocha (Terceira)

Já minha avó me dizia

Pela grande fé que tinha,

Quando não fosse a da morte

Água fria era mezinha.

 

16º slide - Oliveira

 

17º slide- Pinheiro

 

18º slide-Choupo-branco

Terá sido introduzido no século XIX.

A folha do al’mo branco

De noite luz como prata;

Quero falar-te, menina,

A vergonha é que me mata.

 

19º slide-Romãzeira

 

20º slide- Carvalho-roble

 

21º slide- Silva

Introduzida para servir de sebe no século XVI

O silvado na parede

Vai comer à outra banda;

Teus olhos hão-de ser meus,

Ainda que corra em demanda

 

22º slide-Salgueiro

Terá sido introduzido no século XIX

 

23º slide- Trigo

Deus dá o trigo e o milho,

E tudo quanto se come:

Porque há aí tanto filho

No mundo a morrer de fome?

 

24º slide- Ulmeiro

Famoso foi o conjunto existente no Relvão em Ponta Delgada

 

25ºslide- Violeta

 

Bibliografia

Braga, T. (1982). Cantos Populares do Arquipélago Açoriano. Ponta Delgada, 502 pp.

 

Braga, T. (2023). As plantas na medicina popular nos Açores. Ponta Delgada, Letras lavadas. 232 pp.

 

Caixinhas, L. (s/d). Flora da lírica de Camões. https://revistajardins.pt/flora-da-lirica-de-camoes/(consultado no dia 24 de dezembro de 2024).

 

Camões, L. (s/d). Os Lusíadas. Mem Martins, Publicações Europa-América. 427 pp.

 

Ficalho, Conde de (1994). Flora dos Lusíadas. Lisboa, Hiena Editora. 106 pp.

 

Gomes, A. (2017). As flores e o jogo de sedução na lírica camoniana. E-Revista de Estudos Interculturais do CEI-ISCAP, nº5, maio.

 

Moreno, F. (1991). O castanheiro na Madeira e no Cancioneiro (37). In Diário Insular, 12/13 de janeiro.

 

Moreno, F. (2005). Plantas na medicina caseira (1). In Diário dos Açores, 23 de agosto.

 

Moreno, F. (2005). Plantas na medicina caseira (2). In Diário dos Açores, ?.

 

Pavão, J. (1981). Aspectos do Cancioneiro Popular Açoriano. Ponta Delgada, Universidade dos Açores. 316 pp.

 

Quintal, R., Braga, T. (2021). Árvores dos Açores- Ilha de São Miguel. Ponta Delgada, Letras Lavadas. 240 pp.

 

Paiva, J. (2015). As plantas na obra poética de Camões (épica e lírica).  https://books.uc.pt/chapter?chapter=70013 (consultado no dia 24 de dezembro de 2025)

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Novelão

 


Novelão

 

O novelão ou hortênsia (Hydrangea macrophylla (Thunb.) Ser.) é uma planta da família Hydrangeaceae, nativa do Japão e da China que se encontra naturalizada em várias regiões do mundo, entre as quais os Açores, onde pode ser encontrada em todas as ilhas.

 

O novelão foi introduzido na Europa em 1775 e em 1790 já era usada como ornamental nos jardins ingleses.

 

A sua chegada aos Açores terá ocorrido no século XIX, desconhecendo-se a data precisa da sua introdução e o responsável pela mesma. Sabe-se, contudo, que a espécie constatava de uma lista das principais plantas existentes no Jardim Botânico José do Canto na primavera de 1856.

 

Em 1953, o novelão fazia parte de uma lista das “Principais plantas cultivadas e espontâneas nos Açores” elaborada pelo Regente Agrícola Silvano Pereira, publicada no nº 18 do Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores. Sobre a planta pode ler-se o seguinte: “arbusto ornamental, cultivado.”

 

O novelão é um arbusto caducifólio lenhoso na base que pode atingir 3 m de altura. As suas folhas são simples, com os bordos serrilhados, ovais a elíptico-orbiculares e acuminadas. As flores vão do branco ao azul, passando pelo violeta e pelo róseo, dependendo do pH dos solos. Assim, nos solos ácidos as flores são azuis e nos básicos ou alcalinos cor-de-rosa.

 

O novelão escapou-se dos parques e jardins e colonizou pastagens abandonadas e outros locais onde a sua vegetação foi perturbada por um motivo qualquer, sendo considerada invasora sobretudo nas ilhas do Faial, das Flores e do Corvo. Apesar disso, é inegável que na altura da floração, de maio a outubro, a paisagem transforma-se ficando com tonalidades que vão do branco ao azul. Os frutos são cápsulas subglobosas.

 

A propagação do novelão faz-se por estacaria, colocando-se na terra, de preferência no inverno e na primavera, pedaços dos seus ramos.

 

Sobre as suas utilizações, Vieira, Moura e Silva (2020) mencionam o seguinte: “Ornamental. Medicinal (planta rica em compostos orgânicos fenólicos derivados da isocumarina; o extrato da folha é potencialmente benéfico no combate da malária e dos diabetes; tem efeitos psicotrópicos).

 

O novelão é também usado nas divisórias de propriedades e no artesanato, onde persiste a arte de trabalhar o seu miolo para criar composições florais em miniatura.

 

1 de março de 2025

 

Teófilo Braga (IRIS-Núcleo Regional dos Açores)

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Barrileiro

 


Barrileiro

 

O barrileiro ou loureiro-da-nova-zelândia (Corynocarpus laevigatus) é uma planta da família Corynocarpaceae, nativa da Nova Zelândia, que se encontra naturalizada em muitas regiões do globo.

 

De acordo com Saraiva (2020) o terno Corynocarpus provém do grego Karyne -pau, cacete e karpos-fruto- aludindo à forma dos frutos. Por sua vez Laevigatus vem do latim e significa liso, macio.

 

A sua chegada a São Miguel terá ocorrido no século XIX, segundo Fouqué, por volta de 1850, com fins ornamentais e para utilização em sebes vivas devido à necessidade de proteção de culturas altamente prejudicadas pelos ventos.

 

Como espécie ornamental o barrileiro já fazia parte das plantas existentes no Jardim de José do Canto, em 1856, e, em 1865, constava do catálogo das plantas existentes no Jardim António Borges, ambos em Ponta Delgada.

 

O barrileiro é uma árvore de folhas persistentes que pode atingir 15 m de altura e possui uma longevidade que pode alcançar 120 anos.

 

O tronco do barrileiro é robusto podendo atingir 1 m de diâmetro. As suas folhas são coriáceas, com a cor verde-escura brilhante na página superior e um pouco mais pálidas na inferior. As flores, que surgem em março e em abril, são muito pequenas e apresentam uma coloração verde-amarelada. Os frutos são drupas ovoides de cor laranja quando estão maduras, o que acontece no final do verão ou no outono. Enquanto a polpa do fruto é comestível, embora por vezes seja um pouco amarga, as sementes frescas contêm um alcaloide tóxico.

 

Sobre a utilização do barrileiro nos Açores, Arlindo Cabral, engenheiro agrónomo, num texto intitulado “Sebes vivas ou abrigos, nos Açores-subsídios para o seu estudo”, publicado, em 1953, no nº 17 do Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, escreveu o seguinte:

“Árvore de folha persistente, originária da Nova Zelândia, aparece com certa frequência a formar sebes vivas, embora não esteja generalizado o seu emprego. Também a vemos em praças ou jardins como árvore de sombra. Embora tenha boas características gerais, com bom porte, fechando regularmente e razoável resistência aos ventos, está condenada porque o seu fruto torna-a num hospedeiro de mosca do Mediterrâneo, terrível inimiga dos nossos laranjais e de outras fruteiras.”

 

Num outro texto, da autoria de José Norberto Brandão de Oliveira, Professor Associado da Universidade dos Açores, intitulado “Espécies vegetais usadas nos Açores na formação de sebes”, publicado, em 1985, pela Universidade dos Açores, no capítulo dedicado às sebes altas de proteção de frutícolas, pode ler-se que o barrileiro, também conhecido por loureira, é “cada vez menos utilizado, em parte porque o seu fruto é hospedeiro da mosca do mediterrâneo.”

 

O barrileiro propaga-se muito bem por sementes, mas também por estacas, usando madeira semilenhosa.

 

Em Portugal continental existem vários exemplares notáveis, de que são exemplo, em Lisboa, no Jardim do Torel, no Jardim da Estrela, no Jardim Botânico da Ajuda e no Campo Mártires da Pátria. (Saraiva, 2020).

 

Na ilha da São Miguel é possível encontrar barrileiros em algumas sebes, sobretudo em Vila Franca do Campo, e em quintais, quintas e espaços ajardinados um pouco por toda a ilha. Aos interessados, em conhecer a espécie, recomenda-se uma visita ao Jardim António Borges, ao Jardim do Palácio de Santana e ao Jardim Botânico José do Canto, em Ponta Delgada, ao Parque Beatriz do Canto, nas Furnas, e à Baixa da Areia, na Caloura, freguesia de Água de Pau.

 

24 de setembro de 2024

 

Teófilo Braga

quarta-feira, 10 de julho de 2024

Em defesa das plantas, em defesa da Vida

 



Em defesa das plantas, em defesa da Vida

 

No passado dia 20 de maio, comemorou-se o Dia Internacional da Abelha, um dos polinizadores de grande importância para a conservação da biodiversidade e para a agricultura. A propósito, o mundialmente famoso físico Albert Einstein escreveu o seguinte: “Se as abelhas desaparecerem da face da Terra, a humanidade terá apenas mais quatro anos de existência. Sem abelhas não há polinização, não há reprodução da flora, sem flora não há animais, sem animais, não haverá raça humana.”

 

Entre as principais ameaças às abelhas e restantes polinizadores destacamos a degradação dos habitats naturais, a agricultura intensivo e o uso de herbicidas.

Na nossa freguesia e em quase toda a ilha, os espaços verdes precisam de ter mais flores e menos relva, necessitam de serem preenchidos com espécies vegetais melíferas e nos terrenos agrícolas é urgente serem deixados junto às suas divisórias, mesmo em bandas estreitas, plantas silvestres. Não pode acontecer o que tenho observado, isto é, as plantas existentes nas bandas referidas são queimadas com herbicidas que são prejudiciais às abelhas e aos outros seres vivos.

Acredito que é por ignorância ou por desinformação que não se valoriza o nosso património natural e este texto é apenas um modesto contributo para o conhecimento do mundo que nos rodeia.

Para um melhor conhecimento da flora do Pico da Pedra, decidi dar a conhecer as plantas existentes nos muros de pedra existentes na Rua Capitão Manuel Cordeiro (1º e 2ª partes), fazendo um primeiro inventário.

No dia 22 de abril, Dia da Terra, identifiquei 23 espécies que podem ter usos diversos, para além de serem procuradas pelas abelhas, como a fura-capa (Bidens pilosa), a Cymbalaria muralis, e o dente-de-leão (Taraxacum officinale).

 

Usadas na medicina popular encontrei, entre outras, as seguintes plantas: fura-capa, erva-de-são-roberto (Geranium robertianum), Perpétua-silvestre (Helichrysum luteoalbum), fava-da-cova (Parietaria judaica), dente-de-leão, coucelos (Umbilicus rupestres), língua-de-vaca (Plantago lanceolata) e urtiga (Urtica membranaceae).

 

Com possível uso (ou mesmo usadas) na alimentação humana ou de animais encontrei as seguintes espécies: alhinhos (Allium triquetrum), tomate-de-capucho (Physalis peruviana), chagas (Tropaeolun majus), urtiga e serralha (Sonchus oleraceus), esta última muito usada na alimentação de coelhos.

 

Para quem quiser aprofundar o assunto, para além do recurso à internet, aconselho a consulta dos seguintes livros.

- As Plantas na Medicina Popular dos Açores, da minha autoria, editado em 2023, pelas Letras Lavadas, edições;

- Algumas plantas medicinais dos Açores, de Yolanda Corsépius, editada pela autora em 1997;

- Flora Terrestre dos Açores, de Virgílio Vieira, Mónica Moura e Luís Silva, editado em 2020, pelas letras Lavadas, edições;

- Ervas que se comem-silvestres e saborosas, de Fernanda Botelho, editado em 2022, pela Dinalivro.

 

Pico da Pedra, 21 de maio de 2024

 

Teófilo Braga

(A VOZ POPULAR, nº 208, junho de 2024)

domingo, 2 de junho de 2024

Ginjeira-do-mato

 


Ginjeira-do-mato

 

A Ginjeira-do-mato, ginjeira-brava ou ginja (Prunus azorica (Hort. ex Mouil.) Rivas Mart.) é uma espécie endémica dos Açores que pertencente à família Rosaceae. Não existe em Santa Maria, Graciosa e Corvo.

 

Vieira, Moura e Silva (2020) referem que “estudos recentes sugerem que não existe suficiente diferenciação para ser considerada uma espécie distinta de Prunus, mas sim a subespécie Prunus lusitânica subsp. azorica (Mouill.) Franco.”

 

A ginjeira-do-mato é uma árvore perenifólia que raramente ultrapassa os 6 metros de altura, com folhas de forma oval-elíptica, glabras e de cor verde-escuro. As suas flores, que se apresentam em cachos, são brancas e podem ser vistas nos meses de março, abril, maio, junho e julho. Os seus frutos são carnudos, ovoides e pretos quando maduros.

 

No estado selvagem é possível encontrar a ginja-do-mato, em florestas nativas normalmente entre os 500 m e os 700 m de altitude. Na ilha de São Miguel, para a observar aconselhamos uma visita à Serra da Tronqueira, no Nordeste.

 

Por pertencer à flora primitiva dos Açores a ginjeira-do-mato é referida, por várias vezes, por Gaspar Frutuoso, nas Saudades da Terra, ao descrever várias ilhas do nosso arquipélago. Numa das referências àquela espécie Gaspar Frutuoso, no Capítulo I, do Livro IV, escreveu o seguinte:

“Chegando aqui às ilhas os novos descobridores, tomaram terra no lugar, onde agora se chama a Povoação Velha, pela que ali fizeram depois, como adiante contarei, e desembarcando antre duas frescas ribeiras de claras, doces e frias águas, antre rochas e terras altas, todas cobertas de alto e espesso arvoredo de cedros, louros, ginjas e faias, e outras diversas árvores, deram todos, com muito contentamento e festa, graças a Deus, não as que por tão alta mercê se lhe deviam, senão as que podem dar uns corações contentes como bem tão grande que tinham presente, desejado por muitos dias e com tanto trabalho e enfadamento de importunas viagens por tantas vezes buscado.”

 

No relatório “A agricultura no distrito da Horta (subsídios para o seu estudo)”, citado por Carreiro da Costa (1989), sobre a presença de várias espécies vegetais na ilha do Pico, os autores, relativamente à ginjeira-do- mato escrevem: a sua “madeira [é] muito apreciada para obras de entalhamento e casca rica duma substância corante com que os pescadores tingem as redes”.

 

Ramos (1871) já havia escrito algo semelhante ao relatório citado por Carreiro da Costa. Segundo ele, “a madeira é muito apreciada pelos entalhadores; da sua casca fazem grande uso os curtidores, e também com ella tingem os pescadores as suas redes.”

 

Vieira, Moura e Silva (2020) escrevem que os frutos são comestíveis e são uma importante fonte de alimentação para o priolo, ave endémica dos Açores.

De acordo com o Dr. Francisco Carreiro da Costa, foi à ginjeira do mato que os açorianos foram buscar o nome para várias localidades, como por exemplo Ginjal, em São Miguel e na Terceira, e Canada da Ginja, em São Jorge.

 

Hoje, a ginjeira-do-mato é muito rara e praticamente deixou de ter qualquer uso, para além do ornamental. Assim, ainda em número muito reduzido, já se podem encontrar alguns exemplares em parques e jardins públicos e privados.

 

Quem quiser observar a ginjeira-do-mato, fora do seu ambiente natural, pode fazê-lo no Jardim da Universidade, no Jardim do Palácio de Santana, no Jardim Botânico José do Canto, no Parque Urbano, na Quinta da Torre-Capelas, na Quinta-Jardim da Ribeira Nova- Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, no Parque Terra Nostra e na Mata-Jardim José do Canto-Furnas.


Teófilo Braga