quarta-feira, 30 de março de 2016

Alice Moderno e a Festa da Árvore


Alice Moderno e Festa da Árvore em 1914


Em texto anterior recordei o início das comemorações da Festa da Árvore em Portugal, em 1907, por iniciativa da Liga Nacional da Instrução, e divulguei o contributo da professora primária Maria Evelina de Sousa para a Festa da Árvore realizada na Escola de São José, em 1923, em Ponta Delgada.

Em 1914, em Ponta Delgada, as comemorações da Festa da Árvore contaram com o envolvimento das autoridades locais, como o governador civil que se interessou pela mesma, tendo nelas participado ativamente e a comissão administrativa de Ponta Delgada que as custeou.

Do programa das comemorações, constou uma reunião no palácio do Governador Civil, onde depois do discurso do governador, Dr. João Francisco de Sousa, houve uma preleção pelo Dr. Júlio Soromenho Romão dirigida às crianças sobre o significado da festa.

A seguir realizou-se um cortejo cívico por várias ruas de Ponta Delgada, onde foram plantadas árvores por alunos de várias escolas.

Para ficarmos com uma ideia da dimensão que terá tido o cortejo, a seguir indica-se algumas das entidades participantes: um piquete dos bombeiros voluntários, escolas do sexo feminino de São Roque, Arrifes, Relva, Fajã de Baixo, Fajã de Cima, Bom Despacho, duas escolas do sexo feminino da associação “O Século XX”, escolas do sexo masculino de São José, de São Roque, Fajã de Baixo, Arrifes, escola da Associação das Filhas de Maria, colégio Antero de Quental, colégio Lomelino, colégio Insulano, Escola Minerva, Colégio Manuel José de Medeiros, Escola Móvel, Escola de Desenho Industrial, Academia da Federação Operária, Associação dos Empregados do Comércio e Industrias, Filarmónica Lira de São Roque, Filarmónica Lira do Oriente, da Fajã de Baixo, Filarmónica Lira da Oliveira, da Fajã de Cima, Filarmónica Rival Outeirense, dos Arrifes, Filarmónica Rival das Musas e Filarmónica Lira Açoreana

Na Vila da Lagoa, a Festa constou de uma concentração das escolas da vila e das freguesias no Jardim da Câmara, seguida de cortejo cívico, plantação de uma árvore e discurso do professor José Furtado Leite, da escola masculina do Rosário

Alice Moderno para além de noticiar estas iniciativas e publicar uma reportagem no seu jornal “A Folha”, escreveu um texto intitulado “A Festa de Hoje”, que dedicou ao governador civil, Dr. João Francisco de Sousa, publicado no referido jornal, no dia 15 de março.

Depois de mencionar que a Festa da Árvore é celebrada em diversos países, Alice Moderno escreve que a mesma “tem muito principalmente razão de ser nos essencialmente agrícolas, como este, cujo solo privilegiado dá asilo a uma das floras mais completas de toda a Europa” e acrescenta “seja em que campo for que a exploremos, a terra portuguesa produz sempre, recompensa sempre ao agricultor os afetos com que a cultiva, enriquece e ornamenta”.

Sobre as virtudes da árvore, Alice Moderno apresenta um vasto conjunto de exemplos de que destacamos as seguintes:
“A árvore é a essência medicamentosa que fornecerá o alívio aos tormentosos males que cruciam a precária humanidade.
A árvore é a confidente discreta dos namorados e a desvelada protetora dos pássaros – esses poetas do ar.
A árvore é a maior riqueza da gleba, o maior tesouro dos campos e o maior encanto da paisagem!
A árvore é um dos fatores primos de várias indústrias, é o sustento da lareira, é o calor no inverno, como é a frescura no verão.

A árvore é a regularizadora da saúde, a mantedora da higiene, a fertilizadora dos campos, a amiga máxima do lavrador.

E quantas vezes é a árvore, o arbusto, a planta, a terra, enfim a alma mater, a amante fidelíssima, o refúgio supremo, a suprema consolação?!”

Palavras que ainda hoje não perderam a atualidade.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30897, 30 de março de 2016, p.13)

terça-feira, 29 de março de 2016

A tourada na Escola


A Tourada na Escola

Tomámos conhecimento, através do programa da XIV Semana da Ciência, promovida pelo Departamento de Ciências da EBI de Angra do Heroísmo, da integração da conferência “A importância da festa Brava na ilha Terceira”, no programa da XIV Semana da Ciência, promovida pelo Departamento de Ciências da referida escola.

Aquele facto merece da minha parte dois reparos, o primeiro foi muito bem descrito por um texto que circula nas redes sociais e que questiona a ligação entre ciência e tauromaquia. De acordo com o autor(a) ou autores(as) do mesmo: “Não é compreensível que na promoção da ciência - uma área que leva à importância de questionar, de comprovar, da experenciação, da reflexão - tenha sido subtilmente aproveitada para incutir a prática da tauromaquia, em crianças, pré adolescentes e adolescentes”. O segundo reparo relaciona-se com a finalidade da escola e da educação. Assim, segundo o conhecido pedagogo francês Freinet, o principal fim da educação “é o crescimento pessoal e social do indivíduo, elevar a criança a um máximo de humanidade preparando-a a não apenas para a sociedade atual, mas para uma sociedade melhor, fazendo-a avançar o mais possível em conhecimento num constante desabrochar”.

Podemos não concordar com as ideias e com a pedagogia de Freinet, mas achamos que qualquer pessoa de bom senso pode rever-se no fim enunciado. Assim sendo, gostaríamos que os promotores da conferência refletissem sobre que contributo poderá dar a mesma para o conhecimento científico das crianças, como pode a divulgação e banalização da tortura mais ou menos suave contribuir para a formação pessoal de uma criança e, por último, como pode a mencionada conferencia contribuir para a formação de pessoas mais humanas numa sociedade futura que queremos melhor, isto é onde haja respeito por todos os seres vivos que com os humanos partilham a vida na terra.

Termino, transcrevendo um poema da autoria de José Batista, publicado em Abril 1915 na Revista Pedagógica, dirigida por Maria Evelina de Sousa onde de modo muito subtil é abordada a questão da violência na tauromaquia.

NA TOURADA
Entra na arena o touro, furioso,
Arremetendo contra o cavaleiro
Que, impávido, lhe crava, bem certeiro,
Um ferro no cachaço musculoso.

Solta a fera um rugido doloroso,
A que responde o redondel inteiro~
Numa salva de palmas ao toureiro,
Vitoriando o feito valoroso.

D’um camarote chovem frescas flores,
Arremessadas pela nívea mão
De donzelinhas lindas como amores!...

Tão lindas, sim, mas parecendo feias…
Porque se apaga o brilho da paixão
Em quem jubila com dores alheias.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30896, 29 de março de 2016, p.8)
Imagem: http://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Baa150c43/16520103_niELl.jpeg

quinta-feira, 24 de março de 2016

Carta à presidente da Escola Básica Integrada de Angra do Heroísmo


Exma. Senhora

Dr.ª Nélia Rebelo
Presidente do Conselho Executivo
da Escola Básica Integrada de Angra do Heroísmo

c/c à senhora Diretora Regional da Educação, ao senhor Secretário Regional da Educação e Cultura e ao senhor Presidente do Governo Regional dos Açores

Recebi na minha caixa de correio um apelo para que enviasse, a V. Exª, um e-mail a contestar a integração de uma conferência intitulada a “A importância da festa Brava na ilha Terceira” no programa da XIV Semana da Ciência, promovida pelo Departamento de Ciências da EBI de Angra do Heroísmo.

Embora esteja convencido de que se tratará de uma perda de tempo da minha parte já que a mesma terá tido a concordância do Conselho Pedagógico da Escola e da prórpia Secretaria Regional da Educação que era uma das entidades que terá estado presente na sessão de abertura da referida semana, venho manifestar a minha estranheza e indignação pela presença de uma conhecida ganadeira que como todos sabemos aluga e vende touros para touradas à corda e de praça.

O conhecido pedagogo francês Freinet, sobre a educação escreveu que o principal fim “é o crescimento pessoal e social do indivíduo, elevar a criança a um máximo de humanidade preparando-a a não apenas para a sociedade atual, mas para uma sociedade melhor, fazendo-a avançar o mais possível em conhecimento num constante desabrochar”.

Pode Vossa excelência não concordar com as ideias e com a pedagogia de Freinet, mas acho que qualquer pessoa de bom senso pode rever-se no fim enunciado. Assim sendo, gostaria que Vossa Exª refletisse sobre que contributo poderá dar a referida conferência para o conhecimento científico das crianças, como pode a divulgação e banalização da tortura mais ou menos suave contribuir para a formação pessoal de uma criança e, por último, como pode a mesma contribuir para a formação de pessoas mais humanas numa sociedade futura que queremos melhor, isto é onde haja respeito por todos os seres vivos que com os humanos partilham a vida na terra.
Com os melhores cumprimentos

Teófilo José Soares de Braga

quarta-feira, 23 de março de 2016

À Procura do Movimento da Escola Moderna


À Procura do Movimento da Escola Moderna

Nos primeiros anos após a minha profissionalização como professor de Física e de Química, que ocorreu, em 1979, com a conclusão do meu estágio pedagógico na Escola Secundária Domingos Rebelo, procurei sempre atualizar-me no que diz respeito à componente científica da profissão, bem como ler tudo o que se publicava sobre as diferentes correntes da pedagogia.

Para além da leitura de textos de vários pedagogos, procurei saber que movimentos pedagógicos existiam em Portugal, o que faziam e se havia alguma delegação ou alguém nos Açores integrado nalgum deles.

A minha tentativa de contatar com alguém do (MEM) Movimento da Escola Moderna só se concretizou trinta anos depois, com a chegada a São Miguel de um “braço” do Núcleo Regional dos Açores, que tem promovido sessões de formação sobre a pedagogia do MEM, aberta a todos os docentes interessados, na Escola Secundária das Laranjeiras.

Para além de participar nas diversas sessões de formação, estou a reler toda a bibliografia que tinha sobre o MEM, nomeadamente sobre as suas origens tanto em França e como noutros países, bem como em Portugal, onde já identifiquei uma colega que fez parte do movimento ainda durante a ditadura do Estado Novo.

Neste texto, procurarei dar a conhecer um pouco sobre o fundador do Movimento, o educador francês Célestin Freinet (1896-1966) que, segundo Roger Gilbert, foi “um homem livre que, em presença duma situação social que não aprova, a tudo recorre para a transformar”.

Célestin Freinet teve uma vida muito atribulada. Com efeito, antes de cursar o magistério foi pastor, combateu na primeira guerra mundial, tendo os seus pulmões sido afetados para o resto da vida, foi preso aquando da segunda guerra mundial e enviado para um campo de concentração alemão, depois de libertado juntou-se à resistência francesa e combateu o nazismo.

Em 1925 filiou-se no Partido Comunista Francês, tendo-se desligado do mesmo na década de 1950 após ter sido acusado por quele de “pensador burguês” por ter colaborado com o governo após o fim da segunda guerra mundial.

No que diz respeito ao ensino, em 1920, foi colocado como professor adjunto numa aldeia onde começou a “ensinar por meios diferentes da lição tradicional”, mais tarde em 1927, fundou a Cooperativa do Ensino Laico que tinha por principal objetivo “fabricar e editar material que seja útil à nossa escolha pedagógica” pois as editoras não se interessavam por editar materiais provenientes de um “pequeno professor primário” que fazia “afirmações inquietantes e pretende regenerar a escola e os educadores”

Em 1933, estando a lecionar em Saint-Paul de Vence, a comunidade local conservadora não aceitou as inovações por ele introduzidas tendo conseguido que fosse exonerado. Freinet não baixou os braços e dois anos depois criou a sua própria escola

Em 1956, liderou uma campanha, que acabou por sair vitoriosa, a exigir o número máximo de 25 alunos por turma.

Em Portugal, resultado da correspondência trocada entre Freinet e Álvaro Viana de Lemos, este no final da década de 20 do século passado introduziu algumas técnicas Freinet na Escola Normal de Coimbra.

Mais tarde, em 1965, surgiu o MEM, a partir de um grupo de trabalho criado no Sindicato Nacional dos Professores que com todas as cautelas, por causa da ditadura, decidiu aderir à FINEM- Federação Internacional dos Movimentos da Escola Moderna, organização criada em 1957.

Ainda sobre os primeiros tempos do MEM em Portugal, no livro “A Pedagogia de Freinet por aqueles que a praticam”, editado em 1976, pela Moraes Editores, pode ler-se uma entrevista a uma das dinamizadoras de uma escola Freinet, situada nos arredores de Lisboa, que funcionou antes de 1974 quase na semiclandestinidade e onde “por ocasião das inspeções era preciso esconder os jornais escolares e fechar à chave o compartimento onde se encontravam as imprensas escolares”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30892, 23 de março de 2016, p.13)

Imagem: http://4.bp.blogspot.com/-R5WwPNGt8Ro/UXGCYM1VRpI/AAAAAAAAAME/zUuESSscRvg/s1600/Imagem1+freinet+2.png

terça-feira, 22 de março de 2016

Festa da Árvore no Jardim José do Canto



Reportagem no telejornal da RTP-Açores, 21.03.2016

Oliveira San-Bento e a proteção dos animais


Oliveira San-Bento e a proteção dos animais

José de Oliveira San-Bento (1893-1975), advogado, jornalista e poeta de reconhecido mérito, interessou-se pela causa dos animais quando era estudante de direito, tendo aderido à Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, onde, segundo a Profª. Doutora Maria da Conceição Vilhena, militou “ativamente, em prol do desenvolvimento das qualidades de coração”, pelo menos durante 30 anos.
Pouco sabemos acerca do seu trabalho em prol dos animais, apenas temos a informação de que fez parte da direção da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais eleita a 5 de janeiro de 1936 e que fazia parte da mesma direção em 1945, ano em que fez-se representar por Maria Evelina de Sousa, na última reunião a que assistiu Alice Moderno.
Sobre o seu pensamento sobre a causa dos animais, o texto da sua autoria “Proteção aos animais”, publicado n’A Folha nº 667, de 20 de Novembro de 1916, é bastante elucidativo e, infelizmente não perdeu atualidade.
Segundo ele a causa principal para os atos de barbaridade para com os animais domésticos é a “educação do nosso povo e na imperfeitíssima orientação que se dá à infância em casa e nas escolas e à mocidade”.
No seu texto, Oliveira San-Bento manifesta-se contrário a quem aponta, às doutrinas religiosas, a causa das ações bárbaras contra os animais. Diz ele que “ a não ser nas religiões que precisam de vitelos para aplacar a ira de um deus terrível e que chegam ao canibalismo e à antropofagia, não nos parece, em nome da verdade o dizemos, que se aconselhe a guerra aos animais no protestantismo ou no catolicismo”.
Depois de descrever algumas situações lamentáveis a que estavam sujeitos os animais de tiro, Oliveira San-Bento escreve: “Este quadro assim, simples, é de molde a revoltar uma alma bem formada, a menos que se resuma a bondade só em amar os nossos semelhantes, o nosso próximo, o que não nos parece, porque ninguém se deve considerar bom, sem que as suas boas qualidades se manifestem também para com os animais”
Por fim, no texto que vimos citando, o autor apresenta uma sugestão, que pela sua atualidade aqui divulgamos:
“Não se faz na escola a festa da Árvore para educar as crianças no culto à nossa amiga vegetal? Assim também seria louvável aquela que se fizesse preconizando o amor pelos animais, para fazer compreender ao povo que é um dever ser grato aos seus serviços”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30891 de 22 de março de 2016, p 15)

segunda-feira, 21 de março de 2016

No Dia Mundial da Floresta


No Dia Mundial da Árvore e da Floresta

Hoje, 21 de março, comemora-se mais um Dia Mundial da Árvore e da Floresta.
O Dia da Árvore, segundo alguns autores, foi instituído a 10 de abril de 1872, no Estado do Nebrasca, nos Estados Unidos da América.
Em Portugal, o culto da árvore foi institucionalizado com a implantação da República, que entre outros valores defendia o culto da árvore. Assim, foi criada a Associação Protetora da Árvore e anualmente passou a realizar-se a Festa da Árvore. Esta teve lugar, pela primeira vez, a 26 de maio de 1907, no Seixal, por iniciativa da Liga Nacional da Educação. Mais tarde, entre 1912 e 1915, a Festa da Árvore foi organizada pelo jornal “Século Agrícola”.
Com a entrada de Portugal na 1ª Grande Guerra Mundial, as comemorações entraram em declínio e em 1923 o ministro da instrução pública tentou reanimá-la, sem grande sucesso. De qualquer modo naquele ano realizou-se a Festa da Árvore em pelo menos duas escolas de Ponta Delgada, a Escola Normal Primária de Ponta Delgada e a Escola Primária de São José.
Segundo José Neiva Vieira, durante o Estado Novo e até 1970 a Festa da Árvore não tem significado”

Em 1970, a Direção Geral dos Serviços Florestais e Aquícolas e a Liga para a Proteção da Natureza propuseram que no âmbito de um conjunto de iniciativas que estavam a promover se celebrasse o Dia da Árvore. A proposta foi aceite pela Secretaria de Estado da Agricultura e desde então até aos nossos dias passou a celebrar-se anualmente.

Em 1974, o Dia Mundial da Floresta foi comemorado oficialmente pela primeira vez, depois de a FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura ter fixado a data de 21 de Março e a nova designação mais abrangente que a anterior.

Ao longo da história dos Açores várias pessoas e organizações têm chamado a atenção para os perigos da desflorestação ou para as consequências nefastas em termos patrimoniais para a perda da biodiversidade.
Neste texto, que não pretende aprofundar o tema, apenas faremos referência a algumas personalidades e organizações que contribuíram para o melhor conhecimento da flora dos Açores ou alertaram para a destruição da Floresta Primitiva dos Açores.

O botânico, nascido na ilha Terceira, Rui Teles Palhinha (1871-1957) foi um dos pioneiros dos estudos da flora dos Açores. Como resultado de diversas excursões botânicas publicou vários textos na revista “Açoriana”, bem como noutras revistas nacionais e internacionais. Das obras da sua autoria destaca-se o “Catálogo das Plantas Vasculares dos Açores”, publicado, em 1966, pela Sociedade de Estudos Açorianos Afonso Chaves.

A 30 de setembro de 1903, o padre vila-franquense Manuel Ernesto Ferreira (1880-1943) alertou para o desaparecimento de algumas espécies da “flora indígena”, “umas definhando-se progressivamente, outras exterminadas pela mão do homem”. No mesmo texto, publicado na revista “A Phenix”, o Padre Manuel Ernesto Ferreira sugeriu a criação de viveiros ou a sua colocação em jardins, pois segundo ele “a representação dos exemplares da flora indígena, ao mesmo tempo que seria um ótimo serviço à ciência, mostraria o bom gosto de quem a fizesse e significaria também um ato de veneração e respeito pelo passado”.

Hoje, fruto dos estudos desenvolvidos na Universidade dos Açores e da pressão exercida pelas associações não-governamentais de ambiente, com destaque para a Quercus e para os Amigos dos Açores, existe uma maior consciência ambiental por parte de um setor, infelizmente restrito, da população e alguma, menos do que a desejada, dinâmica conservacionista por parte de algumas entidades oficiais.

De entre as incitavas daquelas associações destaca-se um abaixo-assinado, lançado em 1990, que apresentava a situação preocupante em que se encontrava a flora autóctone dos Açores e propunha aos órgãos de poder nacional e regional, a criação de um plano de emergência para a salvaguarda da vegetação natural dos Açores,

Entre as medidas positivas que desde algum tempo têm sido implementadas, destaca-se alguma aposta na propagação e plantio de espécies da flora açoriana e a criação do Jardim Botânico do Faial que foi inaugurado, em 1990, precisamente no Dia Mundial da Floresta.

As comemorações anuais do Dia da Floresta só fazem sentido se, a par das plantações que devem ser bem pensadas para que as árvores não tenham que ser decepadas poucos anos depois por não serem adequadas aos espaços, se entretanto não tiverem morrido de sede no verão seguinte, no referido dia ou nos anteriores houver uma reflexão sobre a importância das árvores que não se esgota na produção de madeira e de outras matérias-primas.

Termino com uma citação de Ernesto Bono: “Plante uma árvore sim, mas não para garantir isto e aquilo; plante uma árvore, ou mais de uma, plante todas as árvores do mundo, mas simplesmente por carinho à árvore e por amor à natureza. E se não plantar, deixe então que a natureza se plante a si mesma”.
Teófilo Braga
21 de março de 2016

A Festa da Árvore



A Festa da Árvore

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A minha participação na Festa da Árvore, iniciativa da Fundação do Jardim José do Canto, consistiu na orientação de um “Peddy Paper “As Árvores Notáveis do Jardim Botânico José do Canto e o Ensino da Física e da Química”, destinado aos alunos da disciplina de Física e Química A, da turma B do 10º ano de escolaridade, da Escola Secundária das Laranjeiras.

Com esta atividade pretendeu-se que, para além de educar para a valorização do património natural e aumentar o conhecimento e a consciência ambiental, os alunos fossem capazes de aplicar os conhecimentos teóricos aprendidos nas aulas a situações da vida real.

Assim, através do Peddy Paper os alunos foram desafiados a responder, entre outras, a questões sobre a vida de José do Canto, a orientarem-se a partir de um mapa, a recordarem conhecimentos de Química e de Física e a medirem a altura de uma árvore, usando conhecimentos de trigonometria.

Os 17 alunos participantes reagiram muito bem à atividade, tendo alguns deles mostrado a sua enorme satisfação pelo facto de terem, pela primeira vez, colaborado na plantação de algumas espécies que foi coordenada pelo Eng.. Manuel Moniz da Ponte.

Sobre a atividade, uma das alunas, a Tânia Cabral, escreveu o seguinte: “uma das principais coisas num peddy paper é o trabalho de equipa e a atenção a todas as pistas que nos são dadas. Foi até uma visita divertida, pois muitos dos alunos preferem sempre coisas dinâmicas”.

2

Todos os jardins botânicos têm uma função educativa aberta à comunidade, sobretudo aos mais jovens. A Fundação do Jardim José do Canto tem facilitado a entrada, sem quaisquer custos, a associações e a escolas para o desenvolvimento de atividades educativas. A título de exemplo, visitei pela primeira vez o jardim integrado num grupo da Associação Amigos dos Açores, em 2014, o Dia Mundial do Ambiente foi comemorado por duas turmas do 11º ano da Escola Secundária das Laranjeiras e têm sido realizadas várias visitas para turmas de diversas escolas profissionais.

A Festa da Árvore, se não estou em erro, foi a primeira iniciativa organizada, pela Fundação do Jardim José do Canto, após a atual fase de recuperação do Jardim, “no âmbito das suas responsabilidades em matéria de educação ambiental” e teve como objetivo “dar a conhecer aos jovens micaelenses as árvores notáveis que povoam o Jardim Botânico José do Canto”.

Desta louvável iniciativa destaco a diversidade do público-alvo que foi constituído por alunos da Escola Profissional do Sindicato de Escritório e Comércio da Região Autónoma dos Açores, por alunos do chamado ensino regular da Escola Secundária das Laranjeiras, técnicos de turismo, professores e outros interessados.

Como já foi mencionado, a Festa da Árvore teve como motivo principal as árvores notáveis existentes no jardim que pelas suas especificidades, isto é raridade, porte monumental ou morfologia singular, são uma das razões para uma visita dos naturais e residentes na ilha de São Miguel e um polo importante de atração turística.

Embora o Jardim José do Canto possua um conjunto de árvores notáveis que o distingue dos demais existentes em São Miguel, considero que o jardim vale pelo seu todo, isto é pelo conjunto do seu património natural e pela sua carga histórica.

Teófilo Braga
(Atlântico Expresso, 8593, 21 de março de 2016, de 21 de março de 2016, p.4)

quarta-feira, 16 de março de 2016

Festa da Árvore realizada no Jardim José do Canto no dia 14 de março de 2016




Festa da Árvore realizada no Jardim José do Canto no dia 14 de março de 2016

Da parte de tarde, a Festa da Árvore, começou com a plantação de espécies exóticas, que existiram no jardim no tempo de José do Canto. e desapareceram:

- Albizia julibrissin (albizia)
- Calycantus floridus (carocha)
- Coffea arabica (cafézeiro)
- Ginkgo biloba (ginco)
- Liquidambar styraciflua (liquidambar)
- Plumeria rubra (pluméria)

Participaram na plantação, coordenada pelo Eng. Manuel Moniz da Ponte e pelo Professor Teófilo Braga, alunos da Escola Secundária das Laranjeiras e da Escola Profissional do Nordeste.
Entre as 15.30 e as 17 horas ocorreram duas atividades em paralelo:

Os alunos da Escola das Laranjeiras participaram no 'peddy paper' "As árvores notáveis do Jardim Botânico José do Canto e o ensino da Física e da Química" projetado e orientado pelo Professor Teófilo Braga.

Toda a atividade foi acompanhada pelo vice-presidente do Conselho Executivo, Dr. Rui Gouveia.

Resultados do Peddy Paper
1º Lugar
Beatriz Botelho
Cristina Silva
Tânia Rodrigues
2º Lugar
Alexandra Matos
Filipa Frutuoso
Maria Cabral
Tânia Cabral
3º Lugar
António Dinis
Maria Dâmaso
Tânia Viveiros
4º Lugar
Ana Santos
Sabrina Pacheco
Vanessa Bento
5º Lugar
David Miranda
Diogo Botelho
Henrique Pacheco
Miguel Marques

A árvore na revista “O Vegetariano”


A árvore na revista “O Vegetariano”

“O naturismo tem por base o culto da árvore” (Celso Xavier)

Na passada segunda-feira, a Fundação do Jardim José do Canto organizou uma Festa da Árvore e na próxima semana teremos um dia a ela dedicado, o Dia Mundial da Floresta.

No texto de hoje vou socorrer-me da revista “O Vegetariano”, publicada em 1914, por parte da Sociedade Vegetariana de Portugal, para dar a conhecer a importância da árvore para os seguidores daquele regime alimentar.

A revista “O Vegetariano”, dirigida pelo Dr. Amílcar de Sousa (1876-1940), médico especialista em doenças de nutrição, licenciado pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, tinha como lema “Integrai-vos nas práticas salutares da Higiene Natural e gozareis cem anos de vida sã” e a Sociedade Vegetariana de Portugal tinha como fins “criar cursos de instrução popular e educação cívica, diurnos e noturnos, onde por meio de preleções se espalhem e vulgarizem os princípios da alimentação vegetal, suprimindo o morticínio antilógico e desnecessário de animais, favorecendo e enaltecendo a abnegação por amor da humanidade, da pátria, da família, do próximo e caridade para com os animais, combatendo o alcoolismo, o tabaco, os vícios e os erros, em geral, espelhando temperança nos hábitos e a morigeração dos costumes”.

Em janeiro, a revista “O Vegetariano”, através de um texto assinado por C. Brandão, saúda o surgimento, em Lisboa, da Associação do culto da árvore” que visava “tanto proteger a floresta como o pomar” e incita “ os naturistas a se inscreverem na associação, apresentando entre outros os seguintes argumentos: “É fora de dúvida que a árvore, pelas suas raízes, pela sua madeira, pelas suas folhas, exerce uma ação benéfica nas terras, nas indústrias, no clima. Porém, acima de tudo – para nós, naturistas- há o fruto que nos garante a saúde do corpo e da alma, a depuração do indivíduo e da raça.”

No mês de março, José Fontana da Silveira (1891-1974), escritor que se distinguiu pelos livros para crianças que publicou, traduziu um texto de André Fleuriet, onde este sobre a árvore escreveu o seguinte: “ Uma árvore bonita é um prazer para os olhos, e milhares de árvores constituem o bosque, manto de terra e riqueza dum país! Um país que não tem árvores é um país morto!...Quem planta uma árvore é um benfeitor da humanidade; quem as destrói inutilmente é um criminoso”.

No mês de outubro, a revista dedica um curto texto a elogiar o livro “O Culto da Árvore” da autoria de Manuel Vieira Natividade (1860-1918), historiador, arqueólogo, etnólogo e poeta de Alcobaça. Segundo o Dr. Amílcar de Sousa, o livro, “escrito para a festa das crianças da sua terra, é um dos mais perfeitos e úteis elogios à árvore que tenho lido”, onde o autor “esgotou o assunto sobre o valor comercial e cósmico, da árvore e do seu culto, felizmente posto em voga nos tempos de hoje como símbolo da alegria e fartura, de bondade e de bênçãos”.

Por último, no mês de novembro, o Dr., Amílcar de Sousa escreve um curioso texto intitulado “A única ginástica que convém aos homens é trepar às árvores”, onde confessa o seguinte: “Sei andar a pé, subir a árvores, encarrapitar-me nelas quando têm frutos e trepar cerros e penhascos abruptos. Sei qualquer coisa de ginástica natural e com ela tenho conseguido mais força e vigor que alguns sábios de afamados métodos.

Segundo o Dr. Amílcar de Sousa a “única ginástica valiosa e proveitosa é trepar ou subir às árvores” pois não fica nenhum músculo por ser exercitado, mas “para isso é preciso ter força e jeito, equilíbrio e mesmo ainda não ter perdido o feitio arborícola”.

Através do mesmo texto ficamos as saber que o autor não se ficava pelas palavras, como se pode confirmar através do texto seguinte: “Ainda ontem estive a comer figos numa figueira empoleirado. Que deliciosos eram…Com os pés sem sandálias, não escorregava dos ramos, com uma mão agarrava-me, com a outra levava os figos…à boca.”

Termino desejando boas plantações, a quem nunca o fez que experimente visitar um pomar e comer os frutos apanhados das árvores e, por último, que tenham muito cuidado com os trambolhões que poderão ocorrer com subidas às árvores.


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30886, 16 de março de 2016, p. 12)

terça-feira, 15 de março de 2016

Entregar um animal num canil é abandono


Entregar um animal num canil é abandono

De acordo com a Lei nº69/2014, “quem, tendo o dever de guardar, vigiar ou assistir animal de companhia, o abandonar, pondo desse modo em perigo a sua alimentação e a prestação de cuidados que lhe são devidos, é punido com pena de prisão até seis meses ou com pena de multa até 60 dias”.

Ir a um canil levar um animal, com quem se viveu durante vários anos, por estar velho ou doente é ou não abandono? Ir a um canil levar uma ninhada de cachorros porque não se quis esterilizar os animais que se tem em casa é ou não abandono? Ir, por exemplo, um dirigente partidário concelhio, a um canil levar dois cães saudáveis porque a família está à espera de um bebé é ou não abandono?

Ir a um canil levar um animal sem qualquer razão válida para o fazer não devia ser considerado abandono e punido como está previsto na lei?

Hoje, como é sabido, a grave situação existente nos canis, nos Açores, está relacionada com o abandono de animais um pouco por todo o lado , com a sua entrega nos canis e com a aceitação das “doações” por parte daqueles, sem qualquer penalização dos caridosos “ofertantes”.

Face ao exposto, devem os responsáveis pelos canis ficar de braços cruzados à espera das “doações” ou devem tomar medidas para dissuadir os abusadores que, embora sabendo que os canis são de abate, têm o descaramento de responsabilizar os veterinários municipais pelos abates?

Sem violar qualquer norma legal, os canis podem, diria mesmo, não devem aceitar animais entregues pelos seus detentores, a não ser em situações limite, como estes não terem meios, devidamente comprovados, para pagar um veterinário e os animais serem portadores de doença que possa contaminar outros e os humanos.

O escrito anteriormente não é nada de original, mas a descrição do que se passa em alguns dos canis no nosso país, como, por exemplo, em Cantanhede onde, segundo uma reportagem do jornal Aurinegra, publicada em dezembro de 2010, o seu “Centro não aceita animais entregues “em mãos”, a não ser que estes representem, comprovadamente, um perigo ou sejam portadores de uma doença irreversível, estejam em sofrimento ou possam contaminar seres humanos, até porque o veterinário considera que isso daria ao Centro “uma imagem de matadouro, uma imagem horrível”.

Por cá, por que razão se continua a facilitar a vida aos prevaricadores? Por que não há coragem de se tomar medidas semelhantes?

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30885, 13 de março de 2016, p.11)

terça-feira, 8 de março de 2016

A Festa da Árvore no Jardim José do Canto


A Festa da Árvore no Jardim José do Canto

“ O processo de aprendizagem com a terra, os animais e a “natureza” não pode ser frio e “científico”, tem de incluir o amor, a substância mágica do Universo” (Jack D. Forbes)

Este ano a Fundação do Jardim José do Canto, na sequência de outras iniciativas já desenvolvidas em matéria de educação ambiental, vai promover no próximo dia 14 de março uma Festa da Árvore que tem como objetivo geral dar a conhecer aos jovens micaelenses as árvores notáveis existentes no jardim.

Para além da plantação de espécies indígenas da Flora dos Açores e de espécies exóticas, haverá uma visita guiada “Roteiro das Árvores Notáveis do Jardim Botânico José do Canto”, para alunos do 2º e 3º ano do curso de Técnico de Recursos Florestais e Ambientais, da EPROSEC (Escola Profissional do Sindicato de Escritório e Comércio da Região Autónoma dos Açores, uma visita guiada “A importância das árvores notáveis do Jardim Botânico José do Canto para a afirmação de São Miguel no Turismo de Jardins”, para técnicos de turismo e outros interessados e um Peddy Paper “ As Árvores Notáveis do Jardim Botânico José do Canto e o Ensino da Física e da Química”, com alunos do 10º ano de escolaridade da Escola Secundária das Laranjeiras.

A atividade proposta pela Fundação do Jardim José do Canto, vai ao encontro do objetivo de “aumentar o conhecimento e a consciência ambiental e informar as pessoas a respeito da necessidade urgente de conservar as plantas “referido por Julia Willison na publicação “Educação Ambiental em Jardins Botânicos: Diretrizes para Desenvolvimento de Estratégias Individuais”.

De acordo com a publicação referida a existência de coleções de plantas vivas fazem com que todos os jardins botânicos, e o jardim José do Canto não foge à regra, sejam locais ideaias para o ensino “da incrível diversidade do Reino Vegetal; das relações complexas que as plantas desenvolvem com o meio ambiente; da importância das plantas em nossas vidas, em termos económicos, culturais e estéticos; das ligações entre as plantas e a população local e nativa; do meio ambiente local e seu contexto global; das principais ameaças que a flora mundial enfrenta e das consequências da extinção das plantas “.

No dia 14 de março as plantações far-se-ão sob a orientação do Doutor Raimundo Quintal e do Engenheiro Manuel Moniz da Ponte e os alunos serão acompanhados pelos seus professores/formadores, Engª. Lucília Agrela e Dra. Cátia Cardoso e por mim, no caso dos alunos da Escola Secundária das Laranjeiras.

No que aos alunos da Escola Secundária das Laranjeiras diz respeito, antes da visita terão acesso a uma curta biografia de José do Canto, cuja relação com a natureza, segundo Carlos Riley, se caracterizou ”sempre por interesses bastante mais científicos e racionalistas: explorar os campos segundo os princípios da emergente agronomia e ordenar, qual demiurgo do novo século, a natureza em parques e jardins ao gosto de uma sensibilidade estética caracteristicamente romântica”, bem como a um mapa do jardim com a localização das árvores notáveis que irão ser alvo das várias questões constantes do Peddy Paper.

Para responderem ao questionário do Peddy Paper e a duas questões suplementares os alunos terão de colher informação constante das placas identificativas de diversas plantas, ter lido a biografia de José do Canto, previamente entregue, possuir alguns conhecimentos básicos da flora e da fauna dos Açores e aplicar conhecimentos adquiridos nas aulas de Química, nomeadamente as noções de átomo, molécula e mole e de Física, como energia cinética, energia potencial, trabalho de uma força, forças conservativas e conservação da energia mecânica.

Para além do referido, será lançado o desafio que consistirá na medição da altura de uma árvore utilizando para tal um clinómetro rudimentar e uma fita métrica. Nesta tarefa os alunos terão de recorrer a conhecimentos básicos de trigonometria, como as noções de seno, de cosseno e de tangente de um ângulo.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30880 de 9 de março de 2016 p.14)

segunda-feira, 7 de março de 2016

Relheiras e animais de tiro



Relheiras e animais de tiro

A Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores aprovou, em 29 de outubro de 2015, uma resolução apresentada pelo Grupo Parlamentar do CDS-PP que recomenda que o Governo Regional dos Açores inventarie as relheiras existentes na Região, que considere a sua promoção como elemento turístico e que elabore, no prazo de 200 dias, um relatório que inclua, entre outros itens, uma inventariação e um plano de proteção.

As relheiras, que são sulcos escavados pelas rodas dos carros de bois na rocha vulcânica, existem em várias ilhas. Na ilha de São Miguel há nos Fenais da Luz e são o testemunho do trabalho árduo dos nossos antepassados e do esforço, muitas vezes não compensado ou reconhecido, dos animais de tiro que foram grandes auxiliares do homem até ao aparecimento dos veículos motorizados.

Quem fizer uma leitura dos jornais até à década de 70 do século passado verá que as denúncias sobre maus tratos aos animais eram relativos aos animais de companhia, sobretudo cães que eram abandonados, e aos animais de tiro, com destaque para os bois que percorriam grandes distâncias, como, por exemplo, entre a Maia e a fábrica do açúcar em Ponta Delgada no transporte de beterraba e que não só não eram bem alimentados como eram vítimas das aguilhadas.

Mas, não se pense que os maus tratos a que eram sujeitos os bois se devia apenas à ganância ou ignorância dos seus donos, pois maus exemplos eram também dados pela Câmara Municipal de Ponta Delgada. Com efeito, em 1925, o “lastimoso estado de magreza” dos bois camarários era tal que o Correio dos Açores publicou o seguinte apelo dirigido à Sociedade Micaelense Protetora dos Animais:

“O estado esquelético em que os pobres bois municipais quotidianamente andam pelas encovadas ruas desta cidade, puxando carroças de lixo, não é um motivo de compaixão.

Indagando a causa de tanta magreza, viemos a saber factos espantosos que se dão com a alimentação destes animais. Como, porém, somos suspeitos ante as pessoas que devem fiscalizar estes serviços, chamamos, humanamente, a atenção da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais para este caso que também envergonha o nosso meio social”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30879, 8 de março de 2016, p.11)

quarta-feira, 2 de março de 2016

A Festa da Árvore em 1923


A Festa da Árvore em 1923

“Plantar árvores é não só amar a natureza. Mas ainda ser previdente quanto ao futuro, e generoso para com as gerações vindouras. Cortá-las ou arrancá-las a esmo, sem um motivo justo, é praticar um acto de selvajaria” (Alice Moderno, A Folha, 16/2/1913).
Através da leitura do discurso, do Dr. Jacinto Gusmão de Vasconcelos Franco, proferido na Festa da Árvore realizada na Escola Normal Primária de Ponta Delgada, publicado no jornal Correio dos Açores, no dia 20 de maio de 1923, tomei conhecimento de que a primeira festa da árvore ocorreu em Portugal, na primeira quinzena de março de 1908, por iniciativa da Liga da Instrução Pública.

Através de pesquisas efetuadas cheguei à conclusão de que o nome correto da organização promotora da Festa da Árvore foi a LNI-Liga Nacional da Instrução, instituição fundada em maio de 1906, por proposta de Trindade Coelho, que tinha como objetivos, segundo Sara Pereira, a promoção da educação nacional, e em particular da escola primária, o combate ao analfabetismo e a promoção da educação cívica, através da divulgação da Festa da Árvore.

De acordo com Sara Pereira e Inês Queirós, a primeira Festa da Árvore, iniciativa da LNI não se realizou em 1908 mas sim a 26 de maio de 1907, no Seixal. Depois, foi o jornal O Século Agrícola a impulsionar as Festas da Árvore realizadas entre 1912 e 1915.

A Festa da Árvore realizada, em 1923, em Ponta Delgada, deve a sua existência, segundo uma nota publicada no Correio dos Açores de 3 de maio de 1923, a uma portaria governamental que estabeleceu “que se realizasse em todos os estabelecimentos de ensino do país a Festa da Árvore, dentro do mês de abril, em dia escolhido pelas direções dos referidos estabelecimentos”.

Na festa realizada naquele ano na escola oficial de São José, depois de um discurso proferido pela professora Maria Evelina de Sousa, os alunos recitaram poesias e em seguida dirigiram-se à Praça 5 de outubro onde “brincaram alegremente em volta das árvores que ensombram aquele aprazível local”.

Maria Evelina de Sousa, militante republicana convicta, depois de elogiar o facto da realização da festa se dever ao “carinho generoso” que merece a educação popular por parte do “Governo da nossa Pátria”, passou a enumerar alguns benefícios das árvores para a Humanidade.

Segundo ela, há os seguintes benefícios “utilitários”:

“Purificadoras da atmosfera, dando aos animais o oxigénio de que necessitam os seus pulmões, absorvem ainda o carbono que tão prejudicial é à espécie humana.

São elas, as boas árvores, que defendem os povoados das avalanches produzidas pela acumulação da neve e dos gelos; são elas que diminuem e quebram a velocidade dos ventos e a impetuosidade dos ciclones; são elas que distribuem e atraem as águas tão úteis à agricultura; elas ainda que obstam à invasão das dunas e constituem os mais primitivos para-raios”.

Maria Evelina de Sousa não se ficou por estes papéis “utilitários”, também referiu no seu discurso à sua beleza, tendo mencionado que não se pode ignorar o facto de as árvores constituírem um dos maiores encantos da Natureza.

Passados tantos anos, tantas comemorações do Dia da Floresta, tantas aulas de ciências da natureza e de biologia, tantas sessões de plantação de árvores nas escolas e não só, não se percebe por que razão continua a árvore a ser tão maltratada, quer pelo cidadão comum, quer por responsáveis autárquicos ou governamentais.

Será que nos Açores, tal como acontece com outras maleitas, há muita gente a sofrer de dendrofobia?

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 30874, 2 de março de 2016, p. 13)