sexta-feira, 18 de agosto de 2017

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Percurso Pedestre Calhetas - Poços



Percurso Pedestre Calhetas - Poços


O trilho que propomos hoje tem uma extensão aproximada de 6,5 km e pode ser realizado em aproximadamente duas horas, estando classificado como fácil. O início deste percurso, que é praticamente plano, tanto pode ser feito nas Calhetas como na zona balnear dos Poços, em São Vicente.

Este trilho é um dos mais antigos que os turistas percorrem, sendo um dos mencionados para São Miguel no livro “The Azores – Garden Islands of the Atlantic”, da autoria de David Sayers e Albano Cymbron, publicado em 1991.

Propomos o começo do percurso junto à igreja da localidade, na freguesia das Calhetas, a mais pequena e a menos populosa do concelho da Ribeira Grande.

A primitiva igreja remonta a meados do século XVI, tendo sofrido várias alterações até que em 1830 foi decidido o seu aumento e passou a adquirir “a feição arquitetónica que hoje apresenta”.

Depois de uma breve caminhada, que se inicia na Rua da Boa Vista e prossegue num estreito carreiro sobre a arriba, chega-se ao local do Buraco de São Pedro. Neste ponto podemos observar a linha da costa que vai desde a Ponta da Agulha até à Ponta do Cintrão. Na paisagem, a Sul, sobressaem os cones de escórias do Complexo Vulcânico dos Picos.

Ao longo do percurso é possível observarmos, entre outras, as seguintes aves: o pombo da rocha, o pardal, o canário da terra, a gaivota, o garajau comum, o milhafre, o estorninho e, em alguns meses do ano, o garajau- comum.

Em relação à vegetação existente em redor do Buraco de São Pedro, destacamos a diabelha, fava da cova, o bracel e o feto falcão.

Continuando o percurso, e depois de percorrida a Rua de São Pedro, entra-se na Rua Infante D. Henrique, onde se situa um ponto de paragem sobranceiro ao mar. Daqui podemos apreciar uma bonita paisagem do litoral, onde se pode avistar a zona balnear dos Fenais da Luz e, à esquerda, a Igreja da localidade, o Morro das Capelas e a Ponta da Agulha.

Seguindo sempre próximo do litoral, depois de passarmos o casario dos Fenais da Luz vamos encontrar uma zona onde é possível observar relheiras, que são sulcos escavados pelas rodas dos carros de bois na rocha vulcânica, que existem em várias ilhas e que testemunham do trabalho árduo dos nossos antepassados e do esforço, muitas vezes não compensado ou reconhecido, dos animais de tiro que foram grandes auxiliares do homem até ao aparecimento dos veículos motorizados.

O percurso pedestre termina, na freguesia de São Vicente Ferreira, no lugar designado por Poços, depois de ter percorrido todo o litoral da freguesia dos Fenais da Luz. Ao longo do percurso entre aquelas duas localidades, é possível encontrar, entre outras, as seguintes espécies da flora dos Açores: diabelha, vidália, tintureira, usai-dela, murta e feto marítimo.

Os Poços são hoje uma das principais zonas balneares da costa norte de São Miguel e outrora foram sede da única fábrica de transformação de cetáceos da ilha de São Miguel, construída em 1934. A fábrica, que se encontra, hoje, em ruínas, deixou de laborar em 1972, data em que cessou a baleação no Grupo Oriental do Arquipélago dos Açores.

Hoje, como forma de relembrar a atividade que teve grande importância para a localidade e homenagear os baleeiros, realiza-se, desde 1991, a Semana Baleeira que anualmente apresenta um programa composto por várias atividades culturais, recreativas e desportivas.

É de assinalar, nos Poços, a existência de um moinho de vento, construído nos finais do século XIX que pertenceu ao Engª. Santos Simões, que o adquiriu aquando da sua permanência em São Miguel, onde escreveu o seu monumental livro Azulejaria nos Açores e na Madeira, editado pela Fundação Calouste Gulbenkian, em 1963.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31307, 18 de agosto de 2017, p.13)

Carnaval

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A Energia Nuclear no Estado Novo


A Energia Nuclear no Estado Novo


Ao longo dos tempos, no nosso país, tem surgido a ideia da utilização da energia nuclear para a produção de eletricidade. Neste texto, darei a conhecer o que se pensava fazer no Estado Novo e algumas notícias e textos sobre o assunto publicados na ilha de São Miguel.
Num texto publicado na revista “Brotéria”, em 1954, Abílio Martins, escreveu que, dado o “progresso técnico” alcançado, acreditava que “a construção e exploração industrial duma central atómica, destinada a valorizar os nossos minérios uraníferos e dar um largo apoio efectivo ao plano em marcha da nossa eletrificação, haja de se afirmar oportunamente como uma realidade triunfal”.

O autor referido, no seu texto, abordou a questão dos custos de produção das centrais atómicas que era mais elevado do que as centrais térmicas, mas mostrou-se otimista em relação ao assunto, como se depreende da leitura do seguinte extrato: “Ademais, a técnica da captação da energia nuclear encontra-se em decidida evolução, e tudo leva a crer que, dentro em breve, escolhendo bem o dimensionamento duma central “atómica”, possamos obter energia eléctrica a preços sensivelmente inferiores…”

Sobre o nuclear, o presidente do Conselho de Ministros, ao dar posse à Junta de Energia Nuclear, criada pelo Decreto-Lei nº 39580, de 29 de Março de 1954 e que tinha, entre outras atribuições, a de produzir e aproveitar combustíveis nucleares e produzir energia elétrica por via nuclear, disse: “…pode bem ser que a Providência, tendo-se mostrado avara connosco quanto a fontes conhecidas de energia – o carvão, os óleos minerais, mesmo a força hídrica – nos tenha compensado de alguma forma com um pouco de urânio e de outros minérios afins, mananciais a explorar no futuro”.

A 12 de fevereiro de 1958, o Dr. António Augusto Riley da Mota publicou no Correio dos Açores um longo texto intitulado “Milhões de graus…” onde abordou as duas formas de energia nuclear, a fissão, usada hoje nas centrais nucleares e que é fortemente contestada devido ao problema das radiações e dos resíduos nucleares, e a fusão que não tem os inconvenientes da fissão, sendo, portanto, uma forma de energia limpa.

No seu texto, o Dr. A. A. Riley da Mota, depois de referir que o cientista inglês Cockroft havia comunicado que “ele e os seus colaboradores estavam a ultimar uma grande descoberta”, escreveu o seguinte: “Tratar-se-ia da obtenção acessível de altíssimas temperaturas – da ordem de milhões de graus! – que permitiriam, dentro de poucos anos, fácil libertação de energia termonuclear a partir de elementos baratos, como o hidrogénio e semelhantes, especialmente o deutério, que abunda na água.”

A 10 de abril de 1958, o jornal “Correio dos Açores” publicou uma nota da ANI onde a dado passo se afirma que “dentro de dez anos a principal fonte de energia, para Portugal será atómica”. Na mesma notícia pode-se ler que estava a ser acelerada “a exploração dos jazigos de urânio no Norte do País” e em Angola e Moçambique estava “a ser executado um programa para a exploração de jazigos de urânio”. Por último, ainda se pode ler que “antes de dois anos, Portugal tenciona possuir a sua primeira estação geradora atómica”.

No dia 24 de dezembro de 1971, o Correio dos Açores publicou uma pequena nota onde se podia ler que sem centrais “electro-nucleares” não havia futuro e se previa que no ano dois mil 50% da energia elétrica seria produzida a partir de centrais nucleares.

A 3 de janeiro de 1974, o presidente da Junta de Energia Nuclear, general Kaúlza de Arriaga, considerou que aquele organismo era o “expoente maior da intelectualidade portuguesa e do conhecimento científico e da capacidade técnica nacionais” e acrescentou o seguinte: “Reactores térmicos de urânio natural ou ligeiramente enriquecido, reactores térmicos de urânio altamente enriquecido, reactores rápidos e fusão nuclear controlada constituirão, certamente, os marcos principais do caminho que salvará a Humanidade de uma penúria de energia que a conduziria a um retrocesso de séculos”.

Apesar das várias tentativas, não há centrais nucleares em Portugal e apesar da previsão otimista em relação à expansão da energia nuclear no mundo, em 2016, a energia nuclear era responsável por apenas 11% da energia elétrica produzida. A fusão nuclear, por seu turno, ainda não é uma realidade que se possa juntar às fontes renováveis de energia que estão em expansão no nosso planeta.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31306, 17 de agosto de 2017, p.13)

Charlot

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Os filhos da droga

Picasso

Mortes e feridos nas Praças de Touros


Mortes e feridos nas Praças de Touros

No passado dia 17 de junho, com trinta e seis anos morreu, no sudoeste de França. o toureiro basco Iván Fandiño que matava touros, para divertimento de seres pouco humanos, desde os 14 anos de idade. O toureiro foi atingido pelo corno de um touro quando já estava no chão durante uma tourada em Aire-sur-l'Adour.

De acordo com a agência de notícias EFE, no século XX, morreram 138 profissionais da tauromaquia devido a sofrimentos sofridos nas arenas.

A morte de toureiros não impressiona muito os adeptos da tauromaquia, pois para estes não há bela sem senão, isto é, não há beleza na tauromaquia se aqueles não colocarem em risco as suas vidas.

Os opositores das touradas não reagem de forma uniforme. Com efeito, se há alguns que se regozijam com as mortes, há outros que lamentam o facto e usam-no como um dos argumentos para combater as touradas.

Em relação ao número de mortes, Fernando Alvarez, doutor em biologia pela Universidade de Tulane (E.U.A.), autor do livro “La Verdade Sobre los Toros” não nega que não haja risco, mas considera-o muito baixo, pois os toureiros estão muito bem informados acerca dos handicaps físicos do touro, em termos de visão, que “não vê ou só vê um vulto entre meio metro e um metro de distância e que ataca sobretudo o que está mais perto e em movimento”.

O mesmo autor refere que os toureiros não têm qualquer razão para se vangloriarem dos seus pretensos feitos já que, segundo as estatísticas, muito maior risco correm as pessoas que trabalham nas minas, nos transportes e na construção civil”.

Não me incluo nos que ficam contentes quando alguém fica ferido ou morre numa tourada porque o que desejo é que não haja derramamento de sangue, nem abuso de animais, nem mortes nas praças ou nos matadouros, “às escondidas”, depois das touradas.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31305, 15 de agosto de 2017, p.8)

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

sábado, 12 de agosto de 2017

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Parabéns à Forja

Alice Moderno


11 de agosto de 2017 – Alice Moderno Presente

“Caridade não é apenas a que se exerce de homem para homem: é a que abrange todos os seres da Criação, visto que a sua qualidade de inferiores não lhes tira o direito aos mesmos sentimentos de piedade e de justiça que prodigalizamos aos nossos semelhantes” (Alice Moderno)
Açoriana pelo coração, Alice Moderno nasceu em Paris, a 11 de agosto de 1867, e viveu primeiro na Terceira e depois em São Miguel, onde faleceu a 20 de fevereiro de 1946.
Para além da sua atividade de jornalista, escritora, agricultora e comerciante, Alice Moderno foi uma mulher que pugnou pelos seus ideais republicanos e feministas, sendo uma defensora da natureza e amiga dos animais.
Cento e cinquenta anos depois do seu nascimento não esquecemos a sua luta que ainda hoje faz todo o sentido e não foi em vão, pois a sua obra ainda hoje é reconhecida e o seu labor serve de inspiração a quem hoje continua a trabalhar para uns Açores melhores para todos.
Não esquecemos a sua desilusão face às promessas não cumpridas pelos republicanos na Primeira República, não esquecemos que não se iludiu com a ditadura do Estado Novo e não podemos ignorar a hipocrisia dos políticos surgidos após o 25 de abril de 1974 que lhe concederam, em 2014, a título póstumo, a insígnia autonómica de mérito cívico mas que não respeitaram o definido no seu testamento. Com efeito, no dia 31 de janeiro de 1946, vinte dias antes de falecer Alice Moderno, em testamento, deixou alguns bens, à Junta Geral Autónoma do Distrito de Ponta Delgada, com a condição desta, no prazo de dois anos, criar um hospital para animais.
O Estado Novo embora não tenha cumprido na íntegra as aspirações de Alice Moderno, construiu as instalações e garantiu, nos primeiros tempos, sob a administração da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais e com a colaboração da Junta Geral, a enfermagem permanente aos pequenos animais e a consulta diária a animais de todas as espécies, através do veterinário municipal de Ponta Delgada.
A “democracia” acabou com tudo. Ainda dizem que o Estado é pessoa de bem!
Pico da Pedra, 11 de agosto de 2017
Teófilo Braga

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Percurso Pedestre da Praia da Viola


Percurso Pedestre da Praia da Viola

Este trilho foi percorrido pelos Amigos dos Açores durante muitos anos, sendo muitas vezes uma alternativa quando as condições meteorológicas impediam a realização dos passeios mensais em locais de maior altitude.

Trata-se de um trilho linear com cerca de 5 km de distância, entre a Igreja da Nossa Senhora do Rosário, na freguesia da Lomba da Maia e o Porto Novo, na freguesia da Maia. Embora o percurso possa ser feito em sentido contrário, ou ser feito na totalidade, isto começar e terminar no ponto de partida, para quem está a começar recomenda-se que se inicie na Lomba da Maia.

A construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, que ter-se-á iniciado em 1868, só foi possível graças às esmolas colhidas junto de todos os habitantes da localidade. Destes, é justo destacar o contributo do Padre Manuel Moniz de Medeiros e do mestre José Fidalgo que tiveram que hipotecar parte dos seus bens para poder satisfazer algumas despesas relativas a mão-de-obra e materiais.

Junto à igreja localiza-se o "Largo Dr. Manuel Sá Couto", em homenagem ao professor de filosofia, licenciado pela Universidade do Porto, que se distinguiu através da sua participação social e política, a nível da sua freguesia e sobretudo concelhio.

Depois da decida de uma das ruas da freguesia chega-se a um conjunto de ruinas de antigos moinhos de água, recomendando-se, aqui, um pequeno desvio para a observação da queda de água da Ribeira do Salto. Neste local, podem ser apreciadas algumas espécies características da vegetação costeira, como a erva-leiteira, a figueira-brava, a faia, a urze, o queiró, a cenoura brava e o bermim.

Continuando o percurso chega-se à Praia da Viola, local convidativo para uma pausa e um refrescante mergulho no mar.

Na Praia da Viola também se observam ruínas de moinhos de água e é possível a observação de algumas plantas espontâneas, como a diabelha, o cubre, a figueira-brava e as chagas, e cultivadas, como a espadana, planta oriunda da Nova Zelândia, da ilha de Norfolk e da Austrália, que terá sido introduzida, em 1789, em Portugal, pelo Abade José Correia da Serra, e o inhame, planta que se adapta bem a terrenos alagados, como são os desta zona.

No troço final, que é um arranjo mais recente da responsabilidade da Junta de Freguesia da Maia, que teve o cuidado e o bom gosto de introduzir algumas plantas endémicas dos Açores, continua-se a observar as plantas características do litoral já referidas anteriormente e algumas ornamentais, com destaque para os malmequeres.

Nesta parte do percurso, passa-se pelo local, devidamente assinalado, onde as mulheres da freguesia lavavam roupa. A seguir, pelo menos quando fizemos o percurso pela última vez encontra-se uma exposição fotográfica ao ar livre com aspetos da vida antiga da freguesia que é uma homenagem à mulher trabalhadora.

O percurso termina junta da Igreja do Espírito Santo que, já existia em 1522 e que, devido ao aumento populacional da freguesia, foi sendo ampliada, tendo a sua grande reconstrução ocorrido nos finais do século XVIII.
Ao longo do percurso é possível observar algumas espécies da avifauna dos Açores, como o canário, o milhafre, a alvéola, também conhecida como lavandeira ou arvelinha e o pombo da rocha, subespécie endémica dos Açores que está presente em todas as ilhas, nidificando sobretudo em arribas e ilhéus costeiros.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31302, 11 de agosto de 2017, p.17)

Nagasaki e as armas nucleares


Nagasaki e as armas nucleares

A 6 de agosto de 2014, publiquei no Correio dos Açores um texto intitulado “A propósito da bomba de Hiroxima”. Hoje, 9 de agosto de 2017, a propósito do aniversário do lançamento de uma bomba nuclear sobre a cidade japonesa de Nagasaki vou, uma vez mais, abordar a questão das armas nucleares.
As estimativas do número total de mortos em Nagasaki variam muito, havendo estudos que apontam que, até ao final de 1945, terão morrido entre 39 mil e 80 mil pessoas. O apelo da Conferência Mundial Contra as Bombas Atómicas e de Hidrogénio, realizada no dia 9 de agosto de 1981, em Nagasaki, para além da referência às “dezenas de milhar” de pessoas carbonizadas e mortas numa pequena fração de segundo, afirma que a bomba “deixou ainda atrás de si, um profundo, inapagável terror que continua a afligir o corpo, a mente e o quotidiano dos Hibakusha sobreviventes a este dia” e acrescenta que “este pavor, porém, não é nada, se comparado com a realidade de uma possível guerra nuclear nos nossos dias, no precipício à beira do qual nos encontramos”.
No referido documento são feitas, entre outras, as seguintes três exigências:
- “A imediata suspensão de todo o uso, ensaio, fabrico, armazenamento, desenvolvimento e proliferação de armas nucleares;
- Que a terra utilizada para propósitos de guerra nuclear, seja devolvida aos seus legítimos donos, respeitando a autodeterminação e a independência nacional;
- Que a Segunda Sessão Especial da Assembleia Geral das Nações Unidas dedicada ao desarmamento, reúna as nossas aspirações para a realização de uma paz duradoura, apressando a abolição quer de armas nucleares, quer das armas convencionais, através de um efetivo e extenso programa de desarmamento”.
Hoje, passados 36 anos, não temos dúvidas de que o apelo caiu em saco roto, pois a corrida aos armamentos nucleares continua e os países que possuem armas nucleares não abdicam de as possuir nem chegam a acordo para a sua destruição simultânea.
Pouco mais de 70 anos depois dos crimes de Hiroxima e Nagasaki, e após muitos tratados e acordos nunca cumpridos, no passado dia 7 de julho foi aprovado na ONU o “primeiro tratado que proíbe armas nucleares”, o qual segundo o jornalista e geógrafo Manlio Dinucci “constitui um marco na tomada de consciência de que uma guerra nuclear teria consequências catastróficas para toda a humanidade”.

Atendendo ao que tem acontecido anteriormente, este tratado para pouco servirá, pois na votação, embora 122 países tenham votado a favor (a Holanda votou contra e Singapura absteve-se), nenhum dos países possuidores de armas nucleares participou nas negociações e o mesmo só se aplica aos Estados que o subscreverem.

De acordo com informação da Lusa/Açoriano Oriental, “até o Japão, único país alvo de um ataque atómico, em 1945, boicotou as negociações, assim como a maioria dos países da NATO, incluindo Portugal”. A posição de Portugal é perfeitamente compreensível, atendendo a que de país colonizador passou a colónia de interesses estrangeiros, quer europeus quer norte-americanos.

No que diz respeito à defesa da paz e à luta contra a guerra, os movimentos pacifistas, em todo o mundo, quase desapareceram ou estão em hibernação profunda.

Em Portugal existiu (ainda existe?), na década de 80 do século passado, o movimento “Não às armas nucleares em Portugal” que lutava por “manter o nosso país livre de armas nucleares” e estava convencido de que “se os povos de todas as Nações se mobilizarem no sentido de forçar os respetivos governos a não instalarem, ou destruírem as já instaladas, armas nucleares, o perigo do holocausto nuclear será definitivamente varrido da face da Terra”.

Em abril de 1982, surgiu em Lisboa o Comité “Juventude pela Paz” que defendia, entre outras, o “desmantelamento de todas as armas nucleares” e “a proibição da produção e comércio de armas químicas, radiológicas, bacteriológicas e convencionais”.
Por último, no Verão de 1982, a revista de cultura e pensamento anarquista “A Ideia” divulgou um “Programa para a desmilitarização da República” onde era sintetizada uma política com três eixos: desarmamento, desmilitarização e neutralismo. No documento referido defendia-se entre outras medidas a “proclamação de um neutralismo activo, com a denúncia do recurso à força, dos pactos militares e da corrida aos armamentos. Abandono da NATO. Não alinhamento consequente. Apoio a todos os esforços para o desarmamento do globo terrestre e a solução pacífica dos diferendos. Condenação de todos os sistemas de opressão e violência”.
Como todas as tentativas anteriores não tiveram o sucesso que mereciam, não estará na hora de reativar um forte movimento pela paz no mundo?

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31300, 9 de agosto de 2017, p.13)

Osvaldo Pacheco e os animais


Osvaldo Pacheco e os animais

Em Outubro de 1980, por razões profissionais, fui viver para ilha Terceira onde permaneci três anos letivos. Foi em Angra do Heroísmo que dei os primeiros passos na minha já longa caminhada em defesa do ambiente e da vida, tendo conhecido várias pessoas que também se interessavam pelo assunto, sendo uma delas chamada Osvaldo Pacheco.

Não me lembro quem indicou o seu nome como pessoa preocupada com as questões ambientais e com a defesa dos animais, mas sempre me interroguei como era que uma pessoa que trabalhava numa ourivesaria se interessava tanto pela biologia, possuindo uma biblioteca invejável sobre aquela ciência e sobre a história natural.

Osvaldo Pacheco lia muito, como por exemplo, tudo o que encontrava sobre a vida e a obra de Charles Darwin (1809-1882), as obras do biólogo francês Jean Rostand (1894-1977) e, entre outros, o famoso livro do americano James Watson, “A Dupla Hélice”.

Além destes, Osvaldo Pacheco, que tem pequenos textos, dedicados “à defesa dos Direitos dos Animais”, publicados em diversos jornais dos Açores, também, leu o filósofo australiano Peter Singer que, segundo ele, é autor de “uma obra que é considerada a “Bíblia” da defesa dos Direitos do Animal”.

Osvaldo Pacheco também deu o seu contributo a associações de que destaco os Amigos dos Açores, tendo sido seu associado e colaborado no boletim “Vidália”, nº 3, de maio/agosto de 1990, com um texto intitulado “História Natural, nos Açores, Hoje”, onde referiu o nome dos principais naturalistas dos Açores e a dado passo escreveu que Konrad Lorenz defendeu “que uma das maneiras dos jovens não caírem no vazio, em face da vida, é dedicarem-se ao estudo da Natureza”

Sobre a sua preocupação com os animais, Osvaldo Pacheco, numa pequena brochura que redigiu em Coimbra, em 1996, para onde foi estudar Filosofia, intitulada “A Minha Prosa”, dedicada a Alice Moderno, escreveu: “Pessoalmente sempre me preocupei com os animais. Estou inteiramente de acordo com Konrad Lorenz, quando escreveu que não há bons biólogos sem a capacidade de se emocionarem com os seres vivos”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31299, 8 de agosto de 2017, p. 13)

Percurso Praia-Lagoa do Fogo

Percurso Pedestre Praia de Água d’ Alto - Lagoa do Fogo
O percurso pedestre que hoje propomos é o mais visitado do concelho de Vila Franca do Campo e um dos mais procurados pelos turistas que visitam a ilha de São Miguel.

O primeiro roteiro do referido percurso foi editado pela primeira vez, pelos Amigos dos Açores, em 1987, com texto de Teófilo Braga e de Francisco Botelho e versão em inglês de Geoge Hayes. Depois da primeira edição, dada a elevada procura do mesmo, muitas outras se seguiram, a última das quais se não estamos enganados, em 2003.

O percurso pedestre sugerido pelos Amigos dos Açores, com uma extensão aproximada de 12,6 km, era diferente do que está homologado, segundo cremos pelo facto de uma parte do mesmo se realizar em caminho privado.

Com uma extensão aproximada de 11 km, o trilho que hoje descrevemos, com base no texto dos Amigos dos Açores, é de dificuldade média e tem um tempo médio de duração de 4 horas, dependendo sempre da condição física de quem o percorre.

Nos inúmeros passeios que os Amigos dos Açores promoviam, o ponto de partida e de chegada situava-se sempre na Praia de Água d’Alto. Hoje é costume começar o trilho um pouco mais a norte, no local onde o caminho bifurca e que está devidamente assinalado.

Na subida, à direita, encontram-se as ruinas de uma antiga fábrica de desfibração de espadana. A espadana ou linho da Nova Zelândia ou tabua é uma planta oriunda da Nova Zelândia que foi introduzida, segundo o Dr. Francisco Carreiro da Costa, na ilha de São Miguel, em 1828, por Francisco Lopes Amorim.

A exploração industrial ter-se-á iniciado depois de 1880, ano em que José Bensaúde e José Jácome Correia adquiriram uma máquina para a sua desfibração e a instalaram em Ponta Delgada, tendo-se expandido muito de modo que, segundo o autor referido, em 1930, laboravam “sete fábricas de desfibração de espadana cujo produto final durante a última grande guerra e mesmo depois atingiria cifras elevadas”.

Continuando o percurso chega-se à levada que serve para transportar a água da ribeira até à Central Nova, aproveitamento hidroelétrico que entrou em funcionamento em 1927 e que ainda se encontra em serviço.

Se no início do percurso o eucalipto era a espécie vegetal mais abundante, ao longo da levada podem ser observadas, entre outras, algumas espécies da flora nativa dos Açores, como o folhado, a uva da serra, o louro e o azevinho.

Continuando o percurso que conduz à margem da Lagoa do Fogo, chega-se a uma muito pequena barragem, onde começa a levada. Neste local e até chegarmos à lagoa, a vegetação é bastante baixa, com predomínio para a urze e para o queiró. Na água que é detida pela barragem ou nas suas margens podemos ver, entre outras, as seguintes espécies: rabaça , cavalinha e junco. Aqui, também, é possível a observação de algumas aves, como o tentilhão, o milhafre e a alvéola.

A primeira parte do percurso termina nas margens da lagoa do Fogo, uma das mais belas lagoas açorianas. De acordo com a descrição constante no livro “Lagoas e lagoeiros da Ilha de São Miguel”, editado pelos Amigos dos Açores, a Lagoa do Fogo localiza-se no topo do Vulcão do Fogo, numa caldeira de colapso que se formou há cerca de 15 mil anos, tendo a última erupção ocorrido no ano de 1563.

Nas águas da lagoa vivem diversas espécies piscícolas, como a carpa, a ruivaca e a truta arco-íris. Nas suas margens nidificam, entre outras, duas espécies de aves marinhas: a gaivota e o garajau- comum.

Nunca é demais lembrar todo o cuidado em termos de civismo que deve guiar todos os visitantes independentemente do trilho a visitar. Contudo, neste caso estamos perante uma zona de grande interesse geológico e possuidora de um rico património natural que desde 1974 se encontra classificada.

O regresso faz-se pelo mesmo percurso.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31296, 4 de agosto de 2017, p.17)

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Ainda sobre o Eng.º Fernando Monteiro da Câmara Pereira



Ainda sobre o Eng.º Fernando Monteiro da Câmara Pereira

No passado dia 19 de julho, o Correio dos Açores publicou um texto sobre o Eng.º Fernando Monteiro da Câmara Pereira. Hoje daremos a conhecer mais um pouco da sua vida/obra.
No texto anterior, fizemos referência a uma intervenção na Assembleia Nacional sobre algumas carências da função pública, a qual ocorreu no dia 17 de abril de 1974. Através da leitura do seu discurso, publicado na íntegra no jornal “A Ilha”, no dia 27 de abril de 1974, constata-se que o Engº Fernando Monteiro não discriminava categorias profissionais, como se deduz através das interrogações que levantou: “Mas quanto ganha um chefe de serviço, um professor, um escriturário-dactilógrafo, um cantoneiro, um contínuo, etc.? E a falta dum ordenado mínimo humano e dignificante?”.

Depois do 25 de Abril de 1974, entre 7 de novembro de 1980 e 30 de novembro de 1983, o Eng.º Fernando Monteiro foi deputado na Assembleia Regional dos Açores, eleito em lista do CDS, pelo círculo de Santa Maria.

Durante o período em que foi deputado, em maio de 1982, publicou, através do Instituto Fontes Pereira de Melo, o livro “Agricultura Açoreana…um caminho para a Europa. Os handicaps açoreanos na directiva 75/268/CEE”, que foi, segundo ele, a concretização de um “estudo que tinha encetado em ordem à caracterização da R.A.A. no quadro das directivas da modernização da agricultura e sobretudo da das Zonas Desfavorecidas”.

Depois da sua passagem pelo CDS, o Engº. Fernando Monteiro foi o dirigente máximo do Partido Socialista no concelho da Ribeira Grande, tendo sido vereador e candidato, derrotado, daquele partido à Presidência da Câmara Municipal da Ribeira Grande, nas eleições que se realizaram no dia 15 de dezembro de 1985.

Podemos ficar a conhecer um pouco sobre o seu pensar, em 1985, através do que ele escreveu em setembro daquele ano, em relação à Junta de Freguesia do Pico da Pedra, então eleita pelo partido socialista: “Se não houvesse uma dinâmica partidária de forte pendor socialista, humanizado e cristão e por isso respeitador de todas as ideologias outras entidades não teriam o sucesso que têm apesar de fortemente apoiadas…”.

Noutro texto, que a seguir se transcreve, publicado em outubro do mesmo ano, o Eng.º Fernando Monteiro, não desvalorizando as ideologias, coloca as pessoas em primeiro lugar: “…a vitalidade do Poder Local Regional e da Democracia só poderá ser encontrado na alternância do mando e consequentemente na responsabilização dos partidos, mas o sucesso depende ao nível do município ou da freguesia das pessoas que se empenham” e conclui: “…Assim votar nas autarquias deverá ser votar nos homens que servem a terra e que nunca se servirão dela”.

Sobre as questões ambientais, a leitura de vários textos da sua autoria leva-nos à conclusão de que o Engº Fernando Monteiro era um homem que investigava e que andava a par do que de mais avançado se publicava, como o livro, de E. F. Schumacher, “Small is Beautiful”, que é “um estudo de economia em que as pessoas também contam” e que apesar de ter sido publicado, pela primeira vez, em 1973, ainda hoje devia ser de leitura obrigatória para políticos e autarcas com mania das grandezas e que continuam a pensar que é possível crescer infinitamente em territórios pequenos e frágeis como são as nossas ilhas.

Sobre as questões energéticas, num texto publicado em 1991, o Engº Fernando Monteiro refere-se à eficiência energética do seguinte modo: “Poupar energia será só não gastar o produto de cada fonte energética ou quantas acções em ordem à minimização das suas perdas? ...Serão os lixos, ou resíduos sólidos e líquidos, produtos totalmente degradados e irrecuperáveis na complexidade energética, sabendo que a natureza orgânica ou inorgânica é a própria fonte da energia bioquímica?”.

Por último, ao terminar o texto referido, o Engº Fernando Monteiro apresenta uma sugestão que se não tivesse caído em saco roto não chegaríamos à degradante situação atual no que diz respeito à gestão dos resíduos sólidos. Aqui ficam as suas palavras:

“As ilhas não podem deixar-se poluir sob pena de perderem a sua beleza e afectarem a qualidade de vida do seu povo. A associação das finalidades consubstanciadas em preservação do ambiente, reciclagem orgânica dos lixos e diminuição das importações de inputs fertilizantes organominerais para o solo açoriano justifica a instalação de uma unidade, pelo menos, de tratamento e reciclagem de resíduos sólidos”.

Por falta de espaço, não foi feita qualquer referência à sua obra poética. Sobre o assunto recomenda-se a leitura do seu livro “Mar Branco”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31294, 2 de agosto de 2017, p.13)