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terça-feira, 1 de novembro de 2022
CARIDADE E SOLIDARIEDADE
CARIDADE E SOLIDARIEDADE
Dividi este texto em duas partes: na primeira dou a conhecer uma campanha de auxílio aos pobres, prática que contrariava os princípios cristãs que eram defendidos pelo Estado Novo e na segunda divulgo duas reflexões sobre caridade.
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No dia 25 de fevereiro de 1940, o Correio dos Açores, através do seu correspondente em Ponta Garça, freguesia do concelho de Vila Franca do Campo, localizada na ilha de São Miguel, nos Açores, noticiou que naquela localidade rural a Comissão Paroquial havia recebido do administrador do concelho 13 xailes e 5 casacos para serem distribuídos pelos pobres que eram em número de 75 e em seguida escarrapachou o nome das pessoas que receberam a esmola.
A comissão paroquial esqueceu-se do que, segundo o diácono Joaquim Armindo, São Mateus terá dito: “Quando, pois, deres esmola, não permitas que toquem trombetas diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, a fim de serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: Já receberam a sua recompensa. Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita, a fim de que a tua esmola permaneça em segredo; e o teu Pai, que vê o oculto, há-de permear-te.”
Para além do esquecimento, a referida comissão pretendeu tirar dividendos políticos ao afirmar que “nunca houve governo que se lembrasse dos pobres e lhes distribuísse esmolas. Fê-lo o Governo do sr. Dr. Oliveira Salazar, que tem olhado com amor e carinho pelos desprotegidos da sorte”.
Curioso é também o relato de como as esmolas eram recebidas. Assim, na notícia que vimos citando pode ler-se o seguinte: “Quando fizemos a distribuição dos donativos, os comtemplados diziam: “Deus dê saúde ao grande benfeitor Sr. Dr. Oliveira Salazar” “Eu peço nas minhas orações a Deus que lhe conserve a vida por muitos anos”. “É um Santo Homem” “não se esquece dos pobres” “Deus há-de recompensá-lo disso.”
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Caridade e solidariedade são palavras que por vezes são usadas como sinónimas. Contudo, há quem pense que tal não é correto, isto é, as duas palavras apresentam significados bastante diferentes.
O geógrafo brasileiro Amir El Hakim considera que só há solidariedade entre iguais, por exemplo quando numa comunidade vítima de umas cheias as pessoas perante o sofrimento dos seus vizinhos procuram de algum modo minimizá-lo. A caridade, por outro lado, é exercida entre desiguais. No ato de caridade, há um agente, que está acima na hierarquia social, que doa algo e ao que está num patamar inferior apenas lhe resta agradecer.
Ainda sobre o assunto, o autor acima citado escreveu o seguinte: “A caridade cristã não discute os pormenores, as profundezas de uma sociedade cindida pelo dinheiro, muito menos as gritantes diferenças sociais existentes em um país capitalista de terceiro mundo, ou para os mais apressadinhos “emergentes”. Esta sublima essa relação. Faz de conta que a pobreza e a riqueza são traços naturais de uma sociedade pautada pela chamada meritocracia”.
O escritor José Rodrigues Miguéis também aborda a questão da caridade no seu livro “É Proibido Apontar- reflexões de um burguês-I”, que foi publicado pela primeira vez em 1974 pela Editorial Estampa. De entre o que ele escreveu destaco o seguinte: “Chego a perguntar se a caridade não será um traço de carácter peculiar do meu atraso; indício de incultura, ou pior, o tapa-culpas da minha inação, impotência ou indesejo de remediar os males que me afligem; mecanismo mental de ajustamento à miséria, compensador do remorso ou mal-estar que nos dá o sofrimento alheio; a “bula” ou salvatério espiritual que me dispensa da intranquilidade de consciência , dando-me a ilusão da minha bondade pessoal, a satisfação legítima e sincera de socorrer o meu semelhante; e, sempre, a certeza de que salvo a minha própria alma! Porque enfim, apiedar-se é arrepender-se, penitenciar-se: e, portanto, muito nos será perdoado. Quem dá aos pobres empresta a Deus (com juros compostos?), e que mais pode um homem de boas contas ambicionar do que ser credor do Eterno?”.
Teófilo Braga
(Letra a Letra, nº12, novembro de 2022)
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021
O Dr. Lúcio de Miranda e o Encanto das Matemáticas
Em homenagem ao Dr. Lúcio de Miranda
O Dr. Lúcio de Miranda (1904-1962), natural de Goa, foi um professor de matemática no Liceu de Ponta Delgada que, em 1954, fruto da pressão exercida por Salazar para que por todo o país as mais diversas entidades manifestassem o seu repúdio pelo movimento gandhista que pretendia libertar os territórios ocupados por Portugal na Índia, viu-se forçado a pedir a demissão de professor e a partir para Inglaterra, onde acabou por falecer em 1962.
Com a sua postura ética, o Dr. Lúcio Miranda marcou a vida cultural da ilha de São Miguel, tendo sido fundador e vice-presidente da Academia Musical de Ponta Delgada e criado o “Centro de Estudos de Matemática e Física do Liceu Nacional de Antero de Quental.
Portador de uma cultura muito vasta, o Dr. Lúcio Miranda era conferencista em várias sessões não só sobre temas diretamente relacionados com a sua formação universitária, a matemática, mas também sobre temas muito diversos, de que é exemplo uma conferência que proferiu na Academia Musical de Ponta Delgada, em 1948, intitulada “O Romance de Chopin” ou uma palestra radiofónica proferida em 1938 com o título “ Sábado Magro (variações sem tom…)”.
Dos vários textos da sua autoria, destacamos “Mahatma Gandhi- Perfil-Vida e Ação-Doutrina”, publicado na revista “Insulana”, volume IV, nº 1, de 1948 e “O encanto das Matemáticas”, publicado no Correio dos Açores, de 8 de outubro de 1932 e que pelo seu interesse e por não ter perdido atualidade, em sua homenagem, se transcreve na íntegra.
Teófilo Braga
O Encanto das Matemáticas
Desde a mais remota antiguidade todos os povos que conheceram a Civilização cultivaram as matemáticas – uns levados por necessidades de ordem prática, outros atraídos pelo prazer do espírito. E porque a Matemática “tem invenções subtis, que servem tanto para facilitar as indústrias como para contentar os curiosos”, os homens cedo compreenderam a sua utilidade e a sua beleza.
O meu tema não é a utilidade das matemáticas – é a beleza. Mas, de passagem, não quero deixar de me referira algumas das suas inúmeras aplicações.
- Na astronomia, é por meio dos cálculos que se prevê o movimento dos corpos celestes; na física, a matemática supre muitas vezes a experiência e abrevia o conhecimento dos resultados; nas finanças, ensina a calcular os juros, as anuidades e as rendas; na agrimensura, facilita os trabalhos topográficos; na engenharia, ajuda a determinar a resistência dos materiais; na navegação, orienta e guia os marinheiros; nas artes militares, resolve as questões do tiro…E não continuamos nesta ordem de ideias, porque só de matemáticas aplicadas existe um grosso dicionário, publicado por um erudito francês, depois de trinta anos de trabalho.
Podem V.V. Exas calcular como é útil ao homem o estudo da Matemática.
Porém, não é somente da utilidade que dimana todo o seu interesse. Ela encerra uma soma tão grande de Perfeição, de Harmonia e de Beleza, que Poisson afirmava: “A vida só é bela a estudar e a ensinar as matemáticas!”
Não lhe perfilhamos o exagero, mas temos de constatar que elas dominam pelo encanto todos aqueles que sabem perscrutar os seus segredos.
O estudo das matemáticas-diz Poincaré- proporciona prazeres análogos aos da música e da pintura. E porque assim é, encontramos, em todos os tempos, espíritos duma elevada intuição estética, sentindo a atração da ciência dos números e das formas.
No velho Egipto, são os admiráveis construtores das pirâmides de Gizeh que perpetuam a memória de uma civilização grandiosa, legando à posteridade, através desses belos monumentos, os conhecimentos geométricos da época.
Na antiga Grécia, vêm-se os sábios e os filósofos embebidos no estudo da Geometria que toma forma de ciência divina, a ponto que Thales de Mileto recebe como benefício da Providência a descoberta duma propriedade dos ângulos inscritos e sacrifica um boi aos seus deuses!
Pitágoras de Samos funda a seita dos pitagóricos, e na sua Escola os discípulos extasiam-se na descoberta dos teoremas de Geometria, como os Santos no conhecimento das verdades eternas. Tão grande é a sedução dos ensinamentos de Pitágoras, que a jovem e bela Teano, a mais linda mulher de Crotona, abraça as suas doutrinas, e, não contente, abraça-se também ao velho Mestre, desposando-o.
Platão, o divino filósofo, manifesta tal predileção pelas matemáticas puras que diz ser a Geometria “um método próprio de dirigir as almas para Deus”. E, querendo glorificar as harmonias da Natureza, tem esta síntese magnífica: “Deus geometriza eternamente”. Ninguém, melhor que os gregos, soube compreender e sentir o valor estético da Matemática.
Mais tarde, na Índia – a pátria do Ramayana e Mahabarata, e por isso, talvez a pátria da Poesia – surgem matemáticos que são poetas. Brahmagupta escreve, em versos mnemónicos, um tratado de astronomia; e Bhaskara – o sábio – compõe, carinhosamente uma obra dedicada à sua filha Lilavati, para a consolar dum desgosto de amor.
A título de curiosidade, vou ler a V.V. Exas um problema dessa obra, que foi traduzido, em verso, pelo meu colega e amigo Dr. Armando Cortes Rodrigues, a quem rendo, neste momento, os meus melhores agradecimentos.
Dum enxame de abelhas, a metade
Mais a raiz quadrada, iam sugando
As flores dum jardim. E volteando
Andavam, em alegre liberdade,
Oito noivos do todo. Mas, sozinha,
Uma abelha amorosa se quedava
Ouvindo o bem-amado que buscava,
A zumbir, outra flor pela tardinha.
Agora dize, amor, que eu não direi
Já de quantas abelhas te falei…
Pelo espírito delicado e gracioso deste problema podem V. Exas avaliar quanto não é obsoleto o preconceito vulgarizado pelo humorismo de Swift, e perfilhado por homens de mentalidade de Lamartine, de que a alma dos matemáticos é necessariamente árida e prosaica.
Mas voltemos à História.
No Ocidente, durante a Idade Média, são os árabes os detentores da Civilização e da Ciência. A finura característica da raça leva-os a dedicarem-se ao estudo das ciências exatas. E, ao princípio na Academia de Bagdad, mais tarde nas Escolas de Marrocos e Espanha, cultiva-se com entusiasmo o gosto das matemáticas.
Na Renascença, os pintores, escultores e arquitetos estudam na Geometria as leis da sua arte. Albert Durer escreve um tratado em que discute a perspetiva. E Andrea del Verrocchio, mestre e amigo de Leonardo da Vinci, considera a Matemática a base das ciências e das artes.
Leonardo da Vinci, expoente máximo da pintura italiana, busca, umas vezes na música outras nos cálculos, o calmante das grandes atribulações. Nos seus pensamentos confessa o prazer que lhe proporciona a Matemática, dizendo: - “Se a luz solar produz a maior alegria nos corpos, a clareza das verdades matemáticas produz a maior alegria nos espíritos”.
Na longa galeria dos matemáticos estetas não deve esquecer-nos no século XVII, descartes, que conseguiu exprimir em símbolos algébricos as figuras da Geometria, à semelhança dos escritores que traduzem em imagens literárias quadros da Natureza.
Nos tempos modernos, entre os génios que cultivaram a Matemática com requintes de artistas,podemos citar D’Alembert, que escreveu com emoção: “Les mathématiques ont été pour moi une maitresse”. Lagrange, que cuidava da elegância e simplicidade das suas fórmulas, como Flaubert do estilo das suas frases; e já nos fins do século XIX, Hermite, alma de sábio e crente, que esperava de Deus a revelação completa do mundo sublime das harmonias matemáticas.
Mas de todos os nomes que a História da Ciência nos apresenta não há nenhum que lembre tanto a paixão dos números como o de Sofia Corvino Kowalewsky, poetisa e literata, beleza peregrina de mulher, que se dedicou às altas matemáticas e amou-as até ao sacrifício.
Sofia Corvino, filha dum grande senhor da Rússia, fugiu de casa de seus pais, onde vivia na abundância, para passar a vida difícil numa cidade universitária da Alemanha, estudando a Matemática.
Nos seus trabalhos escolares viu-se obrigada a vencer obstáculos que pareceriam insuperáveis, se não tivesse a animá-la o inquebrantável culto pela ciência. E mais tarde, já quando professora de Cálculo na Universidade de Stockolmo, renunciou a um casamento de amor com o célebre explorador Nansen, porque não quis satisfazer as exigências do seu pretendente, renunciando ao estudo.
Nansen queria integro o amor de Sofia e ela amava também a Matemática…
***
Minhas Senhoras e meus Senhores
Em todos os tempos, disse eu no princípio, houve espíritos duma elevada intuição estética que sentiram a paixão das matemáticas.
- Porque é que a Matemática apaixona? - Perguntarão V.V. Exas.
- É porque nela se tem, como em nenhuma outra ciência, múltiplas ocasiões de admirar a grandeza do espírito humano, porque é altamente estética; porque conserva, na singeleza dos seus métodos ou na profundeza dos seus conceitos, o sentido do Belo, e finalmente, porque encerra em si os fundamentos da Arte.
O grande Leibniz afirma algures: “A Arte é a mais alta expressão duma aritmética interior e inconsciente.”
Com efeito, todas as manifestações de Arte vivem do número e da forma.
A pintura tem a sua Geometria no desenho e na perspetiva; a arquitetura e a escultura subordinam as leis da sua estética à proporção e simetria; a música, a poesia e a dança procuram no número (ou na medida, o que é a mesma coisa) o melhor dos seus atrativos- o ritmo.
Já Pitágoras notara as relações da Matemática com a Música, embora a sua teoria seja falha de valor científico. No século XVIII, porém, essas relações foram estudadas cuidadosamente pelo grande matemático Euler, num tratado, que, segundo a opinião dum crítico, pecava por conter demasiada matemática para ser lido pelos músicos, e demasiada música para ser lido pelos matemáticos.
Joseph de Maistre dá-nos sob uma forma literária, neste pequeno trecho que eu tomo a liberdade de traduzir para V.V. Exas, o pensamento de Leibniz, de que a Arte é uma alta expressão da aritmética:
“Eliminai o número, e tereis destruído as artes, as ciências, a palavra e, por consequência, a inteligência. Que o número reapareça: com ele virão as suas duas filhas celestes, a harmonia e a beleza; o grito tornar-se-á canto, o ruido terá o nome de ritmo, o salto será a dança, a força chamar-se-á dinâmica, e as linhas serão figuras”.
Eis o segredo do encanto das matemáticas: A Harmonia e a Beleza que se sentem no mundo das Artes são as mesmas que reinam no mundo dos números. Por isso, eu ouso afirmar que a Matemática é a própria essência da Arte.
***
Há quem tenha a impressão de que é preciso atingir os píncaros das altas matemáticas, para se ter o privilégio de gozar das suas belezas.
Não, meus Senhores. Nas planuras das matemáticas elementares que se estudam nos liceus, também há imensas oportunidades de conhecer os seus encantos.
Tudo depende da maneira de ensinar e aprender.
Pode-se ensinar materialmente, maquinalmente, sem dar significado aos números e às fórmulas, num ensino sem largueza, e elevação; ou então, pode-se penetrar o sentido e a ligação dos símbolos, das ideias e das cousas, descendo à fontes do conhecimento. Neste caso, quando a inteligência apreende a originalidade dos artifícios matemáticos, e a aplicação prática dos teoremas e cálculos, desperta num interesse vivo pela mais antiga e a mais perfeita de todas as ciências.
Cada ramo das matemáticas elementares tem os seus interesses característicos.
No estudo da Aritmética podem-se observar as curiosas relações dos números, tão curiosas e tão perfeitas que Frederico Gauss – o maior matemático alemão – dizia: “A Matemática é a rainha das ciências, e a Aritmética a rainha das matemáticas.”
Mundum regunt numeri, diziam os antigos, querendo significar que as relações dos números não eram mais do que o reflexo das relações das cousas. Atribuíam-lhes poderes ocultos de governo do mundo e propriedades místicas.
Tal foi a idolatria dos números que Platão, levado pelo exagero da sua imaginação fantasista, chegou a conceber o número nupcial- aquele que havia de influenciar as consequências do matrimónio!
São incompreensíveis bizantices, mas valem como prova da paixão que despertam os números.
Os números chegam a adquirir uma verdadeira personalidade aos olhos dos que lidam com eles. E na Aritmética aparecem, por isso, designações como a dos números amigos, primos entre si, perfeitos, abundantes e deficientes, exprimindo os laços de afinidade que os ligam aos outros ou as propriedades que os caracterizam.
É na Aritmética, principalmente, que se nota o espírito de ordem e proporção. Nos teoremas, nas séries dos números, nas operações, nas demonstrações -em tudo se admira a ordem e a proporção, ou numa palavra só, o método.
É também através da Aritmética que os homens têm pela primeira vez consciência de que raciocinam, quando acham o resultado das suas primeiras contas. E nessa ocasião, principiam a sentir o prazer incalculável … de calcular.
São as curiosas relações e propriedades dos números, o espírito de ordem e proporção, e o prazer do cálculo que tornam interessante e agradável o estudo da Aritmética.
***
A Álgebra elementar é uma linguagem simbólica, que tem na simplicidade toda a elegância do seu estilo. Cada equação é um trecho de prosa; as incógnitas valem por perguntas que têm como respostas as soluções.
Por um problema em equação é escrever em linguagem algébrica as condições duma questão apresentada em vernáculo. Resolver a equação é procurar a solução do problema: - e aqui está o mérito da língua.
O estilo que a Álgebra usa – se é possível estabelecer o paralelo- é o estilo ático, o que prima pela precisão e pela clareza. Daí todo o seu encanto.
Edgard Quinet, poeta e filósofo, que professou as matemáticas na Escola Politécnica de Paris, sentia-se tão surpreendido com a beleza da Álgebra que a considerava superior a todas as línguas humanas – a língua do Deus do espírito.
O cálculo algébrico tem sobre a aritmética a vantagem de ser mais simples, mais atraente e mais geral. É essa a razão por que a Álgebra, fazendo caminhar mais depressa, alarga os horizontes do campo dos números e desenvolve no homem o poder de abstração por abranger as verdades gerais, não se fixando em particularidades inúteis.
***
De todos os ramos da Matemática elementar, é, sem dúvida, a Geometria, aquele que mais prazeres reserva aos estudiosos.
Na simples verificação duma propriedade ou na demonstração dum teorema, a gente miúda experimenta uma enorme satisfação: cada aluno é um pequenino Arquimedes descobrindo, constantemente, novos princípios e deduzindo novas consequências. Um conhecimento adquirido pelo próprio esforço ou uma verdade demonstrada pela lógica dum raciocínio infantil, dá-lhe o sentimento da sua personalidade intelectual. Se souber latim, dirá como Descartes: “Cogito, ergo sum.”
Na minha curta vida de professor tenho observado, muitas vezes o interesse que desperta a demonstração dum teorema de Geometria.
Ainda há pouco tempo reparei numa criança de catorze anos, que se tinha concentrado horas seguidas com o intuito de demonstrar uma simples propriedade dos ângulos. Quando o seu esforço foi coroado de êxito, uma alegria luminosa estampava-se-lhe no rosto, e no olhar transparecia-lhe o clarão do triunfo.
Imaginei então o que seria a comoção profunda de Isaac Newton, que sentiu esvaírem-se-lhe as forças, quando verificou serem matematicamente exatos os cálculos que o levaram à descoberta genial da lei da gravitação.
Mas não é só o prazer da descoberta que a Geometria oferece aos que estudam. Quem se compenetra do espírito lógico desta ciência aprecia a correlação estreita dos seus teoremas, ligados, caprichosamente, como as pedras duma catedral gótica, formando um
Edifício grandioso de linhas elegantes e sóbrias.
***
Tanto nas matemáticas elementares como nas altas matemáticas se sente o encanto subtil da precisão dos métodos, da justeza dos conceitos e da simplicidade dos princípios.
***
Minhas Senhoras e meus Senhores
Há nos liceus duas disciplinas que inspiram o terror aos alunos e fazem as delícias dos explicadores: - o Latim e a Matemática.
Falando a V.V. Exas do “encanto das matemáticas” tive a intenção, talvez veleidade, de contradizer a opinião corrente de que o mundo dos números é ávido e obscuro, eriçado de dificuldades e destituído de atrativos.
Meus caros alunos
Não sei se V.V. acreditam nos encantos que acabei de descrever.
Se não acreditaram, estudem a Matemática e verão que laboram num erro; e se acreditaram, estudem a Matemática para verem quanto ela encerra de Perfeição, de Harmonia e de Beleza.
Lúcio Miranda
(texto integral da oração de “sapientia” proferida na abertura solene das aulas do Liceu Central de Antero de Quental, publicada no jornal “Correio dos Açores”, de 8 de outubro de 1932)
Contacto da revista: jope103@hotmail.com
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sábado, 15 de fevereiro de 2020
Educar de outra maneira: o Projeto Novas Rotas e o Movimento da Escola Moderna, em São Miguel (Açores)
Educar de outra maneira: o Projeto Novas Rotas e o Movimento da Escola Moderna, em São Miguel (Açores)
Teófilo Soares de Braga
“…Isso prova que o homem mais bem-dotado pela natureza só recebe faculdades, mas essas faculdades permanecem mortas se não forem fertilizadas pela ação benfazeja e poderosa da coletividade. Diremos mais. Quanto mais o homem é beneficiado pela natureza, mais ele apreende da coletividade; disso resulta que mais ele deverá devolver-lhe, com toda justiça.” (Mikhail Bakunin)
“…uma escola onde cada um aprenda por experiência com o seu próprio trabalho, tomando como ponto de partida a sua experiência vivida e os problemas por ela suscitados, autocontrolando os seus resultados e pondo-os ao serviço da formação da sua personalidade integrada numa comunidade escolar” (Aurélio Quintanilha)
Na ilha de São Miguel, desde o ano letivo de 2018-2019, está em funcionamento o Projeto Novas Rotas, um projeto de inovação pedagógica que veio ampliar a oferta educativa e permitir a liberdade efetiva dos encarregados de educação escolherem uma nova forma de organização escolar que é mais eficaz na promoção de valores e competências para os seus educandos.
O Projeto Novas Rotas, da Escola Básica Integrada de Capelas, São Miguel, Açores, é inspirado nos pressupostos teóricos da Educação Holística e na lógica organizativa do Projeto Âncora, Brasil, e da Escola da Ponte, uma escola pública criada por José Pacheco, em 1976, que funciona em São Tomé de Negrelos, concelho de Santo Tirso, distrito do Porto. De acordo com o que se pode ler na página Web da Escola da Ponte, “a organização que esta Escola põe em prática inspira uma filosofia inclusiva e cooperativa que se pode traduzir, de forma muito simplificada no seguinte: todos precisamos de aprender e todos podemos aprender uns com os outros e quem aprende, aprende a seu modo no exercício da Cidadania.”
No ano letivo 2019-2020, os 43 alunos que frequentam o Projeto Novas Rotas continuarão a aprender o currículo de forma diferente. Com efeito, de acordo com declarações recentes da sua Coordenadora, Conceição Medeiros, à Agência Lusa, “Não há aulas, não há turmas definidas, não há professores fixos por disciplina – tudo é mais flexível, as crianças vão aprendendo o currículo através do desenvolvimento de projetos, projetos de vida, projetos de intervenção comunitária, de consciência planetária e também projetos académicos”.
Uma realidade que faz com que este projeto se distinga do que se passa nas escolas públicas dos Açores é o forte envolvimento dos pais, sem os quais acreditamos que o projeto nunca seria implementado e a sua continuação estaria posta em causa. A título de exemplo, referimos que foram eles os grandes responsáveis pelas adaptações necessárias ao funcionamento do projeto no edifício onde está a funcionar e para este ano letivo foram eles, com apoios diversos, nomeadamente de voluntários vindos Chile, Espanha, Canadá, Inglaterra, Uruguai, Hungria, Israel e Austrália que construíram uma nova sala.
Na mesma ilha funciona um Núcleo Regional do Movimento da Escola Moderna (MEM) que, criado em 2018, promove a autoformação cooperada de professores, quer através de grupos cooperativos, quer nos “Sábados Pedagógicos” que têm ocorrido, na sua maioria, na Escola Secundária das Laranjeiras, em Ponta Delgada.
O Movimento da Escola Moderna surgido “a partir da atividade de seis professores que se constituíram, em fevereiro de 1965, num Grupo de Trabalho de Promoção Pedagógica impulsionado pelos cursos de aperfeiçoamento profissional de professores que Rui Grácio promoveu e dirigiu no Sindicato Nacional de Professores”, tem como principal mentor o pedagogo Sérgio Niza.
O MEM que se inspirou em vários pedagogos, entre os quais o francês Celestein Freinet apresenta em relação a este algumas diferenças. De acordo com declarações de Sérgio Niza, prestadas, em 1997, à revista Noésis: “Não partimos como Freinet da ideia de construir um modelo escolar, mas sim de nos formarmos como professores e dessa forma irmos fazendo avançar as nossas práticas. […] Isso não impede que ainda hoje utilizemos algumas técnicas Freinet, porque, em boa verdade, as técnicas Freinet não eram dele. Foram técnicas que estavam disponíveis e a que deu novo sentido”.
Os professores e educadores do MEM, que trabalham tanto em escolas públicas como particulares, perfilham um “modelo sociocêntrico de educação, acelerador do desenvolvimento moral e social das crianças e dos jovens, através de uma ação democrática exemplificante no decurso da educação formal”.
No modelo do MEM, o professor deixa de ser um mero transmissor de conhecimentos e é passa a ter como função principal a organização social das aprendizagens.
O MEM considera que na ação pedagógica a representatividade não é democrática. Sobre o assunto Sérgio Niza escreveu o seguinte:
“Todo o poder que se afirma por via da representatividade faz reproduzir a ideia de representação que pressupõe sempre uma ideia de elite. Há uns (que são) os eleitos e os outros…porque nós sabemos que (os eleitos) têm sempre mais poder, mais capacidade de intervenção. São questões fundamentais da democracia, que a democracia política não conseguiu resolver, mas que a democracia educativa poderá resolver”.
A democracia nas salas de aula concretiza-se na participação dos alunos na gestão dos conteúdos programáticos, na organização dos meios didáticos e dos tempos e dos espaços e é instituída num Conselho de Cooperação Educativa.
Para o MEM as crianças e jovens são cidadãos e nas aulas fazem a aprendizagem da Cidadania como demonstram, entre outros, dois dos postulados que sintetizam o modelo pedagógico do movimento:
- A cooperação e a interajuda dos alunos na construção das aprendizagens dão sentido ao desenvolvimento curricular;
- Os alunos intervêm no meio, interpelam a comunidade e integram na sala “atores” da comunidade educativa como fontes de conhecimento dos seus projetos de estudo e de investigação”
Para saber mais:
González, P. (2002) O Movimento da Escola Moderna. Porto: Porto Editora.
Morais, P. (2017). Voltemos à Escola. Lisboa: Contraponto Editores
http://www.escoladaponte.pt/novo/
https://novasrotasblog.wordpress.com/
http://www.movimentoescolamoderna.pt/
https://www.projetoancora.org.br/
Letra a Letra, nº 9, fevereiro de 2020
Nota: a revista Letra a Letra pode ser pedida através do seguinte contacto: jope103@hotmail.com
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020
Base das Lajes: um atentado à vida
Base das Lajes: um atentado à vida
Dada
a localização dos Açores, no meio do Atlântico, entre dois continentes, na
Primeira Guerra Mundial instalou-se uma base naval e na Segunda Guerra Mundial
duas bases aéreas. No presente texto faremos, apenas, referência à utilização
pelos Estados Unidos da América, da Base das Lajes e outras infraestruturas a
ela associadas, na ilha Terceira.
Base
das Lajes tem servido ao longo dos tempos como instrumento de agressão e
morticínio de populações em várias partes do mundo e é um foco de poluição
ambiental associada à degradação da qualidade de vida da população da ilha
Terceira.
No
que diz respeito à utilização da Base das Lajes para espalhar a morte, não
pretendendo ser exaustivo, aqui vão alguns exemplos: em julho de 1958,
intervenção americana no Líbano com vista a proteger o “governo pró-Ocidente”; em 1973, apoio militar
aos israelitas durante a última guerra israelo-árabe; em 1975, envio de
material de guerra para as forças de direita no Líbano e entre agosto de 1990 e
fevereiro de 1991, escala e reabastecimento de aviões para a guerra do Golfo;
A existência de armas nucleares na ilha Terceira foi por diversas vezes
denunciada por várias entidades, nomeadamente num relatório da francesa
Fundation pour les Etudes de Defense Nacional, na década de 80 do século
passado. Como se sabe a presença de armas nucleares leva ao aumento da
radioatividade e esta associada um conjunto de problemas de saúde, entre os
quais doenças do foro oncológico.
Mais recentemente, o armazenamento de munições e de combustíveis e os
consequentes efeitos perniciosos na saúde das populações foi denunciado por uma
petição pública (1), em cujo texto se pode ler o seguinte:
“Já em 2005, há 12 anos,
foram identificados, pela força aérea dos Estados Unidos da América, 35 locais
contaminados com hidrocarbonetos e metais pesados nos solos e aquíferos da ilha
Terceira. Contaminação posteriormente confirmada, em 2009, pelo Laboratório
Nacional de Engenharia Civil (LNEC).
A saúde pública dos habitantes da ilha, é algo que tem vindo
a ser discutido localmente durante décadas. Atualmente, existe um medo palpável
entre a população devido ao número anormal de casos de cancro, e a suspeita do
mesmo estar relacionado com uma possível contaminação dos solos e aquíferos. Só
no concelho da Praia da Vitória incidem 33% dos casos de cancro nos olhos e 21%
de casos de cancro de colo do útero a nível regional, num concelho que
representa apenas 8,5% da população regional.”
Face aos problemas existentes, surgem várias reações por parte de
personalidades diversas ou das forças partidárias.
A esmagadora maioria das forças partidárias, ou ignora o assunto ou
pretende esconder o sol com uma peneira, não só desvalorizando a perda da
qualidade de vida e nunca pondo em causa a presença militar dos
norte-americanos. Assim, sendo cúmplices de todos os atentados cometidos, hoje,
após terem acordado de longa letargia, passaram a reivindicar a descontaminação
ambiental da ilha Terceira e a exigir que o Estado Português assuma as suas
responsabilidades.
Felizmente, a comunicação social dos Açores, nomeadamente o jornal
terceirense Diário Insular, tem dado voz a quem se preocupa com o problema e tem
divulgado relatórios e análises à água e aos solos. A título de exemplo, a 15
de agosto de 2019, aquele jornal anunciava que a água da Base das Lajes estava
contaminada com bromato, um produto químico sob suspeita de ser cancerígeno. O
mesmo periódico, no dia 9 de novembro de 2019, publicou um texto “intitulado
“Contaminação degrada na Terceira todas as formas de vida”, onde um americano
confessa que mais do que a questão dos cancros, o grande problema é o da
bioacumulação que põe em causa toda a qualidade de vida, em geral, e em
particular, está na origem, mais cedo ou mais tarde, de várias doenças
responsáveis pela diminuição da esperança de vida”.
A comunidade científica que poderia ser útil no esclarecimento das
populações com verdade e sem alarmismos, está dividida. Se a grande maioria
mantém-se em silêncio absoluto, muito poucos alertam para a gravidade dos
problemas e apelam à necessidade urgente de se proceder à descontaminação e outros
há que quando se fazem ouvir é para “chamar de alarmistas” aos colegas e para tentar
branquear a situação, afirmando que apesar da contaminação, afinal nada de
grave se passa.
Uma das poucas pessoas que não se tem calado é o professor da Universidade
dos Açores, Félix Rodrigues, que, por várias vezes, tem denunciado o secretismo
que pretendem que exista em torno do assunto. No Diário Insular de 21 de
dezembro de 2018, Félix Rodrigues afirmou o seguinte: “Tanto Lisboa como os EUA
têm muito que explicar aos açorianos e terceirenses em particular. A explicação não deverá ser somente
filosófica ou política, mas concreta, onde se deve dizer o que se fez, passo a
passo e com que tecnologia. É incompreensível que o controlo da descontaminação
seja feito sem a participação de quem é afetado. Faz sentido que quem me pode envenenar
seja a pessoa que me faz o tratamento de cura, sem que tenha conhecimento
disso? Isso é no mínimo incompreensível e pouco ético.
José Soares
Letra a Letra nº 9, fevereiro de 2020
Nota:
a revista Letra a Letra pode ser pedida através de um do seguinte contacto: jope103@hotmail.com
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segunda-feira, 6 de maio de 2019
Reações ao assassinato de Ferrer y Guardia nos Açores
Reações ao assassinato de Ferrer y Guardia nos Açores
“O verdadeiro educador é aquele que, às vezes até mesmo contra as suas próprias ideias e vontades, apoia a criança e o desenvolvimento de suas energias.” (Ferrer y Guardia)
Em 1909, por ordem do governo espanhol, foi fuzilado em Espanha o pedagogo Francisco Ferrer y Guardia (1859-1909) fundador da Escola Moderna que funcionou em Barcelona entre 1901 e 1906.
O assassinato de Ferrer y Guardia, foi condenado em todo o mundo não só por quem como ele era anarquista, mas pelas mais diversas pessoas e organizações mais progressistas.
Neste texto, depois de uma breve referência à personalidade e à pedagogia racionalista de Ferrer y Guardia, daremos a conhecer, de forma sucinta, qual foi a reação ao seu fuzilamento por parte de algumas personalidades açorianas e como os jornais dos Açores trataram o assunto.
Ferrer y Guardia e a Pedagogia Racionalista
Francisco Ferrer y Guardia nasceu em Allela, perto de Barcelona a 10 de janeiro de 1859. Em 1886, apoiou um fracassado pronunciamento militar que pretendeu instalar a República, pelo que teve de se exilar em França, onde sobreviveu ensinando espanhol.
Como homem de ação, ao regressar a Espanha, onde a sociedade era dominada pela superstição religiosa e onde a taxa de analfabetismo era superior a 50%, Ferrer fundou, em 1901, a Escola Moderna.
De acordo com Sílvio Gallo, Ferrer acreditava que se aprendia pelo afeto, isto é, embora a aprendizagem fosse “um ato mental, racional, nada se aprende se antes não passar pelo coração, se não mobilizar o desejo”.
Na Escola Moderna, seguia-se a “pedagogia racional” a qual segundo Sílvio Gallo é “um processo educativo que eduque pela razão, para que cada ser humano seja capaz de raciocinar por si mesmo, conhecer o mundo e emitir seus próprios juízos de valor, sem seguir nenhum mestre, nenhum guia”.
Embora não discutindo a utilidade de provas em alguma circunstância, o que é certo é que na Escola Moderna de Ferrer “não havia prémios nem castigos, nem provas em que houvessem alunos ensoberbecidos com nota dez, medianias que se conformassem com a vulgaríssima nota de aprovados nem infelizes que sofressem o opróbrio de se verem depreciados como incapazes”.
Ainda sobre a não existência de provas, Ferrer escreveu o seguinte: “os elementos morais que este ato imoral qualificado de prova inicia na consciência da criança são: a vaidade enlouquecedora dos altamente premiados; a inveja roedora e a humilhação, obstáculo de iniciativas saudáveis, aos que falharam; e em uns e outros, e em todos, os alvores da maioria dos sentimentos que formam os matizes do egoísmo”.
Para além do referido, Ferrer dava importância ao jogo e às brincadeiras não só por serem ações naturais das crianças, mas porque contribuíam para a saúde corporal, para o desenvolvimento físico e pelo contributo que davam para a descoberta de habilidades e predisposições.
No que diz respeito às instalações escolares, Ferrer não aceitava uma escola fechada entre quatro paredes de modo que na sua Escola Moderna a par de salas bem decoradas, havia pátios destinados à realização de atividades ao ar livre. Além disso, toda a atividade escolar era complementada com visitas a fábricas e passeios diversos.
Acusado, injustamente, de ter instigado uma insurreição operária, a Semana Trágica de Barcelona, foi preso, acabando por ser fuzilado em Montjuïc no dia 13 de outubro de 1909.
Como seu desaparecimento físico, o seu pensamento não caiu no esquecimento. Com efeito, as suas ideias, sobretudo após a sua morte, influenciaram a abertura de outras escolas em diversos países, como a Voz do Operário, em Lisboa, e serviram de inspiração a diversos pedagogos, como o brasileiro Paulo Freire.
Reações ao fuzilamento de Ferrer y Guardia nos Açores
O fuzilamento de Ferrer foi muito noticiado nos Açores, nomeadamente na ilha de São Miguel, tendo as posições variado muito. Com efeito, os órgãos de informação mais progressistas, nomeadamente de inspiração anarquista, como o “Vida Nova” ou socialista, como “O Repórter, e republicana condenaram veementemente o assassinato. Houve pelo menos um jornal que tentou manter a neutralidade, o Diário dos Açores, e outros, mais conservadores, como a Liberdade, de Vila Franca do Campo, ou o Correio Michaelense, de Ponta Delgada, pelo contrário apoiaram o governo espanhol e regozijaram-se com o desaparecimento prematuro daquele pedagogo espanhol.
Num texto, não assinado, publicado no Jornal A Folha, no dia 24 de Outubro de 1909, a dada altura o autor ou autora, supomos que a feminista e republicana Alice Moderno condenou o crime, escrevendo o seguinte:
“Ferrer foi um brasseur d’idées, foi um desses indivíduos excecionais que, nesta época de egoísmo, em que se entrechocam os mais sórdidos e desmedidos interesses pessoais, sacrificou toda a sua fortuna particular, toda a segurança individual, toda a sua tranquilidade espiritual, por uma ideia- combatendo por ela até ao ponto de ver correr, pelos furos das balas reais, o seu sangue generoso”.
O jornal “O Repórter”, cujo proprietário e diretor era o socialista Alfredo da Câmara, no dia 24 de Outubro de 1909, também condenou o assassinato de Ferrer nos seguintes termos: “não é impunemente que se mata ou manda matar um Ferrer, entidade de destaque no campo das lutas pelas reivindicações sociais; não é impunemente que se arremessa um cartel de desafio aos explorados, para regalo dos exploradores, aos pobres e aos humildes para tranquilidade dos argentários poderosos…”.
No dia 31 de outubro do mesmo ano, o articulista de “O Repórter” escreveu que “a execução de Ferrer foi um assassínio monstruoso, levado a cabo pelos jesuítas e congreganistas espanhóis de cumplicidade com um governo de camândulas e de punhal”.
A 10 de Novembro de 1909, João Anglin, então jovem estudante anarquista, escreveu no jornal “Vida Nova” o seguinte:
“Não foi em vão que Cristo regou com o seu sangue as urzes do Calvário, porque a sua doutrina sublime, apesar de deturpada e adulterada pelos que se dizem seus ministros, tem atravessado os séculos; não foi debalde que Giordano Bruno, Lourenço de Gusmão, Galileu e tantos outros sofreram horrorosos tormentos, porque a ciência que tanto amavam e por quem deram a vida, tem defendido radiosa Luz entre a espécie humana.
Assim também Francisco Ferrer, a infeliz vítima da malta reacionária, dessa horda de facínoras que para vergonha nossa ainda campeia infrene, acaba de ser cobardemente assassinado em Barcelona. A reação desde há muito tramava contra a existência desse grande vulto, desde há muito tentava perdê-lo. Buscou a ocasião propícia e achou-a.
Estão saciados os ódios, estão satisfeitas as feras!!”
O jornal Diário dos Açores, o de maior circulação nos Açores na época, manteve-se imparcial, tendo no primeiro texto, publicado no dia 26 de outubro de 1909, relatado os últimos momentos de Ferrer e sintetizado o seu pensamento na seguinte frase: “A filosofia de Ferrer era simples: resumia-se no ódio forte e ardente à Igreja: o anticlericalismo era o seu dogma; tinha posto na ciência uma fé absoluta.”
Ao longo de cerca de 20 dias o jornal relatou o julgamento de Ferrer, as reações ao seu fuzilamento em vários países do mundo, com destaque para a transcrição de notícias de vários jornais. Relativamente a Portugal, para além das manifestações de protesto, destacamos um abaixo-assinado a saudar o desempenho do advogado de Ferrer que foi subscrito por várias personalidades, entre as quais o açoriano Manuel de Arriaga.
O Correio Michaelense, diário monárquico, por seu lado, tomou uma posição bem clara de condenação do pensamento de Ferrer, que distorceu em textos publicados durante alguns dias.
No dia 18 de outubro, um colaborador do jornal, em relação à morte de Ferrer escreveu o seguinte: Chamem-me, muito embora, os nomes que quiserem, esses que aí falam do caso com a lágrima velhaca no canto do olho hipócrita. Eu e eles sentimos da mesma forma, isto é, não sentimos cousa alguma pela morte de Ferrer, como não sentimos quando morre qualquer pessoa que não temos o gosto ou desgosto de conhecer”.
A explicação para esta posição deve-se ao facto do articulista considerar Ferrer “um livre pensador, propagandista da livre educação e fundador da Escola Moderna, escola ou grupo de escolas onde se observava o seu método educativo, assente na seguinte base. – Nem deus, nem pátria, nem fé, nem leis”.
O semanário monárquico e católico de Vila Franca do Campo, A Liberdade, dirigido pelo Padre Manuel José Pires seguiu as mesmas pisadas do Correio Micaelense, tendo publicado um texto a deturpar o que pretendia a Escola Moderna.
No dia 16 de outubro de 1909, esquecendo-se da compaixão pregada pelo cristianismo, o jornal aplaudiu a decisão do governo espanhol de mandar assassinar Ferrer nos seguintes ternos:
“Este revolucionário espanhol, e principal instigador das crueldades praticadas em Barcelona foi condenado à morte.
É mais uma vítima do movimento anárquico, que se pretende alastrar por toda a parte, pondo em sobressalto as nações e seus governos.
Se, porém, todos estes tiverem a energia do Governo Espanhol será restabelecida a tranquilidade pública.
É dura a lei da morte, mas em tais casos é a única salvação das nações no descalabro que as ameaça.”
O jornal A Persuasão, dirigido por Francisco Maria Supico, no dia 27 de outubro de 1909, num texto não assinado, intitulado “Guilhotinar, Fusilar” condenou os atos atribuídos a Ferrer, mas manifestou claramente a sua oposição ao seu fuzilamento, como se pode constatar através do seguinte extrato:
“A nosso ver o governo espanhol perdeu na questão Ferrer a melhor das ocasiões de se mostrar generoso e de grandemente se insinuar na simpatia universal, poupando a vida ao criminoso embora o mandasse para um presídio gastar em trabalhos úteis todos os alentos da sua vitalidade.
Pelo modo como procedeu com o revolucionário não acabou as revoluções antes muito contribuiu para aumentá-las; e menos demonstrou que matar é crime pois também matou.
Protestamos com todas as nossas forças contra este selvático modo de exercer justiça social”
Por último, o jornal, a União, de Angra do Heroísmo, dirigido por Manuel Vieira Mendes da Silva, no dia 18 de outubro de 1909, para além de condenar Ferrer, classificando-o como “um agitador raivoso”, apoiou a decisão do governo espanhol de o mandar executar e denunciou os republicanos portugueses por se terem colocado ao lado daquele pedagogo espanhol.
Sobre o assunto podemos ler:
“Um grupo d’homens que aproveita a condenação d’um grande malfeitor para mostrar sentimentos d’humanitarismo e dar provas de solidariedade política não é um partido com aspirações de governo, é quando muito, uma patrulha sem orientação e sem plano definido, disposta a levar ao meio da sociedade a desordem e toda a casta de perturbações.”
Considerações finais
O assassinato de Ferrer, que foi condenado pelas mais diversas entidades mais progressistas em todo o mundo, foi, também, aplaudido pelos sectores mais conservadores da sociedade, onde se incluía a hierarquia da igreja católica.
A condenação de Ferrer não foi o resultado de qualquer crime que tivesse cometido. Pelo contrário, Ferrer foi condenado por defender uma educação emancipadora ou como muito bem escreveu Anatole France, “o seu crime foi ser republicano, socialista, livre-pensador, o seu crime foi ter criado um ensino laico em Barcelona…”
Mais de um século depois da sua morte, importa continuar a estudar e dar a conhecer o pensamento de Ferrer, não só pelo seu valor histórico, mas porque a escola e a sociedade atuais atravessam uma profunda crise e alguns dos princípios da sua Escola Moderna ainda não perderam atualidade.
Principais fontes consultadas
Ferrer y Guardia, F. (2014). A Escola Moderna. São Paulo: Biblioteca Terra Livre
Sánchez, E. (s/d). Francisco Ferrer i Guardia Una educación libre, solidaria, que lucha contra la injusticia. http://educomunicacion.es/figuraspedagogia/0_ferrerguardia.htm
Teófilo Soares de Braga
Janeiro de 2019
(Letra a Letra, nº 8, abril de 2019)
domingo, 28 de outubro de 2018
COMBATE À TAUROMAQUIA NOS AÇORES: DO INÍCIO DO SÉC. XX ATÉ 2012
COMBATE À TAUROMAQUIA NOS AÇORES: DO INÍCIO DO SÉC. XX ATÉ 2012
Neste texto tenta-se fazer uma primeira reflexão, necessariamente incompleta por escassez de tempo, acerca da oposição às touradas nos Açores, desde o início do século XX até ao ano de 2012.
Na luta contra a tauromaquia, nos Açores, podemos distinguir três fases: a do combate individual, a da oposição à “espanholização” das touradas e a da defesa da abolição de todo o tipo de touradas.
A Primeira Fase
A primeira fase (1901- abril de 1988) é a fase da oposição às touradas por parte de algumas personalidades açorianas, que se distinguiram no campo da ciência, da cultura, da literatura e da vida política, algumas delas a residir fora dos Açores.
Nesta fase distinguiram-se, entre outras pessoas, Alice Moderno (1867-1946) (fig.1) que para além da sua atividade de jornalista, escritora, agricultora e comerciante, foi uma mulher que pugnou pelos seus ideais republicanos e feministas, sendo uma defensora da natureza e amiga dos animais.
Alice Moderno foi uma das fundadoras da Sociedade Micaelense Protectora dos Animais e não foi indiferente às touradas. Com efeito, o jornal que dirigiu A Folha (1902-1917) deu guarida a diversos textos contra as touradas, a maioria dos quais da autoria do zoófilo Luís Leitão.
Foi convidada e assistiu contrariada a uma tourada, na ilha Terceira, e não ousou comunicar aos seus amigos, considerando-os “semi-espanhóis no capítulo de los toros”, o que pensava pois, escreveu ela, “não compreenderiam decerto a minha excessiva sentimentalidade”.
Na sua carta XIX, referindo-se à tourada a que assistiu escreveu o seguinte:
“É ele [cavalo], não tenho pejo de o confessar, que absorve toda a minha simpatia e para o qual voam os meus melhores desejos. Pobre animal, ser incompleto, irmão nosso inferior, serviu o homem com toda a sua dedicação e com toda a sua lealdade, consumindo em seu proveito todas as suas forças e toda a sua inteligência! (…) Agora, porém, no fim da vida, é posto à margem e alugado a preço ínfimo, para ir servir de alvo às pontas de uma fera, da qual nem pode fugir, visto que tem os olhos vendados!”
“E esta fera [touro], pobre animal, também, foi arrancada ao sossego do seu pasto, para ir servir de divertimento a uma multidão ociosa e cruel, em cujo número me incluo! (…) Entrará assim em várias toiradas, em que será barbaramente farpeada até que, enfurecida, ensanguentada, ludibriada, injuriada, procurará vingar-se, arremessando-se sobre o adversário que a desafia e fere. Depois de reconhecida como matreira, tornada velhaca pelo convívio do homem, será mutilada”.
Alfredo da Silva Sampaio (1872 - 1918), que foi um médico açoriano que se notabilizou como naturalista, como fundador do primeiro posto de observação meteorológica na ilha Terceira e autor de uma vasta obra sobre a história, a geografia e a história natural da Terceira, insurgiu-se contra o barbarismo das touradas à corda que na sua altura eram muito mais violentas/desumanas do que são hoje.
Embora longa a citação, retirada do seu livro “Memória da Ilha Terceira” (Fig. 2), publicada em 1904, vale a pena a leitura do seu texto sobre as touradas à corda:
“Uma corrida de touros à corda constitui, desde muito tempo, o principal divertimento do povo terceirense. Por ela abandonam os trabalhadores os campos, as oficinas, etc., deixando de ganhar o seu salário, para se transportarem a algumas léguas de distância, a verem um toiro, que, na maior das vezes, nada tem de bravo, e que percorre, amarrado por uma longa corda, algumas centenas de metros de uma estrada.
São geralmente em dias de trabalho que têm lugar estas corridas, e no dia seguinte ao de uma festa do Espírito Santo ou de outra qualquer festa religiosa. Ou são os impérios que promovem este divertimento público, ou qualquer influente político que, querendo ser grato aos seus amigos, promove e concorre com a maior parte das despesas.
…
Se é agradável e pitoresco a aglomeração de povo armado de compridos e grossos varapaus ferrados (muitas vezes mais perigosos que o touro), e os balcões e janelas das casas repletas de raparigas com vestuários de variegadas cores, ao mesmo tempo é bárbaro ver a corrida de um pobre animal, geralmente malezzo, ser espicaçado por milhares de paus, que lhe produzem largos ferimentos, chegando algumas vezes a esvaírem-lhes os olhos.
…
Findo o espectáculo, que é anunciado por muitos foguetes, recolhe o povo satisfeito a suas casas, sem se lembrar do salário que perdeu, e que pode facilmente adquirir ali a causa da sua morte.”
O libertário terceirense Adriano Botelho (1892-1983) manifestou, num texto intitulado “Contra os espectáculos imorais”, publicado, em 1925, no suplemento literário ilustrado do jornal A Batalha e reunido no livro “Adriano Botelho, memória e ideário” (fig.3), uma opinião muito semelhante à de Alice Moderno, como se pode concluir através da leitura do seguinte extrato:
”…fazem-se por outro lado, reclames entusiastas de espectáculos, como as touradas de praça onde por simples prazer se martirizam animais e onde os jorros de sangue quente, os urros de raiva e dor e os estertores da agonia só podem servir para perverter cada vez mais aqueles que se deleitam com o aparato dessa luta bruta e violenta, sem qualquer razão que a justifique”.
Companheiro de Adriano Botelho no movimento anarquista português, o cientista terceirense Aurélio Quintanilha (1892-1987) (fig. 4) que, entre outras funções, foi professor da Universidade de Coimbra, foi também um opositor às touradas tendo, a meados do século passado, afirmado o seguinte:
"Como homem e como professor não posso deixar de lhes enviar a minha mais completa e entusiástica adesão ao protesto levantado pela Sociedade Protectora dos Animais contra um espectáculo indigno do nosso tempo, da nossa mentalidade, da nossa civilização".
A Segunda Fase
A segunda fase (maio 1988- maio de 2009) é balizada pela oposição à introdução de touros de morte nos Açores e o chumbo, a 14 de maio de 2009, pela Assembleia Legislativa Regional dos Açores de um Projecto de Lei destinado a introduzir a sorte de varas.
Na sequência da notícia da apresentação por Adolfo Lima, Secretário Regional da Agricultura e Pescas para análise, em Plenário do Governo Regional dos Açores, suportado pelo PSD, de uma proposta que havia sido elaborada pelo Dr. Álvaro Monjardino (fig. 5), através da qual se pretendia que nos Açores fosse introduzida as touradas com touros de morte, os Amigos da Terra/Açores (atualmente Amigos dos Açores) organizaram uma campanha internacional que culminou com a apresentação de uma petição ao Parlamento Europeu.
A intenção não avançou, tendo na altura o presidente do Governo Regional dos Açores, Dr. Mota Amaral, comunicado ao Director do Eurogroup for Animal Welfare que a legislação não avançaria devido às "reacções negativas da opinião pública".
A 21 de outubro de 1995, na ilha Terceira, realizou-se numa quinta particular uma tourada à espanhola, onde foram toureados e mortos dois touros. Na ocasião, tal ato a que assistiu o atrás mencionado membro do governo foi contestado por várias pessoas singulares e coletivas, como os Amigos dos Açores (fig. 6), algumas sociedades protetoras de animais e pelo partido os Verdes, na Assembleia da República.
Em resposta, a um ofício dos Amigos dos Açores, aquela associação recebeu da Presidência do Governo Regional dos Açores um ofício que dava conta que o Presidente do Governo Regional dos Açores, Dr. Mota Amaral, tinha dado a devida atenção ao “protesto manifestado, informando que se tratou de um espetáculo realizado numa propriedade particular e que este tipo de touradas estão proibidas nos Açores” e acrescentava que “O Governo Regional por princípio e tendo sempre, também, em conta o impacto negativo na opinião pública açoriana de semelhante ato, envidará todos os seus esforços para que tal não se venha a repetir na Região Autónoma dos Açores”.
A 18 de outubro de 2002, o parlamento aprovou a introdução da sorte de varas, com 26 votos a favor, 13 contra e 4 abstenções. Este diploma veio a ser “chumbado” pelo Ministro da República, Sampaio da Nóvoa, já que não se revestia de interesse específico regional.
A contestação a esta nova tentativa de introdução da sorte de varas, como primeiro passo, para a introdução de touros de morte, partiu novamente dos Amigos dos Açores e, desta vez, contou, também, com a participação da Associação dos Amigos dos Animais da Ilha Terceira, que elaborou uma petição que recolheu duas mil assinaturas e que foi entregue ao Ministro da República (fig. 7).
Mais uma tentativa de introdução da sorte de varas, nos Açores, terminou, a 14 de Maio de 2009, com o chumbo pela Assembleia Legislativa Regional de uma proposta naquele sentido. Na votação, 28 deputados votaram contra e 26 a favor, registando-se duas abstenções e a ausência de um deputado do Partido Socialista que fora um dos seus proponentes.
A campanha contra esta última tentativa da introdução da sorte de varas partiu do Blogue Terra Livre/CAES - Colectivo Açoriano de Ecologia Social e contou com a participação da Associação de Amigos dos Animais da Ilha Terceira, que manifestou a sua discordância, dos Amigos dos Açores - Associação Ecológica, que para além da sua tomada de posição na comunicação social, enviou uma carta à Unesco, do CADEP, de Santa Maria, cujo coordenador escreveu vários textos para a comunicação social e outros dirigidos aos deputados, para além do contacto pessoal com alguns deles.
Para além das associações referidas, tomaram posição pública a Azórica, através de um texto assinado pelo seu presidente, e a Sociedade Micaelense Protectora dos Animais, que já não tinha qualquer atividade há alguns anos e que nunca mais deu razão de si depois, também emitiu um comunicado onde apelava aos deputados regionais para não aprovarem “os espetáculos que têm como pano de fundo os maus-tratos e o sofrimento dos animais”.
Foi no decurso da campanha, que vimos referindo, que surgiu o coletivo virtual “Açores Melhores sem Maus Tratos aos Animais” cujo principal é a Proteção dos Animais nos Açores, mas que é solidário com todas as lutas que tenham o mesmo fim em qualquer parte do Planeta.
A Terceira Fase
A terceira fase, iniciada em junho de 2009, surge como reação à tentativa de estender a tauromaquia a outras ilhas dos Açores, nomeadamente a São Miguel e a Santa Maria.
A expansão do negócio sujo da tauromaquia para as outras ilhas tem contado com o apoio direto ou indireto de departamentos do Governo Regional dos Açores, como a Direção Regional do Desenvolvimento Agrário, de alguns presidentes de Câmaras Municipais, com destaque para a de Lagoa, por juntas de freguesia, por um pároco e as últimas por Irmandades do Espírito Santo e pela Associação de Estudantes da Universidade dos Açores, cujo presidente é natural da ilha Terceira e tem ligações com a Tertúlia Tauromáquica Terceirense.
Como é impossível fazer algo na ilha Terceira, no que às touradas à corda diz respeito, pois este ano durante 168 dias, da época oficial, realizaram-se 244 touradas, ainda assim menos 13 do que no ano anterior, a reação tem-se limitado ao protesto pela realização de touradas noutras ilhas, sempre que é do conhecimento público (fig. 10).
Para o caso da ilha Terceira foram feitos protestos, envio de e-mails a várias entidades, pelo facto de ser ter realizado uma tourada de praça no dia 20 de junho de 2010, dia de luto nacional pela morte do escritor José Saramago, o que é proibido pelo artigo 12º do
Decreto Legislativo Regional n.º 11/2010/A (Regulamento Geral dos Espectáculos Tauromáquicos de Natureza Artística da Região Autónoma dos Açores). Foram, também, enviados, em outubro de 2010, e-mails à Diretora Geral da UNESCO para que esta “recuse a inscrição da Festa Brava da Terceira como Património Imaterial da Humanidade, por parte da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo. Mais recentemente, na sequência da promoção pela Assembleia Legislativa Regional dos Açores de uma tourada à corda no programa das comemorações do Dia dos Açores que foi celebrado, no dia 13 de junho de 2011, na cidade da Praia da Vitória, na ilha Terceira (Açores) foi feita uma campanha de protesto junto da Assembleia Legislativa Regional que decidiu transformar os e-mails enviados em petição.
As formas de protesto utilizadas têm sido a emissão de comunicados para a comunicação social, a publicação de textos em blogues, o envio de e-mails e ou petições aos promotores. Por uma única vez, em julho de 2009, um grupo de pessoas decidiu manifestar-se na rua contra a realização de uma tourada à corda promovida pela Câmara Municipal da Lagoa, ilha de São Miguel, tendo sido vítimas de agressões verbais e físicas, alegadamente por parte de funcionários da autarquia.
Nesta fase surgiu, em julho de 2009, o blogue/coletivo de defesa dos animais “Arquipélago dos Animais” que combateu todos os espetáculos com uso de animais (touradas, vacadas, bezerradas, rodeios, etc.)
Para além do blogue/coletivo Arquipélago dos Animais, continuam ativos nesta fase os Amigos dos Açores, o CADEP- Clube de Amigos e Defensores do Património de Santa Maria, o Blogue Terra Livre/CAES - Coletivo Açoriano de Ecologia Social e o blogue/coletivo Açores Melhores sem Maus Tratos Animais.
Mais recentemente, já em 2012, um pequeno grupo de pessoas que já trabalhava em conjunto e mantinha uma lista de discussão na internet decidiu criar um coletivo informal, o Movimento Cívico Abolicionista da Tauromaquia dos Açores, que integra elementos da ilha de São Miguel e da ilha Terceira e que mantém uma lista de discussão, onde para além de pessoas das ilhas referidas também tem incluídas pessoas da ilha de Santa Maria.
A 23 de março, de 2012, começou a recolha de assinatura para a petição “Pelo Fim dos Subsídios Públicos à Tauromaquia nos Açores”. Esta petição deu entrada na ALRA a 20 de abril de 2012. Sobre a mesma foi elaborado um vergonhoso relatório pela Comissão dos Assuntos Sociais da ALRA, onde esta justifica “a tortura” dado o interesse cultural e turístico.
A 13 de Julho de 2012, foi feita, por ofício ao Diretor Regional da Cultura, uma denúncia acerca da presença de crianças em touradas. Como resposta aquela direção regional comunicou que a denúncia sido enviada à Tertúlia Tauromáquica Terceirense em para esta se pronunciar. No dia 10 de outubro foi enviada nova carta a perguntar que medidas foram tomadas para punir os prevaricadores.
A 12 de novembro de 2012, foi divulgado o manifesto pelo fim da tauromaquia nos Açores. Neste o MCATA para além de divulgar o seu grande objetivo que é a abolição da tauromaquia nos Açores, divulga os princípios que adota e que são:
● Independência face a qualquer outro tipo de grupo social constituído, como partidos políticos, organismos oficiais, grupos económicos, crenças religiosas ou outros grupos de interesse;
● Sem fins lucrativos, todo o trabalho é estritamente voluntário;
● Sem quaisquer hierarquias, é privilegiada a discussão e o consenso como principal método de tomada de decisões.
● A não-violência, o respeito pelo outro e o diálogo estão na base de todas as iniciativas e intervenções.
Considerações Finais
Embora seja cada vez maior o número de pessoas que perde o medo de manifestar a sua discordância para com a realização de espetáculos que de um modo ou de outro maltratam os animais, como as touradas, as organizações dos Açores que se têm oposto aos mesmos são muitas fracas, tendo em conta o poder económico e o apoio político que possuem os promotores das touradas pelo que o combate à industria tauromáquica só terá êxito se o que tudo o que for feito nos Açores tiver um vasto apoio nacional e internacional.
Bibliografia:
Abreu, C. & Freire, J.(1989) (Org.). Adriano Botelho, memória & ideário (antologia de textos). Angra do Heroísmo: Direcção Regional dos Assuntos Culturais.
Sampaio, A. (1904). Memória sobre a Ilha Terceira. Angra do Heroísmo: Imprensa Municipal.
Vilhena, A. (1987). Alice Moderno a mulher e a obra. Angra do Heroísmo: Direcção Regional dos Assuntos Culturais.
(Letra a Letra, nº 7, outubro de 2018)
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