quarta-feira, 1 de julho de 2026

A(s) flor(es) do Espírito Santo

 


A(s) flor(es) do Espírito Santo

 

A cada época festiva estão associadas flores, que são usadas para ornamentar, as casas, os caminhos onde passam as procissões e os quartos, onde são colocados os santos, como os que vão na Procissão de São Miguel Arcanjo, em Vila Franca do Campo, ou os quartos do Espírito Santo, por ocasião das festas em sua honra em todas as ilhas dos Açores.

 

Neste texto, farei referência mais pormenorizada a uma flor de uma planta que não caiu em desuso ao longo dos tempos, a açucena (Lilium longiflorum), originária do Japão e de Taiwan, cujo período mais provável de floração ocorre nos meses de maio e junho.

 

Sobre o uso da planta referida, em 1962, o etnólogo lagoense, Francisco Carreio da Costa, no jornal “A Ilha”, de 10 de fevereiro de 1962, escreveu o seguinte:

 

 “No tempo do Espírito Santo, o perfume das açucenas e dos goivos é facilmente suportado por todos, o mesmo acontecendo durante o Verão com as flores da conteira e durante o Outono com as beladonas. Nos vasos das cómodas, como nas caçarolas das «floreiras», nos canudos das paredes como nas prateleiras das cozinhas, nas cantoneiras como nas copeiras, aí estão quase todas essas verduras e flores sem causarem a mínima dor de cabeça a quem quer que seja.”

Oriunda da Ásia, desde há muitos anos passou a ser cultivada em várias partes do mundo, tendo chegado a Inglaterra, em 1819, através de Carl Peter Thunberg, explorador, naturalista e botânico sueco.

 

Tal como muitas outras plantas, não podemos indicar com precisão a data nem o nome de quem introduziu a açucena nos Açores, mas a açucena já fazia parte das plantas existentes na primavera de 1856, no Jardim de José do Canto, em Ponta Delgada, que havia sido criado 10 anos antes.

 

A açucena é uma herbácea ereta que pode atingir de 40 cm a cerca de 1 metro de altura. Apresenta folhas verdes lanceoladas e brilhantes e flores grandes brancas, em forma de trombeta..

 

A açucena já foi cultivada, nos Açores, com fins económicos, como se pode depreender de um anúncio publicado no jornal “A Folha”, fundado e dirigido pela feminista e defensora dos animais, Alice Moderno:

AÇUCENAS

Alice Moderno encarrega-se de exportar

açucenas para New York.

Fornece todas as informações

Rua do Castilho nº 1

Ponta Delgada

 

De acordo com um texto publicado no “Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores”, nº 10, editado em 1949, da autoria do Dr. António da Silveira Vicente, professor do Liceu Antero de Quental e produtor de açucenas, em São Miguel cultivavam-se duas variedades: a “Formosum” e a “Harrisii”.

 

De acordo com a mesma fonte, a plantação de açucenas deve ocorrer na primeira quinzena de outubro, sendo os bolbos colocados a uma distância de 20 a 25 cm.

 

A açucena é alvo da escrita de vários autores. Por se assemelhar a várias quadras da cultura popular açoriana, transcrevo uma da brasileira, recolhida por João Simões Lopes Neto:

 

Açucena quando nasce,

Arrebenta pelo pé:

Assim arrebenta a língua

De quem diz o que não é.

 

Pico da Pedra, 1 de junho de 2026

 

Teófilo Braga