A(s) flor(es)
do Espírito Santo
A cada época festiva
estão associadas flores, que são usadas para ornamentar, as casas, os caminhos
onde passam as procissões e os quartos, onde são colocados os santos, como os
que vão na Procissão de São Miguel Arcanjo, em Vila Franca do Campo, ou os
quartos do Espírito Santo, por ocasião das festas em sua honra em todas as
ilhas dos Açores.
Neste texto, farei
referência mais pormenorizada a uma flor de uma planta que não caiu em desuso
ao longo dos tempos, a açucena (Lilium longiflorum), originária do Japão
e de Taiwan, cujo período mais provável de floração ocorre nos meses de maio e
junho.
Sobre o uso da planta
referida, em 1962, o etnólogo lagoense, Francisco Carreio da Costa, no jornal “A
Ilha”, de 10 de fevereiro de 1962, escreveu o seguinte:
“No tempo do Espírito Santo, o perfume das
açucenas e dos goivos é facilmente suportado por todos, o mesmo acontecendo
durante o Verão com as flores da conteira e durante o Outono com as beladonas.
Nos vasos das cómodas, como nas caçarolas das «floreiras», nos canudos das
paredes como nas prateleiras das cozinhas, nas cantoneiras como nas copeiras,
aí estão quase todas essas verduras e flores sem causarem a mínima dor de
cabeça a quem quer que seja.”
Tal como muitas outras plantas, não
podemos indicar com precisão a data nem o nome de quem introduziu a açucena nos
Açores, mas a açucena já fazia parte das plantas existentes na primavera de
1856, no Jardim de José do Canto, em Ponta Delgada, que havia sido criado 10
anos antes.
A açucena é uma herbácea ereta que
pode atingir de 40 cm a cerca de 1 metro de altura. Apresenta folhas verdes
lanceoladas e brilhantes e flores grandes brancas, em forma de trombeta..
A açucena já foi cultivada, nos
Açores, com fins económicos, como se pode depreender de um anúncio publicado no
jornal “A Folha”, fundado e dirigido pela feminista e defensora dos animais, Alice
Moderno:
AÇUCENAS
Alice
Moderno encarrega-se de exportar
açucenas
para New York.
Fornece
todas as informações
Rua do
Castilho nº 1
Ponta
Delgada
De acordo com um texto publicado no “Boletim
da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores”, nº 10, editado
em 1949, da autoria do Dr. António da Silveira Vicente, professor do Liceu
Antero de Quental e produtor de açucenas, em São Miguel cultivavam-se duas
variedades: a “Formosum” e a “Harrisii”.
De acordo com a mesma fonte, a
plantação de açucenas deve ocorrer na primeira quinzena de outubro, sendo os
bolbos colocados a uma distância de 20 a 25 cm.
A açucena é alvo da escrita de
vários autores. Por se assemelhar a várias quadras da cultura popular açoriana,
transcrevo uma da brasileira, recolhida por João Simões Lopes Neto:
Açucena quando nasce,
Arrebenta pelo pé:
Assim arrebenta a língua
De quem diz o que não é.
Pico da Pedra, 1 de
junho de 2026
Teófilo Braga
