quinta-feira, 27 de abril de 2017

Desabafos de um ecoponto


Desabafos de um ecoponto

Numa altura em que só se fala de grandes projetos, tão grandes como a megalomania dos seus promotores, importa ver o que se passa no terreno. Assim damos a voz ao ecoponto colocado na Rua Capitão Manuel Cordeiro, no Pico da Pedra, que recebe, diariamente, visitantes de toda a freguesia e não só.

sábado, 15 de abril de 2017

Hoje, pelas 16 h e 30 min, voltei a receber a visita de um senhor e de uma menina que numa carrinha trouxeram vários baldes cheios de restos de mondas, muitas ervas daninhas e muita terra e que quase encheram o contentor de resíduos sólidos indiferenciados.

É uma pena verificar a ignorância de algumas pessoas ligadas de algum modo à agricultura. Com efeito, os materiais depositados nunca deviam ter saído do terreno onde estavam. As ervas, depois de apanhadas, deveriam estar a fazer cobertura do solo, evitando o crescimento mais rápido de outras, ou deveriam ser usadas na produção de composto, dispensando ou diminuindo o uso de adubos químicos.

Não percebo por que razão o meu município, tal como todos os outros, não faz uma campanha de educação a sério para que os ribeira-grandenses, sobretudo os que habitam em zonas rurais e que tenham quintais, façam compostagem doméstica. Era um alívio para mim e para eles seriam um ganho, pois para além de pouparem em fertilizantes para os terrenos ou hortas também poupavam em combustíveis.

domingo, 16 de abril de 2017

Como é habitual, aos fins de semana, rapidamente o contentor dos resíduos indiferenciados encheu-se em muito pouco tempo. Ao fim do dia já existiam vários sacos com resíduos colocados no chão.

Como a situação descrita repete-se todas as semanas, não entendo por que razão, em vez de estar um só contentor, não existe mais um para os resíduos indiferenciados, pelo menos enquanto a minha camara municipal e a junta de freguesia, que é uma eco freguesia, não chegarem à conclusão de que o melhor resíduo é o que não se produz e que é possível as famílias reduzirem os resíduos que encaminham para os ecopontos, sem haver qualquer diminuição da sua qualidade de vida.

Segunda-feira, 17 de abril de 2017

Hoje, tal como é habitual, chegou uma carrinha de uma empresa distribuidora de batata frita e colocou no contentor de papel uma grande quantidade caixotes de papelão. Tudo muito bem, se não distribuísse pelos restantes contentores os caixotes que não couberam no primeiro.

Outra empresa, distribuidora de fruta, também tem o hábito de depositar, no contentor destinado aos resíduos indiferenciados, caixotes de madeira e de papelão e quando estão em quantidades muito grandes deposita-os no chão.

terça-feira, 18 de abril

Tal como acontece praticamente todos os dias, este ecoponto é visitado por algumas pessoas que fazem uma pré-triagem de resíduos. Uns procuram metais, com certeza, para posterior venda, outros procuram algo que possam usar nas suas casas e há um casal que leva de tudo um pouco, como vestuário, pequenas peças de mobiliário e até pão e restos de alimentos que serão colocados por algum estabelecimento comercial ou distribuidor.

Nada a dizer sobre as atitudes de quem, não bafejado pela vida ou marginalizado, procura sobreviver na sociedade que é de abundância apenas para alguns. O que está mal é que a escolha de objetos é feita à custa do “esvaziamento” dos conteúdos de um contentor e a sua colocação no outro que está ao lado, ficando todos os resíduos misturados. Mas talvez não constitua problema, pois ouvi dizer que o que interessa é produzir mais resíduos para queimar.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31215, 27 de abril de 2017, p. 14)

terça-feira, 25 de abril de 2017

Cães acorrentados


Cães acorrentados

A presença de cães acorrentados nos Açores, muitas vezes sem abrigo adequado e sem água permanente, é uma das razões que origina mais denúncias, às diversas organizações animalistas, sobretudo por parte de quem nos visita.

Entre as razões mais apontadas para que a prática referida se mantenha estão o evitar que o animal fuja, impedir que o mesmo suje o quintal ou a casa, estrague as plantas ou a roupa que está no estendal. Além destas, a mais comum será para o animal servir de guarda a um determinado espaço ou bem, como é o caso das ordenhas.

A situação ideal será deixar de haver animais acorrentados todo o dia, o que não deixa de ser cruel, e aqueles passarem a viver num espaço o mais amplo possível confinado por uma vedação.

Sobre cães acorrentados, a AVATMA- Associação de Veterinários Abolicionistas da Tauromaquia e do Maltrato Animal elaborou, recentemente, um relatório intitulado “Tener un perro encadenado durante todo el día es una forma de crueldade”.

No relatório mencionado, os autores referem um conjunto de danos físicos e psíquicos.

Dos inúmeros problemas físicos referidos no relatório, destacamos, a título de exemplo, várias feridas que resultam da tração constante do pescoço, originando lesões por vezes muito profundas nas vértebras cervicais e nas costas. A exposição prolongada às intempéries a que muitos estão sujeitos são, também, causa de reumatismo e osteoporose.

Depois de afirmar que é raro um cão acorrentado receber tratamento adequado, pois muitas das vezes tal está associado a falta de água, a uma alimentação desadequada, e sujeito a temperaturas extremas, o relatório afirma que naquelas condições “o cão fica entediado, sofrerá de ansiedade e muitos desenvolvem comportamentos compulsivos que acabam por dar origem a frustração e agressividade.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31214, 25 de abril de 2017, p.14)

Imagem:
https://bichodeape.com.br/ca…/animal-acorrentado-e-desumano/

domingo, 23 de abril de 2017

Gonçalves Correia nos Açores


Gonçalves Correia nos Açores

Nos Açores, as várias correntes anarquistas sempre tiveram muito pouca expressão, sendo muito reduzido o número de jornais libertários publicados e também reduzido o número de militantes.

No que diz respeito aos anarquistas açorianos, a esmagadora maioria deles teve uma militância fora do arquipélago. Entre eles, recordamos António José Ávila, Adriano Botelho e Jaime Brasil, os três naturais da ilha Terceira.

Da ilha de São Miguel conhecemos alguns nomes que durante uma fase das suas vidas aderiram às ideias libertárias, mas que não mantiveram os ideais até ao fim da vida. O mais conhecido terá sido Francisco Soares Silva que fundou e dirigiu o jornal “Vida Nova”, de periodicidade quinzenal, que se apresentava como “Órgão do Operariado Micaelense” e que começou a publicar-se a 1 de Maio de 1908, tendo o seu último número saído a 30 de Setembro de 1912.

O anarquista Gonçalves Correia esteve de passagem na ilha de São Miguel em 1910, tendo conversado com Francisco Soares Silva e tudo leva a crer que terá feito o mesmo com Maria Evelina de Sousa, professora primária que foi fundadora e diretora da “Revista Pedagógica”, publicação que se apresentava como órgão do professorado oficial açoriano e que, entre 1909 e 1915, esteve ao serviço da educação e dos professores, tendo sido distribuída a nível nacional.

No nº 54 do Vida Nova, de 31 de dezembro de 1910, foi publicado o texto de Gonçalves Correia “Amor Livre, nos números 55 e 56, respetivamente de 15 e 31 de janeiro de 1911, foi publicado o texto “A caminho do ideal”, e, por último ,no nº 57, de 15 de fevereiro de 1911, foi publicado o texto “Nós e os camponeses”.

A colaboração de Gonçalves Correia com a “Revista Pedagógica” ocorreu com a publicação do texto “O presente e o futuro”, datado de 29 de dezembro de 1910, publicado no seu número 167 de 9 de fevereiro de 1911.

Teófilo Braga

O Presente e o Futuro
*
Vergados ao peso brutal e desumano do maldito fardo posto aos seus ombros enfraquecidos, jungidos à canga infamíssima que a ordem burguesa criou, ei-los que passam tristes, os pobres proletários desprotegidos, sofrendo os horrores indescritíveis que uma sociedade madrasta lhes criou.

Na sua casa cheia de misérias e privações, não se ouvem as risadas francas e espontâneas das crianças, não se vê o riso jovial e presenteiro da companheira idolatrada, não se apalpa uma nesga sequer, daquele conforto que ele criou com o seu braço possante e fecundo, daquele conforto exagerado que sobra em casa de tantos parasitas…

Os seus olhos – pobres camaradas - não brilham porque o choro os inunda de lágrimas, o seu rosto, outrora alegre e sorridente, cobriu-se de rugas tristonhas; o seu andar, que era regular e normal quando as forças o não haviam abandonado, dá-nos agora a impressão desoladora da sua fraqueza. E tudo mais que lhe diz respeito, é pungente e angustioso. Pobres e desgraçados proletários!

Pobres que tendes de ver com fome os vossos filhos! Pobres que sentis partir o coração por não lhes poderdes satisfazer as mais imperiosas necessidades! Pobres que deixais morrer a companheira querida, tantas vezes a vossa maior alegria, a vossa maior consolação!

Quem sois vós!

Os degraus preciosos por onde sobem milhares de parasitas, a escada apetecida dos mais tirânicos burgueses!

Eis o presente.

*

Soberba de vegetação e verdura, riquíssima de águas cristalinas, e de avezinhas multicores, eis ante os meus olhos famintos do Belo a encantadora planície onde se erguem com orgulho majestosos chalets de formas várias, partes constituintes d’uma comuna fraternal e solidária, cujos habitantes, pondo de parte egoísmos do passado e vaidades que esqueceram, se amam, se compreendem, se solidarizam irmãmente, sabendo compreender a sua missão social até ao ponto de exigirem de cada um segundo as suas forças e de darem a cada um segundo as suas necessidades. As asas repelentes e agourentas da miséria não visitam aquele ponto ideal, enxotadas criteriosamente pelos seus habitantes que souberam atacá-las coletivamente, que compreenderam a tempo a beleza incomparável do comunismo livre.

Desgraças naquele paraíso?

É doença que por lá não medra porque a caudalosa corrente de solidariedade que ali se pratica não permite a sua propagação.

Tudo é livre e, ao mesmo tempo, tudo é criterioso. Todos amam e todos são felizes.

Ricos? Não há.

Pobres? Também não.

Pois? Solidariamente, coletivamente, fazem a riqueza da comuna, arrancando à terra, a mãe querida do homem, tudo que constitui os seus prazeres, os seus risos, as suas felicidades.

Vida de lágrimas e de crimes, trocada por uma vida de amor e de Justiça!

Eis o futuro.

Ponta Delgada, 29-12-910

Gonçalves Correia

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2017/01/29/lisboa-cruzeiro-seixas-na-apresentacao-da-revista-de-cultura-libertaria-a-ideia-relativa-a-2016/

Publicado na revista A Ideia, 77/80 de 2016

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Festa da Árvore


Açores, 2 de abril de 2017

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Ilídio Sardoeira, o professor


Ilídio Sardoeira, o professor

“ (…) Corri os riscos de haver sido professor durante quase meio século. Se pudesse recomeçar a minha vida, professor me queria, nessa aventura, entre afetiva e criativa que é aprender ensinando.” (Ilídio Sardoeira)

Em texto anterior, publicado no passado dia 4 de abril, dei a conhecer um pouco da vida e da obra do Dr. Ilídio Sardinheira, distinto professor da hoje denominada Escola Secundária Antero de Quental.

No mencionado texto, inseri o depoimento de dois dos seus alunos, o Doutor José Medeiros Ferreira e o Doutor João Vasconcelos Costa, que a ele se referiram em termos elogiosos. Hoje, antes de escrever um pouco sobre o seu pensamento enquanto professor, divulgo o depoimento do escritor picopedrense Cristóvão de Aguiar que no seu livro “Relação de Bordo, escreveu: “Ilídio Sardoeira era poeta e um grande “devoto” de Teixeira de Pascoais, que nos deu a conhecer no quinto ano do Liceu, levando-nos poemas do Poeta de Marânus, nas aulas de Ciências Naturais…Que belo que isto é! E que ventura é ter bons mestres na quadra genuína da vida…”

Depois de escrever que o Dr. Ilídio Sardoeira era “professor de Ciências Naturais e de sonho e de poesia, ou de tudo junto”, Cristóvão de Aguiar dá a conhecer o que pensava o mestre sobre o ofício de ensinar: “Um professor é um semeador. Não sabe quais as sementes que realmente ficam, mas não ignora que ele mesmo é uma parte da semente. É semeador e semente”.

De acordo com João Manuel Ribeiro, autor do livro “Ilídio Sardinheira: o caçador de madrugadas”, publicado em 2016, o Dr. Ilídio Sardinheira teve uma vida dedicada ao ensino, tendo lecionado “primeiro no Colégio de S. Gonçalo de Amarante durante quatro anos; depois, no Liceu Normal de Pedro Nunes, em Lisboa, onde fez o seu estágio de habilitação para a docência; finalmente, em muitos lugares do país: Évora, Figueira da Foz, Braga, Porto (Liceu D. Manuel II), Ponta Delgada (Liceu Antero de Quental), Viseu e Vila Nova de Gaia.”.

Como tive a oportunidade de conhecer através dos depoimentos dos seus alunos, o Dr. Ilídio Sardoeira estava longe de ser um professor tradicional, agarrado aos manuais, seguidor do conhecimento espartilhado pelas áreas de ciências e de letras e preso no interior das quatro paredes de uma sala de aula.

Sobre o ensino confinado à sala de aula, João Manuel Ribeiro, no livro citado, escreve que Ilídio Sardoeira “não queria que a escola fosse uma prisão para crianças onde se aprende amarrado às carteiras, ou um canteiro de plantas floridas cercado de arame farpado!”

Para se conhecer o pensamento do Dr. Ilídio Sardoeira sobre o ensino é importante a leitura do seu discurso proferido na Assembleia Constituinte, publicado no Diário da Assembleia Constituinte nº 118 de 12/03/1976. Dada a extensão do mesmo, apenas referirei algumas ideias chave, as quais ainda hoje não perderam atualidade.

Ao contrário do que pensam alguns, os problemas do ensino e os da sociedade não se resolvem na escola. Ilídio Sardoeira corrobora esta afirmação quando afirmou no discurso mencionado que: “os problemas centrais da degradação do ensino permanecem. São problemas, em grande medida, de raiz socioeconómica. Ao cabo e ao resto problemas que têm de encontrar primeiro as soluções políticas adequadas ao mundo dos adultos”.

Sobre a Escola, Ilídio Sardoeira, acrescentou que era “o espelho da sociedade; esta não transforma aquela, reprodu-la” e acrescentou: “Somos nós, os adultos, os responsáveis pelos fracassos escolares porque não temos a coragem de modificar radicalmente as condições, as contradições da sociedade portuguesa porque nos empenhamos em manter uma sociedade estratificada, caduca, per omnia secula seculorum, não é assim? E queremos depois que a escola resolva problemas que não tivemos a coragem de resolver nas ruas.”


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31209, 19 de abril de 2017, p. 17)

segunda-feira, 17 de abril de 2017

A terceira morte de Alice Moderno



A terceira morte de Alice Moderno

Se é verdade que ninguém sozinho consegue alterar seja o que for, também é verdade que há pessoas que pelo seu empenho e capacidade de liderança são capazes fazer com que outros se motivem para agir em prol de ideais sejam eles quais forem.

Alice Moderno foi uma das pessoas que, para além de apoiar os seus semelhantes mais desfavorecidos, dedicou grande parte da sua vida à causa animal, através da sua dedicação à Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, de que foi uma das fundadoras e sua presidente durante décadas.

A professora doutora Conceição Vilhena, aquando do incêndio que deflagrou na Universidade dos Açores, em 1989, e destruiu o seu espólio, escreveu uma pequena nota, no Correio dos Açores, intitulada “Alice Moderno morreu pela segunda vez”, onde afirmou:

“Alice Moderno morreu hoje, pela segunda vez. Uma grande mulher: forte, inteligente, culta, trabalhadora, bondosa. Que a casa do Gaiato de S. Miguel, comprada com o seu dinheiro, a não esqueça. Que todos aqueles que condenam a crueldade para com os animais, continuem a sua obra a favor dos mais fracos. Que todas as mulheres lhe prestem homenagem, conservando-a bem viva na sua memória.”

A terceira morte de Alice Moderno, esta a ocorrer todos os dias. Hoje a casa do Gaiato, nas Capelas já deu lugar a outro projeto, o Hospital Alice Moderno também já desapareceu e durante muito tempo não serviu para os fins destinados por Alice Moderno no seu testamento, a Assembleia Legislativa Regional depois de lhe prestar homenagem aprovou uma lei que, por um lado reconhece que o abate dos animais nos canis não é o método adequado para o seu controlo mas, por outro lado, adia a entrada em vigor para 2022.

Penso que este prazo dilatado não faz qualquer sentido se as entidades governamentais e as autarquias começassem a trabalhar a sério em campanhas de sensibilização e de esterilização de animais ditos de companhia.

Além disso, uma Região que apregoa ser pioneira na implementação de várias medidas não pode alegar que não é possível acabar com os abates sistemáticos quando a nível nacional aqueles serão proibidos definitivamente a partir de 2018.


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31208, 18 de abril de 2017, p.17)

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Ladrões em Vila Franca do Campo e não só



Através de um texto publicado no jornal “A Crença”, no passado dia 24 de fevereiro, fiquei a saber que infelizmente não sou o único a ser vítima de roubos de fruta. Com efeito, segundo Pedro Costa, autor do texto referido, muitos agricultores o têm procurado no sentido de se juntarem e agirem contra os amigos do alheio.

No que me diz respeito tenho duas situações que denuncio: o roubo de fruta em quantidades que creio que não seja para consumo próprio e a destruição de plantações sobretudo de fruteiras por parte de cabras cujos donos, sem terrenos para as pastar, usam e abusam da propriedade alheia, sem que, até hoje, todas as denúncias efetuadas tenham feito com que a situação se alterasse.

No passado, todas as denúncias feitas às autoridades resultaram em represálias, como destruição de ordenhas, roubo de rolos de erva e morte de animais, pela calada da noite, pelo que o apelo de Pedro Costa para que as pessoas apresentem queixa, embora correto, pois ninguém deve fazer justiça pelas próprias mãos, poderá não ser seguido por muitos que já conhecem bem a impunidade que têm gozado os larápios. Igualmente é de repudiar o dito medo dos compradores de fruta roubada em denunciarem os vendedores da mesma pois nalguns casos trata-se de conivência com o roubo, pois dá-lhes jeito comprar fruta mais barata ou quase dada.

No que diz respeito aos prejuízos causados pelas cabras, estamos perante a ausência de medidas por parte das entidades oficiais conducentes à proibição da existência de rebanhos por parte de pessoas que, não tendo terrenos para as mesmas pastarem, vivem à margem da lei. Com efeito, não respeitando o trabalho dos outros colocam os rebanhos em pastagens ou em quintas, onde comem a erva destinada às manadas dos proprietários e rendeiros ou destroem pequenas árvores, quer comendo as folhagens quer roendo as cascas das mesmas.

A situação que se vive não é inédita, tendo, em 1999, sido denunciada pela Associação Agrícola de São Miguel e pelo extinto Partido Democrático do Atlântico. De acordo com o PDA, naquele ano, as explorações caprinas onde existia qualidade sanitária não atingiam 5 por cento da produção de queijo de cabra produzido em São Miguel.

Para Joaquim Cabral, dirigente do referido partido, a forma de resolver o problema passava pelo seguinte: “Basta procurar junto dos pastores qual é o seu efetivo de cabras, quanto pasto é necessário para alimentá-las durante o ano e quantos alqueires possuem seus ou de renda. Depois, procurar junto dos lavradores e proprietários de terras ou quintais as razões das queixas. Por fim, obrigar ao abate de todas as cabras cujos cabreiros não tenham possibilidade de as alimentar nos seus pastos”.

No início de 1928, o Correio dos Açores denunciava situações semelhantes às de hoje e nos seguintes termos: “Com uma inaudita audácia, os cabreiros a tudo chamam seu, destruindo os tapumes, fazendo comer as ervas e as arvorezinhas, ameaçando aqueles que pretendem velar pelo que lhes pertence, exercendo represálias sobre quanto respeite àqueles que promoveram o justo castigo…”

Hoje, embora não tenha dados oficiais, penso que haverá muito menos rebanhos ilegais, o mesmo acontecendo com produtores de queijo desrespeitadores das leis em vigor, pelo que bastava que fossem punidos severamente e pagassem todos os prejuízos causados para pensarem duas vezes antes de colocarem os animais, que não têm culpa nenhuma das bestas dos donos que têm, em terrenos que não lhes pertencem.

Mas, tão ou mais grave do que a destruição do património vegetal é a persistência no fabrico e venda de queijo, desconhecendo-se as condições higiénicas em que o mesmo é feito e se os animais estão ou não saudáveis.

Espero que este texto seja lido por quem de direito e que sejam tomadas as devidas providências para bem de todos.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31204, 12 de abril de 2017, p. 14)