quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Daniel de Sá e a Fome de um Duque


Daniel de Sá e a Fome de um Duque

Daniel Augusto Raposo de Sá, natural da Maia, ilha de São Miguel, onde nasceu a 2 de março de 1944, morreu na mesma localidade no dia 27 de maio de 2013, depois de uma vida profissional e uma participação cívica e política dignas de registo.

Foi professor do primeiro ciclo do ensino básico, foi uma presença assídua na comunicação social, sendo colaborador de vários jornais. e foi um escritor de grande mérito, com uma vasta obra publicada.

Politicamente, esteve ligado ao Partido Socialista, tendo desempenhado com dedicação vários cargos. Sobre o assunto, com a modéstia que caracteriza os grandes homens, escreveu: “Meteram-me na política, onde tenho sido de tudo um pouco, menos membro do governo regional, porque, além de outras razões evidentes, de certeza não serviria para isso.”

Sobre a relação entre os homens e os outros animais, no dia 19 de janeiro de 2008, publicou no blogue Aspirina um magnífico texto, intitulado “A Fome de um Duque”, que abaixo se transcreve:

“Se as casas vazias não se queixam, nem os gatos parecem estranhar muito ausências a que não estão acostumados, os cães ficam aparvalhados, andam como órfãos, vagueando à procura dos donos e de comida.

O pastor estava no seu almoço de pão e presunto quando viu o Duque. O animal andava vagarosamente. Parou a uns dez passos à sua frente, ficando a seguir com o olhar os movimentos da mão entre a mesa de pedra e a boca. Chamou-o: “Anda cá, Duque.” Ele chegou-se-lhe sem pressas, que talvez nem pudesse, e ficou com a cabeça quase encostada à sua perna direita, à espera. O pastor partiu metade do pão e do presunto, para lhe dar bocadinho a bocadinho. O cão mastigou cada pequeno naco de presunto de um lado, depois do outro, saboreando a fome. Engolia batendo várias vezes os maxilares, fazendo uns estalidos secos com os dentes, de beiços muito molhados e ligeiramente despegados, como que tomando gosto à saliva.

Duque não tinha genealogia. Era um rafeiro cuja nobreza não ia além do nome, uma ironia. Mas tinha carácter. Seria incapaz de deixar os donos como quem abandona um cão.”

Teófilo Braga
18 de janeiro de 2018

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Alguns marcos históricos da educação ambiental e da defesa do ambiente (1)


Alguns marcos históricos da educação ambiental e da defesa do ambiente (1)

A maioria dos autores considera que a educação ambiental surgiu na década de 70 do século passado com o objetivo de procurar soluções para a crise ecológica que estava associada à exploração capitalista dos recursos naturais. Assim, a educação ambiental não se limita a fornecer aos indivíduos mais informação e formação, ensina-lhes, também, a utilizar judiciosamente o ambiente.

De acordo com as recomendações da Conferencia de Tbilisi, realizada na ex- URSS, em Outubro de 1977, o princípio geral da educação ambiental é:

“Fazer compreender às pessoas e às comunidades a natureza complexa resultante dos fatores físicos, biológicos, sociais, económicos e culturais do ambiente natural e urbano e dar a estas pessoas ou comunidades a oportunidade de adquirir os conhecimentos, os valores, as atitudes e as aptidões práticas que lhes permitam ajudar de uma maneira responsável e eficaz a prever e resolver os problemas ecológicos e gerir a qualidade do ambiente.”

Antes de entrar no tema proposto, refiro que entre nós a educação ambiental já teve melhores dias. Assim, hoje não questionando a relação homem-natureza ou o modo de produção e de consumo, as ações são pontuais, plantando-se árvores nas escolas no Dia da Floresta que acabam por morrer no Verão seguinte por falta de rega e só se fala em reciclagem quando se devia ensinar a consumir com parcimónia e apostar na redução e na reutilização.

Depois desta introdução, apresento alguns marcos importantes da educação ambiental e da defesa do ambiente que começaram muito antes da data mencionada no início do texto.

Em 1854, um dos maiores vultos da literatura americana, Henry David Thoreau (1817-1862) publicou o livro “Walden ou a Vida nos Bosques” que é considerado como um dos melhores livros escritos sobre a Natureza.

Sobre esta importande obra de um dos principais inspiradores do movimento naturalista e o pai do movimento da conservação da natureza nos Estados Unidos, José Carlos Costa Marques, um dos históricos do movimento ecologista português, escreveu:

“…uma série de dezoito ensaios que descrevem a forma como aí viveu, numa existência simples e auto- suficiente, a sua intimidade com os pequenos animais com que contactava, os sons, os cheiros, o aspecto dos bosques e da água nas várias estações, os sons do vento. «Um homem é rico em proporção ao número de coisas que se pode dar ao luxo de não ter» “, escreveu ele em Walden”.

Em 1864, no seu livro “Homem e Natureza: ou a geografia física modificada pela ação humana”, o diplomata e político norte-americano George Perkins Marsh (1801-1882) colocou em evidência “os perigos da interferência humana no ambiente”.

Em 1866, o biólogo e médico alemão, Ernst Haeckel (1834-1919), propõe o vocábulo “ecologia” para “definir os estudos a serem realizados sobre as relações entre as espécies e seu ambiente”.

Em 1872, foi criado o primeiro parque nacional do mundo, o Yellowstone National Park, localizado nos estados de Wyoming, Montana e Idaho, nos Estados Unidos da América.

De acordo com Andréa Pelicioni, em 1883, no Brasil, o político e historiador Joaquim Nabuco (1849-1910) denunciou, entre outros, “o esgotamento da fertilidade dos solos no Rio de Janeiro” e “a ganância da indústria extrativista na Amazonia”.

Ainda no século XIX, John Muir (1838-1914), escocês emigrado nos EUA, funda o “Sierra Club”, a primeira organização do mundo dedicada à preservação da natureza selvagem.

John Muir teve uma grande influência sobre as políticas de conservação da natureza nos Estados Unidos, tendo, segundo José Carlos Marques visto o seu trabalho reconhecido pelo presidente Theodore Roosevelt que sobre ele escreveu o seguinte:

“Muir tinha uma alma destemida. Os seus livros são deliciosos … ele foi também, o que é dado a poucos amantes da natureza, um homem capaz de influenciar o pensamento e a acção contemporâneos sobre as questões a que tinha consagrado a sua vida. Foi um grande factor de influência sobre o pensamento da Califórnia e do país inteiro no sentido da preservação desses grandes fenómenos naturais - canyons maravilhosos e árvores gigantes, encostas brilhantes de flores... a nossa geração deve muito a John Muir.”

(continua)

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 31430, 17 de janeiro de 2018, p. 14)

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Torda anã


Torda- anã

Foi encontrada no Pico da Pedra, no dia 15 de janeiro uma ave marinha, denominada torda-anã (Alle alle) que possui plumagem preta e branca, com bico espesso e curto.

De acordo com a Wikipédia, “ nidifica nas regiões árcticas em latitudes muito elevadas (80 graus N) e inverna normalmente no mar acima do Círculo Polar Árctico (por exemplo no Mar de Barents, no estreito da Dinamarca e no Mar da Noruega). Mais para sul é pouco comum, sendo excepcional a sua ocorrência em Portugal.”

Esta ave que não é muito comum aparecer nos Açores, foi assinalada pela primeira vez por Godman na publicação “On the Birds of the Azores”, datada de 1866.

Damos os parabéns ao sr. Filipe Travassos que a recolheu e que tudo fez para que a ave fosse devolvida à liberdade depois, de devidamente observada por quem de direito.

Ainda ontem foi contatado o Centro de Reabilitação de Aves Selvagens de São Miguel que ficou de vir buscar a ave ao Pico da Pedra. Esperamos que o tenha feito.

Nota- agradecemos a Gerbrand Michielsen pela sua pronta identificação da ave.

Pico da Pedra, 16 de janeiro de 2018
TB

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Alice Moderno

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Dr. César Faria um amigo dos animais


Dr. César Faria um amigo dos animais

Foi com alguma consternação que tomámos conhecimento, através de um comunicado da direção do Clube de Futebol Vasco da Gama, da morte do médico Dr. César Faria que residiu durante muitos anos em Vila Franca do Campo.

De acordo com um texto publicado no jornal “A Vila”, publicado no dia 28 de abril de 1994, o Dr. César Faria para além de médico de profissão foi “poeta nas horas vagas e muito louco naquilo que a palavra encerra de bom”.

Habituado a construir os seus brinquedos quando era criança, o Dr. César Faria foi mais do que um artesão um artista no que diz respeito à construção de pequenos instrumentos musicais e miniaturas de ferramentas usadas em carpintaria e marcenaria.

De acordo com o comunicado mencionado acima, a nível do desporto, o Dr, César Faria colaborou com o Clube de Futebol Vasco da Gama em regime de voluntariado, “através do acompanhamento em termos de saúde a muitas centenas de atletas.”

Como homem de cultura, escreveu vários poemas que foram publicados no jornal católico vila-franquense “A Crença”. Segundo ele os seus poemas “embora não sejam de construção fácil, são de entendimento fácil”, pois defendia que a poesia, tal como a pintura, era um meio de comunicação entre as pessoas e por isso devia ser percebida por todos.

Como amigo dos animais, tratava de inúmeros gatos e foi um dos primeiros sócios da AVIPAA - Associação Vilafranquense de Proteção dos Animais e do Ambiente, tendo doado um terreno a esta associação.

T. Braga

9 de janeiro de 2018

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O escritor açoriano Pedro da Silveira e a Seara Nova


O escritor açoriano Pedro da Silveira e a Seara Nova

Pedro Laureano Mendonça da Silveira foi um escritor açoriano que nasceu na Fajã Grande, ilha das Flores, a 5 de setembro de 1922 e faleceu, em Lisboa, em 2003.

Depois de ter feito estudos na ilha Terceira, a partir de 1945 fixou residência em Ponta Delgada. Nesta cidade colaborou assiduamente com o jornal “A Ilha”, tendo aí influenciado culturalmente vários jovens, como Bruno da Ponte que num testemunho publicado no livro “A oposição ao Salazarismo em São Miguel e em Outras ilhas Açorianas (1950-1974)” escreveu que foi através dele que conheceu vários autores brasileiros e a literatura de viagens.

Sobre a sua passagem por São Miguel, Eduíno de Jesus, no mesmo livro, faz referência a um grupo, de que fazia parte Pedro da Silveira, “que apareceu em Ponta Delgada logo a seguir ao fim da guerra e que aderiu francamente às ideias modernas, causando uma grande perturbação no meio micaelense”. No mesmo livro, o encenador e ator açoriano, Mário Barradas, após referir que foi através de Pedro da Silveira que contatou com o neorrealismo, relata um episódio caricato que envolveu a polícia. Segundo ele, Pedro da Silveira foi “preso por uma acusação que nunca se soube qual era; o que se dizia é que ele, conversando connosco no Bar Jade, teria afirmado que o Afonso de Albuquerque era homossexual”.

Em 1951, Pedro da Silveira troca Ponta Delgada por Lisboa, tendo aí residido o resto da sua vida, onde foi primeiro delegado de propaganda médica e depois funcionário da Biblioteca Nacional.

Foi curiosamente numa reunião realizada na Biblioteca Nacional que surgiu a revista Seara Nova, de que Pedro da Silveira foi colaborador, entre 1957 e 1974, que teve como fundadores Aquilino Ribeiro, Augusto Casimiro, Azeredo Perdigão, Câmara Reys, Faria de Vasconcelos, Ferreira de Macedo, Francisco António Correia, Jaime Cortezão, Raul Brandão e Raul Proença, pessoas que não se conformaram com o que “ designavam de "desastre colectivo" e pugnavam pelos valores da inteligência, da cultura, da ética, da justiça e do progresso”. No primeiro número da revista, publicado a 15 de outubro de 1921, o Grupo Seara Nova definia-se como «opondo-se ao espírito de rapina das oligarquias dominantes e ao egoísmo dos grupos, classes e partidos» e condenando os constantes movimentos revolucionários em nome da verdadeira Revolução - a dos espíritos “

Em 1957, Pedro da Silveira foi autor de dois textos publicados na Seara Nova. O primeiro “Uma viagem por velhos papéis ...e algumas lembranças” que saiu no número duplo 1343-1344, datado de agosto, setembro e outubro e o segundo, “Luís da Silva Ribeiro Mestre da Açorianidade”, grande mestre da etnografia açoriana, publicado no número 1345-1346, de novembro-dezembro.

O ano da chamada Revolução dos Cravos, 1974, foi um dos anos em que a Revista Seara Nova contou com mais colaborações de Pedro da Silveira, a primeira das quais intitulada “Avril au Portugal” foi publicada no primeiro número da Revista, o nº 1543 relativo ao mês de maio, que depois de muitos anos não foi alvo censura prévia.

No seu texto, Pedro da Silveira mencionou as mentiras ditas na televisão por um dos porta-vozes do Estado Novo, o sr. César Moreira, sobre a Revolta dos Açores e Madeira. Segundo ele, na conversa surgiram “as “biscas” soezes diretamente arranhando os povos insulares então rebelados, com alguns metropolitanos, contra a ditadura. Irresponsáveis foi o mínimo que chamou aos vencidos…”.

Sobre a presença das principais figuras do Estado Novo na Madeira, a seguir ao 25 de abril, Pedro da Silveira insurge-se pelo facto de não estarem lá como presos mas como “turistas”. Sobre o assunto, aqui fica um pequeno extrato do seu texto: “…E o espanto é tanto maior, e vai crescendo, porque ainda não houve (ou não me chegou notícia de que houvesse) um madeirense que, sentindo suja, insultada a sua ilha com a presença de tais “hospedes”, passasse às vias de protesto ou até…e era natural…às de facto: com um par de bofetadas”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31423, 9 de janeiro de 2018, p.16)

A luta dos Professores dos Açores


A luta dos Professores dos Açores

Convocada pelo Sindicato Democrático dos Professores, nos passados dias 3, 4 e 5 de janeiro, alguns professores dos Açores estiveram em greve para exigir o descongelamento da carreira docente e a contagem integral do tempo de serviço congelado.

Durante os três dias de greve e, talvez, para responder a uma provocação do Secretário Regional de Educação que afirmou que o que os professores pretenderam com a marcação da greve para os primeiros dias do 2º período foi prolongar as férias, os professores fizeram questão de comparecer em concentrações que se realizaram em vários pontos de Ponta Delgada.

Já depois de terminada a greve, no passado dia 6 de janeiro, houve uma nova concentração em frente ao Palácio de Santana há hora onde decorreu a receção de ano novo do Presidente do Governo Regional a diversos “representantes da sociedade açoriana” que mais não eram os políticos que vivem à custa do orçamento e representantes da burguesia grande e pequena que vice da exploração da força de trabalho da maioria do povo açoriano e de apoios estatais.

Se o número de professores presentes nas concentrações por vezes terá rondado as duas centenas, o que não é mau, e se a greve não teve a adesão da maioria dos docentes, tal deveu-se à falta de união dos sindicatos e à pouca autonomia e algum oportunismo de alguns docentes resultantes de algum egoísmo, de uma burocratização sindical e da origem social de alguns professores e educadores.

Analisando o papel das forças partidárias, regista-se o seu silêncio. De algum modo indicativa da posição do PCP, está um texto de um seu dirigente e antigo deputado que considerou a greve extemporânea.

A luta dos professores só poderá ser vitoriosa se aqueles confiarem nas próprias forças e se se unirem, independentemente das suas ideologias, opções partidárias ou filiações sindicais, na luta pela defesa dos seus direitos.

JS