segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

São Miguel já teve uma Delegação da Sociedade Protetora dos Animais de Lisboa

São Miguel já teve uma Delegação da Sociedade Protetora dos Animais de Lisboa



No último texto divulgamos uma pouco da participação cívica do conselheiro José Silvestre Ribeiro, o fundador da SPA-Sociedade Protetora dos Animais criada, em Lisboa, a 28 de novembro de 1875.
Tendo por objetivo “melhorar por todas as formas ao seu alcance, as condições de vida dos animais” a SPA usa, de acordo com os seus estatutos, entre outros, os seguintes meios: implementação de “todo o tipo de atividades de caridade para com os animais”, intervenção junto das autoridade para a “adoção de todas as medidas que visem impedir e reprimir tudo quanto represente crueldade para com os animais” e a criação e manutenção de serviços de assistência permanente aos animais”.

De acordo com notícia publicada no Açoriano Oriental, no final de 1993, a Delegação da SPA “veio substituir a Sociedade Micaelense Protetora dos Animais que nos últimos anos praticamente não funcionou”. Através do contato com um dos sócios que transitou da SMPA, fundada por Alice Moderno, para a Delegação da SPA e de informação publicada na comunicação social uma das razões para a não adesão de alguns deles à “nova” associação foi o valor das quotas que passaram de 200$00 anuais para 1500$00 no primeiro ano e 1000$00, nos seguintes.

Tendo à frente dos seus destinos João Gago da Câmara, a Delegação da SPA, que chegou a possuir uma sede e uma funcionária a tempo inteiro, conseguiu logo nos primeiros tempos de atividade alargar o prazo dado aos donos para provar que os animais lhes pertenciam, de três para quinze dias, possibilitando assim aumentar o número dos que se safavam da morte certa.

De acordo com uma reportagem publicada no Açoriano Oriental, no dia 11 de dezembro de 1993, a Delegação da SPA também pretendia acabar com a chacina de animais causada essencialmente pela insensibilidade de muitos donos e implementar uma “campanha de sensibilização com o objetivo, por um lado, de fazer com que todas as pessoas declarem e paguem na Câmara Municipal da sua localidade a taxa legal e, por outro, para que exista uma maior consciência das responsabilidades inerentes à posse de um animal”

Hoje, apesar do esforço de muitos cidadãos e das organizações animalistas, o número de animais registados na juntas de freguesia é diminuto e não deverá ser muito maior a responsabilidade dos humanos para com os animais, quer sejam os chamados de companhia ou quaisquer outros.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31161, 21 de fevereiro de 2017, p. 14)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Oliveira San- Bento, Antero de Quental e o socialismo



Oliveira San- Bento, Antero de Quental e o socialismo

José de Oliveira San-Bento foi um advogado natural da Ribeira Grande que se distinguiu como poeta, jornalista e ativista político. Com o fim da Primeira República aderiu ao Estado Novo, tendo antes sido membro do Partido Republicano Português e do Partido Socialista Português.

Enquanto filiado no Partido Socialista Português, colaborou no seu órgão central, o jornal “O Combate”. O jornal “O Protesto”, órgão e propriedade do Centro Socialista “Antero de Quental”, de Ponta Delgada, dirigido por Augusto César, transcreveu o poema “Bandeira Vermelha” que foi publicado no referido jornal partidário e que damos a conhecer aos leitores do Correio dos Açores:

Bandeira Vermelha
AO POVO
Ei-los que passam, com a fronte erguida,
Carro do triunfo, os vencedores:
E vivem lautamente toda a vida
E as mulheres atiram-lhes flores!

E passam os vencidos, em seguida,
Os escravos, joguetes dos senhores;
Pisam-nos os cavalos de corrida,
São a rapina, os outros os condutores!

Na vida não há pobres, há vencidos!
Sois o número, a força, e só defronte
Estão tiranos sobre vós subidos…

Vencidos que passais, erguei a fronte,
Altivos, revoltados, redimidos:
Vai rasgar-se p’ra vós novo horizonte!...

Algum tempo depois, “O Protesto” voltou a referir-se a José Oliveira San-Bento e a transcrever um soneto, incluído no seu livro “Poema do Atlântico”, com o qual o autor “concorreu ao prémio da Liga Micaelense d’Instrução Pública, “Jácome Correia”, obtendo-o assim mais uma vez”. Aqui o reproduzimos:

ANTERO DO QUENTAL

Vou, muita vez, à tarde, ao cemitério
A ver esse gigante onde repoisa:
E as violetas, cheias de Mistério,
Falam-me dele, sobre a sua loisa…

Ouço-as, atento e triste… e a cada coisa
Que elas me dizem, vejo um vulto aéreo
Vaguear, por entre as campas onde poisa…
Depois, desfaz-se, como um sonho etéreo!

E a alma do Poeta, toda Graça,
Suavemente, num sereno adejo,
Se esvai em Cor e some-se nas flores…

Murmura um nome a brisa que perpassa,
Chamando Antero… e, ao ouvi-lo, ei vejo
Crescer, subir a terra dos Açores!
Cemitério de São Joaquim – Ponta Delgada, novembro de 1917
Quando escreveu este texto, Oliveira San-Bento já se havia desvinculado do Partido Socialista Português. Com efeito, na nota do jornal “O Protesto”, o autor refere-se a ele como “prezado amigo e ex-camarada” e, sem rancor, congratula-se “ com a distinção concedida” e acrescenta o seguinte: “com pesar nosso, desertou das fileiras do P.S.P. onde estava filiado, para o “Integralismo Lusitano”, pesar porque sempre nele reconhecemos testemunhos de boa amizade, sinceridade e provas de lúcida inteligência e talento”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31156, 15 de fevereiro de 2017, p.14)
http://oliveirasan-bento.ulusofona.pt/

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

José Silvestre Ribeiro e a Sociedade Protetora dos Animais de Lisboa



José Silvestre Ribeiro e a Sociedade Protetora dos Animais de Lisboa

Quando se fizer a história do movimento associativo animalista nos Açores, não pode ficar esquecida a existência na ilha de São Miguel, no início da década de noventa do século passado, de uma delegação da SPA-Sociedade Protetora dos Animais, de Lisboa, fundada a 28 de novembro de 1875.

A Sociedade Protetora dos Animais, criada pelo conselheiro José Silvestre Ribeiro (1807-1891), é uma instituição privada de utilidade pública, sem fins lucrativos que tem por objetivo a “missão civilizadora e benemérita de melhorar por todas as formas ao seu alcance, as condições de vida dos animais”

José Silvestre Ribeiro, tal como a esmagadora maioria das pessoas que se dedicam à causa animal, para além da sua participação política e o seu trabalho de relevo como historiador, dedicou-se a várias causas, tendo uma atividade cívica digna de registo. A título de exemplo, destacamos a fundação do Montepio Geral e ter sido responsável pela edição da revista da Associação dos Arquitetos Civis e Arqueólogos Portugueses.

José Silvestre Ribeiro foi, também, sócio honorário da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, associação fundada em Ponta Delgada com o objetivo de promover a agricultura e que editou o jornal “O Agricultor Micaelense”.

Aquando da segunda Caída da Praia, crise sísmica “de origem tectónica, devida ao afundamento do graben das Lajes”, em 1841, José Silvestre Ribeiro destacou-se na ajuda às vítimas e no processo de reconstrução da Praia da Vitória, tendo, na qualidade de Governador Civil, organizado uma Comissão de Socorros.

José Silvestre Ribeiro também se destacou, em 1846 e 1847, no combate à fome que assolou a Madeira, causada por uma praga agrícola que afetou os batatais. Por sua iniciativa, como Governador Civil do Funchal, criou a 10 de março de 1847, “o então denominado Asilo de Mendicidade do Funchal, com o objetivo de recolher todos os indivíduos (homens, mulheres e crianças) encontrados a mendigar pelas ruas”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 3115, 14 de fevereiro de 2017, p.14)
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Silvestre_Ribeiro

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A República e a SMPA



Os primeiros passos da SMPA e “A República”

De acordo com algumas fontes foram sócios fundadores da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais as seguintes pessoas: Caetano Moniz de Vasconcelos (governador civil), Alfredo da Câmara, Amâncio Rocha, Augusto da Silva Moreira, Fernando de Alcântara, Francisco Soares Silva, José Inácio de Sousa, Joviano Lopes, Manuel Botelho de Sousa, Manuel Resende Carreiro, Marquês de Jácome Correia, Miguel de Sousa Alvim, Alice Moderno e Maria Evelina de Sousa.

Algumas das pessoas mencionadas estiveram ligadas ao jornalismo, destacando-se Manuel Resende Carreio que foi diretor do Diário dos Açores, Alice Moderno que foi diretora do jornal “A Folha”, Maria Evelina de Sousa que foi diretora da “Revista Pedagógica”, Miguel Soares Silva que foi diretor do jornal “Vida Nova”, Alfredo da Câmara que foi administrador do jornal “O Repórter” e Miguel de Sousa Alvim que para além de ter fundado o semanário “Interesse Público”, foi redator do Diário dos Açores e d’ “A República”.

“A República” foi um dos órgãos da comunicação social micaelense que se regozijou com a criação da SMPA – Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, tendo-se disponibilizado para colaborar, fazendo tudo o que estivesse ao seu alcance para que a iniciativa do jornal “A Folha”, da “Revista Pedagógica” e do “Diário dos Açores” fosse bem-sucedida.

De acordo com um texto publicado no seu nº 13, de 19 de abril de 1911, sobre o assunto pode-se ler o seguinte:

“Demais Ponta Delgada devia já ter, entre as suas instituições, uma [associação] com esta índole. Tem sido um descuido a bem dizer imperdoável, porque não há razões que se oponham à sua realização.

Muito ao contrário d’isto, cada vez se torna mais necessária a criação de uma Sociedade Protetora de Animais nesta cidade, porque os seus esforços, de mãos dadas com a ação policial, podem atuar poderosamente sobre a índole, por vezes pouco humana, de uma grande parte do nosso público no seu trato com os animais”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31149, 7 de fevereiro de 2017, p.14)

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O naturismo e o anarquismo em Ângelo Jorge (2)


O naturismo e o anarquismo em Ângelo Jorge (2)

No texto de hoje, vamos continuar a dar o conhecer o pensamento de Ângelo Jorge, recorrendo aos seus escritos no jornal “Vida Nova” e na “Barréla”, que apresenta o subtítulo “Panfleto de crítica higiénica contra a podridão nacional”, onde o autor zurze, sem dó nem piedade, nos chamados anarquistas ortodoxos.

No jornal micaelense “Vida Nova”, encontrámos dois textos de Ângelo Jorge, o primeiro, publicado a 30 de junho de 1910, intitulado “A opinião dos outros” e o segundo com o título “A propriedade”, publicado no dia 31 de janeiro de 1911.

Por retratar melhor o pensamento de Ângelo Jorge que aliava as preocupações sociais com as questões da saúde, apenas vamos transcrever algumas passagens do segundo texto.

Sobre o anarquismo, Ângelo Jorge, escreve que só por falta de educação existente em Portugal aquela corrente de pensamento é considerada como sinónimo de “Bomba, Caos, Desordem, Pilhagem” e acrescenta que persiste a falsa ideia de que as pretensões dos anarquistas são o roubo e a “destruição de quanto existe: a Família, o Estado, a Propriedade”.

O autor concorda com a frase de Proudhon “A propriedade é um roubo” dizendo que a mesma “é ainda hoje duma justeza sem igual” e acrescenta “Ladrão é todo aquele que possui o supérfluo em detrimento dos que nem o necessário têm, o que não quer dizer, de forma alguma, que ele os houvesse roubado, no sentido restrito e legal em que este termo geralmente é entendido, mas sim que a posse do supérfluo em que ele se acha investido é ilegítima e iníqua em face da verdadeira razão que proclamam para todos o mesmo direito à vida”.

Ângelo Jorge termina o seu texto imaginando uma sociedade onde, como escreveu Vitor Hugo “a propriedade, esse grande direito humano, essa suprema liberdade, essa elevação do espírito sobre a matéria, essa soberania do homem interdita ao irracional, longe de ser suprimida, será democratizada e universalizada”.

O extrato que se apresenta, a seguir, ilustra bem a utopia que guiou a vida do autor:

“Pomares magníficos onde as frutas mais odoríferas loirejam; hortas esplendidas onde vicejam as mais belas plantas leguminosas; jardins ideais onde as flores mais raras e mimosas se elevam; florestas impenetráveis onde vivem a sua vida silenciosa as árvores as mais vetustas; terras as mais férteis e as mais ricas onde o trigo cresce sob o olhar acariciante do sol - tudo, tudo será a pertença ilimitada e natural de todos, a todos oferecereis o pão e o repouso, a vida do coração, e todos terão o direito imprescritível de vos revolver as entranhas, de vos fecundar com o esforço hercúleo do seu braço! Livre será a terra, como livre é o mar, como livre é o ar, como livre é a água e livre será sobre a terra livre o Homem, a obra mais perfeita da Natureza pelo pensamento e pelo sentimento, pela inteligência e pela razão, pelo amor e pela dor”.

Sobre o anarquismo e combatendo o pensamento único, Ângelo Jorge escreveu no primeiro número de “ Barréla” o seguinte:

“Em Portugal, tudo se falsifica: eis a dolorosa verdade. Caracteres e géneros alimentícios, ideias e consciências, tudo neste delicioso país de laranjeiras em flor e de burros enfatuados sofre a ação fundamentalmente nefasta dos adulteradores de má morte. (…)
O anarquismo, esse mesmo, não pode escapar à infausta sina.

O anarquismo, em Portugal, está, como tudo o mais, falsificado”.

“Em nome da inviolável e da imprescritível liberdade humana”, Ângelo Jorge escreve:

“Abaixo as coleiras, que o homem não é cão!

Abaixo as celas, as prisões, as gargalheiras, quer elas ostentem o distinto negro da Opressão, quer nos mostrem o rótulo doirado da Anarquia!”

(Correio dos Açores, 31144, 1 de fevereiro de 2017 p.16)

“A República”, um jornal micaelense defensor dos animais


“A República”, um jornal micaelense defensor dos animais

A 14 de abril de 1911 começou a ser publicado, em Ponta Delgada, o jornal “A República” que teve, entre outros como redator principal Miguel Sousa Alvim. O seu último número foi publicado no dia 4 de Abril de 1920.

Pelas suas páginas passaram vários temas, como o combate à monarquia e ao clericalismo, a defesa dos ideais republicanos e da educação, descurada pelo regímen anterior. “A República”, também, não se esqueceu da defesa dos animais, tendo desempenhado um papel ativo na criação da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais.

No que diz respeito à proteção animal, “A República” no dia 5 de novembro de 1911, publicou, entre outos, um texto intitulado “Justiça para os animais”, onde foram transcritas dez regras divulgadas pela Sociedade Protetora dos Animais de Lisboa, que se podem sintetizar em duas: “Não faças a outrem o que não desejarias que te fizessem em igualdade de circunstâncias; e não procures alicerce para a tua superioridade nas injustiças contra quem quer que seja, porque a verdadeira justiça não diferença nem exclui”.

Dada a atualidade de algumas das regras, quase cento e seis anos depois, abaixo transcrevo três:

- “O animal sustenta-se como tu, ele sofre a fome, a sede e o frio, sendo também como tu sensível à dor e à fadiga, como ao prazer e à alegria. Evita-lhe todo o sofrimento, pois, como o procuras evitar a ti próprio.

- Foge dos espetáculos onde se pratiquem barbaridades contra os animais; e trabalha para a sua supressão, por qualquer meio ao teu alcance, na certeza de que assim prestas um bom serviço ao teu país, que tanto mais se há-de impor ao respeito estranho, quanto mais civilizado se patentear.

- Procura e promove o bem-estar de todos os seres da criação, lembrando-te de que o homem não deve ser o tirano dos seus iguais nem o algoz dos inferiores, mas o seu dirigente, o seu protetor.”

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31143, 31 de janeiro de 2017, p. 16)