quarta-feira, 17 de abril de 2019

Ernesto Ferreira, António Emiliano Costa e a dendroclastia



Ernesto Ferreira, António Emiliano Costa e a dendroclastia

No passado dia 9 de abril visitei o Jardim da Universidade dos Açores e fiquei chocado ao verificar que duas árvores de grande porte haviam sido abatidas.

Espero que tenham existido razões fortes para justificar a eliminação das duas árvores de um Jardim que ao longo dos tempos tem perdido alguns bonitos exemplares e que aquelas nada tenham a ver com a venda de madeira, como foi aventado por uma pessoa que passava no local, na hora em que estava a fotografar o que restava de um dos exemplares cortados, ou com o não respeito ou mesmo aversão às árvores (dendroclastia), o que é pouco provável numa instituição que tem em curso dois projetos relacionados com a valorização de jardins. Um deles, o Green Gardens – Azores, tem mesmo como objetivo principal “contribuir para a afirmação dos jardins históricos dos Açores como produto turístico de qualidade associado à natureza, cultura e bem-estar, através da problematização e operacionalização de dinâmicas de desenvolvimento do turismo de jardins (TJ)”.

No texto de hoje, vou recordar duas pessoas que com os seus escritos e com a sua prática, ao contrário de muitos outros que “sofrem” da “perturbação” referida, dendroclastia, ou de outra, também grave, a dendrofobia, isto é, medo e horror às árvores, tudo fizeram para que as árvores fossem respeitadas: o Padre Manuel Ernesto Ferreira e o regente florestal (Eng.º técnico agrário) António Emiliano Costa.

O padre Ernesto Ferreira foi um sábio vila-franquense que foi professor no Instituto de Vila Franca, instituição criada por Urbano Mendonça Dias. De acordo com o seu aluno António Emiliano Costa, Ernesto Ferreira foi um “homem superior” que “amava a natureza como poucos, de tal modo que penetrava bem fundo nos seus pormenores e nas suas origens. Classificava sem dificuldade qualquer planta, como sabia da utilidade ou origem duma pequena erva ou ainda palestrava horas seguidas sobre a vida dum determinado peixe, oração sempre vestida de alegres e interessantes deambulações.”

Ainda de acordo com o regente florestal António Emiliano Costa, o padre Ernesto Ferreira também sofria com a mutilação de árvores feita por quem tinha o dever de as saber podar. No Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, nº 17, de 1953, que vimos citando, sobre o assunto pode ler-se o seguinte: “Ainda me lembro muito bem da revolta sofrida no seu íntimo, pois a sua correção não lhe permitia grandes exteriorizações, quando da poda exagerada feita a dois bonitos exemplares de Tília argentea D., existentes no pequeno jardim público que lhe ficava fronteiriço e das conjeturas feitas no momento sobre a incompatibilidade na poda sobre esta espécie. Note-se: daqueles dois bonitos exemplares, de copa tão redonda, só um escapou à inutilização sofrida e o outro ficou sempre um espécimen desequilibrado”.

O padre Manuel Ernesto Ferreira foi, também, um dos pioneiros na defesa da “flora indígena” dos Açores. Para o efeito, em 1903, na revista “A Phenix” defendeu a criação de “viveiros” ou a existência de coleções de plantas açorianas em jardins já existentes. Se é verdade que noutras paragens tal tem sido feito, na sua terra natal, apenas tenho conhecimento de algumas plantações feitas sem critério nenhum, em vários dias de celebração do Dia da Árvore ou do Ambiente. Assim, está por fazer algo que como escreveu o padre Ernesto Ferreira “prestaria um belo serviço à ciência e ofereceria momentos de agradável prazer à maior parte dos continentais e estrangeiros, que continuamente nos visitam e a quem, sem dúvida, interessa, mais do que a estranha, a flora que nos é própria”.

António Emiliano Costa foi o primeiro Administrador Florestal em Santa Maria e um grande impulsionador dos Serviços Florestais naquela ilha. Publicou em dois números do Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores uma listagem de “árvores notáveis de S. Miguel”, tendo optado por incluir os exemplares que se encontravam isolados ou em perigo de serem destruídos. Segundo o autor a escolha teve em conta facto de serem uma “parte importante do nosso património florestal e também pela beleza, majestade, importância ou singularidade, além do interesse turístico que merecem”.

O trabalho pioneiro de António Emiliano Costa terá sido utilizado, como ele sugeriu, para a classificação de algumas árvores como de interesse público e terá servido de inspiração aos promotores da petição “Pela Classificação de árvores notáveis nos Açores” que foi entregue, recentemente, na Assembleia Legislativa Regional dos Açores.


Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 31807, 18 de abril de 2019, p. 17)

sábado, 6 de abril de 2019

sexta-feira, 5 de abril de 2019

sexta-feira, 29 de março de 2019

domingo, 24 de março de 2019

Visita de estudo ao Jardim do Palácio de Santana


Na disciplina de Cidadania
Visita de estudo ao Jardim do Palácio de Santana
21 de março de 2019

Da Árvore à Floresta: o desrespeito continua


Da Árvore à Floresta: o desrespeito continua


“Quem não tem jardins por dentro
Não planta jardins por fora” (Rubem Alves)



Tudo terá começado, em 1872, nos Estados Unidos da América, no Nebrasca, onde para colmatar a falta de árvores a população decidiu dedicar um dia, não fixo, à sua plantação.
Em Portugal, a primeira “Festa da Árvore” ocorreu em 1907, tendo sido muito incentivada e comemorada nos primeiros anos da República, até 1917.

Na ilha de São Miguel terá acontecido o mesmo, tendo em 1914 as comemorações atingido o seu apogeu, com o envolvimento das diversas entidades oficiais e das escolas. De entre as personalidades que apoiaram, participaram ou publicitaram a festa destaco o Marquês de Jácome Correia, Alice Moderno, através do seu jornal “A Folha” e a professora Maria Evelina de Sousa, através da “Revista Pedagógica”.

Em 1971, a FAO estabeleceu o “Dia Mundial da Floresta” como forma de chamar a atenção para o papel da mesma na manutenção da vida na Terra. Três anos depois, em 1974, o dia foi celebrado pela primeira vez em Portugal a 21 de março, o primeiro dia de primavera no hemisfério norte.

Em 2012, por decisão da Assembleia Geral da ONU, o dia 21 de março foi declarado como Dia Internacional das Florestas.

Em 2019, ano declarado pela ONU como Ano Internacional da Tabela Periódica dos Elementos Químicos, o tema escolhido para as celebrações foi “Florestas e Educação”.

Em Portugal, para o dia 21 de março, a Sociedade Portuguesa de Química (SPQ) tem uma atividade intitulada “Dia do Carbono 118 árvores para 118 elementos” que consiste na plantação de 118 árvores, o que corresponde a retirar 2,5 toneladas por ano de dióxido de carbono (CO2).

Nos Açores, a Escola Secundária das Laranjeiras, aderiu ao projeto da SPQ, através da exploração dos materiais pedagógicos disponíveis por aquela instituição, da visita ao Jardim do Palácio de Santana e da plantação de árvores.

Tal como o que se passa com os vários dias dedicados a qualquer coisa, celebrar a árvore e a floresta um dia por ano é muito pouco quando nos restantes dias se está a desrespeitar um ser que é vital para a humanidade.

Sabendo-se que a concentração das comemorações do Dia da Árvore/Floresta se concentra nas escolas, onde o público-alvo é mais recetivo, por que razão não se nota uma sensível melhoria no estado em que se encontram as nossas árvores não só nos estabelecimentos de ensino, mas também nos espaços públicos, como arruamentos, estradas, parques de estacionamento, etc.?

Não pretendendo fazer o elenco de todas as causas possíveis, aqui sugiro algumas:

- Falta de sensibilidade por parte de alguns responsáveis por serviços oficiais, governamentais ou camarários;

- Ausência de formação por parte de quem faz as podas, parecendo que por vezes a única possuída é a de por a funcionar uma motosserra;

- O desleixo de quem cuida dos relvados onde se encontram muitas árvores (arbustos), não deixando caldeiras à volta daquelas, fazendo que que as mesmas sejam vítimas das sedas ou dos discos das roçadoras;

- A preguiça de alguns “trabalhadores” que se queixam de muito trabalho na limpeza de alguns recintos devido à queda de folhas ou frutos;

- A ignorância de todos os que pensam que com as podas “radicais”, as árvores ornamentais são fortalecidas, rejuvenescem, tornam-se menos perigosas e o seu cuidado fica mais barato.

Termino com uma citação de Francisco Caldeira Cabral e Gonçalo Ribeiro Teles: “Qualquer supressão de que resulta um aspeto definitivamente mutilado da árvore, deve considerar-se inadmissível visto comprometer definitivamente a finalidade estética da planta ornamental”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 31783, 21 de março de 2019, p. 12)

Assine e divulgue: https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT92430

quinta-feira, 14 de março de 2019

Peso e massa


O desafio do ensino/aprendizagem dos conceitos de massa e de peso

Uma das aprendizagens essenciais do 7º ano de escolaridade da Disciplina de Físico-Química é “distinguir peso e massa de um corpo, relacionando-os a partir de uma atividade experimental, na qual constrói tabelas e gráficos”.
Embora pareça tarefa simples diferenciar peso de massa, o trabalho do professor esbarra com algumas dificuldades, sendo a primeira o quase não uso do conceito físico de massa em detrimento do de peso, que é usado, erroneamente, na linguagem do dia-a-dia.
Antes de fazermos referência à segunda dificuldade que é o ensino errado que é feito no 1º ciclo do ensino básico, induzido pelo programa oficial, por alguns manuais escolares e por alguns formadores dos docentes daquele nível de ensino, apresentamos os dois conceitos tal como são expostos no Projeto Desafios de Ciências Físico-Químicas destinado ao 7º ano de escolaridade, editado pela Santillana-Constância, em 2012.
De acordo com as autoras, a massa é uma grandeza física que caracteriza a quantidade de matéria que um corpo possui, não depende do local onde se encontra, tem como unidade no Sistema Internacional o quilograma (kg) e pode ser determinada utilizando uma balança. O peso, por seu lado, “corresponde à força de atração gravitacional da Terra sobre o corpo, depende do local onde o corpo se encontra, tem como unidade no Sistema Internacional o newton (N) e pode ser medido com dinamómetros”.
Face ao exposto não se compreende a razão pelo facto da massa ser, com muita frequência confundida com o peso e a gravidade de tal ato é maior quando tal confusão surge em documentos oficiais ou em manuais usados nas nossas escolas, como se pode confirmar através dos seguintes exemplos:
1- “A meloa pesa …quilograma (kg).” (documento distribuído aos professores do primeiro ciclo da RAA)
Como vimos o quilograma é unidade de massa, portanto não devia ser usado naquela situação.
2- “Nestes cestos, as bolas grandes pesam 9 kg e as bolas pequenas pesam 3 kg.” (Fichas de avaliação do 3º ano)
Erro semelhante ao anterior.
3- “Para medires a massa (peso) deves utilizar uma balança.” (ficha de um Caderno de Fim de Semana para o 3º ano)
Neste caso, o autor (ou autores?) une os dois conceitos num só o que não é correto.
Já vimos que peso e massa são grandezas diferentes, mas será que há alguma relação entre elas?
Num manual escolar para o 1º ano do Curso Complementar do ensino secundário (atual 10º ano de escolaridade) os seus autores, entre os quais se encontra o inesquecível Rómulo de Carvalho/António Gedeão, o peso era definido como “a força que determina a aceleração com que o corpo cai para a Terra”.
A sua equação de definição da sua intensidade, - não esquecer que o peso é uma grandeza vetorial e como tal para além daquela caraterística também apresenta uma direção, um sentido e um ponto de aplicação –, é:
P = mg
A letra m é a nassa do corpo e a g representa a aceleração da gravidade.
Sabendo-se que o valor da aceleração da gravidade é, em média, 9,8 m/s2, torna-se muito fácil estabelecer a relação entre o peso de um corpo e a sua massa. Assim, se um corpo qualquer tiver a massa de 1 kg, o seu peso será 9,8 N (newton):
P = 1 x 9,8= 9,8 N
No passado, também se usava como unidade de força o quilograma-força, cujo símbolo era kgf e equivalia ao peso de um corpo com a massa de um quilograma sujeito à ação da gravidade. Não sei se o seu uso não seria útil para ajudar a esclarecer que peso e massa são duas grandezas bem distintas. Assim, quando a massa fosse 1 kg o seu peso seria 1 kgf.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31777, 14 de março de 2019, p.12)