ANTÓNIO BORGES COUTINHO: COOPERATIVISMO,
ANTÓNIO SÉRGIO E AGOSTINHO DA SILVA
Estou aqui porque partilho com ABC a minha
admiração por António Sérgio, por Agostinho da Silva e por Tolstói, a
solidariedade para com os mais desprotegidos e o combate pela liberdade.
Dado o tempo limitado que disponho vou apenas relembrar
a relação de amizade de António Borges Coutinho com Agostinho da Silva, a sua
opção pelo cooperativismo, paixão de António Sérgio, bem como o seu apoio ao
movimento cooperativo através do jornal “Farol das Ilhas, depois da sua
colaboração com a Cooperativa Sextante
António Borges Coutinho estudou no Colégio Infante de
Sagres, onde Agostinho da Silva foi professor. Este, entre outras inovações
pedagógicas, não seguia o livro único obrigatório para todos os alunos e
segundo ele “organizou-se o Infante
de Sagres em Município Escolar, inteiramente dos alunos, com suas eleições
livres, a sua Câmara, a sua administração, o seu tribunal, os seus programas
culturais, a sua actividade cívica. Em plena ditadura exterior, vivia o colégio
democraticamente.”
A ideia de só na autonomia e pela autonomia ser
possível a verdadeira educação de Agostinho da Silva é também de António Sérgio,
sendo uma pena que ainda hoje não seja implementada a participação democrática
direta dos alunos dentro e fora da sala de aula.
Ao
contrário do que escreveu Manuel Barbosa, António Borges Coutinho não foi
alheio à constituição e ao funcionamento
da Cooperativa Sextante.
António
Borges Coutinho foi mantido a par da iniciativa de criação da Sextante, através
da correspondência que manteve com Eduardo Pontes, terá contatado açorianos residentes em Lisboa e
adiantava dinheiro para pagamento dos livros às editoras. Aquando do processo
de encerramento da(s) cooperativa (s), António Borges Coutinho foi
representante da Sextante, na qualidade de observador, em reuniões realizadas
em Lisboa, e esteve presente na Assembleia Geral realizada a 28 de agosto de
1972, tendo sido, segundo informações da PIDE, um dos intervenientes mais
ativos. Por último, foi da sua autoria o recurso, apresentado pela Sextante,
para o Supremo Tribunal Administrativo, com vista a impedir o seu encerramento.
A situação dos rendeiros e dos trabalhadores agrícolas
mereceram a atenção de Borges Coutinho, de que é exemplo a sua participação já
como Governador Civil na homenagem a Carlos Ferreira, estufeiro morto pela
polícia política salazarista em 1937, realizada no dia 3 de fevereiro de 1975,
na Fajã de Baixo, por iniciativa do Sindicato dos Trabalhadores da Cultura do
Ananás, que contou com a presença de centenas de pessoas.
Na ocasião, entre outras palavras, António Borges Coutinho
afirmou o seguinte:
“Esta é a segunda vez que sinto a entrada do 25 de Abril
em S. Miguel A primeira foi quando foram congeladas as rendas e proibidos os
despedimentos. Houve uma grande alegria na classe rendeira.
…
Esta é a primeira vez que vejo o proletariado rural a
manifestar-se. É uma grande alegria para mim, e estou certo de que o vosso
exemplo se vai estender pela ilha toda.
…
O entusiasmo pelo cooperativismo por parte de
António Borges Coutinho está bem patente no jornal Farol das Ilhas (1977-1980).
Com efeito em 44 dos 53 números consultados (83%) há textos sobre o
cooperativismo ou sobre a criação e o funcionamento de cooperativas em várias
ilhas dos Açores.
O interesse de António Borges Coutinho pelo movimento
cooperativo deverá estar relacionado com a sua ligação a António Sérgio que
considerava o cooperativismo como uma movimento de reforma moral e social.
Vejamos quais eram para António Sérgio (1984) as três
ideias mestras do cooperativismo:
-
“Tudo no cooperativismo deve ser voluntario e livre, feito de baixo para
cima, sem
nenhuma ingerência determinativa do Estado (embora o Estado possa auxiliar, sem
nunca mandar coisa alguma)”;
-
“O povo é capaz de se emancipar a si mesmo; sem ingerência dos
políticos e do Estado […] Quando os povos esperam que os governos façam as
coisas não há povos verdadeiramente bons nem governos verdadeiramente bons;”
— Uma cooperativa de
consumo não deve ser só uma empresa, como uma empresa Capitalista: deve ser
também ao mesmíssimo tempo, um centro de convivência fraterna e um foco de
ascensão moral e cultural.”
Termino com a recomendação da leitura de dois livros
maravilhosos:” O apoio mútuo: um factor da evolução”, de Piotr. Kropotkine e “A
Nação das Plantas”, de Stefano Mancuso.
Através do primeiro, constata-se que “as pessoas
tendem espontaneamente para a ajuda mútua, e que é o Estado, com a sua ânsia de
regular coletividades e defender privilégios privados, que corrompe esta
inclinação natural” e que o verdadeiro motor da evolução é a capacidade de
cooperar dos indivíduos. O segundo autor, uma autoridade de renome mundial na
área da Neurobiologia Vegetal, corrobora as afirmações do filósofo anarquista
russo, ao terminar o seu livro com a seguinte frase: “A cooperação é a força através
da qual a vida prospera, e a Nação das Plantas reconhece-a como o primeiro
instrumento do progresso das comunidades”.
Ponta Delgada, 26 de outubro de 2024
Teófilo (Soares) Braga
Fotografia: H. Medeiros