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domingo, 18 de agosto de 2019

PROMOVER O PEDESTRIANISMO. DEFENDER O AMBIENTE (2)


PROMOVER O PEDESTRIANISMO. DEFENDER O AMBIENTE (2)

O pedestrianismo é uma actividade que nos últimos anos tem vindo a crescer, quase não havendo, hoje, Junta de Freguesia ou Câmara Municipal que não esteja interessada em possuir os seus próprios trilhos. Para que não se venha a cair em situações caóticas e indesejáveis, como tem acontecido noutros países, é necessário fomentar um Registo Regional de Percursos Pedestres, criar legislação que facilite a passagem em áreas privadas, formar guias e difundir um código de ética e conduta.

Embora a Região Autónoma dos Açores possa optar pela criação de legislação que, à semelhança do que já acontece na Madeira, estabeleça os percursos pedestres recomendados, o que na prática não tem funcionado, acho que seria mais importante fomentar a implementação de um Registo Regional de Percursos Pedestres, cujos objectivos seriam: registar os percursos pedestres de todas as entidades que a ele recorram; atribuir-lhe a numeração; fazer a sua homologação de acordo com os pré- requisitos estabelecidos; fazer a sua divulgação a nível nacional e internacional.

A homologação feita pelos Amigos dos Açores, por delegação da Federação Portuguesa de Campismo, permitiria que qualquer percurso que fosse implantado de acordo com as normas e que reunisse condições de segurança para os seus utilizadores, fosse divulgado internacionalmente junto da ERA (European Ramblers Association), a principal organização mundial que agrupa 59 federações e associações de 28 estados europeus.

Além do referido, é urgente que sejam tomadas medidas de carácter legislativo, à semelhança do existente em outros países europeus, que permitam o acesso livre a caminhos privados e o acesso condicionado a propriedades privadas, desde que estas não sejam muradas e que o pisoteio não prejudique as culturas. Em suma, é necessário que todos os turistas e demais praticantes do pedestrianismo tenham, no que diz respeito ao acesso a propriedades de carácter privado, no mínimo, os mesmos direitos dos cidadãos que se dedicam à actividade cinegética.

Para as visitas guiadas, que quanto a nós deveriam ser de carácter obrigatório, sempre que o local a visitar fosse uma Reserva Natural, é imprescindível que os “Guias da Natureza”, e demais agentes ligados à actividade, frequentem acções de formação que visem uma aprendizagem, ou reciclagem, em diversas temáticas. De entre estas citam-se a Topografia e a Orientação, a Botânica e a Zoologia, a Ecologia, a Geologia, a Geomorfologia, a Meteorologia, o Socorrismo, a História Regional, o Património Edificado e a Legislação Ambiental.

Por último, para além do respeito pelos Regulamentos das diversas Áreas Protegidas, os pedestrianistas deverão observar um código de ética e conduta do qual deverão constar um conjunto de normas de que se destacam as seguintes:
- andar apenas pelos trilhos sinalizados;
- evitar barulhos e atitudes que perturbem a paz do local;

- observar a fauna à distância, preferencialmente com binóculos;

- não colher amostras de plantas ou rochas;

- não abandonar o lixo, levando-o até um local onde haja serviço de recolha;

- ter o cuidado de fechar as cancelas e portelos;
•
- respeitar as propriedades privadas;

- ser afável com os habitantes locais, esclarecendo quanto à actividade em curso e às marcas do percurso.

(Publicado no Açoriano Oriental, 30 de Setembro de 2002)

PROMOVER O PEDESTRIANISMO. DEFENDER O AMBIENTE (1)


PROMOVER O PEDESTRIANISMO. DEFENDER O AMBIENTE (1)


A Associação Amigos dos Açores, no âmbito do seu projecto “Conhecer Para Proteger, tem promovido no decurso dos últimos dezassete anos a realização de percursos pedestres mensais como forma privilegiada de contacto com a natureza”. Esta actividade constitui, por um lado, um instrumento de educação ambiental e de ocupação de tempos livres e, por outro, apresenta-se como um veículo primordial de promoção do património natural e cultural açoriano.

Além do referido, vários estudos confirmam que as caminhadas são benéficas para a saúde, apresentando diversas vantagens físicas e mentais. Com efeito, caminhar ajuda a queimar gorduras, alivia o stress, reduz o colesterol no sangue, fortalece e tonifica os músculos das pernas, coxas e ancas, fortalece os ossos, melhora a postura e alivia as dores nas costas, ajuda a atenuar estados depressivos, aumenta a auto- estima, etc.

Para além das actividades mencionadas, a associação, com o apoio de diversas entidades governamentais regionais e nacionais, autarquias e empresas, editou um conjunto de roteiros de percurso pedestres e tem promovido a pratica do pedestrianismo junto dos mais jovens, através do projecto anual “Caminhar Para Melhor Conhecer e Proteger”, que tem contado com o apoio da Direcção Regional da Juventude.

Para a prática do pedestrianismo- desporto dos que andam a pé- é importante, ou mesmo imprescindível, que existam trilhos previamente sinalizados com marcas e códigos internacionalmente conhecidos e aceites. No passado dia 23 de Setembro de 2000, a região deu o primeiro passo ao inaugurar, na Serra Devassa, o primeiro percurso pedestre nos Açores, devidamente sinalizado, usando a simbologia adoptada pela Federação Portuguesa de Campismo , entidade que a nível nacional compete promover e divulgar a prática do pedestrianismo e fazer o registo de todos os percursos pedestres, atribuir-lhes numeração e homologá-los de acordo com determinadas “Normas”.

Depois desta data, muito de positivo foi feito, mas também muitas falhas e alguns erros foram cometidos. Com efeito, alguns trilhos apresentam uma insuficiente marcação ou erros na utilização das marcas, outros, quanto a nós, por razões de segurança, não deveriam estar sinalizados ou mesmo deveria haver a indicação do seu elevado grau de perigosidade, como acontece em S. Jorge no trilho entre a Fajã dos Bodes e o Loural, outros, como é o caso do trilho que circunda a Lagoa do Fogo, por razões ambientais e pelo facto de parte do mesmo se fazer dentro de água, não deveriam figurar como oferta turística.

Além disso, para minimizar os efeitos negativos do pedestrianismo sobre o ambiente natural deverão ser tomadas diversas medidas, de que destacamos a localização dos trilhos de modo a evitar a perturbação dos elementos ecológicos mais importantes, o pisoteio das plantas, a erosão do solo, etc.. Por outro lado, a divulgação de um código de conduta e ética, que deverá ser respeitado por todos os que percorrem a pé as nossas ilhas, é outra das tarefas que não deve ser esquecida.

(Publicado no Açoriano Oriental, 16 de Setembro de 2002)

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Percurso Pedestre da Ribeira do Faial da Terra



Percurso Pedestre da Ribeira do Faial da Terra


Este percurso, que tem início na freguesia de Água Retorta, localiza-se, na sua maior parte, na freguesia do Faial da Terra, na costa Sul da ilha de São Miguel, a cerca de 5 km, a Este, da vila da Povoação.

Trata-se de um trilho linear, com cerca de 7 km de extensão, estando classificado com o grau de dificuldade médio.

Antes de iniciar o trilho recomenda-se uma visita ao Parque Florestal de Água Retorta, uma Reserva Florestal de Recreio criada pelo Decreto Regulamentar Regional nº 19/2003/A. A sua inauguração ocorreu a 9 de Julho de 2000, em cerimónia presidida pelo Presidente do Governo Regional dos Açores. No parque é de destacar a presença de algumas plantas endémicas como o cedro-do-mato, a ginja, o louro e o folhado. Para além destas, é de realçar a presença do pinheiro manso, do cipreste, da araucária, do carvalho e do castanheiro-da-índia.

O percurso inicial faz-se por um caminho de terra até se encontrar um antigo moinho de água. Junto ao moinho, a vegetação é luxuriante, distinguindo-se a presença de eucaliptos, acácias, incensos e conteiras.

Neste local e em quase todo o percurso é possível observar algumas espécies da avifauna local, como melros-negros, alvéolas, tentilhões, pombos torcazes e santantoninhos. Embora com maior dificuldade, também, é possível observarmos o coelho, espécie introduzida pelos primeiros povoadores e o morcego dos Açores.

A seguir ao moinho o percurso faz-se no interior de uma mata de criptoméria e de alguns incensos. Ao longo do trilho existem várias pontes de madeira construídas sobre pequenos afluentes que alimentam a Ribeira do Faial da Terra.

Continuando a caminhar em direção ao Sul chega-se ao trilho do Sanguinho. Aqui, o viajante tem as seguintes opções: vira à esquerda e desde um carreiro que o leva à bonita cascata do Salto do Prego ou continua a descer o trilho e um pouco mais à frente vira à direita e dirige-se ao Sanguinho.

Recomendamos uma descida até ao Salto do Prego, onde os mais corajosos poderão banhar-se nas águas frias mas límpidas da Ribeira do Faial da Terra. Aqui a vegetação não difere muito da que se encontra ao longo do trilho, mas é possível encontrar, junto à cascata, diversas espécies de fetos.

De entre as espécies de aves que se podem observar, destacamos a alvéola, uma ave que nunca foi perseguida pois dizia-se que era sagrada. Sobre esta espécie o padre vila-franquense Manuel Ernesto Ferreira escreveu o seguinte:

“Diz o povo micaelense: - Quando a Virgem Maria, fugindo à perseguição de Herodes, ia a caminho do Egipto, amaldiçoou o tremoço e a codorniz e abençoou a arvelinha. Ao tremoço, que com o ruído das suas vagens sêcas, denunciava a passagem da fugitiva Senhora, deu-lhe esta como castigo não poder o seu grão encher barriga nem matar fome. À codorniz que, adeantando-se, parecia com a sua voz dizer cá vai aos agentes do rei cruel, condenou-a a voar sempre rasteira. Mas à arvelinha, que com sua cauda ia diligentemente apagando todas as pegadas, bendisse-a a Virgem em recompensa de tam santo cuidado.”

Depois da visita ao salto do Prego, recomenda-se a passagem no Sanguinho, assim chamado, segundo cremos, devido à presença da planta endémica dos Açores denominada sanguinho que foi reintroduzida recentemente. Aqui, para além do casario, que continua em recuperação, avistam-se quintais com várias espécies de árvores de fruta, como araçazeiros, pessegueiros, macieiras, laranjeiras e bananeiras.
Continuando o percurso, depois de uma descida bastante íngreme, chega-se ao Burguete, onde se encontra um “Teatro” do Espírito Santo, cuja construção data de 1908.
Recomenda-se um passeio pela freguesia que é considerada o “Presépio da ilha”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31313, 25 de agosto de 2017, p.10)

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Percurso Pedestre da Praia da Viola


Percurso Pedestre da Praia da Viola

Este trilho foi percorrido pelos Amigos dos Açores durante muitos anos, sendo muitas vezes uma alternativa quando as condições meteorológicas impediam a realização dos passeios mensais em locais de maior altitude.

Trata-se de um trilho linear com cerca de 5 km de distância, entre a Igreja da Nossa Senhora do Rosário, na freguesia da Lomba da Maia e o Porto Novo, na freguesia da Maia. Embora o percurso possa ser feito em sentido contrário, ou ser feito na totalidade, isto começar e terminar no ponto de partida, para quem está a começar recomenda-se que se inicie na Lomba da Maia.

A construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, que ter-se-á iniciado em 1868, só foi possível graças às esmolas colhidas junto de todos os habitantes da localidade. Destes, é justo destacar o contributo do Padre Manuel Moniz de Medeiros e do mestre José Fidalgo que tiveram que hipotecar parte dos seus bens para poder satisfazer algumas despesas relativas a mão-de-obra e materiais.

Junto à igreja localiza-se o "Largo Dr. Manuel Sá Couto", em homenagem ao professor de filosofia, licenciado pela Universidade do Porto, que se distinguiu através da sua participação social e política, a nível da sua freguesia e sobretudo concelhio.

Depois da decida de uma das ruas da freguesia chega-se a um conjunto de ruinas de antigos moinhos de água, recomendando-se, aqui, um pequeno desvio para a observação da queda de água da Ribeira do Salto. Neste local, podem ser apreciadas algumas espécies características da vegetação costeira, como a erva-leiteira, a figueira-brava, a faia, a urze, o queiró, a cenoura brava e o bermim.

Continuando o percurso chega-se à Praia da Viola, local convidativo para uma pausa e um refrescante mergulho no mar.

Na Praia da Viola também se observam ruínas de moinhos de água e é possível a observação de algumas plantas espontâneas, como a diabelha, o cubre, a figueira-brava e as chagas, e cultivadas, como a espadana, planta oriunda da Nova Zelândia, da ilha de Norfolk e da Austrália, que terá sido introduzida, em 1789, em Portugal, pelo Abade José Correia da Serra, e o inhame, planta que se adapta bem a terrenos alagados, como são os desta zona.

No troço final, que é um arranjo mais recente da responsabilidade da Junta de Freguesia da Maia, que teve o cuidado e o bom gosto de introduzir algumas plantas endémicas dos Açores, continua-se a observar as plantas características do litoral já referidas anteriormente e algumas ornamentais, com destaque para os malmequeres.

Nesta parte do percurso, passa-se pelo local, devidamente assinalado, onde as mulheres da freguesia lavavam roupa. A seguir, pelo menos quando fizemos o percurso pela última vez encontra-se uma exposição fotográfica ao ar livre com aspetos da vida antiga da freguesia que é uma homenagem à mulher trabalhadora.

O percurso termina junta da Igreja do Espírito Santo que, já existia em 1522 e que, devido ao aumento populacional da freguesia, foi sendo ampliada, tendo a sua grande reconstrução ocorrido nos finais do século XVIII.
Ao longo do percurso é possível observar algumas espécies da avifauna dos Açores, como o canário, o milhafre, a alvéola, também conhecida como lavandeira ou arvelinha e o pombo da rocha, subespécie endémica dos Açores que está presente em todas as ilhas, nidificando sobretudo em arribas e ilhéus costeiros.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31302, 11 de agosto de 2017, p.17)

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Percurso Pedestre da Serra Devassa


Percurso Pedestre da Serra Devassa

O trilho da Serra Devassa foi, desde a criação dos Amigos dos Açores (então com, a designação de Núcleo dos Açores dos Amigos da Terra- Associação Portuguesa de Ecologistas), em 1894, um dos mais visitados por aquela associação e um dos preferidos para acompanhamento de grupos escolares, não só devido à sua curta extensão mas também pela sua localização geográfica a pouca distância, cerca de 17 km, de Ponta Delgada.

Na história do trilho da Serra Devassa, destacamos o ano de 1994. Em janeiro de 1994, os Amigos dos Açores organizaram um passeio pedestre que contou com a presença de 65 pessoas, entre elas o presidente do Governo dos Açores, Doutor João Bosco da Mota Amaral. No mesmo ano, no mês de Maio, por iniciativa dos Amigos dos Açores foi publicada a primeira edição do roteiro do percurso pedestre da Serra Devassa.

No ano 2000, a 23 de setembro, realizou-se a abertura simbólica do primeiro percurso pedestre sinalizado dos Açores, o da Serra Devassa, que contou com a presença do Secretário Regional da Economia, Prof. Doutor Duarte Ponte.

Para se chegar à Serra Devassa, a partir de Ponta Delgada, aconselha-se que os interessados atravessem a freguesia da Relva, depois passem pela Covoada, pelo Pico do Carvão e pelo Muro das Nove Janelas e comecem o trilho mesmo em frente à Lagoa do Canário.

O trilho da Serra Devassa está implantado no também denominado Maciço das Lagoas que tem o ponto mais alto no Pico das Éguas, com 847 m de altitude. É neste maciço que se encontra a maior parte das lagoas de São Miguel, como a do Canário, a do Pau Pique, a Rasa, as duas das Éguas, as duas Empadadas e o Caldeirão Grande.

Antes ou depois de percorrer o trilho que é circular e que tem pouco mais de 4,5 km, recomendamos uma visita à Lagoa do Canário que está instalada numa mata de criptomérias. Nas suas margens podemos observar, em quase toda a volta, entre outras as seguintes espécies vegetais: fetos reais, queirós, malfuradas e hortênsias.

Depois da visita à Lagoa do Canário, atravessa-se a estrada e segue-se o trilho que está sinalizado e sobe-se o Pico das Éguas que foi descrito por Gaspar Frutuoso do seguinte modo: “o pico das Éguas, que por ser alto o vão buscar as éguas no Verão para seu refresco, donde cobrou o nome delas, ou (segundo outros dizem) porque o dito pico sempre foi e ainda é agora do concelho, comum a todos, pelo que por outro nome se chama a terra devassa, em que as éguas e mais gados, corridos dos outros sarrados, tem seu couto”. No cimo do Pico avista-se as duas lagoas das Éguas, a da Vaca Branca, uma das Empadadas, o Pico do Carvão, a Serra Gorda, etc. Também é possível avistar, em dia limpo de nevoeiros, alguns troços das costas norte e sul da ilha de São Miguel.

Continuando a caminhar, chega-se à Lagoa Rasa, situada a uma altitude aproximada de 800 metros, que tem cerca de 400m de comprimento por 60 de largura e uma profundidade máxima de 6 a 7 metros. As suas águas foram captadas e alimentavam uma antiga fábrica de álcool instalada em Santa Clara.

Contornando a Lagoa Rasa chega-se a uma bifurcação. Quem virar à esquerda regressa ao Ponto de Partida, quem virar à direita, depois de uma pequena descida, chega às duas Lagoas Empadadas.

As encostas da cratera onde se instalaram as lagoas estão cobertas por criptomérias, o carreiro que as circunda está bordado de azáleas e nas margens podemos observar algumas hortências, queirós e fetos reais. Nas suas águas vivem rãs, o ruivo e o lúcio, este último peixe introduzido pelos Serviços Florestais depois de 1978.

Embora fosse possível prosseguir a caminhar em direção à Lagoa do Carvão e depois ao Caldeirão Grande, sugere-se o regresso ao ponto de partida.

Por último, recomenda-se uma visita às captações de água, onde é possível encontrar algumas espécies da flora endémica e ao Miradouro da Grota do Inferno de onde se pode observar o Pico da Cruz, com 856 metros, a elevação mais alta do Maciço das Sete Cidades, a imponente Grota do Inferno, a Lagoa Azul, o povoado e a Lagoa de Santiago.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31266, 30 de junho de 2017, p. 14)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O caminho faz-se ao andar…



O caminho faz-se ao andar…

Quando há cerca de 40 anos comecei a participar em passeios pedestres, sobretudo nos concelhos da Ribeira Grande e de Vila Franca do Campo, estava longe de imaginar que o pedestrianismo viria a ser uma prática que hoje atrai cada vez mais pessoas que têm como objetivo quase único o desfrutar do meio envolvente.
Também estava longe de imaginar que viria a interessar-me não só pelo pedestrianismo, o desporto dos que andam a pé, mas também pela frequência de ações de formação, pela organização de caminhadas, pela elaboração de roteiros e finalmente pela dinamização de ações de formação em escolas e para agentes turísticos, no âmbito dos Amigos dos Açores- Associação Ecológica.
Mas, o pedestrianismo que é a atividade de percorrer grandes distâncias a pé, na natureza, normalmente por caminhos bem definidos e sinalizados, é para alguns considerado como situado entre o desporto e o turismo. Com efeito, ao fazer deslocar pessoas para as zonas rurais, o pedestrianismo poderá promover o desenvolvimento socioeconómico através da rentabilização da oferta hoteleira, da restauração, do alojamento rural, do turismo de habitação, etc.
Quando foi aprovado, em Dezembro de 2004, pela Comissão de Acompanhamento dos Percursos Pedestres da Região Autónoma dos Açores, a primeira “Lista de Percursos Pedestres Recomendados” passaram a existir em oito ilhas dos Açores (o Corvo ficou de fora) 36 trilhos recomendados, sendo a sua extensão aproximada de 283 km. Na altura, 12 dos 36 trilhos (30%) existentes localizavam-se na ilha de São Miguel, sendo a sua extensão sensivelmente igual a 31% da dos trilhos dos Açores.
A grande aposta no pedestrianismo como atividade/oferta turística foi feita, a nível governamental, pelo Prof. Doutor Duarte Ponte, na qualidade de Secretário Regional da Economia e pela Drª Isabel Barata, Diretora Regional do Turismo. A propósito, refira-se que, a 23 de Setembro do ano 2000, o referido Secretário Regional fez a abertura simbólica do primeiro percurso pedestre sinalizado dos Açores, o da Serra Devassa, localizado no concelho de Ponta Delgada.
A nível autárquico, o concelho que mais apostou no pedestrianismo foi o da Povoação durante a presidência do professor Francisco Álvares. Infelizmente, apesar de algum trabalho efetuado, o concelho de Vila Franca do Campo poderia ter ido muito mais longe no aproveitamento das suas potencialidades.
Mas se houve algum alheamento ou mesmo uma aposta errada no percurso urbano “Ponta Garça- Vila Franca”, por parte da Câmara Municipal, os Amigos dos Açores fizeram uma aposta forte no concelho. Com efeito, ao longo dos anos e desde 1994 foram editados milhares de roteiros de percursos pedestres com destaque para o do percurso “Praia-Lagoa do Fogo”, o qual é, a par com o da Serra Devassa, já mencionado, e com o do Salto do Prego-Sanguinho, no Faial da Terra, um dos três mais visitados da ilha de São Miguel.
Os Amigos dos Açores editaram cinco roteiros de percursos pedestres implantados, no todo ou em parte, no concelho de Vila Franca do Campo, a saber:
- Praia Lagoa do Fogo, com diversas edições, com mais de 6000 exemplares publicados no total e que está esgotado;
- Três Lagoas, com pelo menos uma edição de 1500 exemplares;
- Quatro Fábricas da Luz, com pelo menos uma edição de 1500 exemplares;
- Pico da Vela, com três edições, de 1500 exemplares cada;
- Ponta Garça – Ribeira Quente, com uma edição de 1500 exemplares.
Hoje, se queremos aproveitar todos os recursos que a natureza nos deu para dinamizar o concelho de Vila Franca do Campo há que fazer uma aposta no pedestrianismo, quer acompanhando o que é feito pelo Governo Regional dos Açores, quer tomando a iniciativa de dinamizar a atividade e de recuperar trilhos e fazer uma ampla divulgação dos que já existem.
Em jeito de conclusão, sugiro que seja estudada a hipótese da sinalização do percurso do Pico da Vela e do das Três Lagoas, com as necessárias alterações, que na impossibilidade da manutenção do trilho Ponta Garça-Ribeira Quente o mesmo seja transformado num percurso circular não saindo do concelho de Vila Franca e que seja averiguada a possibilidade da abertura de um percurso circular com inicio na Praça Bento de Gois, passagem pela Senhora da Paz e pela Quebrada e regresso pelo antigo caminho do Calço com passagem pela Rua da Cruz e rua da Palmeira na Ribeira Seca e regresso ao ponto de partida.
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 2976, 18 Dezembro de 2013, p.18)

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

No dia Europeu do Pedestrianismo: os primeiros passos, nos Açores




No dia europeu do pedestrianismo, que hoje se comemora, importa, em primeiro lugar, tentar explicar o seu conceito e dar a conhecer os seus primeiros passos nos Açores.

De acordo com a Portaria n.º 1465/2004, de 17 de Dezembro, pedestrianismo é a “atividade de percorrer distâncias a pé, na natureza, em que intervêm aspetos turísticos, culturais e ambientais, desenvolvendo-se normalmente por caminhos bem definidos, sinalizados com marcas e códigos internacionalmente aceites.”

É antiga e perde-se nos tempos, a prática de participar em passeios a pé. Contudo, se quisermos falar em passeios a pé como prática organizada, sobretudo pelas famílias, recuaríamos ao século XVIII e como local apontaríamos a Inglaterra.

No século XIX, a prática de andar a pé em passeios organizados estende-se e passa a ser muito apreciada em França, na Alemanha, na Áustria, na Polónia e nos países escandinavos.

No pós-guerra, final da década de 40, princípio da década de 50 do século XX, em França, começa a implantação de percursos e, em Portugal, só na década de 80 do século passado é que começaram a ser sinalizados os primeiros percursos.

Não recuámos muito no tempo, fomos consultar algumas publicações da primeira metade do século XX e deparámo-nos com notícias relativas a algumas “excursões”. A título de exemplo, mencionamos uma excursão às Sete Cidades, onde parte do trajeto foi feita de “jerico, o mais clássico e tradicional meio de transporte destas paragens” (“Os Açores”, nº 1, Jan de 1928) e um passeio à Caldeira, no Faial, em Julho de 1928, feito a pé e de burro (“Os Açores”, nº9, Set 1928).

Nos primeiros anos da década de 70 do século passado, o Sr. Dr. George Hayes, descendente do comerciante inglês George Hayes (1816-1879) que se estabeleceu em São Miguel no século XIX, começou a organizar passeios pedestres, nalguns dos quais tivemos oportunidade de participar, que contavam com a adesão jovens seus explicandos e amigos.

No início da década de 80, por iniciativa do Sr. Albano Cymbron, começam a ser organizados, em São Miguel, os primeiros passeios pedestres para turistas e, na ilha Terceira, os Montanheiros - Sociedade de Exploração Espeleológica começam a promover os primeiros passeios pedestres. Em 1985, no dia 4 de Maio, os Amigos dos Açores organizam o seu primeiro passeio pedestre que constou de uma subida à Lagoa do Fogo, a partir da Praia de Água d’Alto.

Em 1990, foi editado o livro “Landscapes of the Azores - S.Miguel”. Nele, o seu autor, Andreas Stieglitz, descreve 8 passeios pedestres.

Um ano mais tarde, em 1991, David Sayers e Albano Cymbron editam o livro “The Azores - Garden Islands of the Atlantic - A Guide Walks & Car Tours”, onde, para além de sugerirem diversos percursos de carro, apresentam 32 passeios a pé: 12, em São Miguel, 1 na Terceira, 3 na Graciosa, 8 em São Jorge, 3 no Faial e 5 no Pico.

Em 1992, o Circulo de Leitores, edita o livro “Roteiros da Natureza - Região Autónoma dos Açores”, de António Pena e José Cabral. Nele, os seus autores apresentam 15 circuitos de carro e propõem alguns troços a pé, com destaque para a subida da Montanha do Pico.

Em 1993, os Amigos dos Açores - Associação Ecológica editam o seu primeiro roteiro de um percurso pedestre, o da Ribeirinha, no concelho da Ribeira Grande.

Dois anos depois, em 1995, a Câmara Municipal das Lajes das Flores edita o livro “Roteiro dos Antigos Caminhos do Concelho das Lajes das Flores, Açores”, onde o seu autor, Pierluigi Bragaglia, descreve 26 itinerários, alguns dos quais de muito pequena extensão.

Em Julho do ano 2000, os Amigos dos Açores, no âmbito de um protocolo celebrado com a Secretaria Regional da Economia, promovem a ação de formação “Pedestrianismo e Percursos Pedestres” que contou com a participação de 25 formandos. A 23 de Setembro do mesmo ano, realizou-se a abertura simbólica do primeiro percurso pedestre sinalizado dos Açores, o da Serra Devassa, que contou com a presença do senhor Secretário Regional da Economia, Prof. Doutor Duarte Ponte.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 12 de Setembro de 2012)