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sábado, 18 de agosto de 2012

Ainda a Escola do passado: ordenados e crucifixos




Continuando a minha consulta aos documentos que pertenceram à professora do primeiro ciclo do ensino básico, Maria Ana Carreiro, encontrei dois cadernos onde ela registava as suas despesas e receitas: um relativo ao ano letivo de 1944-1945 e outro respeitante ao ano de 1946-1947.
Através de uma análise aos dois cadernos, verifica-se que, no primeiro ano letivo referido, o ordenado era de 766$30 e no segundo 869$30, no mês de outubro, tendo sido aumentado para 1008$50, no mês de Novembro de 1946. Tendo o cuidado de, com pormenor, analisar as despesas e as receitas, facilmente se chegará à conclusão que naquela época os professores não tinham uma vida desafogada. Com efeito, se a professora Maria Ana Carreiro não desse explicações, ela chamava lições, nomeadamente ao 1º, 2º e 3º anos e de admissão ao liceu, o seu ordenado mal daria para cobrir as suas despesas em alguns meses e noutros ficaria muito aquém daquelas.
Hoje, se continuarem os cortes salariais, incluo o não pagamento do subsídio de férias e do de Natal, a situação de muitos professores, que já não é boa, irá degradar-se tanto que muitos terão de recorrer a outras fontes de receitas, para equilibrar os seus frágeis orçamentos familiares.
O segundo aspeto que queria divulgar, hoje, está relacionado com a presença ou não de crucifixos nas escolas.
Antes de prosseguir, queria registar o facto de, para mim, ser indiferente a sua presença ou não. Considero que as crenças ou a fé, para além de não se encontrarem em qualquer parede, não se medem pelo número de crucifixos nas paredes de qualquer edifício. Contudo, também acho que sendo a escola pública laica e sendo o estado português laico não faz qualquer sentido a presença de cruxifixos e outras imagens religiosas nas escolas públicas, por isso aceito perfeitamente a afirmação do sociólogo Moisés Espírito Santo quando considera “sinal de civismo e maturidade” a sua não presença em escolas não cristãs.
Na década de quarenta do século passado, as circunstâncias eram outras e a polémica acerca dos crucifixos não se colocava. Pelo contrário, terá sido uma conquista para a professora Maria Ana Carreiro ter conseguido adquirir um para a escola do isolado local das Gramas, na Ribeirinha, o que só foi possível com a colaboração do “bom povo” da localidade.
No seu discurso proferido perante algumas autoridades, colegas e alunos, a professora Maria Ana Carreiro, depois de manifestar o seu embaraço por usar da palavra, justificou por que o fazia, dizendo que era grande a alegria por ver na sua escola alçada a Cruz de Cristo.
Para ela, “sendo a criança a mais carinhosa promessa da humanidade e a sua mais ridente esperança” era necessário envidar “todos os esforços na sua preparação para a vida” e acrescentou:
“Mas, nós, os professores primários, prepará-la-emos convenientemente, não só instruindo-a, porque a instrução só por si não basta. É até capaz de produzir monstros. É necessário aliar à instrução a educação, mas a educação cristã e tradicional do nosso querido Portugal.”
Depois de se referir a vários episódios da história de Portugal, sempre “à sombra da Cruz”, como a batalha de Ourique, os descobrimentos que tiveram um “duplo fim:- propagar a fé e dilatar o império”, a oradora ter-se-á referido à primeira república nos seguintes termos: “no entanto, durante algum tempo uma rajada de indiferentismo obscureceu o céu límpido da nossa Pátria e arrancou a tradição gloriosa de tantos séculos de existência cristã” e lembrou o que se estava a passar na Rússia e em Espanha.
Quase a terminar o seu discurso, como era costume na altura, a professora Maria Ana Carreiro falou na obra de António de Oliveira Salazar que foi Presidente do Conselho de Ministros, entre 1932 e 1968, nos seguintes termos:
“Foi por isso que o governo português sob a direção do grande estadista Dr. Oliveira Salazar, que muito se preocupa (com a preparação da juventude) com a educação das crianças, futuros homens, determinou que se colocasse a imagem de Jesus Cristo na escola, para lhes servir de modelo pela vida adiante, daquele Jesus que foi o maior pedagogo e só praticou o bem”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 15 de Agosto de 2012)


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A Escola do Passado - Lembrando a profª Maria Ana Carreiro




Depois de uma recente visita à Oficina Museu de Manuel João Melo, localizada nas Capelas, e de ter visto a reconstituição de uma sala de aula que se assemelhava à que encontrei quando, em 1964, comecei a frequentar a então denominada escola primária, na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, lembrei-me de remexer em “papéis velhos”.
Entre os vários documentos que tenho em minha posse sobre a escola/ensino do passado, deparei-me com alguns pertencentes às professoras Maria Emília Pereira e Maria Ana Bento Carreiro.
Dadas as limitações de espaço, hoje, apenas farei referência a parte do espólio da professora Maria Ana Carreiro que era natural de Vila Franca do Campo, tendo estudado no Instituto de Vila Franca, mais tarde Externato de Vila Franca, onde fui aluno no final da década de sessenta e início da de setenta do século passado.
Terei conhecido a professora Maria Ana Carreiro nos primeiros anos da década de 60 e lembro-me de a ter visitado, julgo que pela primeira vez, em sua casa, na rua dos Manaias, aquando da realização do meu exame do 2º ano do ciclo preparatório, na Escola da Arquinha.
Aquando do seu falecimento, fiquei com alguns móveis da sua casa e alguns livros, cadernos e outros materiais ligados à sua vida como docente.
Através de um horário que consultei, no início da década de trinta do século passado, no Magistério Primário a carga horária semanal era de vinte e oito horas, distribuídas por seis dias (segunda-feira a sábado), começando as aulas às nove horas e terminando pelas quinze horas, com um intervalo para almoço das doze horas às treze horas, exceto às segundas-feiras que começavam às dez horas e às sextas-feiras que terminavam às catorze horas.
No que respeita à distribuição da carga horária pelas diversas disciplinas, verifica-se que as duas disciplinas com maior carga horária eram a Pedagogia e os Trabalhos Manuais, com quatro horas semanais. As disciplinas de Costura, Higiene, Psicologia, Didática, Música e desenho tinham uma carga horária de três horas semanais e a Educação Física, apenas duas.
A leitura de uma palestra intitulada “Instrução e Educação”, feita pela professora Maria Ana Carreiro, a 19 de Maio de 1932, na Escola do Magistério Primário de Ponta Delgada, elucida-nos acerca do que se entendia na época por educação e instrução e sobre o papel do professor na escola e na sociedade.
Segundo a autora “devido à instrução, o progresso é ilimitado e a Humanidade tende continuamente à perfeição”, mas a instrução não é tudo se não for acompanhada pela educação, pelo que o professor deverá ter as duas funções, a de instrutor e a de educador.
Para a professora Maria Ana Carreiro, para educar com eficácia o professor não pode ficar apenas pelas palavras, é necessário que ele seja “um modelo perfeito onde a cada hora e a todos os momentos, o aluno copie fielmente os atos que lhe servirão de norma na sua conduta social”.
Para uma educação das crianças, a professora Maria Ana Carreiro considera fundamental a preparação das mães pelo que devem ser instruídas e educadas convenientemente e a dado passo afirma: “tornemos a mulher perfeita, não a desviando das funções de esposa e mãe, transformando-a no anjo do lar para que saiba prender e unir ao seu coração todos os entes que lhe são caros, porque a família é o ninho onde se esboçam os caracteres dos homens do porvir”.
Depois de ter referido a necessidade de serem criadas escolas infantis e de ter elogiado o que se passava em vários países, sugeriu que Portugal imitasse a Bélgica, onde em 1927 existiam 3734 escolas infantis que eram frequentadas por 245 186 alunos, de três a seis anos de idade.
Por fim, deixo aqui o ponto da situação do ensino, feito pela professora Maria Ana Carreiro, na altura, que embora não se compare com a atual poderá ter algum interesse pois muitas vezes é necessário recorrer a ideias antigas para responder às necessidades do presente: “Faltam-nos escolas, uma boa organização escolar, uma regular administração do ensino e uma assistência escolar bem desenvolvida, pois a que há, salvo exceções honrosas, não passa de papel; é por isso que se não pode tornar real a obrigatoriedade e gratuitidade do ensino em Portugal”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 1 de Agosto de 2012)