sexta-feira, 18 de agosto de 2017

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Percurso Pedestre Calhetas - Poços



Percurso Pedestre Calhetas - Poços


O trilho que propomos hoje tem uma extensão aproximada de 6,5 km e pode ser realizado em aproximadamente duas horas, estando classificado como fácil. O início deste percurso, que é praticamente plano, tanto pode ser feito nas Calhetas como na zona balnear dos Poços, em São Vicente.

Este trilho é um dos mais antigos que os turistas percorrem, sendo um dos mencionados para São Miguel no livro “The Azores – Garden Islands of the Atlantic”, da autoria de David Sayers e Albano Cymbron, publicado em 1991.

Propomos o começo do percurso junto à igreja da localidade, na freguesia das Calhetas, a mais pequena e a menos populosa do concelho da Ribeira Grande.

A primitiva igreja remonta a meados do século XVI, tendo sofrido várias alterações até que em 1830 foi decidido o seu aumento e passou a adquirir “a feição arquitetónica que hoje apresenta”.

Depois de uma breve caminhada, que se inicia na Rua da Boa Vista e prossegue num estreito carreiro sobre a arriba, chega-se ao local do Buraco de São Pedro. Neste ponto podemos observar a linha da costa que vai desde a Ponta da Agulha até à Ponta do Cintrão. Na paisagem, a Sul, sobressaem os cones de escórias do Complexo Vulcânico dos Picos.

Ao longo do percurso é possível observarmos, entre outras, as seguintes aves: o pombo da rocha, o pardal, o canário da terra, a gaivota, o garajau comum, o milhafre, o estorninho e, em alguns meses do ano, o garajau- comum.

Em relação à vegetação existente em redor do Buraco de São Pedro, destacamos a diabelha, fava da cova, o bracel e o feto falcão.

Continuando o percurso, e depois de percorrida a Rua de São Pedro, entra-se na Rua Infante D. Henrique, onde se situa um ponto de paragem sobranceiro ao mar. Daqui podemos apreciar uma bonita paisagem do litoral, onde se pode avistar a zona balnear dos Fenais da Luz e, à esquerda, a Igreja da localidade, o Morro das Capelas e a Ponta da Agulha.

Seguindo sempre próximo do litoral, depois de passarmos o casario dos Fenais da Luz vamos encontrar uma zona onde é possível observar relheiras, que são sulcos escavados pelas rodas dos carros de bois na rocha vulcânica, que existem em várias ilhas e que testemunham do trabalho árduo dos nossos antepassados e do esforço, muitas vezes não compensado ou reconhecido, dos animais de tiro que foram grandes auxiliares do homem até ao aparecimento dos veículos motorizados.

O percurso pedestre termina, na freguesia de São Vicente Ferreira, no lugar designado por Poços, depois de ter percorrido todo o litoral da freguesia dos Fenais da Luz. Ao longo do percurso entre aquelas duas localidades, é possível encontrar, entre outras, as seguintes espécies da flora dos Açores: diabelha, vidália, tintureira, usai-dela, murta e feto marítimo.

Os Poços são hoje uma das principais zonas balneares da costa norte de São Miguel e outrora foram sede da única fábrica de transformação de cetáceos da ilha de São Miguel, construída em 1934. A fábrica, que se encontra, hoje, em ruínas, deixou de laborar em 1972, data em que cessou a baleação no Grupo Oriental do Arquipélago dos Açores.

Hoje, como forma de relembrar a atividade que teve grande importância para a localidade e homenagear os baleeiros, realiza-se, desde 1991, a Semana Baleeira que anualmente apresenta um programa composto por várias atividades culturais, recreativas e desportivas.

É de assinalar, nos Poços, a existência de um moinho de vento, construído nos finais do século XIX que pertenceu ao Engª. Santos Simões, que o adquiriu aquando da sua permanência em São Miguel, onde escreveu o seu monumental livro Azulejaria nos Açores e na Madeira, editado pela Fundação Calouste Gulbenkian, em 1963.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31307, 18 de agosto de 2017, p.13)

Carnaval

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A Energia Nuclear no Estado Novo


A Energia Nuclear no Estado Novo


Ao longo dos tempos, no nosso país, tem surgido a ideia da utilização da energia nuclear para a produção de eletricidade. Neste texto, darei a conhecer o que se pensava fazer no Estado Novo e algumas notícias e textos sobre o assunto publicados na ilha de São Miguel.
Num texto publicado na revista “Brotéria”, em 1954, Abílio Martins, escreveu que, dado o “progresso técnico” alcançado, acreditava que “a construção e exploração industrial duma central atómica, destinada a valorizar os nossos minérios uraníferos e dar um largo apoio efectivo ao plano em marcha da nossa eletrificação, haja de se afirmar oportunamente como uma realidade triunfal”.

O autor referido, no seu texto, abordou a questão dos custos de produção das centrais atómicas que era mais elevado do que as centrais térmicas, mas mostrou-se otimista em relação ao assunto, como se depreende da leitura do seguinte extrato: “Ademais, a técnica da captação da energia nuclear encontra-se em decidida evolução, e tudo leva a crer que, dentro em breve, escolhendo bem o dimensionamento duma central “atómica”, possamos obter energia eléctrica a preços sensivelmente inferiores…”

Sobre o nuclear, o presidente do Conselho de Ministros, ao dar posse à Junta de Energia Nuclear, criada pelo Decreto-Lei nº 39580, de 29 de Março de 1954 e que tinha, entre outras atribuições, a de produzir e aproveitar combustíveis nucleares e produzir energia elétrica por via nuclear, disse: “…pode bem ser que a Providência, tendo-se mostrado avara connosco quanto a fontes conhecidas de energia – o carvão, os óleos minerais, mesmo a força hídrica – nos tenha compensado de alguma forma com um pouco de urânio e de outros minérios afins, mananciais a explorar no futuro”.

A 12 de fevereiro de 1958, o Dr. António Augusto Riley da Mota publicou no Correio dos Açores um longo texto intitulado “Milhões de graus…” onde abordou as duas formas de energia nuclear, a fissão, usada hoje nas centrais nucleares e que é fortemente contestada devido ao problema das radiações e dos resíduos nucleares, e a fusão que não tem os inconvenientes da fissão, sendo, portanto, uma forma de energia limpa.

No seu texto, o Dr. A. A. Riley da Mota, depois de referir que o cientista inglês Cockroft havia comunicado que “ele e os seus colaboradores estavam a ultimar uma grande descoberta”, escreveu o seguinte: “Tratar-se-ia da obtenção acessível de altíssimas temperaturas – da ordem de milhões de graus! – que permitiriam, dentro de poucos anos, fácil libertação de energia termonuclear a partir de elementos baratos, como o hidrogénio e semelhantes, especialmente o deutério, que abunda na água.”

A 10 de abril de 1958, o jornal “Correio dos Açores” publicou uma nota da ANI onde a dado passo se afirma que “dentro de dez anos a principal fonte de energia, para Portugal será atómica”. Na mesma notícia pode-se ler que estava a ser acelerada “a exploração dos jazigos de urânio no Norte do País” e em Angola e Moçambique estava “a ser executado um programa para a exploração de jazigos de urânio”. Por último, ainda se pode ler que “antes de dois anos, Portugal tenciona possuir a sua primeira estação geradora atómica”.

No dia 24 de dezembro de 1971, o Correio dos Açores publicou uma pequena nota onde se podia ler que sem centrais “electro-nucleares” não havia futuro e se previa que no ano dois mil 50% da energia elétrica seria produzida a partir de centrais nucleares.

A 3 de janeiro de 1974, o presidente da Junta de Energia Nuclear, general Kaúlza de Arriaga, considerou que aquele organismo era o “expoente maior da intelectualidade portuguesa e do conhecimento científico e da capacidade técnica nacionais” e acrescentou o seguinte: “Reactores térmicos de urânio natural ou ligeiramente enriquecido, reactores térmicos de urânio altamente enriquecido, reactores rápidos e fusão nuclear controlada constituirão, certamente, os marcos principais do caminho que salvará a Humanidade de uma penúria de energia que a conduziria a um retrocesso de séculos”.

Apesar das várias tentativas, não há centrais nucleares em Portugal e apesar da previsão otimista em relação à expansão da energia nuclear no mundo, em 2016, a energia nuclear era responsável por apenas 11% da energia elétrica produzida. A fusão nuclear, por seu turno, ainda não é uma realidade que se possa juntar às fontes renováveis de energia que estão em expansão no nosso planeta.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31306, 17 de agosto de 2017, p.13)

Charlot

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Os filhos da droga

Picasso

Mortes e feridos nas Praças de Touros


Mortes e feridos nas Praças de Touros

No passado dia 17 de junho, com trinta e seis anos morreu, no sudoeste de França. o toureiro basco Iván Fandiño que matava touros, para divertimento de seres pouco humanos, desde os 14 anos de idade. O toureiro foi atingido pelo corno de um touro quando já estava no chão durante uma tourada em Aire-sur-l'Adour.

De acordo com a agência de notícias EFE, no século XX, morreram 138 profissionais da tauromaquia devido a sofrimentos sofridos nas arenas.

A morte de toureiros não impressiona muito os adeptos da tauromaquia, pois para estes não há bela sem senão, isto é, não há beleza na tauromaquia se aqueles não colocarem em risco as suas vidas.

Os opositores das touradas não reagem de forma uniforme. Com efeito, se há alguns que se regozijam com as mortes, há outros que lamentam o facto e usam-no como um dos argumentos para combater as touradas.

Em relação ao número de mortes, Fernando Alvarez, doutor em biologia pela Universidade de Tulane (E.U.A.), autor do livro “La Verdade Sobre los Toros” não nega que não haja risco, mas considera-o muito baixo, pois os toureiros estão muito bem informados acerca dos handicaps físicos do touro, em termos de visão, que “não vê ou só vê um vulto entre meio metro e um metro de distância e que ataca sobretudo o que está mais perto e em movimento”.

O mesmo autor refere que os toureiros não têm qualquer razão para se vangloriarem dos seus pretensos feitos já que, segundo as estatísticas, muito maior risco correm as pessoas que trabalham nas minas, nos transportes e na construção civil”.

Não me incluo nos que ficam contentes quando alguém fica ferido ou morre numa tourada porque o que desejo é que não haja derramamento de sangue, nem abuso de animais, nem mortes nas praças ou nos matadouros, “às escondidas”, depois das touradas.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31305, 15 de agosto de 2017, p.8)

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

sábado, 12 de agosto de 2017

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Parabéns à Forja

Alice Moderno


11 de agosto de 2017 – Alice Moderno Presente

“Caridade não é apenas a que se exerce de homem para homem: é a que abrange todos os seres da Criação, visto que a sua qualidade de inferiores não lhes tira o direito aos mesmos sentimentos de piedade e de justiça que prodigalizamos aos nossos semelhantes” (Alice Moderno)
Açoriana pelo coração, Alice Moderno nasceu em Paris, a 11 de agosto de 1867, e viveu primeiro na Terceira e depois em São Miguel, onde faleceu a 20 de fevereiro de 1946.
Para além da sua atividade de jornalista, escritora, agricultora e comerciante, Alice Moderno foi uma mulher que pugnou pelos seus ideais republicanos e feministas, sendo uma defensora da natureza e amiga dos animais.
Cento e cinquenta anos depois do seu nascimento não esquecemos a sua luta que ainda hoje faz todo o sentido e não foi em vão, pois a sua obra ainda hoje é reconhecida e o seu labor serve de inspiração a quem hoje continua a trabalhar para uns Açores melhores para todos.
Não esquecemos a sua desilusão face às promessas não cumpridas pelos republicanos na Primeira República, não esquecemos que não se iludiu com a ditadura do Estado Novo e não podemos ignorar a hipocrisia dos políticos surgidos após o 25 de abril de 1974 que lhe concederam, em 2014, a título póstumo, a insígnia autonómica de mérito cívico mas que não respeitaram o definido no seu testamento. Com efeito, no dia 31 de janeiro de 1946, vinte dias antes de falecer Alice Moderno, em testamento, deixou alguns bens, à Junta Geral Autónoma do Distrito de Ponta Delgada, com a condição desta, no prazo de dois anos, criar um hospital para animais.
O Estado Novo embora não tenha cumprido na íntegra as aspirações de Alice Moderno, construiu as instalações e garantiu, nos primeiros tempos, sob a administração da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais e com a colaboração da Junta Geral, a enfermagem permanente aos pequenos animais e a consulta diária a animais de todas as espécies, através do veterinário municipal de Ponta Delgada.
A “democracia” acabou com tudo. Ainda dizem que o Estado é pessoa de bem!
Pico da Pedra, 11 de agosto de 2017
Teófilo Braga

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Percurso Pedestre da Praia da Viola


Percurso Pedestre da Praia da Viola

Este trilho foi percorrido pelos Amigos dos Açores durante muitos anos, sendo muitas vezes uma alternativa quando as condições meteorológicas impediam a realização dos passeios mensais em locais de maior altitude.

Trata-se de um trilho linear com cerca de 5 km de distância, entre a Igreja da Nossa Senhora do Rosário, na freguesia da Lomba da Maia e o Porto Novo, na freguesia da Maia. Embora o percurso possa ser feito em sentido contrário, ou ser feito na totalidade, isto começar e terminar no ponto de partida, para quem está a começar recomenda-se que se inicie na Lomba da Maia.

A construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, que ter-se-á iniciado em 1868, só foi possível graças às esmolas colhidas junto de todos os habitantes da localidade. Destes, é justo destacar o contributo do Padre Manuel Moniz de Medeiros e do mestre José Fidalgo que tiveram que hipotecar parte dos seus bens para poder satisfazer algumas despesas relativas a mão-de-obra e materiais.

Junto à igreja localiza-se o "Largo Dr. Manuel Sá Couto", em homenagem ao professor de filosofia, licenciado pela Universidade do Porto, que se distinguiu através da sua participação social e política, a nível da sua freguesia e sobretudo concelhio.

Depois da decida de uma das ruas da freguesia chega-se a um conjunto de ruinas de antigos moinhos de água, recomendando-se, aqui, um pequeno desvio para a observação da queda de água da Ribeira do Salto. Neste local, podem ser apreciadas algumas espécies características da vegetação costeira, como a erva-leiteira, a figueira-brava, a faia, a urze, o queiró, a cenoura brava e o bermim.

Continuando o percurso chega-se à Praia da Viola, local convidativo para uma pausa e um refrescante mergulho no mar.

Na Praia da Viola também se observam ruínas de moinhos de água e é possível a observação de algumas plantas espontâneas, como a diabelha, o cubre, a figueira-brava e as chagas, e cultivadas, como a espadana, planta oriunda da Nova Zelândia, da ilha de Norfolk e da Austrália, que terá sido introduzida, em 1789, em Portugal, pelo Abade José Correia da Serra, e o inhame, planta que se adapta bem a terrenos alagados, como são os desta zona.

No troço final, que é um arranjo mais recente da responsabilidade da Junta de Freguesia da Maia, que teve o cuidado e o bom gosto de introduzir algumas plantas endémicas dos Açores, continua-se a observar as plantas características do litoral já referidas anteriormente e algumas ornamentais, com destaque para os malmequeres.

Nesta parte do percurso, passa-se pelo local, devidamente assinalado, onde as mulheres da freguesia lavavam roupa. A seguir, pelo menos quando fizemos o percurso pela última vez encontra-se uma exposição fotográfica ao ar livre com aspetos da vida antiga da freguesia que é uma homenagem à mulher trabalhadora.

O percurso termina junta da Igreja do Espírito Santo que, já existia em 1522 e que, devido ao aumento populacional da freguesia, foi sendo ampliada, tendo a sua grande reconstrução ocorrido nos finais do século XVIII.
Ao longo do percurso é possível observar algumas espécies da avifauna dos Açores, como o canário, o milhafre, a alvéola, também conhecida como lavandeira ou arvelinha e o pombo da rocha, subespécie endémica dos Açores que está presente em todas as ilhas, nidificando sobretudo em arribas e ilhéus costeiros.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31302, 11 de agosto de 2017, p.17)

Nagasaki e as armas nucleares


Nagasaki e as armas nucleares

A 6 de agosto de 2014, publiquei no Correio dos Açores um texto intitulado “A propósito da bomba de Hiroxima”. Hoje, 9 de agosto de 2017, a propósito do aniversário do lançamento de uma bomba nuclear sobre a cidade japonesa de Nagasaki vou, uma vez mais, abordar a questão das armas nucleares.
As estimativas do número total de mortos em Nagasaki variam muito, havendo estudos que apontam que, até ao final de 1945, terão morrido entre 39 mil e 80 mil pessoas. O apelo da Conferência Mundial Contra as Bombas Atómicas e de Hidrogénio, realizada no dia 9 de agosto de 1981, em Nagasaki, para além da referência às “dezenas de milhar” de pessoas carbonizadas e mortas numa pequena fração de segundo, afirma que a bomba “deixou ainda atrás de si, um profundo, inapagável terror que continua a afligir o corpo, a mente e o quotidiano dos Hibakusha sobreviventes a este dia” e acrescenta que “este pavor, porém, não é nada, se comparado com a realidade de uma possível guerra nuclear nos nossos dias, no precipício à beira do qual nos encontramos”.
No referido documento são feitas, entre outras, as seguintes três exigências:
- “A imediata suspensão de todo o uso, ensaio, fabrico, armazenamento, desenvolvimento e proliferação de armas nucleares;
- Que a terra utilizada para propósitos de guerra nuclear, seja devolvida aos seus legítimos donos, respeitando a autodeterminação e a independência nacional;
- Que a Segunda Sessão Especial da Assembleia Geral das Nações Unidas dedicada ao desarmamento, reúna as nossas aspirações para a realização de uma paz duradoura, apressando a abolição quer de armas nucleares, quer das armas convencionais, através de um efetivo e extenso programa de desarmamento”.
Hoje, passados 36 anos, não temos dúvidas de que o apelo caiu em saco roto, pois a corrida aos armamentos nucleares continua e os países que possuem armas nucleares não abdicam de as possuir nem chegam a acordo para a sua destruição simultânea.
Pouco mais de 70 anos depois dos crimes de Hiroxima e Nagasaki, e após muitos tratados e acordos nunca cumpridos, no passado dia 7 de julho foi aprovado na ONU o “primeiro tratado que proíbe armas nucleares”, o qual segundo o jornalista e geógrafo Manlio Dinucci “constitui um marco na tomada de consciência de que uma guerra nuclear teria consequências catastróficas para toda a humanidade”.

Atendendo ao que tem acontecido anteriormente, este tratado para pouco servirá, pois na votação, embora 122 países tenham votado a favor (a Holanda votou contra e Singapura absteve-se), nenhum dos países possuidores de armas nucleares participou nas negociações e o mesmo só se aplica aos Estados que o subscreverem.

De acordo com informação da Lusa/Açoriano Oriental, “até o Japão, único país alvo de um ataque atómico, em 1945, boicotou as negociações, assim como a maioria dos países da NATO, incluindo Portugal”. A posição de Portugal é perfeitamente compreensível, atendendo a que de país colonizador passou a colónia de interesses estrangeiros, quer europeus quer norte-americanos.

No que diz respeito à defesa da paz e à luta contra a guerra, os movimentos pacifistas, em todo o mundo, quase desapareceram ou estão em hibernação profunda.

Em Portugal existiu (ainda existe?), na década de 80 do século passado, o movimento “Não às armas nucleares em Portugal” que lutava por “manter o nosso país livre de armas nucleares” e estava convencido de que “se os povos de todas as Nações se mobilizarem no sentido de forçar os respetivos governos a não instalarem, ou destruírem as já instaladas, armas nucleares, o perigo do holocausto nuclear será definitivamente varrido da face da Terra”.

Em abril de 1982, surgiu em Lisboa o Comité “Juventude pela Paz” que defendia, entre outras, o “desmantelamento de todas as armas nucleares” e “a proibição da produção e comércio de armas químicas, radiológicas, bacteriológicas e convencionais”.
Por último, no Verão de 1982, a revista de cultura e pensamento anarquista “A Ideia” divulgou um “Programa para a desmilitarização da República” onde era sintetizada uma política com três eixos: desarmamento, desmilitarização e neutralismo. No documento referido defendia-se entre outras medidas a “proclamação de um neutralismo activo, com a denúncia do recurso à força, dos pactos militares e da corrida aos armamentos. Abandono da NATO. Não alinhamento consequente. Apoio a todos os esforços para o desarmamento do globo terrestre e a solução pacífica dos diferendos. Condenação de todos os sistemas de opressão e violência”.
Como todas as tentativas anteriores não tiveram o sucesso que mereciam, não estará na hora de reativar um forte movimento pela paz no mundo?

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31300, 9 de agosto de 2017, p.13)

Osvaldo Pacheco e os animais


Osvaldo Pacheco e os animais

Em Outubro de 1980, por razões profissionais, fui viver para ilha Terceira onde permaneci três anos letivos. Foi em Angra do Heroísmo que dei os primeiros passos na minha já longa caminhada em defesa do ambiente e da vida, tendo conhecido várias pessoas que também se interessavam pelo assunto, sendo uma delas chamada Osvaldo Pacheco.

Não me lembro quem indicou o seu nome como pessoa preocupada com as questões ambientais e com a defesa dos animais, mas sempre me interroguei como era que uma pessoa que trabalhava numa ourivesaria se interessava tanto pela biologia, possuindo uma biblioteca invejável sobre aquela ciência e sobre a história natural.

Osvaldo Pacheco lia muito, como por exemplo, tudo o que encontrava sobre a vida e a obra de Charles Darwin (1809-1882), as obras do biólogo francês Jean Rostand (1894-1977) e, entre outros, o famoso livro do americano James Watson, “A Dupla Hélice”.

Além destes, Osvaldo Pacheco, que tem pequenos textos, dedicados “à defesa dos Direitos dos Animais”, publicados em diversos jornais dos Açores, também, leu o filósofo australiano Peter Singer que, segundo ele, é autor de “uma obra que é considerada a “Bíblia” da defesa dos Direitos do Animal”.

Osvaldo Pacheco também deu o seu contributo a associações de que destaco os Amigos dos Açores, tendo sido seu associado e colaborado no boletim “Vidália”, nº 3, de maio/agosto de 1990, com um texto intitulado “História Natural, nos Açores, Hoje”, onde referiu o nome dos principais naturalistas dos Açores e a dado passo escreveu que Konrad Lorenz defendeu “que uma das maneiras dos jovens não caírem no vazio, em face da vida, é dedicarem-se ao estudo da Natureza”

Sobre a sua preocupação com os animais, Osvaldo Pacheco, numa pequena brochura que redigiu em Coimbra, em 1996, para onde foi estudar Filosofia, intitulada “A Minha Prosa”, dedicada a Alice Moderno, escreveu: “Pessoalmente sempre me preocupei com os animais. Estou inteiramente de acordo com Konrad Lorenz, quando escreveu que não há bons biólogos sem a capacidade de se emocionarem com os seres vivos”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31299, 8 de agosto de 2017, p. 13)

Percurso Praia-Lagoa do Fogo

Percurso Pedestre Praia de Água d’ Alto - Lagoa do Fogo
O percurso pedestre que hoje propomos é o mais visitado do concelho de Vila Franca do Campo e um dos mais procurados pelos turistas que visitam a ilha de São Miguel.

O primeiro roteiro do referido percurso foi editado pela primeira vez, pelos Amigos dos Açores, em 1987, com texto de Teófilo Braga e de Francisco Botelho e versão em inglês de Geoge Hayes. Depois da primeira edição, dada a elevada procura do mesmo, muitas outras se seguiram, a última das quais se não estamos enganados, em 2003.

O percurso pedestre sugerido pelos Amigos dos Açores, com uma extensão aproximada de 12,6 km, era diferente do que está homologado, segundo cremos pelo facto de uma parte do mesmo se realizar em caminho privado.

Com uma extensão aproximada de 11 km, o trilho que hoje descrevemos, com base no texto dos Amigos dos Açores, é de dificuldade média e tem um tempo médio de duração de 4 horas, dependendo sempre da condição física de quem o percorre.

Nos inúmeros passeios que os Amigos dos Açores promoviam, o ponto de partida e de chegada situava-se sempre na Praia de Água d’Alto. Hoje é costume começar o trilho um pouco mais a norte, no local onde o caminho bifurca e que está devidamente assinalado.

Na subida, à direita, encontram-se as ruinas de uma antiga fábrica de desfibração de espadana. A espadana ou linho da Nova Zelândia ou tabua é uma planta oriunda da Nova Zelândia que foi introduzida, segundo o Dr. Francisco Carreiro da Costa, na ilha de São Miguel, em 1828, por Francisco Lopes Amorim.

A exploração industrial ter-se-á iniciado depois de 1880, ano em que José Bensaúde e José Jácome Correia adquiriram uma máquina para a sua desfibração e a instalaram em Ponta Delgada, tendo-se expandido muito de modo que, segundo o autor referido, em 1930, laboravam “sete fábricas de desfibração de espadana cujo produto final durante a última grande guerra e mesmo depois atingiria cifras elevadas”.

Continuando o percurso chega-se à levada que serve para transportar a água da ribeira até à Central Nova, aproveitamento hidroelétrico que entrou em funcionamento em 1927 e que ainda se encontra em serviço.

Se no início do percurso o eucalipto era a espécie vegetal mais abundante, ao longo da levada podem ser observadas, entre outras, algumas espécies da flora nativa dos Açores, como o folhado, a uva da serra, o louro e o azevinho.

Continuando o percurso que conduz à margem da Lagoa do Fogo, chega-se a uma muito pequena barragem, onde começa a levada. Neste local e até chegarmos à lagoa, a vegetação é bastante baixa, com predomínio para a urze e para o queiró. Na água que é detida pela barragem ou nas suas margens podemos ver, entre outras, as seguintes espécies: rabaça , cavalinha e junco. Aqui, também, é possível a observação de algumas aves, como o tentilhão, o milhafre e a alvéola.

A primeira parte do percurso termina nas margens da lagoa do Fogo, uma das mais belas lagoas açorianas. De acordo com a descrição constante no livro “Lagoas e lagoeiros da Ilha de São Miguel”, editado pelos Amigos dos Açores, a Lagoa do Fogo localiza-se no topo do Vulcão do Fogo, numa caldeira de colapso que se formou há cerca de 15 mil anos, tendo a última erupção ocorrido no ano de 1563.

Nas águas da lagoa vivem diversas espécies piscícolas, como a carpa, a ruivaca e a truta arco-íris. Nas suas margens nidificam, entre outras, duas espécies de aves marinhas: a gaivota e o garajau- comum.

Nunca é demais lembrar todo o cuidado em termos de civismo que deve guiar todos os visitantes independentemente do trilho a visitar. Contudo, neste caso estamos perante uma zona de grande interesse geológico e possuidora de um rico património natural que desde 1974 se encontra classificada.

O regresso faz-se pelo mesmo percurso.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31296, 4 de agosto de 2017, p.17)

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Ainda sobre o Eng.º Fernando Monteiro da Câmara Pereira



Ainda sobre o Eng.º Fernando Monteiro da Câmara Pereira

No passado dia 19 de julho, o Correio dos Açores publicou um texto sobre o Eng.º Fernando Monteiro da Câmara Pereira. Hoje daremos a conhecer mais um pouco da sua vida/obra.
No texto anterior, fizemos referência a uma intervenção na Assembleia Nacional sobre algumas carências da função pública, a qual ocorreu no dia 17 de abril de 1974. Através da leitura do seu discurso, publicado na íntegra no jornal “A Ilha”, no dia 27 de abril de 1974, constata-se que o Engº Fernando Monteiro não discriminava categorias profissionais, como se deduz através das interrogações que levantou: “Mas quanto ganha um chefe de serviço, um professor, um escriturário-dactilógrafo, um cantoneiro, um contínuo, etc.? E a falta dum ordenado mínimo humano e dignificante?”.

Depois do 25 de Abril de 1974, entre 7 de novembro de 1980 e 30 de novembro de 1983, o Eng.º Fernando Monteiro foi deputado na Assembleia Regional dos Açores, eleito em lista do CDS, pelo círculo de Santa Maria.

Durante o período em que foi deputado, em maio de 1982, publicou, através do Instituto Fontes Pereira de Melo, o livro “Agricultura Açoreana…um caminho para a Europa. Os handicaps açoreanos na directiva 75/268/CEE”, que foi, segundo ele, a concretização de um “estudo que tinha encetado em ordem à caracterização da R.A.A. no quadro das directivas da modernização da agricultura e sobretudo da das Zonas Desfavorecidas”.

Depois da sua passagem pelo CDS, o Engº. Fernando Monteiro foi o dirigente máximo do Partido Socialista no concelho da Ribeira Grande, tendo sido vereador e candidato, derrotado, daquele partido à Presidência da Câmara Municipal da Ribeira Grande, nas eleições que se realizaram no dia 15 de dezembro de 1985.

Podemos ficar a conhecer um pouco sobre o seu pensar, em 1985, através do que ele escreveu em setembro daquele ano, em relação à Junta de Freguesia do Pico da Pedra, então eleita pelo partido socialista: “Se não houvesse uma dinâmica partidária de forte pendor socialista, humanizado e cristão e por isso respeitador de todas as ideologias outras entidades não teriam o sucesso que têm apesar de fortemente apoiadas…”.

Noutro texto, que a seguir se transcreve, publicado em outubro do mesmo ano, o Eng.º Fernando Monteiro, não desvalorizando as ideologias, coloca as pessoas em primeiro lugar: “…a vitalidade do Poder Local Regional e da Democracia só poderá ser encontrado na alternância do mando e consequentemente na responsabilização dos partidos, mas o sucesso depende ao nível do município ou da freguesia das pessoas que se empenham” e conclui: “…Assim votar nas autarquias deverá ser votar nos homens que servem a terra e que nunca se servirão dela”.

Sobre as questões ambientais, a leitura de vários textos da sua autoria leva-nos à conclusão de que o Engº Fernando Monteiro era um homem que investigava e que andava a par do que de mais avançado se publicava, como o livro, de E. F. Schumacher, “Small is Beautiful”, que é “um estudo de economia em que as pessoas também contam” e que apesar de ter sido publicado, pela primeira vez, em 1973, ainda hoje devia ser de leitura obrigatória para políticos e autarcas com mania das grandezas e que continuam a pensar que é possível crescer infinitamente em territórios pequenos e frágeis como são as nossas ilhas.

Sobre as questões energéticas, num texto publicado em 1991, o Engº Fernando Monteiro refere-se à eficiência energética do seguinte modo: “Poupar energia será só não gastar o produto de cada fonte energética ou quantas acções em ordem à minimização das suas perdas? ...Serão os lixos, ou resíduos sólidos e líquidos, produtos totalmente degradados e irrecuperáveis na complexidade energética, sabendo que a natureza orgânica ou inorgânica é a própria fonte da energia bioquímica?”.

Por último, ao terminar o texto referido, o Engº Fernando Monteiro apresenta uma sugestão que se não tivesse caído em saco roto não chegaríamos à degradante situação atual no que diz respeito à gestão dos resíduos sólidos. Aqui ficam as suas palavras:

“As ilhas não podem deixar-se poluir sob pena de perderem a sua beleza e afectarem a qualidade de vida do seu povo. A associação das finalidades consubstanciadas em preservação do ambiente, reciclagem orgânica dos lixos e diminuição das importações de inputs fertilizantes organominerais para o solo açoriano justifica a instalação de uma unidade, pelo menos, de tratamento e reciclagem de resíduos sólidos”.

Por falta de espaço, não foi feita qualquer referência à sua obra poética. Sobre o assunto recomenda-se a leitura do seu livro “Mar Branco”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31294, 2 de agosto de 2017, p.13)

segunda-feira, 31 de julho de 2017

A Campanha de Esterilização de Animais Abandonados e o cumprimento da lei


A Campanha de Esterilização de Animais Abandonados e o cumprimento da lei

A Lei 27 de 2016, da Assembleia da República, que não se aplica nos Açores, aprova medidas para a criação de uma rede de centros de recolha oficial de animais e estabelece a proibição do abate de animais errantes como forma de controlo da população.
Sendo à partida uma lei melhor do que a legislação aprovada na Assembleia Regional dos Açores, que fixa o fim dos abates para 2022, parece que pela inação das mais diversas entidades vai acabar por não ser cumprida.
O movimento cívico “Campanha de Esterilização de Animais Abandonados”, através de uma ação junto dos diversos partidos políticos com assento na Assembleia da República denunciou a situação, alertando para o seguinte:
"...Estamos a um ano do fim dos abates (Setembro de 2018) e sem programas de esterilização - nem sequer a esterilização dos animais que dão em adopção está a ser cumprida pela maioria das Câmaras - vai-se assistir ao surgimento de um movimento para que os abates continuem sob o argumento de que os canis serão insustentáveis.
Se isso acontecer, estamos perante a maior traição e embuste que o poder político alguma vez praticou em relação aos animais e aos cidadãos que os defendem..."
Mas à indiferença de uns, algumas autarquias (a maioria?), junta-se o desnorte e a resistência de outros, como a DGAV- Direção-Geral de Alimentação e Veterinária. Com efeito, aquele serviço central da administração direta do Estado que tem por missão “a definição, execução e avaliação das políticas de segurança alimentar, de proteção animal e de sanidade animal, (…), sendo investida nas funções de Autoridade Sanitária Veterinária e Fitossanitária Nacional e de Autoridade responsável pela gestão do Sistema de Segurança Alimentar”, para além de desincentivar as campanhas de esterilização ao afirmar, numa circular dirigida às Câmaras Municipais, contrariando o expresso no art.º 4 da Lei 27/2026, que “não existe nenhuma obrigação legal para a concretização de programas CED”, apela ao desrespeito da legislação que obriga os serviços públicos a prestar “informação sobre qualquer procedimento administrativo, do início ao fim, com excepção dos procedimentos classificados como sigilosos ou reservados”.

Por cá, embora o ano de 2022 esteja muito longe, pouco ou nada se faz para acabar com os autênticos massacres de animais nos canis, que são resultado da mentalidade tacanha da maioria dos cidadãos que acham que devem ser os outros a resolver os seus problemas e da inação dos responsáveis que nada, ou muito pouco, fazem em termos de educação para a responsabilidade.

Teófilo Braga
1 de agosto de 2017

Parabéns

domingo, 30 de julho de 2017

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Percurso Pedestre do Pico da Vara


Percurso Pedestre do Pico da Vara

Embora haja vários trilhos para se chegar ao Pico da Vara, recomenda-se o que tem início na freguesia da Algarvia, localizada na costa Norte de São Miguel a cerca de 11 km do Nordeste.

O trilho referido é, não temos dúvida, o mais percorrido do Concelho de Nordeste e um dos mais procurados pelos micaelenses por conter o ponto mais alto da ilha, o Pico da Vara, que possui a altitude de 1103 m.

O trilho que liga a Algarvia ao Pico da Vara foi percorrido anualmente pelos Amigos dos Açores desde 1984, data da sua criação. Contudo, o primeiro roteiro do trilho mencionado só foi editado, pela referida associação não governamental de ambiente, em 2007. O texto é da autoria de Nuno e Avelar e de Teófilo Braga, sendo as fotografias deste, bem como do geólogo Rui Coutinho.

O percurso pedestre inicia-se no 4º troço da Tronqueira, a cerca de 4,3 km do centro da freguesia da Algarvia e desenvolve-se na Reserva Florestal Natural do Pico da Vara.

Neste local, devidamente sinalizado, para além das matas de criptoméria destaca-se a presença de duas espécies invasoras: o gigante e o verdenaz (cletra). A primeira, originária da América do Sul, foi introduzida com fins ornamentais nos jardins das Furnas e a segunda é uma árvore ou arbusto endémico do arquipélago da Madeira.

Depois de uma longa subida, chega-se a uma zona plana onde se avista parte do concelho da Povoação. Vira-se à esquerda e ao fim de algum tempo encontra-se um cruzeiro que assinala a queda de um avião, em 27 de Outubro de 1949.

Sobre aquele desastre, o jornal Açoriano Oriental, de 29 de Outubro de 1949, publicou o seguinte: “...sabendo-se então que era um super-Constelation da ”Air France” que, da uma para as duas da madrugada, fôra avistado sobrevoando a freguesia da Algarvia, vindo a despenhar-se no Pico Redondo nas faldas do Pico da Vara, do que resultou a morte de 11 tripulantes e 37 passageiros, entre os quais Marcel Cerdan, campeão francês de box, que seguia para a América, afim de ali disputar o campeonato mundial, no dia 1 do próximo mês.”

Neste local, entre outras espécies vegetais podemos observar o canicão, o patalugo, o feto do pente, o feto cabelinho e o queiró. Aqui, bem como ao longo do percurso é possível observar algumas aves com destaque para o melro-negro e o tentilhão.

Continuando o percurso, já próximo do Pico da Vara chega-se a um segundo cruzeiro, localizado na freguesia de Santo António, que assinala a queda de outro avião, ocorrida a 13 de maio de 1943. Neste acidente apenas foi vítima o 2º sargento Manuel Cardoso.

O trilho “termina” no cimo do Pico da Vara que está implantado na Reserva Natural do Pico da Vara, onde para além da presença do priolo, podemos encontrar quase todas as espécies da avifauna terrestre que nidificam nos Açores, sendo um dos raros locais da ilha de São Miguel de nidificação da narceja e da galinhola.

O priolo é uma espécie endémica da ilha de São Miguel que exibe uma coroa negra na cabeça e um bico forte, curto e cónico, de cor preta, apresentando a cobertura das asas e a parte superior da cauda acastanhada.
O priolo que no século XIX era abundante na parte Este da ilha de São Miguel foi considerado uma praga para os laranjais da ilha, hoje tem o seu habitat na floresta natural açoriana de altitude, constituída por várias espécies de árvores e arbustos endémicos, com destaque para o cedro do mato, o azevinho, a ginja, a urze, o pau branco e a uva da serra.
Depois de algum tempo de descanso no Pico da Vara, regressa-se à origem, chegando-se lá depois de se ter percorrido uma distância aproximada de 7 km e demorado cerca de 3 horas.
Teófilo Braga

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Incineração

Declaração sobre o ambiente e futuro de Portugal

Sobre a Guerra Colonial


Sobre a Guerra Colonial

Hoje, sabe-se que, de 1961 a 1973, mais de 8000 jovens haviam desertado do exército para não irem combater para as colónias portuguesas e que na guerra colonial só entre os soldados brancos, os outros não contavam para o Estado Novo e continuam a não contar para a Democracia, houve 8 831 mortos e 20 000 feridos.

Na freguesia onde nasci, a Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, alguns jovens foram forçados a cumprir o serviço militar nas diversas colónias portuguesas, lembro-me de vários que estiveram na Guiné, de pelo menos dois que estiveram em Angola e de um que esteve em Timor.

Nas conversas que mantinha com os meus colegas e amigos de infância e juventude não falávamos de política porque nenhum de nós tinha conhecimentos para tal mas, sobretudo nos anos que antecederam o 25 de abril de 1974, à medida que a nossa idade ia avançando, a guerra colonial era um dos temas abordado.

Como não podia deixar de ser, falava-se muito do heroísmo dos soldados portugueses, das vitórias que iam conquistando, dos soldados ou oficiais que se distinguiam. Na altura, ninguém punha em causa a injustiça da guerra e todos achavam que era um dever de todos os portugueses combater para manter a pátria grandiosa, em suma para todos nós não ir para a tropa era uma traição à pátria e para traidor já bastava o Miguel de Vasconcelos.

Na altura, havia um facto que nos intrigava, se era um dever ir combater para o ultramar por que razão algumas pessoas conseguiram safar-se, pagando a outras para ir no seu lugar.

Mas, apesar da nossa idade, para além do amor à pátria que colocávamos em primeiro lugar, também manifestávamos receio pelo facto de um dia termos de ir para o ultramar e do que nos poderia acontecer. Assim, o que mais nos preocupava era ficarmos feridos ou mesmo morrermos como aconteceu com um filho do sr. Manuel “Luzia” que morou no Pico d’El Rei.

No que se refere aos mortos, o ano de 1969, foi um ano negro para duas famílias de Vila Franca do Campo. Com efeito, naquele ano João Natalino Vales, da freguesia de São Miguel, faleceu em Angola e no dia 24 de junho do mesmo ano morreu em combate João Manuel Simas Amaral, natural da freguesia de Água d’Alto.

Para além dos dois jovens referidos, no parágrafo anterior, não podemos esquecer os nomes de José Maria Furtado, José Jacinto Rodrigues, António dos Santos Pacheco, António da Mota Martins, Emanuel Aires Pacheco de Melo, José Madeiros Pacheco, João Manuel dos Santos e Mariano José Rebelo que, também, perderam a vida nas colónias portuguesas.

Só depois do 25 de abril de 1974 tomámos conhecimento do que realmente ocorreu em Portugal durante o Estado Novo e com muita ingenuidade acreditámos que com as independências das antigas colónias, seriam criados novos países onde reinaria a paz e sociedades mais livres e igualitárias.

Ao contrário do que prometiam e diziam, em vez de sociedades mais justas e democráticas, criaram regimes autoritários, onde a exploração do homem pelo homem e a miséria não desapareceram, continuando a sua população a ser uma das mais pobres do mundo. Assim, no caso de Angola, os dirigentes do MPLA que prometeram o socialismo, transformaram-se em capitalistas sem escrúpulos e organizaram purgas onde mataram muitos milhares dos seus antigos companheiros de armas e de ideais.

Os seus rivais da UNITA, dirigida pelo carismático Jonas Savimbi não ficaram atrás. Aquele dirigente, tão amigo de vários políticos portugueses, era um fervoroso adepto da “caça às bruxas”, como exemplifica a execução de Tito Chingunji, prestigiado dirigente daquele movimento, e de cerca de duas dezenas de familiares.

Continuo a não perceber a razão do apoio por parte do PCP a um partido, o MPLA, que mandou às urtigas o socialismo (não seria capitalismo de estado?) e promove o “capitalismo clientelista” e a razão do apoio dos partidos que em Portugal dizem defender uma democracia pluralista a um regime fortemente autoritário.

Teófilo Braga

26 de julho de 2017

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Animais em cativeiro nas escolas


Animais em cativeiro nas escolas

“ (...) a amizade pela árvore, pelo riacho, pelo animal livre é indispensável para a formação de um ser humano que pretendemos amplo e nobre” Agostinho da Silva

Pessoa amiga contou-me que na pré-primária algumas educadoras mantêm nas suas salas peixes e ou tartarugas em aquários, aves em gaiolas e hamsters também em cativeiro.

A existência dos animais em cativeiro é justificada como meio para dar cumprimento à seguinte aprendizagem a promover: “Manifestar comportamentos de preocupação com a conservação da natureza e respeito pelo ambiente”. Para a concretização do exposto, segundo as orientações curriculares para a Educação Pré-Escolar os educadores deverão promover “a participação e responsabilidade das crianças no cuidado e proteção de seres vivos dentro e fora da escola (cuidar de plantas, de animais ou da horta na escola; cuidado com ninhos, plantas e animais nos jardins, parques e espaços verdes fora da escola).

Para além da razão apresentada, o tratar animais serve para fomentar “a participação das crianças no processo educativo através de oportunidades de decisão em comum de regras coletivas indispensáveis à vida social do grupo e à distribuição de tarefas necessárias à vida coletiva constituem experiências de vida democrática, que permitem tomar consciência dos seus direitos e deveres.”


Segundo a pessoa amiga referida, que é educadora mas não concorda com a prática das colegas, uma outra justificação está relacionada com a possível empatia para com os animais que as crianças adquiririam ao responsabilizar-se pela sua alimentação.

Sendo contra a existência de animais em cativeiro e não pondo em questão o facto de ser possível atingir o pretendido com a presença dos animais nas escolas, penso que o mesmo poderia ser alcançado com o cuidado de plantas que depois os alunos poderiam levar para as suas casas e plantar nos seus quintais e jardins.

Além do exposto, tenho dúvidas se a manutenção de um animal em cativeiro não leve à distração para a questão fundamental que é a necessidade de se proteger os habitats naturais que são os locais onde os animais devem estar.

Teófilo Braga
25 de julho de 2017
Imagem : http://lilliverdi.blogspot.pt/2011/10/chora-coracaopassarinho-na-gaiola.html

segunda-feira, 24 de julho de 2017

HOMENAGEM AO TENENTE-CORONEL JOSÉ AGOSTINHO



HOMENAGEM AO TENENTE-CORONEL JOSÉ AGOSTINHO


Estamos aqui a cumprir um dever. O dever de recordar e homenagear todos aqueles que com a sua dedicação contribuíram para um melhor conhecimento da sua terra. Entre eles, destaca-se a figura do sábio Tenente-Coronel José Agostinho, “um dos aos espíritos mais cultos da Grei Açoriana em todos os tempos” (A União, 1-1-1958).

A par da sua fértil atividade científica nas mais diversas áreas como a meteorologia, a vulcanologia, a ornitologia, a geofísica, etc., o Tenente-Coronel José Agostinho preocupou-se com a formação dos cidadãos. A sua vocação de pedagogo manifestou-se quer nas palestras transmitidas pelo Rádio Clube de Angra e nos esclarecimentos e explicações que fornecia a quem o solicitava, de que as cartas que agora publicamos são um exemplo, quer como Mestre no Liceu Padre Jerónimo Emiliano de Andrade, onde lecionou matemática.

Foi sempre enorme o seu esforço para despertar o interesse pela Natureza e sua conservação, nas palestras que proferiu, na sua colaboração com Os Montanheiros e na correspondência que trocou, quer com cientistas de renome, quer com o mais humilde cidadão.

A propósito, já em 1967, numa carta dirigida a um ilustre picoense, o Tenente-Coronel José Agostinho escrevia “…Segundo parece, a matança de botos, encurralados previamente na “Lagoa” das Lajes, não poderá constituir motivo de atração turística, para mais numa ilha onde há tanto que ver e admirar”. É pena que ainda hoje alguns, perante a apanha de cetáceos, comportem-se como avestruzes ou como Velhos do Restelo, à espera que o tempo volte para trás.

Para os seus filhos senhora D. Maria Luísa e senhor Paulo Agostinho e para o senhor Gualter Cordeiro, que prontamente autorizaram a divulgação das cartas agora publicadas, vai o nosso sincero agradecimento.

Por último, o nosso muito obrigado ao senhor José Carlos, proprietário desta livraria, pela cedência do espaço onde agora nos encontramos.

7 de fevereiro de 1993




domingo, 23 de julho de 2017

António Aleixo

Salto do Cabrito



Trilhos com história (4)
Salto do Cabrito
Conhecemos, desde o início da década de 70 do século passado, vários trilhos pedestres com passagem ou tendo por ponto de referência o Salto do Cabrito, queda de água com cerca 38 metros, localizada no concelho da Ribeira Grande.

O primeiro roteiro do Salto do Cabrito foi por nós elaborado, em 1990, no decorrer do "Curso de Património Histórico-Artístico, Natural e Etnográfico para Professores do Ensino Básico e Secundário", da responsabilidade do Centro Nacional de Cultura, tendo a sua publicação ocorrido em 1993, por iniciativa dos Amigos dos Açores.

Visitado pelos Amigos dos Açores quase anualmente, por vezes servindo de alternativa em caso de mau tempo, no ano 2000, o percurso do Salto do Cabrito foi o primeiro a ter uma marcação, na sequência de uma ação de formação promovida pelos Amigos dos Açores, intitulada “Pedestrianismo e Percursos Pedestres”, e ministrada por um técnico da Federação Portuguesa de Campismo e Montanhismo.

Parte do trilho referido constitui o “Percurso da Energia”, iniciativa da Ecoteca da Ribeira Grande que visava promover a educação ambiental a nível local e sensibilizar para a utilização de fontes renováveis de energia. Com texto de Manuela Livro foram publicadas duas edições do roteiro “Percurso da Energia- Das Caldeiras da Ribeira Grande à Central da Fajã Redonda”.

O trilho oficial do Salto do Cabrito é muito idêntico ao proposto pelos Amigos dos Açores. Com efeito, tal como o daquela associação, é circular, possui uma extensão de 7,5 km e está classificado como fácil.

O trilho começa nas Caldeiras da Ribeira Grande local descrito por Silva Júnior, em 1932, do seguinte modo: "Caldeiras. Uma dúzia de casas dispersas entre o arvoredo. Um presépio a que nem mesmo falta o lago, aqui de água sulfúrea a fumegar".

Das Caldeiras, parte-se em direção às Lombadas até se chegar à “Zona dos Canos”, assim chamada devido à existência da conduta que leva a água que vem da barragem até à central do Salto do Cabrito.

Na zona envolvente à barragem, localizada a 300 m de altitude, com 15 metros de altura e pode represar cerca de 23 mil metros cúbicos de água, a vegetação é constituída, essencialmente, por acácias, criptomérias, plátanos e conteiras.

Na margem direita do lago, existiu a famosa Gruta das Lágrimas que foi descrita por, Joseph e Henry Bullar, que estiveram nos Açores em 1838 e 1939, do seguinte modo: "Do tecto da caverna, revestido de fetos e de musgo fino, caiam constantemente gotas de água pura e cristalina, como chuva, sobre fofo tapete de musgo, formando pequeno regato de cristal, que, descendo a encosta da montanha, se confunde com a ribeira Grande".

Depois da visita à barragem, regressa-se à Zona dos Canos e continua-se a caminhar para norte até encontrar o portão que dá acesso à Central da Fajã do Redondo. Depois de passar pelo mesmo, caminha-se até àquela Central que entrou em funcionamento em 1927 e que hoje está desativada. Esta Central que foi conhecida por “Luz Nova do Cordeiro” possuía uma potência instalada de 808 kW e chegou a ter uma produção média anual de 1870 MWh.

Depois de se atravessar a ribeira continua-se a caminhar em direção ao norte, através de um passadiço que nos leva até ao Salto do Cabrito e à Luz Velha do Cordeiro. Esta, a Central do Salto do Cabrito, é a segunda central hidrelétrica construída em São Miguel e uma das mais antigas de Portugal.

A central do Salto do Cabrito entrou em serviço em Setembro de 1902, aproveitando os 38 metros de queda do salto com o mesmo nome e o caudal médio de 340 l/s da ribeira Grande. Depois de ter sido posta fora de serviço em Dezembro de 1972, foi remodelada e voltou a funcionar em Julho de 2006.

Vale a pena ir para o meio da ribeira e apreciar o imponente Salto do Cabrito. Aqui, incensos, acácias, algumas figueiras, eugénias constituem a vegetação predominante. É muito comum observar-se junto à cascata, entre outras aves, alvéolas.

Embora o percurso seja circular, recomenda-se o regresso ao ponto de partida pelo mesmo caminho.
Teófilo Braga

Dia da Juventude

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Fernando António Monteiro da Câmara Pereira


Fernando António Monteiro da Câmara Pereira

Tenho escrito alguns textos sobre a vida e a obra de algumas pessoas, desde as consideradas personalidades que se distinguiram dos demais através do seu contributo para a sociedade onde estavam inseridos até às que consideradas pessoas comuns, também, deram o seu imprescindível e insubstituível contributo para uma Terra mais humana.
Sempre que pretendo escrever algo sobre açorianos recorro, em primeiro lugar, à Enciclopédia Açoriana. Mas, infelizmente, muitas das minhas pesquisas lá efetuadas não são bem-sucedidas, pois a mesma apresenta omissões inadmissíveis, como é o caso de nela não figurar um conjunto de personalidades que, quer se goste ou não do seu posicionamento político-partidário ou das ideologias que defenderam, foram figuras que se destacaram entre os seus contemporâneos.
Espero não ter sido inábil na pesquisa que efetuei sobre o engenheiro agrónomo Fernando António Monteiro da Câmara Pereira, pessoa que conheci muito bem, já que o mesmo era frequentador assíduo da casa de um familiar ligado ao Partido Socialista.
Embora sem qualquer ligação partidária, também colaborei com ele pontualmente numa sua iniciativa destinada a autarcas socialistas da Ribeira Grande, onde apresentei, em conjunto com outro membro dos Amigos dos Açores uma comunicação sobre autarquias e ambiente.
O Eng.º Fernando Monteiro, natural de Vila do Porto, onde nasceu a 24 de setembro de 1935, foi um político que se distinguiu pela sua dedicação às causas que abraçou, quer antes quer depois do 25 de abril de 1974. Licenciado em Agronomia pelo Instituto Superior de Agronomia, no ano de 1962, foi funcionário da Junta do Distrito Autónomo de Ponta Delgada e da Secretaria Regional do Comércio e Indústria, onde chegou a ser Adjunto.
Durante o Estado Novo foi Presidente da Comissão de Distrito da Ação Nacional Popular de Ponta Delgada, tendo apresentado a comunicação «Politização e participação da população na vida política» no único congresso daquela organização que se realizou, em Maio de 1973, em Tomar.
Foi também Presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande e deputado na Assembleia Nacional, pelo Círculo de Ponta Delgada, tendo feito parte da Comissão de Política e Administração Geral e Local.
Na Assembleia Nacional, o Engº Fernando Monteiro teve uma participação ativa, com destaque para uma intervenção onde falou nas deficiências existentes nos transportes e comunicações nos Açores, para um requerimento sobre alguns aspetos do abastecimento de gás combustível nos Açores e outra intervenção onde abordou algumas carências da função pública.

Não vamos referir aqui todas as obras executadas pela Câmara Municipal da Ribeira Grande, presidida pelo Eng. Fernando Monteiro, apenas registamos a sua preocupação com a educação que se traduziu na instalação, na Ribeira Grande, por sua iniciativa de uma Secção da Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada.

O dinamismo que imprimiu à Câmara da Ribeira Grande e as suas qualidades pessoais, que se traduziam num bom relacionamento com os munícipes, fizeram com que houvesse resistência, ao contrário do que aconteceu noutros municípios, à sua substituição na presidência daquela autarquia, depois do 25 de Abril de 1974.

Para que o Engº Fernando Monteiro continuasse à frente da Câmara Municipal da Ribeira Grande foram recolhidas muitas assinaturas e realizou-se uma manifestação de apoio que contou com o apoio de parte da juventude. No folheto, assinado por um grupo de jovens, pode ler-se: “Ide todos, hoje Domingo 16 de junho, pelas 9 horas ao Largo Gaspar Frutuoso (Cascata) apoiar o nosso actual Presidente da Câmara, Eng. Fernando Monteiro que muito democraticamente tem representado os desejos do Povo Ribeiragrandense.”.

O Dr. Manuel Barbosa, conhecido opositor ao Estado Novo, classificou os apoiantes do Eng. Fernando Monteiro de “fascistas besuntados de democratas” e de “rapazelhos e marginais”. Mal sabia ele que entre os jovens que queriam a manutenção do Eng.º Fernando Monteiro no seu cargo estavam familiares seus.

Em breve, voltarei a escrever sobre este homem dinâmico, instruído e culto.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 19 de julho de 2017)

Os Jardins Botânicos e os Animais


Os Jardins Botânicos e os Animais

Há alguns dias estava no Jardim José do Canto, conhecido jardim botânico da nossa terra, quando tive a oportunidade de perguntar a uma visitante que estava acompanhada de duas crianças o que ela achava do mesmo.

A resposta foi positiva, isto é, tinha gostado muito de ver, sobretudo as rosas e as árvores de grande porte, como a árvore-da-borracha-australiana, o pinheiro-de-damara e as araucárias de diversas espécies Mas, a senhora em questão não se ficou por satisfazer a minha curiosidade, tendo, a seguir, perguntado se o jardim não tinha animais.

Depois de lhe ter respondido que não, dizendo-lhe que os jardins botânicos apresentam coleções de plantas, podendo servir para a conservação de algumas espécies e ter uma função educativa, não só para os jovens em idade escolar mas também para o público em geral.

Mais tarde, comecei a pensar melhor no assunto e fiquei sem saber o que pretendia a senhora. Seria mostrar às crianças animais fora do seu habitat, em cativeiro? Além disso, hoje, considero que não soube responder bem, pois devia ter esclarecido que no jardim existiam animais, sobretudo aves, mas em liberdade.

No caso do jardim em questão, para além de uma exposição ao ar livre de cartazes com algumas espécies da avifauna que lá vivem, como o pombo-torcaz, a alvéola, o tentilhão, o melro-negro, o santantoninho ou papinho, a toutinegra, etc., os visitantes poderão não só observá-las como também ouvir o seu canto.

Não posso culpar a senhora de nada, pois muitas vezes só vemos o que procuramos e só damos importância ao que conhecemos e nos ensinaram a valorizar.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 18 de julho de 2017)

segunda-feira, 17 de julho de 2017

sábado, 15 de julho de 2017

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Percurso Pedestre do Sanguinho


Percurso Pedestre do Sanguinho

São essencialmente os trilhos pedestres, os estádios dos pedestrianistas, que levam os visitantes à Povoação. De entre os trilhos existentes naquele concelho, o do Sanguinho é o mais percorrido e um dos mais visitados da ilha de São Miguel.

A primeira edição do roteiro do percurso pedestre do Sanguinho, da responsabilidade dos Amigos dos Açores, com uma tiragem de 2000 exemplares, ocorreu no ano de 1997. Desde então até hoje, várias têm sido as reedições, sendo o mencionado roteiro um dos que mais procura tem, não só junto dos residentes mas também dos turistas.

O trilho do Sanguinho localiza-se na freguesia do Faial da Terra, assim denominada pelo facto do vale onde está implantada encontrar-se, na época da sua ocupação pelos primeiros habitantes, coberto de faias.

Na localidade, é digna de visita a igreja de Nossa Senhora da Graça. A primitiva igreja do Faial da Terra, que terá sido construída no início do século XVI, foi saqueada e incendiada, em 1597, por piratas ingleses, pertencentes a uma esquadra comandada pelo Conde de Essex. Em 1599, o vigário da localidade escreveu ao rei pedindo para que se construísse outra, o que terá acontecido pouco depois. Arruinada devido a frequentes abalos de terra, a igreja de Nossa Senhora da Graça começou a ser reparada e ampliada em 1818 e, a 8 de Abril de 1839, foi benzida pelo ouvidor Padre José Tavares de Medeiros, embora ainda não estivesse completamente remodelada. Por seu turno, a torre sineira desta igreja só seria construída em 1874.

Recomendamos o início do percurso em frente ao "teatro" do Espírito Santo, construído em 1908, no local designado por Burguete. Caminhando para norte e antes de chegarmos ao carreiro existente na margem direita da ribeira, passamos por algumas habitações e por um dos seis moinhos que chegaram a estar em funcionamento no Faial da Terra.

Depois de atravessarmos um afluente da ribeira do Faial da Terra, continua-se a subir um carreiro bastante inclinado onde se pode observar alguns vinháticos que é uma espécie que existe em todas as ilhas dos Açores, na Madeira e nas Canárias, tendo a sua madeira sido outrora muito apreciada. Para além dos vinháticos, podem ser observadas, entre outras plantas, acácias, conteiras, cigarrilheiras ou banksias e cavalinhas.

Quando se atinge à primeira bifurcação, vira-se à direita, caminha-se um pouco até o carreiro entrar numa mata de acácias e incensos. Descendo o trilho, um pouco depois chega-se à bonita queda de água, denominada Salto do Prego.

Depois de um merecido descanso ou um banho nas águas da Ribeira do Faial da Terra, regressa-se pelo mesmo caminho, até à bifurcação referida. Aí, continuando a caminhar, vira-se à direita, atravessa-se a ribeira da Fajã do Estaleiro, chegando-se às primeiras casas do Sanguinho alguns minutos depois.

No Sanguinho existem cerca de 20 casas, que outrora chegaram a albergar quase 200 pessoas que só se deslocavam ao Faial da Terra para irem à mercearia, ao médico, cumprir os seus deveres dominicais ou para assistir a uma ou outra festividade religiosa, em virtude dos produtos derivados da agricultura e da criação de animais serem suficientes para a subsistência dos seus habitantes.

No Sanguinho, assim chamado, segundo cremos, devido à presença da planta endémica da Madeira e dos Açores denominada sanguinho, reintroduzida recentemente, para além das espécies cultivadas nos pomares, como as laranjeiras, as bananeiras e os araçazeiros predominam os incensos, as criptomérias e as acácias.

No percurso, é muito frequente observarmos algumas espécies da avifauna açoriana, como o tentilhão, o melro-negro, o canário-da-terra, o milhafre, o canário, a alvéola e o santantoninho (pisco).
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31278, 14 de julho de 2017, p.16)

Albert Einstein

quarta-feira, 12 de julho de 2017

terça-feira, 11 de julho de 2017

Em defesa das baleias


Antero de Quental e o Anarquismo


Antero de Quental e o Anarquismo

Em 1864 foi criada em Londres a AIT-Associação Internacional dos Trabalhadores no seio da qual existiam diversas tendências socialistas que coexistiram no seu seio durante pouco tempo.

Alguns autores, como César de Oliveira e António Ventura, apontam como a data mais importante para a implantação do anarquismo em Portugal o ano de 1871, quando uma delegação espanhola da AIT, constituída por Anselmo Lorenzo, Francisco Mora e Tomaz Gonzalez Morago, se reuniu em Lisboa com José Fontana, operário nascido na Suiça, mais tarde caixeiro e sócio-gerente da Livraria Bertrand, e o poeta açoriano Antero de Quental.

Depois de um primeiro encontro em casa de Antero de Quental, houve algumas reuniões com outros jovens, entre os quais Jaime Batalha Reis, a bordo de um bote cacilheiro, no rio Tejo. Batalha Reis, depois de lembrar que a ideia do encontro fora de José Fontana que desconfiava que estava a ser seguido pela polícia, escreveu o seguinte: “ Nessa mesma noite fomos ao Aterro, o Antero e eu, pagámos a um barqueiro para nos deixar remar sozinhos no seu bote e fizemo-nos ao largo. A uma hora combinada aproximamo-nos dum outro cais onde o José Fontana nos esperava com os internacionalistas. E durante horas, nessa noite e nas seguintes, sobre o Tejo, enquanto eu remava, o Antero discutia, com os emissários socialistas, a revolução operária que já lavrava na Europa”.

Sobre Antero de Quental, o socialista espanhol Anselmo Lorenzo, cujas ideias eram mais próximas das do russo Mikhail Bakunine do que das do alemão Karl Marx, escreveu, no seu livro “El Proletariado Militante”, o seguinte: “…Quental pareceu-me mais velho e de aspecto não menos simpático e atraente; tinha residido muitos anos em Paris dedicado ao estudo das ciências e tinha uma ilustração vastíssima e um carácter franco e leal que o levava a adoptar os radicalismos que logicamente lhe impunham os seus extensos conhecimentos”.

Os objetivos das reuniões eram divulgar os objetivos da AIT e criar uma secção em Portugal, tarefa que ficou a cargo de José Fontana e de Antero de Quental.

No mesmo ano, é publicada, sem a indicação do autor, a brochura de Antero de Quental, “O que é a Internacional”, onde aquele, segundo Fernando Catroga defende ideias muito próximas das de Proudhon como a abstenção, a mutualidade de serviços e o crédito gratuito.

Antero de Quental, em carta dirigida a Teófilo Braga, confirma a sua pertença à Internacional e em carta a Oliveira Martins confirma nos seguintes termos a autoria do opúsculo “O que é a Internacional”: “Aí vai o primeiro folheto de Propaganda. Não sei se conhecerá que foi escrito por mim, por isso lho declaro (debaixo de sigilo Internacional!). V. sabe das minhas pretensões a Economista – por isso escusado é dizer-lhe a importância que dou às primeiras 20 páginas.”.

Antero de Quental distanciou-se das posições abstencionistas iniciais, tendo apelado à formação de um partido político e sido candidato em vários atos eleitorais, embora tenha declarado que não pretendia ser deputado.

Se é verdade que, numa carta dirigida a W. Storck, Antero de Quental desvalorizou as suas posições políticas anteriores, considerando-as «mistérios da incoerência da mocidade» também não é menos verdade que dois anos antes de morrer, escreveu um texto intitulado “O socialismo e a moral” onde reafirmou a sua concordância com o lema da Internacional “A emancipação dos trabalhadores deve ser obra dos mesmos trabalhadores”, tendo acrescentado que “o problema do Socialismo é essencialmente o problema da organização do trabalho: ora a organização do trabalho depende antes de tudo da capacidade moral dos trabalhadores, isto é, da sua capacidade de ordem, disciplina e justiça”.

Sobre o percurso de Antero, enquanto o anarquista português Júlio Carrapato escreveu: “depois do entusiasmo inicial pela Associação Internacional dos Trabalhadores e da aventura parisiense, resvalou para o reformismo socialista e para um pessimismo místico e bipolar”, Anselmo Lorenzo, considerado "o avô do anarquismo espanhol", escreveu: “Daqueles dois jovens, mortos há já bastantes anos, conservo carinhosas recordações (...). Tenho ideia que os anarquistas portugueses inscrevem os nomes de Fontana e de Quental no catálogo dos bons.”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31276, 12 de julho de 2017, p.16)