terça-feira, 27 de junho de 2017

Crise na Sociedade Micaelense Protetora dos Animais


Crise na Sociedade Micaelense Protetora dos Animais

No texto de hoje, teria muito gosto em dar os parabéns aos deputados da ALRA se os mesmos tivessem encurtado o tempo de entrada em vigor da legislação que proíbe o abate como método de controlo dos animais de companhia. Contudo, tal não aconteceu e vamos esperar por 2022, ano em que serão apresentados argumentos para que o prazo seja dilatado até ao dia de São Nunca.

Como não há notícias boas do presente, vou aproveitar a oportunidade para voltar a referir o nome de Maria Evelina de Sousa que, como sabemos, foi uma das principais dirigentes da SMPA-Sociedade Micaelense Protetora dos Animais e uma das suas porta-vozes.

A 10 de dezembro de 1925, o Correio dos Açores denunciou a magreza dos bois municipais e chamou “a atenção da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais para este caso que também envergonha o nosso meio social”.

Dois dias depois, Maria Evelina de Sousa escreveu uma carta aberta ao diretor do jornal, Dr. José Bruno Carreiro, desafiando-o a assumir responsabilidades na SMPA que estava inativa ou em crise profunda.

Na carta referida, Maria Evelina de Sousa lembrou que a SMPA “foi fundada pela imprensa local de então, imprensa que generosa e desinteressadamente, defendia os pequenos, os desprotegidos da sorte” e acrescentou que a mesma não havia encontrado “ o apoio com que são geralmente acolhidas nesta terra as iniciativas altruístas”.

No mesmo texto, Maria Evelina de Sousa referia-se à SMPA como sendo “bem humilde, por sinal, e nunca arrepiava caminho com receio de melindrar potentados”.

Hoje, embora as associações animalistas continuem a não receber o reconhecimento que deviam por parte das entidades oficiais, parece que, por vezes, têm conhecimento de algumas situações irregulares e não as denunciam com medo de represálias para os seus dirigentes ou mesmo para alguns animais.

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 31263, 27 de junho de 2017, p. 16)

sábado, 24 de junho de 2017

Percurso Pedestre Quatro Fábricas da Luz



Percurso Pedestre Quatro Fábricas da Luz

Esta nova rubrica do Correio dos Açores, que se manterá durante o período em que maioritariamente as pessoas gozam as suas férias, surge na sequência de um desafio lançado pelo jornalista João Paz e tem como objetivo dar a conhecer alguns trilhos pedestres da nossa terra, destacando a sua função didática, a sua ligação à proteção ambiental e o seu potencial turístico.

Praticante do pedestrianismo, na ilha de São Miguel, há cerca de 40 anos, foi com a minha participação nas atividades dos Amigos dos Açores- Associação Ecológica, há pouco mais de trinta anos, que passei estudar a atividade e a participar na elaboração de roteiros de percursos pedestres, um dos quais, sobre o trilho que é apresentado hoje, foi editado, no ano 2000, pela associação referida e pela Fundação Eng.º José Cordeiro, no âmbito das Comemorações do 1º Centenário da Luz Elétrica nos Açores.

No ano 2000, o roteiro do percurso pedestre previa a visita a 4 centrais hidroelétricas, de Norte para Sul: a Fábrica Nova, que na altura da sua construção, em 1927, era, no dizer do engenheiro Riley da Motta “a mais poderosa dos Açores”, a Fábrica da Cidade, que foi o segundo aproveitamento hidroelétrico da Ribeira da Praia, tendo entrado em funcionamento em 1903, a Fábrica da Vila que entrou em funcionamento em 1899, para servir Vila Franca do Campo, a primeira localidade dos Açores a receber energia elétrica e a Fábrica da Praia que começou a funcionar em 1911 e que em 1990 foi transformada em Museu pela EDA- Eletricidade dos Açores, com o objetivo de homenagear o engenheiro José Cordeiro, o pioneiro da eletrificação dos Açores.

No roteiro editado pelos Amigos dos Açores a proposta era a da realização de um trilho com cerca de 6,3 km, circular, com início e termo junto à Fábrica da Praia, no local da Praia, que foi habitado desde os primeiros tempos do povoamento da ilha de São Miguel.

Na sua descrição da ilha de São Miguel, Gaspar Frutuoso descreveu a Praia, na segunda metade do século XVI, nos seguintes termos: “...vem entrar no mar a grande ribeira da Praia, que dantes foi muito fresca, com uma fajã que estava ao longo dela, de uma e doutra parte, onde havia muita fruta de figos e uvas, do concelho, para quem quer que as queria; onde havia uma povoação de até sete ou oito casais de nobres e abastados moradores, chamados os Afonsos, da Praia”. Aquele cronista, também, mencionou a existência de “duas casas de moinhos que com ela moem, de duas pedras cada um, que servem de moendas a Vila Franca”.

Entre o casario e a Fábrica da Vila, o visitante pode observar a conduta forçada e a câmara de carga e decantação da fábrica da Praia. Para além de terrenos ainda cultivados ainda são visíveis vestígios de antigos pomares, onde se pode observar um conjunto de castanheiros, algumas laranjeiras, uma ou outra anoneira e azáleas.

Entre a Fábrica da Vila e a da Cidade, é possível observar várias espécies vegetais, com destaque para as conteiras, os incensos, as criptomérias, as acácias e os vinháticos.

O vinhático, que terá sido introduzido no nosso arquipélago por causa da sua excelente madeira, segundo Erik Sjogren, está naturalizado “nos Açores pelo menos desde há três séculos”. Conhecido como mogno da Madeira ou mogno das ilhas, a sua madeira foi muito usada em marcenaria e no fabrico de caixotes e a sua casca serviu para curtir peles.
Continuando o percurso, o caminheiro passa por um tanque, construído em 1906, que hoje alimenta a Central da Ribeira da Praia, um aproveitamento hidroelétrico datado de 1991.
Se continuar a caminhar, seguindo a conduta forçada que alimenta o tanque, chega-se a um caminho que liga a estrada regional às margens da Lagoa do Fogo. Virando à esquerda, e caminhando para Sul, chega-se ao ponto de partida.
Para quem quer fazer um percurso mais pequeno, praticamente a descer, sugere-se que inicie o percurso junto ao Parque Escutista dos Lagos. Se assim o fizer percorrerá o trilho com 2,1 km que passa por três das quatro fábricas da luz mencionadas e que está homologado pela Direção Regional de Turismo.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31260, 23 de junho de 2017, p. 15)

quinta-feira, 22 de junho de 2017

José Carlos Tavares escreve sobre meu avô Manuel Soares


A constância de dedicados jornalistas
Categoria: Opinião
Criado em 20-06-2017

Escrito por João Carlos Tavares

Admiramos a constância de muitos assíduos colaboradores que escrevem sobre temas vários para a nossa imprensa. São, eles e os jornais, os cabouqueiros, os “olhos e a língua do corpo social. Por isso privá-los de meios de informação é privar de voz a sociedade”. Foi assim que Luca de Tena, disse certo dia, acerca dos jornais e dos jornalistas.
No nosso Portugal e especificamente nos Açores os jornalistas, redactores profissionais e colaboradores, são muito constantes nas suas apreciadas crónicas, colunas ou secções, uma tradição que vem dos tempos do surgimento dos Media na Região já a caminho dos dois séculos.
Que nos recorde, já lemos jornais há cerca de 60 anos e desde sempre demos com colaboradores constantes a deporem os seus testemunhos, os seus conhecimentos e as suas opiniões no estilo próprio de cada um e dentro dos meandros impostos pela deontologia. Sempre houve muitos e dedicados ao órgão divulgador dos seus escritos e levaram vidas inteiras com muitos e muitos anos de dedicação às suas tribunas e aos que os liam com agrado e atenção.
Dos nossos tempos de jovem lembramo-nos de escritores como Rebelo Bettencourt, Diniz da Luz, Oliveira San-Bento, Alcindo Coutinho e outros, no velho Diário dos Açores. No jornal Açores, de Jorge Falcão, Carreiro da Costa, Cícero Medeiros, António Horácio Borges, etc. E no circunspecto Correio dos Açores, Manuel Ferreira, Ruy Guilherme de Morais, Gaspar Read Henriques, Gustavo Moura e tantos outros, alguns dos quais, felizmente, ainda na conta dos vivos.
Actualmente, dado os modos de vida, os actuais colaboradores, não obstante as suas tarefas profissionais, continuam a ser dedicados e muito assíduos nas suas contribuições jornalísticas cumprindo compromissos com os devotos leitores.
Nas colunas do Correio dos Açores, por exemplo estão a colaborar jornalistas há muitas dezenas de anos, mesmo na sua presente provecta idade. Ocorre-nos o caso do respeitável senhor Ermelindo Ávila, que escreve, desde a sua ilha Montanha , há muitas dezenas de anos. E para não magoar ninguém não vou referir a outros mais que, desde há longos anos escrevem para o jornal fundado por Bruno Carreiro, com aprumo e dedicação sobre as áreas dos seus gostos e predomínio.
Entre esses jornalistas que aparecem varias vezes por semana, incluindo o António Pedro Costa, está o investigador Teófilo Braga, professor no ensino secundário, natural de Vila Franca do Campo, com temas curiosos e que despertam a atenção dos regionalistas que se interessam pelas plantas, animais e a natureza em geral, a sua terra, bem assim como da biografia das pessoas que , a vários níveis, se têm destacado no âmbito das suas profissões . É impressionante o número de trabalhos de levantamento históricos, literários e outros que o ainda jovem Teófilo Braga, de quem me dizem os vilafranquenses ser um homem respeitado e admirado, tem publicado na imprensa micaelense, nomeadamente, no jornal Correio dos Açores . Semanas há que, da sua pena brotam dois e mais artigos publicados no diário, fundado por José Bruno Carreiro, todos eles com impacto no interesse dos seus leitores particularmente, aqui neste pedaço do mosaico da diáspora que é a Nova Inglaterra.
Da mesma terra de origem de Teófilo Braga, no cenário do nosso convívio do café da manhã no Dunkin Donuts, também propriedade do vilafranquense do António Arruda, a tertúlia sempre atenta à actualidade da terra de origem, fala sobre os acontecimentos nesse convívio , por nós denominada , “revista da imprensa”. O nome de Teófilo Braga, colaborador do Correio dos Açores, tem sido mencionado e referido com encómio os seus trabalhos publicados, especialmente pelos seus patrícios e leitores Gabriel Melo, natural de Ponta Garça e Manuel Brum, ainda aparentado com o jornalista, que é natural da Ribeira Seca de Vila Franca do Campo. Curiosamente, estes dois indivíduos são pessoas muito interessadas no estudo da Historia, açoriana, portuguesa e universal e ambos são possuidores de uma privilegiada memória particularmente no que concerne a historia da antiga capital micaelense. O Brum e o Melo são duas inteligências que poderiam ter ido longe, se no tempo devido tivessem sido potencializadas.
O Brum, num desses dias surpreendeu-nos com uma foto que vai “espantar” o jornalista Teofilo Braga, quando nos mostrou um instantâneo da família, com um fundo do que foram talvez os primeiros livros da biblioteca do “primo Teófilo” . Na foto para além da mãe e tias do Teófilo Braga, está o seu avô, um homem respeitado respeitador do lugar Ribeira Seca de Vila Franca do Campo.
Por seu turno, Gabriel Melo, natural da Ponta Garça, antigo empregado num Posto de recolha de leite conheceu o “tio Soares” na Ribeira Seca e lembrou-se de umas quadras dedicadas ao avô do Teófilo, por uma conhecido poeta popular daquele lugar de Vila Franca do Campo, um tal José Lopes. Dizia assim as quadras em questão:
Dá mais algumas passadas,
Se te queres fazer forte,
Tens já as mãos arroxadas,
É o primeiro sinal da morte!
A quadra não caiu bem no humor do “tio Soares” e este deixou de saudar o repentista Lopes, uma vez que, “tinha desejado a sua morte” .
Mais tarde o velho “ti Lopes” para se redimir, como conhecia fisicamente bem o patrício Soares, atirou-lhe outra quadra, neste tom :
Deus é que tudo destina,
E destina sem enganos,
Homem de canela fina,
Dura até aos cem anos ...
E deste modo, o “tio Soares” reconheceu a velha amizade e fizeram-se as pazes.
De certo que o T. Braga, desconhecia este episódio em que o seu avô protagonizou e cujas quadras ainda perduram na mente de muitos habitantes do concelho de Vila Franca do Campo, como é o caso do Gabriel Melo, uma memória fora do vulgar que, para alem de saber estórias e muita historia universal, conhece biografias de grandes vultos universais, como até conhece a obra de Pessoa e estrofes dos Lusíadas como poucos da sua geração. Já aqui falámos desses dois homens de Vila Franca, Brum e Melo.
Este despretensioso texto foi concebido, principalmente, para surpreender o Teófilo Braga e para lhe dizer que há nestes lados do Atlântico muita e muita boa gente que lê os seus apreciados escritos.

Fonte: https://www.correiodosacores.info/index.php/opiniao/27690-a-constancia-de-dedicados-jornalistas

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Parque Pedagógico Recreativo Infantil Maria das Mercês Carreiro


Parque Pedagógico Recreativo Infantil Maria das Mercês Carreiro

“Os povos civilizados dependem demasiado da página impressa. Eu voltei-me para o livro do Grande Espírito, que é o conjunto da sua criação. Podeis ler uma grande parte desse livro estudando a natureza” (Tatanga Mani)

No passado dia 16 de junho, foi inaugurado, no Pico da Pedra, o Parque Pedagógico Recreativo Infantil Maria das Mercês Carreiro, uma área verde com cerca de 7 500 m2.

O espaço agora disponibilizado, pela Câmara Municipal da Ribeira Grande, à população do Pico da Pedra, sobretudo às crianças, e a todos os visitantes é a concretização de um desejo de Maria das Mercês Carreiro e dos seus filhos que fizeram a doação do terreno à referida autarquia.

Com uma ótima localização, no centro da freguesia e muito próximo da Escola do 1º Ciclo do Ensino Básico, o parque tem todas as condições para ser um precioso auxiliar a todos os docentes que queiram implementar ações de educação ambiental, estejam dispostos a livrar-se do ensino livresco e não tenham qualquer receio em derrubar os muros das salas de aula.

Não me vou alongar com referências às denominadas zonas pedagógicas, mas de entre elas destaco o anfiteatro ao ar livre que poderá ser aproveitado para aulas, realização de ações de sensibilização, apresentação de pequenas peças de teatro, atuação de grupos musicais, etc.

Numa visita, muito rápida, que fiz ao parque no dia da sua inauguração identifiquei cerca de 30 espécies de plantas diferentes pelo que o mesmo poderá ser, com algumas medidas a serem implementadas, um pequeno jardim botânico, onde para além da conservação de várias espécies, como as endémicas dos Açores, poderá ser feita a sensibilização e consciencialização para a importância das plantas para a vida humana e para os ecossistemas.

Para a formação dos visitantes e sobretudo dos picopedrenses é importante fornecer informação sobre o que os mesmos observam. Assim, sugiro que a Câmara Municipal da Ribeira Grande faça a identificação das espécies vegetais presentes com uma pequena placa com a indicação do nome científico, do nome comum, da família e da origem geográfica de cada planta. Se para a identificação será necessária a colaboração de um especialista, pelo menos para algumas espécies, pelo menos numa primeira fase as placas poderiam ser pintadas pelos alunos da Escola António Augusto da Mota Frazão.

Sobre as plantas presentes no parque, destaco a ideia acertada de manter algumas das já existentes no terreno, como os eucaliptos, os incensos, os louros, as acácias, as anoneiras e os araçazeiros e de introduzir várias espécies da flora primitiva dos Açores, como a urze, que foi usada para fazer vassouras e em tinturaria vegetal para obtenção do verde, o folhado, cuja madeira era usada no fabrico de alfaias agrícolas, a faia-da-terra, que foi muito usada em sebes e em tinturaria para a preparação de uma coloração amarela, chegando a sua madeira a ser utilizada para produzir um carvão medicinal usado como adsorvente de gases do estomago e intestinos, o azevinho, cuja madeira foi usada em obras de marcenaria e o cedro-do-mato, considerado a mais nobre “essência dos bosques dos Açores”, que foi utilizado pelos antigos na construção de igrejas, conventos e barcos e na tinturaria vegetal para obtenção do cinzento-escuro.

Entre as espécies introduzidas mais recentemente destaco a presença da estrelícia, oriunda da Árica do Sul, do ginko, um fóssil vivo de origem chinesa que é “símbolo de paz e longevidade por ter sobrevivido às explosões atómicas do Japão” e do dragoeiro, oriundo dos arquipélagos da Madeira e das Canárias.

Por último, uma chamada de atenção para uma bonita planta ornamental, a sevadilha, originária da Região Mediterrânea, que é muito comum entre nós em bermas das estradas, jardins de casas e em recreios de escolas mas que é extremamente venenosa tanto para o homem como para os animais.

Os meus parabéns à família e à autarquia que tornaram possível a concretização de um sonho.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31258, 21 de junho de 2017, p.16)

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Luís Leitão, Pestalozzi e os animais


Luís Leitão, Pestalozzi e os animais

No texto de hoje, volto a recorrer à Revista Pedagógica, criada e dirigida por Maria Evelina de Sousa, no século passado, e a um dos colaboradores daquela publicação, Luís Leitão que no nº 241, de 28 de novembro de 1912, deu a conhecer aos leitores o texto “Animais e Crianças”.

No seu texto, Luís Leitão, depois de referir que em Siracusa um mestre-escola havia defendido que a melhor forma de “adoçar o caracter das crianças duras e grosseiras “ seria através do “despertar nelas o apreço pelos animais”, afirmou o seguinte: “Que beleza não era para todos nós se cada professor primário destinasse uma hora de cada semana para falar com os seus discípulos em assuntos que os prendessem com os animais em geral”.

Esta sugestão de solicitar aos professores alguns minutos semanais para uma sensibilização para a defesa dos direitos dos animais foi uma das primeiras medidas da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais de Alice Moderno e de Maria Evelina de Sousa.

No texto que vimos referindo, Luis Leitão menciona o nome de Johann Heinrich Pestalozzi (1746 - 1827), um pedagogo e educador nascido na Suíça, que segundo alguns autores antecipou algumas conceções que surgiram mais tarde, no final do século XIX e inicio do século XX, com o Movimento da Escola Nova.

Pestalozzi, que era “o mais alto espírito de quantos se têm dedicado a estudar a alma das crianças”, segundo Luís Leitão, defendeu “que era preciso desenvolver nas crianças, desde a idade mais tenra a bondade e a compaixão para com os animais, porque é com eles que a criança está mais em contato. Tornado adulto, acrescenta o grande pedagogo, exercerá para com os seus semelhantes os mesmos sentimentos que tiver cultivado para com os seres inferiores”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31257, 20 de junho de 2017, p. 11)

terça-feira, 13 de junho de 2017

Trabalho de projeto no ensino da Química



Trabalho de projeto no ensino da Química

Se não me falha a memória, a primeira vez que ouvi falar em trabalho de projeto foi através da leitura do texto “Projeto é projétil”, publicado na revista Raiz e Utopia, nº 9/10, relativa à Primavera-Verão de 1979, que adquiri na Horta, durante a semana do mar de 1984.

O texto em questão, da autoria de Luísa Cortesão, Manuela Malpique, Maria Amélia Torres e Maria de Jesus Lima, membros de uma equipa de formação de formadores, relata uma experiência implementada em 1977, apresentando as várias etapas de um trabalho daquele tipo.

Para as autoras, o trabalho de projeto “consiste fundamentalmente numa atividade a desenvolver em equipa, durante a qual se procura tratar um problema – que tenha real interesse para o grupo e que, sendo embora relacionado com a profissão, tenha as suas raízes na envolvente social”.

Embora seja uma proposta pedagógica antiga, o trabalho de projeto tem sido pouco usado nas escolas, podendo segundo Bernardino Lopes (2004) ser aplicado a qualquer nível de ensino. O autor mencionado corrobora a afirmação das autoras citadas anteriormente no que diz respeito ao facto de um trabalho de projeto partir de um problema e acrescenta que para o mesmo “se pretende obter uma resposta (sob a forma de produto, serviço, etc.) com relevância científica e/ou tecnológica e/ou social e destinada a um público-alvo”.

O Movimento da Escola Moderna, que na ilha de São Miguel vem, desde o ano letivo passado, organizando Sábados Pedagógicos abertos a todos os profissionais de educação, possui um modelo pedagógico assente em vários postulados de que destaco os seguintes:

1- O conhecimento constrói-se pela consciência do percurso da sua própria construção: os alunos caminham dos processos de produção integrados nos projetos de estudo, de investigação ou de intervenção, para a compreensão dos conceitos e das suas relações;

2- Os alunos partem do estudo, da experiência e da ação nos projetos em que se envolvem, para a sua comunicação. A necessidade de comunicar o processo e os resultados de um projeto de trabalho dá sentido social imediato às aprendizagens e confere-lhes uma tensão organizadora que ajuda a estruturar o conhecimento.

O trabalho de projeto é uma das técnicas ou melhor estratégias, segundo Pedro Gonzalez (2003), usadas pelo MEM para materializar as suas propostas pedagógicas.

Como tenho participado nas ações de formação do MEM, decidi implementar o trabalho de projeto, numa turma do 7º ano de escolaridade da Escola Secundária das Laranjeiras, com o objetivo de abordar o seguinte conteúdo: Separação das substâncias de uma mistura.

Os alunos tiveram liberdade de escolher com quem trabalhar, tendo-se formado vários grupos de dois elementos e um grupo com três. A cada grupo foi colocada uma questão inicial/problema a resolver, como por exemplo, como separar uma mistura de água e azeite ou como separar uma mistura de areia e sal.

Depois de uma resposta inicial com recurso aos conhecimentos que já possuíam, tiveram que fazer uma pesquisa bibliográfica e depois desta realizaram o trabalho experimental necessário para resolver o problema.

Depois de concluírem o trabalho de laboratório, elaboraram um relatório final, onde registaram a técnica usada, o material utilizado e o procedimento experimental.

Por último, apresentaram oralmente o seu trabalho aos restantes membros da turma e fizeram a sua auto e heteroavaliação.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31253,14 de junho de 2017,p.19)

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Reclus e os animais



Reclus e os animais

O meu interesse em conhecer melhor as várias correntes da pedagogia e as várias publicações que ao longo dos tempos as divulgaram fez com que esteja a ler a “Revista Pedagógica”, criada e dirigida por Maria Evelina de Sousa, que se publicou no início do século passado.

Através de um texto, de Luís Leitão, intitulado “Nós perante os animais”, publicado no número 298, de 24 de setembro de 1915, tomei conhecimento de alguns pensamentos do famoso geógrafo anarquista francês Jean Jacques Élisée Reclus (1830-1905) sobre os animais e o seu relacionamento com os humanos.

De acordo com Luís Leitão, Reclus terá afirmado que “o homem recebeu da ave essa prenda inestimável que é a noção da beleza e mais ainda a da criação poética” e acrescentado: “ Como poderia ele esquecer a calhandra que se lança no espaço infinito soltando gritos de júbilo ou o rouxinol que durante as noites silenciosas enche o bosque com as modulações ardentes ou melancólicas do seu canto?”

A leitura de um texto de Reclus intitulado “A grande família” merece uma reflexão, pois apesar dos progressos materiais alcançados pelas sociedades modernas, se queremos ser mais humanos devemos aprender com os bons exemplos do passado e das culturas que muitas vezes consideramos inferiores. Sobre este assunto Reclus escreveu: “Enquanto em relação aos animais, nós falamos hoje em dia de educação ou domesticação no sentido de escravidão, o primitivo pensava fraternalmente na associação. Ele viu nestes seres companheiros, e não servos, e de facto as criaturas – cães, pássaros, serpentes –, vinham de encontro a ele em caso de perigo comum, especialmente em tempos de tempestade ou inundação.”

Reclus, no texto referido, também se debruça sobre a domesticação dos animais, escrevendo que aquela “atesta também em muitos aspetos uma genuína deterioração moral, pois, longe de melhorar os animais, nós os enfeiamos, vilipendiamos e corrompemos “ e acrescenta o seguinte: “Mesmo quando domesticaram os animais sob as melhores condições, eles diminuíram sua força de resistência à doença, sua capacidade de adaptação a novos meios, fazendo deles seres artificiais, incapazes de viver espontaneamente na natureza livre.”

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31252, 13 de junho de 2017, p.12)

quinta-feira, 8 de junho de 2017

“A República” e Ferrer Y Guardia




“A República” e Ferrer Y Guardia

“O verdadeiro educador é aquele que, às vezes até mesmo contra as suas próprias ideias e vontades, apoia a criança e o desenvolvimento de suas energias.” (Ferrer y Guardia)

Francisco Ferrer y Guardia (1859-1909) foi um pedagogo libertário espanhol criador da Escola Moderna que foi fuzilado em 12 de outubro de 1909, acusado, injustamente, de ter instigado uma insurreição operária em Barcelona, em julho daquele ano.

O assassinato de Ferrer y Guardia foi condenado em todo o mundo, não só pelas pessoas e organizações que possuíam a mesma ideologia, mas também por todos os que defendiam ideias humanistas e progressistas.

Em texto anterior, publicado neste jornal no dia 22 de outubro de 2014, mencionei algumas reações à sua morte publicadas nos seguintes jornais de São Miguel: “Vida Nova”, de Francisco Soares Silva, “A Folha”, de Alice Moderno e “O Repórter”, de Alfredo Câmara. Hoje, darei a conhecer o conteúdo de alguns textos publicados no jornal “A República” que tal como os anteriores se publicou em Ponta Delgada.

Em novembro de 1911, “A República” noticiou a inauguração de um monumento de homenagem ao “mártir da liberdade de pensamento”, Francisco Ferrer, na Praça de Santa Catarina na cidade de Bruxelas.

Em março de 1912, numa pequena nota intitulada “A reação protestou” o autor, a propósito da entrega dos livros de Ferrer aos seus legítimos herdeiros escreveu o seguinte:

“Olha a novidade! Pois o que havia de fazer se não protestar?

O que ela queria, era que os livros fossem queimados, e que a luz que d’eles possam receber os que os lerem, fosse apagada para não mais brilhar.

Mas que importa que a reação proteste, se o facho da Verdade e da Liberdade vai iluminando quase todo o mundo?

Para crime bem bastou a morte de um homem; ainda lhe queriam matar a obra.”

Em junho de 1913, o jornal publica um extrato de um discurso do “pai do socialismo” em Espanha, Pablo Iglésias (1850-1925), onde este depois de afirmar que ainda que Ferrer fosse responsável pela Semana Trágica de Barcelona seria “politicamente inábil matá-lo porque representava e simbolizava grandes elementos de opinião”. No mesmo discurso Iglésias afirmou o seguinte:

“Mas o mais monstruoso é que o mataram, como sendo o caudilho d’uma revolução, caudilho que de facto não foi. Não puderam nunca demonstrá-lo. Dizeis que se cumpriu a lei; pois se se tratou de um assassinato e se este se fez em nome da lei, essa lei é monstruosa”.

No mesmo mês, o jornal noticiava a morte de Paz Ferrer, filha do “imortal mártir de Montjuich” que sofreu muito com a morte do seu pai de tal modo que o autor do texto escreveu : “…Depois da morte de seu pai, o desespero tornou-a ainda maior, e na idade em que só há sorrisos e flores ela conheceu as inenarráveis amarguras da Dor. Esse seu desespero matou-a. Pobre Paz Ferrer! Foi vítima do crime que matou o pai!”

Hoje, com a escola a atravessar uma grande crise, com os governantes a tentar implementar reformas atrás de reformas, projetos atrás de projetos importa estudar todas as experiências educativas, nunca esquecendo que não se consegue sucesso na escola numa sociedade de sucesso para muito poucos.

O projeto pedagógico de Ferrer y Guardia, que teve a primeira concretização em 1901 com a criação da primeira escola moderna, numa altura em que em Espanha a taxa de analfabetismo era superior a 50%, é um dos que deve merecer a atenção por parte de quem se preocupa em deixar uma melhor sociedade para os vindouros.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31248, 8 de junho de 2017, p.15)

terça-feira, 6 de junho de 2017

Maria Evelina de Sousa e a Sociedade Micaelense Protetora dos Animais


Maria Evelina de Sousa e a Sociedade Micaelense Protetora dos Animais

Penso não estar errado ao afirmar que embora Maria Evelina de Sousa tenha abraçado várias causas a que terá tido mais importância em termos sociais foi a da educação, quer através da sua profissão de professora, quer através da direção da Revista Pedagógica.

A outra grande causa a que ela se dedicou foi a da proteção animal, através dos textos que publicou em vários periódicos, como a Revista Pedagógica ou o Correio dos Açores, e através do seu trabalho na SMPA- Sociedade Micaelense Protetora dos Animais de que foi uma das fundadoras, em 1911.

Maria Evelina de Sousa foi a autora dos estatutos da SMPA, tendo para a sua elaboração usado como “modelo os estatutos da Sociedade Protetora dos Animais de Lisboa”. Sobre as diligências para a criação da SMPA, Maria Evelina de Sousa lamentou, na Revista Pedagógica de 6 de outubro de 1910, o facto de ter suspendido os trabalhos para a sua concretização “por falta de coadjuvação da parte dos restantes membros da comissão”.

Depois de um período de alguma inatividade da SMPA, foi criada, em 1931, uma comissão que teve por missão a sua reorganização. Maria Evelina de Sousa foi um dos membros da comissão que desenvolveu esforços para a eleição de uma nova direção e para o estudo dos meios a usar para intensificar a proteção aos animais.

Para além de ter sido o braço direito (e o esquerdo) de Alice Moderno, em muitas ocasiões foi Maria Evelina de Sousa a porta-voz da SMPA, tendo também feito parte dos seus órgãos sociais. A título de exemplo, mencionamos a sua eleição para suplente da Presidente da Direção, nos anos de 1934 e 1935, e para tesoureira, no ano de 1936.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31247, 7 de junho de 2017, p.13)

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Touradas à corda e festas (religiosas)


Touradas à corda e festas (religiosas)


Todos os anos a bola de neve cresce, isto é a lista de touradas tradicionais vai aumentando o que prova que nas ilhas Terceira, Graciosa e São Jorge, a indústria tauromáquica tem sido bem-sucedida no seu intento de ganhar dinheiro à custa do desrespeito pelos direitos dos animais e da deseducação das pessoas que desde a mais tenra idade são obrigadas a assistir a touradas, acabando por a elas se habituar.

O sucesso do negócio não seria possível sem o apoio hipócrita dos fundos europeus e dos governantes e autarcas da região que apoiam ganadarias e touradas associadas a festas, religiosas ou não.

Como se não bastassem os apoios monetários há legislação nacional e regional que regula a tortura tauromáquica. No caso das touradas à corda, há legislação que define o que é uma tourada tradicional, que é a que “realizando-se na mesma data, na mesma área territorial, estando ligada a uma festividade da freguesia onde se realiza e sendo organizada exclusivamente por entidades cujo eventual fim lucrativo contribui, do modo direto, para essa mesma festividade”.

Atendendo a que a maioria das festas realizadas nos Açores são religiosas não é difícil associar as touradas à corda àquelas festas, sobretudo na ilha Terceira que é onde a indústria tauromáquica tem maior implantação.

O que não se pode afirmar é que haja uma associação perfeita entre touradas e religião e que sobretudo é uma característica açoriana a realização de touradas à corda associadas às irmandades do Espírito Santo. Com efeito, tal quase só acontece na ilha Terceira que é um verdadeiro inferno para os bovinos e na Graciosa e São Jorge, ilhas onde os tentáculos da indústria tauromáquica são maiores.

A provar o que afirmámos, basta os leitores consultarem o jornal “Angrense” que se publicou entre Setembro de 1836 a Setembro de 1910, para constatarem que nem todas as festas do Espírito Santo, que se realizavam na ilha Terceira, eram acompanhadas por touradas à corda, havendo noutras touradas de praça para angariação de fundos.

A leitura de um texto publicado no jornal, angrense, “Primeiro de Maio”, no dia 6 de setembro de 1902, desmascara todas as patranhas que são hoje divulgadas pelos defensores das touradas à corda.

No início do século passado o número de touradas era muito menor do que o atual como se pode ler no seguinte extrato:

“No meu tempo, eram consideradas clássicas três touradas: São João de Deus, Serreta e Terra Chã.

Depois a pretexto d’isto e daquilo, anunciava-se uma tourada à corda; mais tarde a política tanto esticou a corda, que esta trouxe o bravo até ao centro da cidade.”

Sobre a ligação entre as festividades religiosas e as touradas o autor, depois de afirmar que touros só havia na festa da Serreta acrescenta:

“Depois veio a festa da Senhora de Lourdes, nos Altares, …etc. etc. de modo a que cada Senhora arranjou a sua festa e o bom povo da localidade, como complemento e suplemento, a iluminação da véspera, a respetiva ladainha, e, na segunda-feira a competente tourada.

E assim ficou subentendido que à festa religiosa se devia aliar …a dos touros, e o povo que pagava as primeiras, impôs-se, e as segundas vieram, como parte obrigatória, a despeito de muitos ralhos de algum prior refratário à inovação de se misturar o sagrado com o profano.”

Depois, os políticos populistas viram nas touradas uma oportunidade para caçar votos e passaram a oferecê-las aos eleitores, previamente deseducados, como terá acontecido no passado na Ilha Terceira e mais recentemente na ilha de São Miguel pela mão de dois ex- presidentes de Câmara e por um candidato a tal que acabou por ser eleito.

O autor citado, relativamente à ilha Terceira, sobre o assunto escreveu: “Depois as lutas eleitorais, os melhoramentos iniciados em qualquer freguesia começaram também a pedir a parte obrigada de touros à corda.”

Algures nos Açores, 4 de junho de 2017
J. Ormonde

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Ainda sobre Ilídio Sardoeira



Ainda sobre Ilídio Sardoeira

Publiquei, recentemente, neste jornal dois textos sobre o Dr. Ilídio Sardoeira e continuo a pesquisar informações acerca da sua vida e obra, nomeadamente nos jornais de Ponta Delgada, durante o período em que ele viveu em Ponta Delgada e lecionou na Escola Secundária Antero de Quental.

Hoje, darei a conhecer um episódio ocorrido no funeral do prestigiado matemático Bento de Jesus Caraça (1901-1948) e algumas informações colhidas em edições antigas do Correio dos Açores.

Em junho de 1948, faleceu Bento de Jesus Caraça, grande vulto da ciência e cultura de Portugal que foi um destacado dirigente da oposição ao Estado Novo.

O seu funeral, realizado a 1 de julho, foi uma grande de manifestação de pesar pelo seu falecimento e de oposição ao governo do Dr. Oliveira Salazar, que nem depois de morto o deixou em paz. Naquele participou o Dr. Ilídio Sardoeira que ficou com a responsabilidade de fazer o seu elogio fúnebre.

A polícia política, que se infiltrou no meio de todos os antifascistas e amigos que quiseram prestar uma última homenagem a Bento de Jesus Caraças, impediu que o Dr. Ilídio Sardoeira usasse da palavra, acabando o texto do elogio fúnebre sido depositado na urna com o corpo.

Numa consulta aos jornais publicados em São Miguel, descobrimos que o Dr. Ilídio Sardoeira teve uma colaboração muito reduzida nos mesmos, que eram porta-vozes do regime salazarista como se poderá comprovar pelos artigos de opinião publicados e pela parcialidade com que foi tratada a campanha eleitoral para a presidência da república que colocou, em 1958, frente a frente os candidatos Américo Tomás e Humberto Delgado.

No ano referido, no Correio dos Açores, apenas encontramos um poema intitulado “Vale das Furnas”, dedicado à memória de Afonso Duarte, que abaixo se transcreve:

Um côncavo jardim de ramos nascentes
Com píncaros de assombro vigiando;
Um coração de fogo nas raízes
Primaveras de cor aos olhos dando.

Líquida maravilha de água e pedra
É uma concha, à noite, de levar …
Alto, o silêncio alegre das estrelas
Casa-se ao canto triste que é de mar.

Em 1989, a Escola Secundária Antero de Quental editou o conto “A Princesa, o Pastor e o Rei”, que havia sido publicado no jornal “Comércio do Porto, em 1969, onde Ilídio Sardoeira apresenta uma versão sobre a Lenda das Sete Cidades.

Como se pode ler na brochura, a iniciativa daquela escola foi uma “singela e justa HOMENAGEM da Escola Secundária Antero de Quental, onde foi PROFESSOR e fez discípulos, onde foi “SEMEADOR E SEMENTE”, semente que floriu pela força da amizade”.

A sessão de lançamento do livro ocorreu no dia 15 de novembro, na Biblioteca da Escola Secundária Antero de Quental, tendo a obra sida apresentada pelo Prof. Doutor José de Almeida Pavão que também foi docente daquele estabelecimento de ensino e amigo e admirador de Ilídio Sardoeira.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31242, 31 de maio de 2017, p. 16)

terça-feira, 30 de maio de 2017

A Revista Pedagógica e os animais


A Revista Pedagógica e os animais

Como escrevi no último texto desta série, no próximo dia 5 de junho, Dia da Região, Maria Evelina de Sousa será agraciada com a Insígnia Autonómica de Mérito Cívico.

O seu trabalho, em prol de uma sociedade açoriana melhor, até hoje não foi reconhecido e a sua obra ainda não mereceu o necessário estudo e a devida divulgação.

De entre o que ela fez, destaco a fundação, direção e redação da “Revista Pedagógica”, que, entre 1909 e 1915, para além de estar ao serviço da educação e dos professores, prestou um grande contributo à cultura, à moral, à igualdade de género e à causa animal.

No seu combate pelo respeito aos animais, Maria Evelina de Sousa contou com diversas colaborações, algumas das quais de figuras prestigiadas a nível nacional, como Luís Leitão, que foi um grande defensor dos direitos da criança e dos animais, e José Fontana da Silveira, notável jornalista e escritor autor de inúmeros livros para crianças.

A Revista Pedagógica não se limitou à defesa dos animais ditos de companhia, publicou textos contra a caça, em defesa das aves e contra práticas cruéis, como as touradas.

Sobre este assunto, transcrevo o poema “Na tourada”, da autoria de José Batista, publicado em abril de 1915.

Entra na arena o touro, furioso,
Arremetendo contra o cavaleiro.
Que, impávido, lhe crava, bem certeiro,
Um ferro no cachaço musculoso.

Solta a fera um rígido doloroso,
A que responde o redondel inteiro.
N’uma salva de palmas ao toureiro,
Vitoriando o feito valoroso.

D’um camarote chovem frescas flores,
Arremessadas pela nívea mão
De donzelas lindas como amores!...

Tão lindas, sim, mas parecendo feias…
Porque se apaga o brilho da paixão
Em quem jubila com dores alheias.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31241, 30 de maio de 2017, p.14)

quarta-feira, 24 de maio de 2017

A alimentação vegetariana e o pioneirismo de Amílcar de Sousa



A alimentação vegetariana e o pioneirismo de Amílcar de Sousa

“Leitor! Queres ter saúde? Entrega-te à Natureza, cumpre as suas leis, não a ofendas. E serás outro homem, amarás a Verdade e o Bem e a Moral” (Amílcar de Sousa, O Vegetariano, Janeiro de 1914)

A 17 de abril deste ano, a Assembleia da República aprovou a Lei nº11/2017 que estabelece a obrigatoriedade da existência de uma opção vegetariana nas ementas das cantinas e refeitórios públicos.

De acordo com a referida lei, a obrigatoriedade depende de haver procura e em caso desta ser pequena “as entidades gestoras das cantinas podem estabelecer um regime de inscrição prévio de consumidores da opção vegetariana”.

A lei é também clara quando define opção vegetariana como “a que assenta em refeições que não contenham quaisquer produtos de origem animal”. Trata-se, portando, da opção alimentar que é conhecida como vegetarianismo estrito que, segundo a Associação Vegetariana Portuguesa, “para além da carne, exclui todos os alimentos de origem animal, como laticínios, os ovos e o mel”.

O caminho para chegar à situação atual foi muito longo, milenar. Com efeito, se várias pessoas ao longo dos tempos fizeram a sua alimentação excluindo quaisquer produtos de origem animal, as organizações vegetarianas são mais recentes, tendo a primeira surgido em 1847, em Manchester. Em Portugal, só em 1908 (ou 1911?), surgiu a SVP - Sociedade Vegetariana de Portugal, e nos Açores, em 2016, foi criada a Associação Vegana dos Açores.

Se há dúvidas quanto à data de fundação da SVP, há consenso quanto ao pioneiro do vegetarianismo em Portugal, apontando todos os autores o nome do médico Amílcar Augusto Queirós de Sousa, que nasceu em Cheires, Alijó, em 1876, e faleceu, em 1940, no Porto.

Formado em medicina pela Universidade de Coimbra, Amílcar de Sousa fundou e dirigiu a revista mensal “O Vegetariano” e foi responsável pela criação da Sociedade Vegetariana de Portugal, tendo sido o seu primeiro presidente.

Para além da sua dedicação à divulgação do vegetarianismo, Amílcar de Sousa escreveu vários livros sobre saúde, alimentação, o vegetarianismo e a paz, tendo escrito uma novela intitulada “Redenção”.

Amílcar de Sousa foi, também, um grande adepto do pedestrianismo. Com efeito, caminhava dezenas de quilómetros a pé, descalço, sem apresentar sinais de cansaço, tendo uma vez percorrido mais de 160 km, de Lisboa a Sines.

Amílcar de Sousa era conhecido nos Açores, quer através da revista “O vegetariano”, que tinha alguns assinantes no arquipélago, quer através dos jornais. Um deles, o jornal “A República”, em 1915, publicou uma reportagem sobre “A religião do naturismo” que inclui uma entrevista com aquele médico.

Embora não esteja correto classificar o naturismo como uma religião, pela leitura das respostas de Amílcar de Sousa ficamos a saber que também não é uma mera questão de alimentação, como se poderá constatar através do extrato seguinte:

“As cadeias estão cheias de criminosos, e foi principalmente o uso do álcool que os levou ao crime. Os hospitais estão a abarrotar de doentes, devido às complicações da culinária. A vida é cada vez mais onerosa, pelas exigências do estomago. Ora, com o naturismo, dispensando todas as bebidas, e por consequência o álcool, não se cria criminosos; não precisando da cozinha, evita a maior parte das doenças; limitando aos frutos a alimentação, estabelece o equilíbrio da economia doméstica”.

Perguntado se com o naturismo as doenças desapareceriam, respondeu, citando um “escritor inglês: Se todos os homens fossem naturistas, os médicos passariam a cultivadores de frutos”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31237, 25 de maio de 2017, p.14)

terça-feira, 23 de maio de 2017

Maria Evelina de Sousa: Defensora dos animais vai ser homenageada


Maria Evelina de Sousa: Defensora dos animais vai ser homenageada

Embora não dê grande importância as distinções conferidas a personalidades e instituições pela Assembleia Legislativa Regional dos Açores, pois, a par de pessoas que pela sua ação foram e constituem exemplo para os demais, há outras que pouco fizeram desinteressadamente para a sociedade onde vivem ou viveram.

De entre as pessoas já distinguidas, destaco a figura de Alice Moderno, que foi exemplo em várias áreas da atividade humana, com destaque para o movimento feminista e de defesa dos animais.

Com uma vida que se cruzou com a de Alice Moderno, Maria Evelina de Sousa (1 de janeiro de 1879 – 12 de fevereiro de 1946) foi uma distinta professora primária que foi pioneira na criação de uma biblioteca escolar, na Escola de Santa Clara e na introdução de novos métodos de ensino, como o Legográfico-Luazes e o de João de Deus.

Como jornalista, destaca-se a sua colaboração, entre 1904 e 1907, no jornal portuense dedicado aos interesses da instrução e do professorado “O Campeão Escolar” e a fundação, direção e redação da “Revista Pedagógica”, que se apresentava como órgão do professorado oficial açoriano e que, entre 1909 e 1915, esteve ao serviço da educação e dos professores, tendo uma distribuição a nível nacional.

Lutadora contra a desigualdade, Maria Evelina de Sousa, foi militante de várias associações defensoras da causa feminista, como a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, a Associação de Propaganda Feminista e a Associação Feminina de Propaganda Democrática.

No que diz respeito à defesa dos animais, para além da sua intervenção na imprensa, onde condenou os maus tratos, foi, ao longo da sua vida, com Alice Moderna uma das principais dinamizadoras e dirigentes da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, fundada em 1911.

A 5 de junho, Dia da Região, Maria Evelina de Sousa será agraciada com a Insígnia Autonómica de Mérito Cívico.


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31236 de 24 de maio de 2017, p. 14)

Em defesa do sossego nas Sete Cidades

domingo, 21 de maio de 2017

Forcados incultos


Forcados incultos
A 18 de julho de 2007, um grupinho de meninos educados na ilha Terceira na arte de bem torturar animais decidiram criar uma associação que tem por objeto principal “a pega na garraiada da queima das fitas”. Quando não há animais para importunar a associação, também, pretende “a união e agregação de açorianos estudantes em Coimbra, pois não existe nenhuma outra "organização" em Coimbra que os represente ou que os possa agregar.”

A denominada “Associação Grupo de Forcados Açoreano Tremores de Terra” é, segundo os seus responsáveis, “o mais antigo grupo de forcados existente na região de Coimbra” que “tem contado com a colaboração do Grupo de Forcados da Escola Agrária de Coimbra”.

Este ano, como a tortura de animais já passou de moda, decidiram organizar um Encontro de Estudantes Açorianos que contou com a colaboração do Governo Regional, que comparticipou com cinco mil euros, e da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, que atribuiu um apoio financeiro no valor de mil euros.

Do que conhecemos do programa do encontro não constou nenhuma prática de tortura animal, mas não deixa de ser estranho um encontro de estudantes que pretendeu discutir, entre outros assuntos “a Autonomia dos Açores, as potencialidades da Região para o regresso dos estudantes que se encontram no exterior” seja organizado por uma associação que tem por objetivo principal atormentar e maltratar bovinos.

J. Ormonde

quarta-feira, 17 de maio de 2017

SOCIALISMO E GAVETAS


SOCIALISMO E GAVETAS

Terá sido na sequência de uma decisão da Primeira Internacional (AIT) que foi constituído em Portugal o Partido Socialista que contou com o contributo de, entre outros, Azedo Gneco, operário gravador na Casa da Moeda e com um pensamento muito próximo das ideias de Karl Marx, José Fontana, de nacionalidade suíça, encadernador, depois caixeiro e sócio-gerente da Livraria Bertrand e um grande adepto do cooperativismo, Nobre França, tipógrafo que foi o primeiro secretário da Secção Portuguesa da AIT e redator do primeiro programa daquele partido e Antero de Quental, que dispensa qualquer apresentação.

A participação do partido socialista, quer durante a monarquia, quer na Primeira Rrepública, traduziu-se num fracasso já esperado, pois os potenciais votantes, os trabalhadores, não podiam votar por serem na sua esmagadora maioria analfabetos. Sobre as eleições, Antero de Quental, que foi convidado para ser candidato a deputado afirmou: “ Não pretendo ser deputado. Sei, porém, que não é também isso que o P.S. tem em vista, mas propriamente marcar e definir, com um voto, a sua posição no tereno político. A candidatura neste caso é mais um pretexto, uma ocasião”.

Na Primeira República, alguns ideais do Partido Socialista foram esquecidos, surgiram divergências várias entre os que socialistas favoráveis à participação de Portugal na Guerra Mundial e os que se opunham e a participação de socialistas nos governos levaram ao afastamento de muitos militantes. Para além do declínio da organização, os socialistas que chegaram a ter muita influência nos sindicatos e a controlar o movimento cooperativo perderam terreno para os sindicalistas revolucionários.

A atuação dos socialistas foi criticada, por Bento Gonçalves, que foi secretário-geral do Partido Comunista Português, fundado a 16 de março de 1921, nos seguintes termos:
“Fora o Partido Socialista um partido revolucionário e o proletariado português teria, em 1910, decidido as suas reivindicações dessa época e firmaria melhor as suas posições. Mas quem tinha a palavra era um partido oportunista, um partido que desviava a classe operária do seu justo caminho, colocando-a à mercê dos interesses da burguesia republicana”.

Já durante o Estado Novo, António Sérgio, que esteve refugiado em França, tentou uma aproximação ao que restava do Partido Socialista, tendo, segundo José Hipólito dos Santos, num jantar do 1º de Maio realizado em 1947, apresentado uma proposta de construção do socialismo baseado no cooperativismo, tal como preconizava José Fontana, quando escreveu: “Queremos a emancipação económica do proletariado pelas sociedades cooperativas de produção e de consumo, organizadas de modo que os produtos sejam dos produtores – o que vale o mesmo que dizer: acabe-se a exploração do homem pelo homem.” De acordo com José Hipólito dos Santos, as propostas de António Sérgio “foram recebidas com as maiores reservas- ele era considerado como um intelectual desligado das realidades nacionais, um homem que gostava de falar e de falar bem, mas o socialismo não se coaduna com utopias…”

Em 1973, aquando da sua fundação, o Partido Socialista, na sua Declaração de Princípios, declarava que tinha “por objetivo a edificação de uma sociedade sem classes, em que os trabalhadores serão produtores associados, o poder, expressão da vontade popular e a cultura, obra da capacidade de todos” e repudiava “o caminho daqueles movimentos que, dizendo-se social-democratas ou até socialistas acabam por conservar deliberadamente ou de facto as estruturas do capitalismo e servir os interesses do imperialismo”.

Hoje, não sei se haverá algum militante socialista que se reveja na Declaração de Princípios mencionada.

Na declaração que está em vigor, aprovada no congresso realizado em 2002, a linguagem está mais suavizada e os objetivos são tão vagos que poderiam ser subscritos por pessoas dos mais diversos quadrantes político-partidários, como se pode constatar pelo seguinte extrato, onde é preconizada: “ uma sociedade mais livre, mais justa, mais solidária, mais pacífica, através do aperfeiçoamento constante e do desenvolvimento harmonioso da democracia”

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31231, 17 de maio de 2017, p.18)



terça-feira, 16 de maio de 2017

Burros: vítimas e vingadores


Burros: vítimas e vingadores

Numa altura em que muito se fala na defesa das tradições, algumas anacrónicas e outras bárbaras, tinha pensado escrever sobre burros que foram durante séculos preciosos auxiliares dos humanos nas suas tarefas agrícolas e no transporte de bens, mas fui surpreendido por uma recente reportagem do Correio dos Açores que refere o verdadeiro “massacre” daqueles animais na ilha de São Miguel.

Primeiro, uma referência a uma “tradição” que despareceu e que consistia na lavagem de burros e cavalos na Pontinha, em São Roque. Sobre o assunto, no Correio dos Açores, do dia 26 de abril de 1972, podemos ler: “… parece-nos ser chegada a altura de ir acabando com certos costumes, algo pitorescos mas de duvidosa higiene”. O autor do texto apelou às autoridades competentes para a proibição de “tais práticas numa zona prioritária de arranque turístico a dois passos das mais frequentadas praias de São Miguel”.

A morte de 19 burros e o roubo de dois, criados por gosto, na Rocha das Feteiras, nos últimos cincos anos deve merecer de todas as pessoas o máximo repúdio e os energúmenos deverão ser rigorosamente castigados, sem apelo nem agravo.

A propósito da malvadez humana, termino este texto, dando a conhecer o caso de um burro que fez justiça pelas próprias mãos (neste caso boca).

Segundo o Correio dos Açores de 27 de agosto de 1924, em Angra do Heroísmo um rapaz foi mordido por um burro que era vítima de maus tratos.

Abaixo, deixo um extrato da notícia:

“… o Lourenço, assustado, aflito, vendo o perigo que corria, atirou-se do burro para fora, caindo estatelado no meio do chão.

O burro - que lhe tinha raiva por ele o tourear e lhe bater – estacou e avançou logo sobre o pobre Lourenço, que não teve tempo de fugir, e, pegando-lhe com a boca no braço direito, abanou frenética e violentamente todo o corpo do infeliz rapaz, moendo e despedaçando-lhe o músculo do braço e produzindo-lhe várias contusões, sobretudo na cara e cabeça que ficaram em maus estado.”

Infeliz rapaz, pobre do burro.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31230, 16 de maio de 2017, p. 16)

quarta-feira, 10 de maio de 2017

O sonho de Gonçalves Correia na Revista Pedagógica


O sonho de Gonçalves Correia na Revista Pedagógica

A professora Maria Evelina de Sousa fundou e dirigiu a “Revista Pedagógica”, que se apresentava como órgão do professorado oficial açoriano e que, entre 1909 e 1915, esteve ao serviço da educação e dos professores.

Quem tiver a oportunidade de ler a revista, facilmente toma conhecimento de que a mesma estava aberta a várias opiniões, algumas delas não coincidentes com as da diretora da revista, e a várias correntes do pensamento, como o anarquismo de que é exemplo a publicação de um texto do anarquista tolstoiano António Gonçalves Correia (1886-1967).

O anarquista, vegetariano, ensaísta, poeta e humanista Gonçalves Correia esteve de passagem na ilha de São Miguel, em 1910, tendo conversado com Francisco Soares Silva diretor do jornal “Vida Nova” e tudo leva a crer que terá feito o mesmo com Maria Evelina de Sousa. O resultado foi a publicação do texto “O presente e o futuro”, datado de 29 de dezembro de 1910, publicado no número 167, de 9 de fevereiro de 1911, da Revista Pedagógica.

Dado o interesse do mesmo para quem quer conhecer melhor o pensamento de Gonçalves Correia e para quem não se conforma em viver numa sociedade injusta, abaixo transcrevemos um longo extrato:

Sobre a situação que então se vivia podemos ler:

Vergados ao peso brutal e desumano do maldito fardo posto aos seus ombros enfraquecidos, jungidos à canga infamíssima que a ordem burguesa criou, ei-los que passam tristes, os pobres proletários desprotegidos, sofrendo os horrores indescritíveis que uma sociedade madrasta lhes criou.
….
Pobres que tendes de ver com fome os vossos filhos! Pobres que sentis partir o coração por não lhes poderdes satisfazer as mais imperiosas necessidades! Pobres que deixais morrer a companheira querida, tantas vezes a vossa maior alegria, a vossa maior consolação!

Quem sois vós!
Os degraus preciosos por onde sobem milhares de parasitas, a escada apetecida dos mais tirânicos burgueses!”

Sobre a sociedade futura, o autor de “Estreia de um Crente” e “A Felicidade de todos os Seres na Sociedade Futura” escreveu:

“Soberba de vegetação e verdura, riquíssima de águas cristalinas, e de avezinhas multicores, eis ante os meus olhos famintos do Belo a encantadora planície onde se erguem com orgulho majestosos chalets de formas várias, partes constituintes d’uma comuna fraternal e solidária, cujos habitantes, pondo de parte egoísmos do passado e vaidades que esqueceram, se amam, se compreendem, se solidarizam irmãmente, sabendo compreender a sua missão social até ao ponto de exigirem de cada um segundo as suas forças e de darem a cada um segundo as suas necessidades. As asas repelentes e agourentas da miséria não visitam aquele ponto ideal, enxotadas criteriosamente pelos seus habitantes que souberam atacá-las coletivamente, que compreenderam a tempo a beleza incomparável do comunismo livre.

Desgraças naquele paraíso?

É doença que por lá não medra porque a caudalosa corrente de solidariedade que ali se pratica não permite a sua propagação.

Tudo é livre e, ao mesmo tempo, tudo é criterioso. Todos amam e todos são felizes.

Ricos? Não há.

Pobres? Também não.

Pois? Solidariamente, coletivamente, fazem a riqueza da comuna, arrancando à terra, a mãe querida do homem, tudo que constitui os seus prazeres, os seus risos, as suas felicidades.

Vida de lágrimas e de crimes, trocada por uma vida de amor e de Justiça!”

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31225, 10 de maio de 2017, p.17)

segunda-feira, 8 de maio de 2017

A propósito de Burros na Ribeira Seca



A propósito de Burros na Ribeira Seca

De vez em quando, minha tia Zélia Soares que tem 87 anos pergunta se me recordo de meu avô, Manuel Soares, que morava na rua do Jogo, na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, ter uma burra.

A burra referida pernoitava no rés-do-chão da casa até que uma doença que atingiu vários membros da família levou a que, por conselho médico, meu avô a retirasse de lá.

À semelhança de meu avô outras pessoas na localidade, também, usaram burros para transporte de cargas, nomeadamente canados de leite, lenha para os fornos ou sacas de milho para os moinhos.

Se bem me lembro, lá na rua possuíam burros o senhor Ernesto que era dono meia dúzia de cabeças de gado e que para reforçar o seu orçamento familiar também se dedicava ao comércio de alguns produtos agrícolas, tendo ficado com a alcunha de “Ernesto das mónicas” por as (nêsperas) ter vendido e o senhor José Cabral que foi o último moleiro da Ribeira Seca, cuja moagem elétrica foi musealizada e encontra-se aberta ao público.

Para além das pessoas já mencionadas, também me recordo de terem possuído burros, na Ribeira Seca, três outros moleiros: José Estevão, Manuel Verdadeiro e Ângelo Verdadeiro.

O senhor José Estevão, que foi último moleiro que usou um moinho movido pela água da ribeira que atravessa a localidade, era um grande conhecedor da história de Portugal, tal como foi transmitida pelo Estado Novo.

Manuel Verdadeiro, irmão de minha avó Maria Verdadeiro, primeiro teve um moinho de água, localizado nos Moinhos, hoje em ruínas, e depois um movido a eletricidade, localizado na rua Nova, também possuía uma burra que depois foi herdada, tal como o moinho, pelo seu filho Ângelo que morou na rua da Cruz.

Este meu primo Ângelo era o que se pode chamar um doente pelo futebol, mais propriamente pelo Sport Lisboa e Benfica. Assim, sobretudo às segundas-feiras, sempre que o “glorioso” ganhava os jogos no dia anterior, quando ele ia buscar mais milho para moer, para além de muitos vivas ao Benfica que ia distribuindo pelas ruas, a burra apresentava-se bem aperaltada e com as unhas pintadas de vermelho.


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31224, 9 de maio de 2017, p.17)

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Veríssimo Borges e a política


Veríssimo Borges e a política

Hoje, lembrei-me de Veríssimo Borges, depois da leitura de um livro sobre a vida e a obra do anarquista terceirense Adriano Botelho e de ler um texto do engenheiro Jorge Macedo sobre a construção da desnecessária incineradora, se o desenvolvimento sustentável que se apregoa fosse para ser levado a sério e não um conceito ilusório pois, segundo Leonardo Boff, postula um desenvolvimento “que se move entre dois infinitos: o infinito dos recursos da Terra e o infinito do futuro. A Terra seria inesgotável em seus recursos. E o futuro para frente, ilimitado. Ora, os dois infinitos são ilusórios: os recursos são finitos e o futuro é limitado, por não ser universalizável” (Rui Kureda, 2009).

Antes de entrar no tema proposto, quero recordar que fui membro da Quercus, o sócio mais antigo nos Açores, mas por ser presidente dos Amigos dos Açores decidi nunca ter um papel ativo no núcleo de São Miguel daquela associação que surgiu na sequência da minha apresentação do Veríssimo a Viriato Soromenho Marques, durante um jantar no Casino das Furnas, aquando da presidência aberta de Mário Soares.

O Veríssimo Borges ainda hoje é conhecido pela sua militância em defesa da causa ambiental, tendo sido o dirigente mais conhecido do Núcleo de São Miguel da Quercus, durante muitos anos a maior associação ambientalista portuguesa até se “fragmentar”, dando origem a outras duas organizações, o FAPAS – Fundo para a Proteção dos Animais Selvagens, em 1990, e a ZERO- Associação Sistema Terrestre Sustentável, em finais de 2005.

Numa aula do Mestrado em Educação Ambiental que frequentei com o Veríssimo, perguntado sobre a sua opção política, a sua resposta foi: “sou anarquista autoritário”. Não vamos perder muito tempo com esta afirmação contraditória, como ele próprio reconheceu na altura, pois os anarquistas rejeitam qualquer forma de autoritarismo, mesmo que temporária, como defendem algumas correntes socialistas.

Noutra ocasião, sobre a vida política, Veríssimo Borges afirmou: “Tenho uma particular aversão pelos partidos do governo e alternativa. São extremamente parecidos e alternam o jogo da “cadeirinha”. E pela sua própria função e situação no todo social, põem os interesses partidários à frente dos interesses nacionais coletivos”.

Sobre o seu posicionamento politico, após o 25 de abril de 1974, depois de mencionar que se posicionou na extrema-esquerda e que sem ter mudado a sua forma de pensar, embora “perfeitamente apartidário” se revia no Bloco de Esquerda e concluiu: “Nunca me revi nas esquerdas do PC, nunca fui comunista e agora até os respeito porque eles também não o são”.

Em 2008, o Veríssimo foi o segundo candidato a deputado nas listas do Bloco de Esquerda por São Miguel tendo aquela força partidária suspendido a campanha devido ao seu falecimento. Num comunicado sobre o mesmo pode-se ler: "O Bloco inclina-se perante a memória de Veríssimo Borges, lutador emérito pela causa da preservação ambiental dos Açores e do bem-estar social das populações destas ilhas, que ele amava como ninguém".

Antes do 25 de abril de 1974, o Veríssimo Borges foi contra a ditadura, foi preso algumas vezes pela PIDE, tendo-se tornado político, segundo ele, a partir de 1969 à custa das prisões.

Uma das prisões do Veríssimo ocorreu no dia 1 de maio de1969, perto do Rossio, em Lisboa, após ter sido detido pela PIDE, por estar a distribuir folhetos sobre o 1º de Maio, Dia do Trabalhador.

Em 1969, Veríssimo Borges foi um dos estudantes universitários que participou em atos da pré-campanha eleitoral da lista de oposição democrática que era composta pelo Dr. António Borges Coutinho, pelo Dr. Manuel Barbosa e pelo Dr. João Silvestre.

Veríssimo Borges foi, também, um dos subscritores da Declaração de Ponta Delgada, documento que teve como redator principal Ernesto Melo Antunes e que “constituiu a plataforma eleitoral com vista às eleições de 1969”.


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31220, 4 de maio de 2017, p.17)

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Alguns aspetos da Lei 8/2017


Alguns aspetos da Lei 8/2017

No passado dia 1 de maio entrou em vigor o novo Estatuto Jurídico dos Animais que resultou de projetos de lei apresentados na Assembleia da República pelo Partido Socialista, pelo PAN- Pessoas- Animais- Natureza, pelo Partido Social Democrata e pelo Bloco de Esquerda.

Saudada pela generalidade das associações de defesa dos animais, a Lei 8/2007, de 3 de março, estabelece um estatuto jurídico dos animais, reconhecendo a sua natureza de seres vivos dotados de sensibilidade e objeto de proteção jurídica.

Embora seja louvável os pequenos avanços, mesmo quando simbólicos e não extensivos a todos os animais, achamos que os principais beneficiados serão os animais de companhia, enquanto os restantes continuarão a ser discriminados e abrangidos por legislação que permite que continuem a ser torturados e mortos apenas para gozo de alguns que se dizem humanos, como acontece nas touradas e outros “espetáculos”, onde bovinos e cavalos são as principais vítimas.

Por falta de espaço, não iremos divulgar todas as alterações introduzidas pela lei referidas, pelo que apenas damos a conhecer algumas.

No que diz respeito à propriedade dos animais, o proprietário “deve assegurar o seu bem-estar e respeitar as características de cada espécie e observar, no exercício dos seus direitos, as disposições especiais relativas à criação, reprodução, detenção e proteção dos animais e à salvaguarda de espécies em risco, sempre que exigíveis”.

No âmbito do bem-estar animal o proprietário é obrigado a garantir “a água e alimentação de acordo com as necessidades da espécie em questão” e “acesso a cuidados médico-veterinários sempre que justificado, incluindo as medidas profiláticas, de identificação e de vacinação previstas na lei”.

O direito de propriedade de um animal, exclui “a possibilidade de, sem motivo legítimo, infligir dor, sofrimento ou quaisquer outros maus-tratos que resultem em sofrimento injustificado, abandono ou morte”

Para além do mencionado, a agressão a um animal obriga à indemnização do seu proprietário ou de quem o tenha socorrido e quem roubar um animal poderá ser punido com pena de prisão ate três anos ou a multa.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31219 de 3 de maio de 2017, p.17)

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Desabafos de um ecoponto


Desabafos de um ecoponto

Numa altura em que só se fala de grandes projetos, tão grandes como a megalomania dos seus promotores, importa ver o que se passa no terreno. Assim damos a voz ao ecoponto colocado na Rua Capitão Manuel Cordeiro, no Pico da Pedra, que recebe, diariamente, visitantes de toda a freguesia e não só.

sábado, 15 de abril de 2017

Hoje, pelas 16 h e 30 min, voltei a receber a visita de um senhor e de uma menina que numa carrinha trouxeram vários baldes cheios de restos de mondas, muitas ervas daninhas e muita terra e que quase encheram o contentor de resíduos sólidos indiferenciados.

É uma pena verificar a ignorância de algumas pessoas ligadas de algum modo à agricultura. Com efeito, os materiais depositados nunca deviam ter saído do terreno onde estavam. As ervas, depois de apanhadas, deveriam estar a fazer cobertura do solo, evitando o crescimento mais rápido de outras, ou deveriam ser usadas na produção de composto, dispensando ou diminuindo o uso de adubos químicos.

Não percebo por que razão o meu município, tal como todos os outros, não faz uma campanha de educação a sério para que os ribeira-grandenses, sobretudo os que habitam em zonas rurais e que tenham quintais, façam compostagem doméstica. Era um alívio para mim e para eles seriam um ganho, pois para além de pouparem em fertilizantes para os terrenos ou hortas também poupavam em combustíveis.

domingo, 16 de abril de 2017

Como é habitual, aos fins de semana, rapidamente o contentor dos resíduos indiferenciados encheu-se em muito pouco tempo. Ao fim do dia já existiam vários sacos com resíduos colocados no chão.

Como a situação descrita repete-se todas as semanas, não entendo por que razão, em vez de estar um só contentor, não existe mais um para os resíduos indiferenciados, pelo menos enquanto a minha camara municipal e a junta de freguesia, que é uma eco freguesia, não chegarem à conclusão de que o melhor resíduo é o que não se produz e que é possível as famílias reduzirem os resíduos que encaminham para os ecopontos, sem haver qualquer diminuição da sua qualidade de vida.

Segunda-feira, 17 de abril de 2017

Hoje, tal como é habitual, chegou uma carrinha de uma empresa distribuidora de batata frita e colocou no contentor de papel uma grande quantidade caixotes de papelão. Tudo muito bem, se não distribuísse pelos restantes contentores os caixotes que não couberam no primeiro.

Outra empresa, distribuidora de fruta, também tem o hábito de depositar, no contentor destinado aos resíduos indiferenciados, caixotes de madeira e de papelão e quando estão em quantidades muito grandes deposita-os no chão.

terça-feira, 18 de abril

Tal como acontece praticamente todos os dias, este ecoponto é visitado por algumas pessoas que fazem uma pré-triagem de resíduos. Uns procuram metais, com certeza, para posterior venda, outros procuram algo que possam usar nas suas casas e há um casal que leva de tudo um pouco, como vestuário, pequenas peças de mobiliário e até pão e restos de alimentos que serão colocados por algum estabelecimento comercial ou distribuidor.

Nada a dizer sobre as atitudes de quem, não bafejado pela vida ou marginalizado, procura sobreviver na sociedade que é de abundância apenas para alguns. O que está mal é que a escolha de objetos é feita à custa do “esvaziamento” dos conteúdos de um contentor e a sua colocação no outro que está ao lado, ficando todos os resíduos misturados. Mas talvez não constitua problema, pois ouvi dizer que o que interessa é produzir mais resíduos para queimar.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31215, 27 de abril de 2017, p. 14)

terça-feira, 25 de abril de 2017

Cães acorrentados


Cães acorrentados

A presença de cães acorrentados nos Açores, muitas vezes sem abrigo adequado e sem água permanente, é uma das razões que origina mais denúncias, às diversas organizações animalistas, sobretudo por parte de quem nos visita.

Entre as razões mais apontadas para que a prática referida se mantenha estão o evitar que o animal fuja, impedir que o mesmo suje o quintal ou a casa, estrague as plantas ou a roupa que está no estendal. Além destas, a mais comum será para o animal servir de guarda a um determinado espaço ou bem, como é o caso das ordenhas.

A situação ideal será deixar de haver animais acorrentados todo o dia, o que não deixa de ser cruel, e aqueles passarem a viver num espaço o mais amplo possível confinado por uma vedação.

Sobre cães acorrentados, a AVATMA- Associação de Veterinários Abolicionistas da Tauromaquia e do Maltrato Animal elaborou, recentemente, um relatório intitulado “Tener un perro encadenado durante todo el día es una forma de crueldade”.

No relatório mencionado, os autores referem um conjunto de danos físicos e psíquicos.

Dos inúmeros problemas físicos referidos no relatório, destacamos, a título de exemplo, várias feridas que resultam da tração constante do pescoço, originando lesões por vezes muito profundas nas vértebras cervicais e nas costas. A exposição prolongada às intempéries a que muitos estão sujeitos são, também, causa de reumatismo e osteoporose.

Depois de afirmar que é raro um cão acorrentado receber tratamento adequado, pois muitas das vezes tal está associado a falta de água, a uma alimentação desadequada, e sujeito a temperaturas extremas, o relatório afirma que naquelas condições “o cão fica entediado, sofrerá de ansiedade e muitos desenvolvem comportamentos compulsivos que acabam por dar origem a frustração e agressividade.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31214, 25 de abril de 2017, p.14)

Imagem:
https://bichodeape.com.br/ca…/animal-acorrentado-e-desumano/

domingo, 23 de abril de 2017

Gonçalves Correia nos Açores


Gonçalves Correia nos Açores

Nos Açores, as várias correntes anarquistas sempre tiveram muito pouca expressão, sendo muito reduzido o número de jornais libertários publicados e também reduzido o número de militantes.

No que diz respeito aos anarquistas açorianos, a esmagadora maioria deles teve uma militância fora do arquipélago. Entre eles, recordamos António José Ávila, Adriano Botelho e Jaime Brasil, os três naturais da ilha Terceira.

Da ilha de São Miguel conhecemos alguns nomes que durante uma fase das suas vidas aderiram às ideias libertárias, mas que não mantiveram os ideais até ao fim da vida. O mais conhecido terá sido Francisco Soares Silva que fundou e dirigiu o jornal “Vida Nova”, de periodicidade quinzenal, que se apresentava como “Órgão do Operariado Micaelense” e que começou a publicar-se a 1 de Maio de 1908, tendo o seu último número saído a 30 de Setembro de 1912.

O anarquista Gonçalves Correia esteve de passagem na ilha de São Miguel em 1910, tendo conversado com Francisco Soares Silva e tudo leva a crer que terá feito o mesmo com Maria Evelina de Sousa, professora primária que foi fundadora e diretora da “Revista Pedagógica”, publicação que se apresentava como órgão do professorado oficial açoriano e que, entre 1909 e 1915, esteve ao serviço da educação e dos professores, tendo sido distribuída a nível nacional.

No nº 54 do Vida Nova, de 31 de dezembro de 1910, foi publicado o texto de Gonçalves Correia “Amor Livre, nos números 55 e 56, respetivamente de 15 e 31 de janeiro de 1911, foi publicado o texto “A caminho do ideal”, e, por último ,no nº 57, de 15 de fevereiro de 1911, foi publicado o texto “Nós e os camponeses”.

A colaboração de Gonçalves Correia com a “Revista Pedagógica” ocorreu com a publicação do texto “O presente e o futuro”, datado de 29 de dezembro de 1910, publicado no seu número 167 de 9 de fevereiro de 1911.

Teófilo Braga

O Presente e o Futuro
*
Vergados ao peso brutal e desumano do maldito fardo posto aos seus ombros enfraquecidos, jungidos à canga infamíssima que a ordem burguesa criou, ei-los que passam tristes, os pobres proletários desprotegidos, sofrendo os horrores indescritíveis que uma sociedade madrasta lhes criou.

Na sua casa cheia de misérias e privações, não se ouvem as risadas francas e espontâneas das crianças, não se vê o riso jovial e presenteiro da companheira idolatrada, não se apalpa uma nesga sequer, daquele conforto que ele criou com o seu braço possante e fecundo, daquele conforto exagerado que sobra em casa de tantos parasitas…

Os seus olhos – pobres camaradas - não brilham porque o choro os inunda de lágrimas, o seu rosto, outrora alegre e sorridente, cobriu-se de rugas tristonhas; o seu andar, que era regular e normal quando as forças o não haviam abandonado, dá-nos agora a impressão desoladora da sua fraqueza. E tudo mais que lhe diz respeito, é pungente e angustioso. Pobres e desgraçados proletários!

Pobres que tendes de ver com fome os vossos filhos! Pobres que sentis partir o coração por não lhes poderdes satisfazer as mais imperiosas necessidades! Pobres que deixais morrer a companheira querida, tantas vezes a vossa maior alegria, a vossa maior consolação!

Quem sois vós!

Os degraus preciosos por onde sobem milhares de parasitas, a escada apetecida dos mais tirânicos burgueses!

Eis o presente.

*

Soberba de vegetação e verdura, riquíssima de águas cristalinas, e de avezinhas multicores, eis ante os meus olhos famintos do Belo a encantadora planície onde se erguem com orgulho majestosos chalets de formas várias, partes constituintes d’uma comuna fraternal e solidária, cujos habitantes, pondo de parte egoísmos do passado e vaidades que esqueceram, se amam, se compreendem, se solidarizam irmãmente, sabendo compreender a sua missão social até ao ponto de exigirem de cada um segundo as suas forças e de darem a cada um segundo as suas necessidades. As asas repelentes e agourentas da miséria não visitam aquele ponto ideal, enxotadas criteriosamente pelos seus habitantes que souberam atacá-las coletivamente, que compreenderam a tempo a beleza incomparável do comunismo livre.

Desgraças naquele paraíso?

É doença que por lá não medra porque a caudalosa corrente de solidariedade que ali se pratica não permite a sua propagação.

Tudo é livre e, ao mesmo tempo, tudo é criterioso. Todos amam e todos são felizes.

Ricos? Não há.

Pobres? Também não.

Pois? Solidariamente, coletivamente, fazem a riqueza da comuna, arrancando à terra, a mãe querida do homem, tudo que constitui os seus prazeres, os seus risos, as suas felicidades.

Vida de lágrimas e de crimes, trocada por uma vida de amor e de Justiça!

Eis o futuro.

Ponta Delgada, 29-12-910

Gonçalves Correia

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2017/01/29/lisboa-cruzeiro-seixas-na-apresentacao-da-revista-de-cultura-libertaria-a-ideia-relativa-a-2016/

Publicado na revista A Ideia, 77/80 de 2016

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Festa da Árvore


Açores, 2 de abril de 2017

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Ilídio Sardoeira, o professor


Ilídio Sardoeira, o professor

“ (…) Corri os riscos de haver sido professor durante quase meio século. Se pudesse recomeçar a minha vida, professor me queria, nessa aventura, entre afetiva e criativa que é aprender ensinando.” (Ilídio Sardoeira)

Em texto anterior, publicado no passado dia 4 de abril, dei a conhecer um pouco da vida e da obra do Dr. Ilídio Sardinheira, distinto professor da hoje denominada Escola Secundária Antero de Quental.

No mencionado texto, inseri o depoimento de dois dos seus alunos, o Doutor José Medeiros Ferreira e o Doutor João Vasconcelos Costa, que a ele se referiram em termos elogiosos. Hoje, antes de escrever um pouco sobre o seu pensamento enquanto professor, divulgo o depoimento do escritor picopedrense Cristóvão de Aguiar que no seu livro “Relação de Bordo, escreveu: “Ilídio Sardoeira era poeta e um grande “devoto” de Teixeira de Pascoais, que nos deu a conhecer no quinto ano do Liceu, levando-nos poemas do Poeta de Marânus, nas aulas de Ciências Naturais…Que belo que isto é! E que ventura é ter bons mestres na quadra genuína da vida…”

Depois de escrever que o Dr. Ilídio Sardoeira era “professor de Ciências Naturais e de sonho e de poesia, ou de tudo junto”, Cristóvão de Aguiar dá a conhecer o que pensava o mestre sobre o ofício de ensinar: “Um professor é um semeador. Não sabe quais as sementes que realmente ficam, mas não ignora que ele mesmo é uma parte da semente. É semeador e semente”.

De acordo com João Manuel Ribeiro, autor do livro “Ilídio Sardinheira: o caçador de madrugadas”, publicado em 2016, o Dr. Ilídio Sardinheira teve uma vida dedicada ao ensino, tendo lecionado “primeiro no Colégio de S. Gonçalo de Amarante durante quatro anos; depois, no Liceu Normal de Pedro Nunes, em Lisboa, onde fez o seu estágio de habilitação para a docência; finalmente, em muitos lugares do país: Évora, Figueira da Foz, Braga, Porto (Liceu D. Manuel II), Ponta Delgada (Liceu Antero de Quental), Viseu e Vila Nova de Gaia.”.

Como tive a oportunidade de conhecer através dos depoimentos dos seus alunos, o Dr. Ilídio Sardoeira estava longe de ser um professor tradicional, agarrado aos manuais, seguidor do conhecimento espartilhado pelas áreas de ciências e de letras e preso no interior das quatro paredes de uma sala de aula.

Sobre o ensino confinado à sala de aula, João Manuel Ribeiro, no livro citado, escreve que Ilídio Sardoeira “não queria que a escola fosse uma prisão para crianças onde se aprende amarrado às carteiras, ou um canteiro de plantas floridas cercado de arame farpado!”

Para se conhecer o pensamento do Dr. Ilídio Sardoeira sobre o ensino é importante a leitura do seu discurso proferido na Assembleia Constituinte, publicado no Diário da Assembleia Constituinte nº 118 de 12/03/1976. Dada a extensão do mesmo, apenas referirei algumas ideias chave, as quais ainda hoje não perderam atualidade.

Ao contrário do que pensam alguns, os problemas do ensino e os da sociedade não se resolvem na escola. Ilídio Sardoeira corrobora esta afirmação quando afirmou no discurso mencionado que: “os problemas centrais da degradação do ensino permanecem. São problemas, em grande medida, de raiz socioeconómica. Ao cabo e ao resto problemas que têm de encontrar primeiro as soluções políticas adequadas ao mundo dos adultos”.

Sobre a Escola, Ilídio Sardoeira, acrescentou que era “o espelho da sociedade; esta não transforma aquela, reprodu-la” e acrescentou: “Somos nós, os adultos, os responsáveis pelos fracassos escolares porque não temos a coragem de modificar radicalmente as condições, as contradições da sociedade portuguesa porque nos empenhamos em manter uma sociedade estratificada, caduca, per omnia secula seculorum, não é assim? E queremos depois que a escola resolva problemas que não tivemos a coragem de resolver nas ruas.”


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31209, 19 de abril de 2017, p. 17)

segunda-feira, 17 de abril de 2017

A terceira morte de Alice Moderno



A terceira morte de Alice Moderno

Se é verdade que ninguém sozinho consegue alterar seja o que for, também é verdade que há pessoas que pelo seu empenho e capacidade de liderança são capazes fazer com que outros se motivem para agir em prol de ideais sejam eles quais forem.

Alice Moderno foi uma das pessoas que, para além de apoiar os seus semelhantes mais desfavorecidos, dedicou grande parte da sua vida à causa animal, através da sua dedicação à Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, de que foi uma das fundadoras e sua presidente durante décadas.

A professora doutora Conceição Vilhena, aquando do incêndio que deflagrou na Universidade dos Açores, em 1989, e destruiu o seu espólio, escreveu uma pequena nota, no Correio dos Açores, intitulada “Alice Moderno morreu pela segunda vez”, onde afirmou:

“Alice Moderno morreu hoje, pela segunda vez. Uma grande mulher: forte, inteligente, culta, trabalhadora, bondosa. Que a casa do Gaiato de S. Miguel, comprada com o seu dinheiro, a não esqueça. Que todos aqueles que condenam a crueldade para com os animais, continuem a sua obra a favor dos mais fracos. Que todas as mulheres lhe prestem homenagem, conservando-a bem viva na sua memória.”

A terceira morte de Alice Moderno, esta a ocorrer todos os dias. Hoje a casa do Gaiato, nas Capelas já deu lugar a outro projeto, o Hospital Alice Moderno também já desapareceu e durante muito tempo não serviu para os fins destinados por Alice Moderno no seu testamento, a Assembleia Legislativa Regional depois de lhe prestar homenagem aprovou uma lei que, por um lado reconhece que o abate dos animais nos canis não é o método adequado para o seu controlo mas, por outro lado, adia a entrada em vigor para 2022.

Penso que este prazo dilatado não faz qualquer sentido se as entidades governamentais e as autarquias começassem a trabalhar a sério em campanhas de sensibilização e de esterilização de animais ditos de companhia.

Além disso, uma Região que apregoa ser pioneira na implementação de várias medidas não pode alegar que não é possível acabar com os abates sistemáticos quando a nível nacional aqueles serão proibidos definitivamente a partir de 2018.


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31208, 18 de abril de 2017, p.17)