quarta-feira, 24 de maio de 2017

A alimentação vegetariana e o pioneirismo de Amílcar de Sousa



A alimentação vegetariana e o pioneirismo de Amílcar de Sousa

“Leitor! Queres ter saúde? Entrega-te à Natureza, cumpre as suas leis, não a ofendas. E serás outro homem, amarás a Verdade e o Bem e a Moral” (Amílcar de Sousa, O Vegetariano, Janeiro de 1914)

A 17 de abril deste ano, a Assembleia da República aprovou a Lei nº11/2017 que estabelece a obrigatoriedade da existência de uma opção vegetariana nas ementas das cantinas e refeitórios públicos.

De acordo com a referida lei, a obrigatoriedade depende de haver procura e em caso desta ser pequena “as entidades gestoras das cantinas podem estabelecer um regime de inscrição prévio de consumidores da opção vegetariana”.

A lei é também clara quando define opção vegetariana como “a que assenta em refeições que não contenham quaisquer produtos de origem animal”. Trata-se, portando, da opção alimentar que é conhecida como vegetarianismo estrito que, segundo a Associação Vegetariana Portuguesa, “para além da carne, exclui todos os alimentos de origem animal, como laticínios, os ovos e o mel”.

O caminho para chegar à situação atual foi muito longo, milenar. Com efeito, se várias pessoas ao longo dos tempos fizeram a sua alimentação excluindo quaisquer produtos de origem animal, as organizações vegetarianas são mais recentes, tendo a primeira surgido em 1847, em Manchester. Em Portugal, só em 1908 (ou 1911?), surgiu a SVP - Sociedade Vegetariana de Portugal, e nos Açores, em 2016, foi criada a Associação Vegana dos Açores.

Se há dúvidas quanto à data de fundação da SVP, há consenso quanto ao pioneiro do vegetarianismo em Portugal, apontando todos os autores o nome do médico Amílcar Augusto Queirós de Sousa, que nasceu em Cheires, Alijó, em 1876, e faleceu, em 1940, no Porto.

Formado em medicina pela Universidade de Coimbra, Amílcar de Sousa fundou e dirigiu a revista mensal “O Vegetariano” e foi responsável pela criação da Sociedade Vegetariana de Portugal, tendo sido o seu primeiro presidente.

Para além da sua dedicação à divulgação do vegetarianismo, Amílcar de Sousa escreveu vários livros sobre saúde, alimentação, o vegetarianismo e a paz, tendo escrito uma novela intitulada “Redenção”.

Amílcar de Sousa foi, também, um grande adepto do pedestrianismo. Com efeito, caminhava dezenas de quilómetros a pé, descalço, sem apresentar sinais de cansaço, tendo uma vez percorrido mais de 160 km, de Lisboa a Sines.

Amílcar de Sousa era conhecido nos Açores, quer através da revista “O vegetariano”, que tinha alguns assinantes no arquipélago, quer através dos jornais. Um deles, o jornal “A República”, em 1915, publicou uma reportagem sobre “A religião do naturismo” que inclui uma entrevista com aquele médico.

Embora não esteja correto classificar o naturismo como uma religião, pela leitura das respostas de Amílcar de Sousa ficamos a saber que também não é uma mera questão de alimentação, como se poderá constatar através do extrato seguinte:

“As cadeias estão cheias de criminosos, e foi principalmente o uso do álcool que os levou ao crime. Os hospitais estão a abarrotar de doentes, devido às complicações da culinária. A vida é cada vez mais onerosa, pelas exigências do estomago. Ora, com o naturismo, dispensando todas as bebidas, e por consequência o álcool, não se cria criminosos; não precisando da cozinha, evita a maior parte das doenças; limitando aos frutos a alimentação, estabelece o equilíbrio da economia doméstica”.

Perguntado se com o naturismo as doenças desapareceriam, respondeu, citando um “escritor inglês: Se todos os homens fossem naturistas, os médicos passariam a cultivadores de frutos”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31237, 25 de maio de 2017, p.14)

terça-feira, 23 de maio de 2017

Maria Evelina de Sousa: Defensora dos animais vai ser homenageada


Maria Evelina de Sousa: Defensora dos animais vai ser homenageada

Embora não dê grande importância as distinções conferidas a personalidades e instituições pela Assembleia Legislativa Regional dos Açores, pois, a par de pessoas que pela sua ação foram e constituem exemplo para os demais, há outras que pouco fizeram desinteressadamente para a sociedade onde vivem ou viveram.

De entre as pessoas já distinguidas, destaco a figura de Alice Moderno, que foi exemplo em várias áreas da atividade humana, com destaque para o movimento feminista e de defesa dos animais.

Com uma vida que se cruzou com a de Alice Moderno, Maria Evelina de Sousa (1 de janeiro de 1879 – 12 de fevereiro de 1946) foi uma distinta professora primária que foi pioneira na criação de uma biblioteca escolar, na Escola de Santa Clara e na introdução de novos métodos de ensino, como o Legográfico-Luazes e o de João de Deus.

Como jornalista, destaca-se a sua colaboração, entre 1904 e 1907, no jornal portuense dedicado aos interesses da instrução e do professorado “O Campeão Escolar” e a fundação, direção e redação da “Revista Pedagógica”, que se apresentava como órgão do professorado oficial açoriano e que, entre 1909 e 1915, esteve ao serviço da educação e dos professores, tendo uma distribuição a nível nacional.

Lutadora contra a desigualdade, Maria Evelina de Sousa, foi militante de várias associações defensoras da causa feminista, como a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, a Associação de Propaganda Feminista e a Associação Feminina de Propaganda Democrática.

No que diz respeito à defesa dos animais, para além da sua intervenção na imprensa, onde condenou os maus tratos, foi, ao longo da sua vida, com Alice Moderna uma das principais dinamizadoras e dirigentes da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, fundada em 1911.

A 5 de junho, Dia da Região, Maria Evelina de Sousa será agraciada com a Insígnia Autonómica de Mérito Cívico.


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31236 de 24 de maio de 2017, p. 14)

Em defesa do sossego nas Sete Cidades

domingo, 21 de maio de 2017

Forcados incultos


Forcados incultos
A 18 de julho de 2007, um grupinho de meninos educados na ilha Terceira na arte de bem torturar animais decidiram criar uma associação que tem por objeto principal “a pega na garraiada da queima das fitas”. Quando não há animais para importunar a associação, também, pretende “a união e agregação de açorianos estudantes em Coimbra, pois não existe nenhuma outra "organização" em Coimbra que os represente ou que os possa agregar.”

A denominada “Associação Grupo de Forcados Açoreano Tremores de Terra” é, segundo os seus responsáveis, “o mais antigo grupo de forcados existente na região de Coimbra” que “tem contado com a colaboração do Grupo de Forcados da Escola Agrária de Coimbra”.

Este ano, como a tortura de animais já passou de moda, decidiram organizar um Encontro de Estudantes Açorianos que contou com a colaboração do Governo Regional, que comparticipou com cinco mil euros, e da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, que atribuiu um apoio financeiro no valor de mil euros.

Do que conhecemos do programa do encontro não constou nenhuma prática de tortura animal, mas não deixa de ser estranho um encontro de estudantes que pretendeu discutir, entre outros assuntos “a Autonomia dos Açores, as potencialidades da Região para o regresso dos estudantes que se encontram no exterior” seja organizado por uma associação que tem por objetivo principal atormentar e maltratar bovinos.

J. Ormonde

quarta-feira, 17 de maio de 2017

SOCIALISMO E GAVETAS


SOCIALISMO E GAVETAS

Terá sido na sequência de uma decisão da Primeira Internacional (AIT) que foi constituído em Portugal o Partido Socialista que contou com o contributo de, entre outros, Azedo Gneco, operário gravador na Casa da Moeda e com um pensamento muito próximo das ideias de Karl Marx, José Fontana, de nacionalidade suíça, encadernador, depois caixeiro e sócio-gerente da Livraria Bertrand e um grande adepto do cooperativismo, Nobre França, tipógrafo que foi o primeiro secretário da Secção Portuguesa da AIT e redator do primeiro programa daquele partido e Antero de Quental, que dispensa qualquer apresentação.

A participação do partido socialista, quer durante a monarquia, quer na Primeira Rrepública, traduziu-se num fracasso já esperado, pois os potenciais votantes, os trabalhadores, não podiam votar por serem na sua esmagadora maioria analfabetos. Sobre as eleições, Antero de Quental, que foi convidado para ser candidato a deputado afirmou: “ Não pretendo ser deputado. Sei, porém, que não é também isso que o P.S. tem em vista, mas propriamente marcar e definir, com um voto, a sua posição no tereno político. A candidatura neste caso é mais um pretexto, uma ocasião”.

Na Primeira República, alguns ideais do Partido Socialista foram esquecidos, surgiram divergências várias entre os que socialistas favoráveis à participação de Portugal na Guerra Mundial e os que se opunham e a participação de socialistas nos governos levaram ao afastamento de muitos militantes. Para além do declínio da organização, os socialistas que chegaram a ter muita influência nos sindicatos e a controlar o movimento cooperativo perderam terreno para os sindicalistas revolucionários.

A atuação dos socialistas foi criticada, por Bento Gonçalves, que foi secretário-geral do Partido Comunista Português, fundado a 16 de março de 1921, nos seguintes termos:
“Fora o Partido Socialista um partido revolucionário e o proletariado português teria, em 1910, decidido as suas reivindicações dessa época e firmaria melhor as suas posições. Mas quem tinha a palavra era um partido oportunista, um partido que desviava a classe operária do seu justo caminho, colocando-a à mercê dos interesses da burguesia republicana”.

Já durante o Estado Novo, António Sérgio, que esteve refugiado em França, tentou uma aproximação ao que restava do Partido Socialista, tendo, segundo José Hipólito dos Santos, num jantar do 1º de Maio realizado em 1947, apresentado uma proposta de construção do socialismo baseado no cooperativismo, tal como preconizava José Fontana, quando escreveu: “Queremos a emancipação económica do proletariado pelas sociedades cooperativas de produção e de consumo, organizadas de modo que os produtos sejam dos produtores – o que vale o mesmo que dizer: acabe-se a exploração do homem pelo homem.” De acordo com José Hipólito dos Santos, as propostas de António Sérgio “foram recebidas com as maiores reservas- ele era considerado como um intelectual desligado das realidades nacionais, um homem que gostava de falar e de falar bem, mas o socialismo não se coaduna com utopias…”

Em 1973, aquando da sua fundação, o Partido Socialista, na sua Declaração de Princípios, declarava que tinha “por objetivo a edificação de uma sociedade sem classes, em que os trabalhadores serão produtores associados, o poder, expressão da vontade popular e a cultura, obra da capacidade de todos” e repudiava “o caminho daqueles movimentos que, dizendo-se social-democratas ou até socialistas acabam por conservar deliberadamente ou de facto as estruturas do capitalismo e servir os interesses do imperialismo”.

Hoje, não sei se haverá algum militante socialista que se reveja na Declaração de Princípios mencionada.

Na declaração que está em vigor, aprovada no congresso realizado em 2002, a linguagem está mais suavizada e os objetivos são tão vagos que poderiam ser subscritos por pessoas dos mais diversos quadrantes político-partidários, como se pode constatar pelo seguinte extrato, onde é preconizada: “ uma sociedade mais livre, mais justa, mais solidária, mais pacífica, através do aperfeiçoamento constante e do desenvolvimento harmonioso da democracia”

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31231, 17 de maio de 2017, p.18)



terça-feira, 16 de maio de 2017

Burros: vítimas e vingadores


Burros: vítimas e vingadores

Numa altura em que muito se fala na defesa das tradições, algumas anacrónicas e outras bárbaras, tinha pensado escrever sobre burros que foram durante séculos preciosos auxiliares dos humanos nas suas tarefas agrícolas e no transporte de bens, mas fui surpreendido por uma recente reportagem do Correio dos Açores que refere o verdadeiro “massacre” daqueles animais na ilha de São Miguel.

Primeiro, uma referência a uma “tradição” que despareceu e que consistia na lavagem de burros e cavalos na Pontinha, em São Roque. Sobre o assunto, no Correio dos Açores, do dia 26 de abril de 1972, podemos ler: “… parece-nos ser chegada a altura de ir acabando com certos costumes, algo pitorescos mas de duvidosa higiene”. O autor do texto apelou às autoridades competentes para a proibição de “tais práticas numa zona prioritária de arranque turístico a dois passos das mais frequentadas praias de São Miguel”.

A morte de 19 burros e o roubo de dois, criados por gosto, na Rocha das Feteiras, nos últimos cincos anos deve merecer de todas as pessoas o máximo repúdio e os energúmenos deverão ser rigorosamente castigados, sem apelo nem agravo.

A propósito da malvadez humana, termino este texto, dando a conhecer o caso de um burro que fez justiça pelas próprias mãos (neste caso boca).

Segundo o Correio dos Açores de 27 de agosto de 1924, em Angra do Heroísmo um rapaz foi mordido por um burro que era vítima de maus tratos.

Abaixo, deixo um extrato da notícia:

“… o Lourenço, assustado, aflito, vendo o perigo que corria, atirou-se do burro para fora, caindo estatelado no meio do chão.

O burro - que lhe tinha raiva por ele o tourear e lhe bater – estacou e avançou logo sobre o pobre Lourenço, que não teve tempo de fugir, e, pegando-lhe com a boca no braço direito, abanou frenética e violentamente todo o corpo do infeliz rapaz, moendo e despedaçando-lhe o músculo do braço e produzindo-lhe várias contusões, sobretudo na cara e cabeça que ficaram em maus estado.”

Infeliz rapaz, pobre do burro.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31230, 16 de maio de 2017, p. 16)

quarta-feira, 10 de maio de 2017

O sonho de Gonçalves Correia na Revista Pedagógica


O sonho de Gonçalves Correia na Revista Pedagógica

A professora Maria Evelina de Sousa fundou e dirigiu a “Revista Pedagógica”, que se apresentava como órgão do professorado oficial açoriano e que, entre 1909 e 1915, esteve ao serviço da educação e dos professores.

Quem tiver a oportunidade de ler a revista, facilmente toma conhecimento de que a mesma estava aberta a várias opiniões, algumas delas não coincidentes com as da diretora da revista, e a várias correntes do pensamento, como o anarquismo de que é exemplo a publicação de um texto do anarquista tolstoiano António Gonçalves Correia (1886-1967).

O anarquista, vegetariano, ensaísta, poeta e humanista Gonçalves Correia esteve de passagem na ilha de São Miguel, em 1910, tendo conversado com Francisco Soares Silva diretor do jornal “Vida Nova” e tudo leva a crer que terá feito o mesmo com Maria Evelina de Sousa. O resultado foi a publicação do texto “O presente e o futuro”, datado de 29 de dezembro de 1910, publicado no número 167, de 9 de fevereiro de 1911, da Revista Pedagógica.

Dado o interesse do mesmo para quem quer conhecer melhor o pensamento de Gonçalves Correia e para quem não se conforma em viver numa sociedade injusta, abaixo transcrevemos um longo extrato:

Sobre a situação que então se vivia podemos ler:

Vergados ao peso brutal e desumano do maldito fardo posto aos seus ombros enfraquecidos, jungidos à canga infamíssima que a ordem burguesa criou, ei-los que passam tristes, os pobres proletários desprotegidos, sofrendo os horrores indescritíveis que uma sociedade madrasta lhes criou.
….
Pobres que tendes de ver com fome os vossos filhos! Pobres que sentis partir o coração por não lhes poderdes satisfazer as mais imperiosas necessidades! Pobres que deixais morrer a companheira querida, tantas vezes a vossa maior alegria, a vossa maior consolação!

Quem sois vós!
Os degraus preciosos por onde sobem milhares de parasitas, a escada apetecida dos mais tirânicos burgueses!”

Sobre a sociedade futura, o autor de “Estreia de um Crente” e “A Felicidade de todos os Seres na Sociedade Futura” escreveu:

“Soberba de vegetação e verdura, riquíssima de águas cristalinas, e de avezinhas multicores, eis ante os meus olhos famintos do Belo a encantadora planície onde se erguem com orgulho majestosos chalets de formas várias, partes constituintes d’uma comuna fraternal e solidária, cujos habitantes, pondo de parte egoísmos do passado e vaidades que esqueceram, se amam, se compreendem, se solidarizam irmãmente, sabendo compreender a sua missão social até ao ponto de exigirem de cada um segundo as suas forças e de darem a cada um segundo as suas necessidades. As asas repelentes e agourentas da miséria não visitam aquele ponto ideal, enxotadas criteriosamente pelos seus habitantes que souberam atacá-las coletivamente, que compreenderam a tempo a beleza incomparável do comunismo livre.

Desgraças naquele paraíso?

É doença que por lá não medra porque a caudalosa corrente de solidariedade que ali se pratica não permite a sua propagação.

Tudo é livre e, ao mesmo tempo, tudo é criterioso. Todos amam e todos são felizes.

Ricos? Não há.

Pobres? Também não.

Pois? Solidariamente, coletivamente, fazem a riqueza da comuna, arrancando à terra, a mãe querida do homem, tudo que constitui os seus prazeres, os seus risos, as suas felicidades.

Vida de lágrimas e de crimes, trocada por uma vida de amor e de Justiça!”

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31225, 10 de maio de 2017, p.17)

segunda-feira, 8 de maio de 2017

A propósito de Burros na Ribeira Seca



A propósito de Burros na Ribeira Seca

De vez em quando, minha tia Zélia Soares que tem 87 anos pergunta se me recordo de meu avô, Manuel Soares, que morava na rua do Jogo, na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, ter uma burra.

A burra referida pernoitava no rés-do-chão da casa até que uma doença que atingiu vários membros da família levou a que, por conselho médico, meu avô a retirasse de lá.

À semelhança de meu avô outras pessoas na localidade, também, usaram burros para transporte de cargas, nomeadamente canados de leite, lenha para os fornos ou sacas de milho para os moinhos.

Se bem me lembro, lá na rua possuíam burros o senhor Ernesto que era dono meia dúzia de cabeças de gado e que para reforçar o seu orçamento familiar também se dedicava ao comércio de alguns produtos agrícolas, tendo ficado com a alcunha de “Ernesto das mónicas” por as (nêsperas) ter vendido e o senhor José Cabral que foi o último moleiro da Ribeira Seca, cuja moagem elétrica foi musealizada e encontra-se aberta ao público.

Para além das pessoas já mencionadas, também me recordo de terem possuído burros, na Ribeira Seca, três outros moleiros: José Estevão, Manuel Verdadeiro e Ângelo Verdadeiro.

O senhor José Estevão, que foi último moleiro que usou um moinho movido pela água da ribeira que atravessa a localidade, era um grande conhecedor da história de Portugal, tal como foi transmitida pelo Estado Novo.

Manuel Verdadeiro, irmão de minha avó Maria Verdadeiro, primeiro teve um moinho de água, localizado nos Moinhos, hoje em ruínas, e depois um movido a eletricidade, localizado na rua Nova, também possuía uma burra que depois foi herdada, tal como o moinho, pelo seu filho Ângelo que morou na rua da Cruz.

Este meu primo Ângelo era o que se pode chamar um doente pelo futebol, mais propriamente pelo Sport Lisboa e Benfica. Assim, sobretudo às segundas-feiras, sempre que o “glorioso” ganhava os jogos no dia anterior, quando ele ia buscar mais milho para moer, para além de muitos vivas ao Benfica que ia distribuindo pelas ruas, a burra apresentava-se bem aperaltada e com as unhas pintadas de vermelho.


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31224, 9 de maio de 2017, p.17)

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Veríssimo Borges e a política


Veríssimo Borges e a política

Hoje, lembrei-me de Veríssimo Borges, depois da leitura de um livro sobre a vida e a obra do anarquista terceirense Adriano Botelho e de ler um texto do engenheiro Jorge Macedo sobre a construção da desnecessária incineradora, se o desenvolvimento sustentável que se apregoa fosse para ser levado a sério e não um conceito ilusório pois, segundo Leonardo Boff, postula um desenvolvimento “que se move entre dois infinitos: o infinito dos recursos da Terra e o infinito do futuro. A Terra seria inesgotável em seus recursos. E o futuro para frente, ilimitado. Ora, os dois infinitos são ilusórios: os recursos são finitos e o futuro é limitado, por não ser universalizável” (Rui Kureda, 2009).

Antes de entrar no tema proposto, quero recordar que fui membro da Quercus, o sócio mais antigo nos Açores, mas por ser presidente dos Amigos dos Açores decidi nunca ter um papel ativo no núcleo de São Miguel daquela associação que surgiu na sequência da minha apresentação do Veríssimo a Viriato Soromenho Marques, durante um jantar no Casino das Furnas, aquando da presidência aberta de Mário Soares.

O Veríssimo Borges ainda hoje é conhecido pela sua militância em defesa da causa ambiental, tendo sido o dirigente mais conhecido do Núcleo de São Miguel da Quercus, durante muitos anos a maior associação ambientalista portuguesa até se “fragmentar”, dando origem a outras duas organizações, o FAPAS – Fundo para a Proteção dos Animais Selvagens, em 1990, e a ZERO- Associação Sistema Terrestre Sustentável, em finais de 2005.

Numa aula do Mestrado em Educação Ambiental que frequentei com o Veríssimo, perguntado sobre a sua opção política, a sua resposta foi: “sou anarquista autoritário”. Não vamos perder muito tempo com esta afirmação contraditória, como ele próprio reconheceu na altura, pois os anarquistas rejeitam qualquer forma de autoritarismo, mesmo que temporária, como defendem algumas correntes socialistas.

Noutra ocasião, sobre a vida política, Veríssimo Borges afirmou: “Tenho uma particular aversão pelos partidos do governo e alternativa. São extremamente parecidos e alternam o jogo da “cadeirinha”. E pela sua própria função e situação no todo social, põem os interesses partidários à frente dos interesses nacionais coletivos”.

Sobre o seu posicionamento politico, após o 25 de abril de 1974, depois de mencionar que se posicionou na extrema-esquerda e que sem ter mudado a sua forma de pensar, embora “perfeitamente apartidário” se revia no Bloco de Esquerda e concluiu: “Nunca me revi nas esquerdas do PC, nunca fui comunista e agora até os respeito porque eles também não o são”.

Em 2008, o Veríssimo foi o segundo candidato a deputado nas listas do Bloco de Esquerda por São Miguel tendo aquela força partidária suspendido a campanha devido ao seu falecimento. Num comunicado sobre o mesmo pode-se ler: "O Bloco inclina-se perante a memória de Veríssimo Borges, lutador emérito pela causa da preservação ambiental dos Açores e do bem-estar social das populações destas ilhas, que ele amava como ninguém".

Antes do 25 de abril de 1974, o Veríssimo Borges foi contra a ditadura, foi preso algumas vezes pela PIDE, tendo-se tornado político, segundo ele, a partir de 1969 à custa das prisões.

Uma das prisões do Veríssimo ocorreu no dia 1 de maio de1969, perto do Rossio, em Lisboa, após ter sido detido pela PIDE, por estar a distribuir folhetos sobre o 1º de Maio, Dia do Trabalhador.

Em 1969, Veríssimo Borges foi um dos estudantes universitários que participou em atos da pré-campanha eleitoral da lista de oposição democrática que era composta pelo Dr. António Borges Coutinho, pelo Dr. Manuel Barbosa e pelo Dr. João Silvestre.

Veríssimo Borges foi, também, um dos subscritores da Declaração de Ponta Delgada, documento que teve como redator principal Ernesto Melo Antunes e que “constituiu a plataforma eleitoral com vista às eleições de 1969”.


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31220, 4 de maio de 2017, p.17)

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Alguns aspetos da Lei 8/2017


Alguns aspetos da Lei 8/2017

No passado dia 1 de maio entrou em vigor o novo Estatuto Jurídico dos Animais que resultou de projetos de lei apresentados na Assembleia da República pelo Partido Socialista, pelo PAN- Pessoas- Animais- Natureza, pelo Partido Social Democrata e pelo Bloco de Esquerda.

Saudada pela generalidade das associações de defesa dos animais, a Lei 8/2007, de 3 de março, estabelece um estatuto jurídico dos animais, reconhecendo a sua natureza de seres vivos dotados de sensibilidade e objeto de proteção jurídica.

Embora seja louvável os pequenos avanços, mesmo quando simbólicos e não extensivos a todos os animais, achamos que os principais beneficiados serão os animais de companhia, enquanto os restantes continuarão a ser discriminados e abrangidos por legislação que permite que continuem a ser torturados e mortos apenas para gozo de alguns que se dizem humanos, como acontece nas touradas e outros “espetáculos”, onde bovinos e cavalos são as principais vítimas.

Por falta de espaço, não iremos divulgar todas as alterações introduzidas pela lei referidas, pelo que apenas damos a conhecer algumas.

No que diz respeito à propriedade dos animais, o proprietário “deve assegurar o seu bem-estar e respeitar as características de cada espécie e observar, no exercício dos seus direitos, as disposições especiais relativas à criação, reprodução, detenção e proteção dos animais e à salvaguarda de espécies em risco, sempre que exigíveis”.

No âmbito do bem-estar animal o proprietário é obrigado a garantir “a água e alimentação de acordo com as necessidades da espécie em questão” e “acesso a cuidados médico-veterinários sempre que justificado, incluindo as medidas profiláticas, de identificação e de vacinação previstas na lei”.

O direito de propriedade de um animal, exclui “a possibilidade de, sem motivo legítimo, infligir dor, sofrimento ou quaisquer outros maus-tratos que resultem em sofrimento injustificado, abandono ou morte”

Para além do mencionado, a agressão a um animal obriga à indemnização do seu proprietário ou de quem o tenha socorrido e quem roubar um animal poderá ser punido com pena de prisão ate três anos ou a multa.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31219 de 3 de maio de 2017, p.17)

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Desabafos de um ecoponto


Desabafos de um ecoponto

Numa altura em que só se fala de grandes projetos, tão grandes como a megalomania dos seus promotores, importa ver o que se passa no terreno. Assim damos a voz ao ecoponto colocado na Rua Capitão Manuel Cordeiro, no Pico da Pedra, que recebe, diariamente, visitantes de toda a freguesia e não só.

sábado, 15 de abril de 2017

Hoje, pelas 16 h e 30 min, voltei a receber a visita de um senhor e de uma menina que numa carrinha trouxeram vários baldes cheios de restos de mondas, muitas ervas daninhas e muita terra e que quase encheram o contentor de resíduos sólidos indiferenciados.

É uma pena verificar a ignorância de algumas pessoas ligadas de algum modo à agricultura. Com efeito, os materiais depositados nunca deviam ter saído do terreno onde estavam. As ervas, depois de apanhadas, deveriam estar a fazer cobertura do solo, evitando o crescimento mais rápido de outras, ou deveriam ser usadas na produção de composto, dispensando ou diminuindo o uso de adubos químicos.

Não percebo por que razão o meu município, tal como todos os outros, não faz uma campanha de educação a sério para que os ribeira-grandenses, sobretudo os que habitam em zonas rurais e que tenham quintais, façam compostagem doméstica. Era um alívio para mim e para eles seriam um ganho, pois para além de pouparem em fertilizantes para os terrenos ou hortas também poupavam em combustíveis.

domingo, 16 de abril de 2017

Como é habitual, aos fins de semana, rapidamente o contentor dos resíduos indiferenciados encheu-se em muito pouco tempo. Ao fim do dia já existiam vários sacos com resíduos colocados no chão.

Como a situação descrita repete-se todas as semanas, não entendo por que razão, em vez de estar um só contentor, não existe mais um para os resíduos indiferenciados, pelo menos enquanto a minha camara municipal e a junta de freguesia, que é uma eco freguesia, não chegarem à conclusão de que o melhor resíduo é o que não se produz e que é possível as famílias reduzirem os resíduos que encaminham para os ecopontos, sem haver qualquer diminuição da sua qualidade de vida.

Segunda-feira, 17 de abril de 2017

Hoje, tal como é habitual, chegou uma carrinha de uma empresa distribuidora de batata frita e colocou no contentor de papel uma grande quantidade caixotes de papelão. Tudo muito bem, se não distribuísse pelos restantes contentores os caixotes que não couberam no primeiro.

Outra empresa, distribuidora de fruta, também tem o hábito de depositar, no contentor destinado aos resíduos indiferenciados, caixotes de madeira e de papelão e quando estão em quantidades muito grandes deposita-os no chão.

terça-feira, 18 de abril

Tal como acontece praticamente todos os dias, este ecoponto é visitado por algumas pessoas que fazem uma pré-triagem de resíduos. Uns procuram metais, com certeza, para posterior venda, outros procuram algo que possam usar nas suas casas e há um casal que leva de tudo um pouco, como vestuário, pequenas peças de mobiliário e até pão e restos de alimentos que serão colocados por algum estabelecimento comercial ou distribuidor.

Nada a dizer sobre as atitudes de quem, não bafejado pela vida ou marginalizado, procura sobreviver na sociedade que é de abundância apenas para alguns. O que está mal é que a escolha de objetos é feita à custa do “esvaziamento” dos conteúdos de um contentor e a sua colocação no outro que está ao lado, ficando todos os resíduos misturados. Mas talvez não constitua problema, pois ouvi dizer que o que interessa é produzir mais resíduos para queimar.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31215, 27 de abril de 2017, p. 14)

terça-feira, 25 de abril de 2017

Cães acorrentados


Cães acorrentados

A presença de cães acorrentados nos Açores, muitas vezes sem abrigo adequado e sem água permanente, é uma das razões que origina mais denúncias, às diversas organizações animalistas, sobretudo por parte de quem nos visita.

Entre as razões mais apontadas para que a prática referida se mantenha estão o evitar que o animal fuja, impedir que o mesmo suje o quintal ou a casa, estrague as plantas ou a roupa que está no estendal. Além destas, a mais comum será para o animal servir de guarda a um determinado espaço ou bem, como é o caso das ordenhas.

A situação ideal será deixar de haver animais acorrentados todo o dia, o que não deixa de ser cruel, e aqueles passarem a viver num espaço o mais amplo possível confinado por uma vedação.

Sobre cães acorrentados, a AVATMA- Associação de Veterinários Abolicionistas da Tauromaquia e do Maltrato Animal elaborou, recentemente, um relatório intitulado “Tener un perro encadenado durante todo el día es una forma de crueldade”.

No relatório mencionado, os autores referem um conjunto de danos físicos e psíquicos.

Dos inúmeros problemas físicos referidos no relatório, destacamos, a título de exemplo, várias feridas que resultam da tração constante do pescoço, originando lesões por vezes muito profundas nas vértebras cervicais e nas costas. A exposição prolongada às intempéries a que muitos estão sujeitos são, também, causa de reumatismo e osteoporose.

Depois de afirmar que é raro um cão acorrentado receber tratamento adequado, pois muitas das vezes tal está associado a falta de água, a uma alimentação desadequada, e sujeito a temperaturas extremas, o relatório afirma que naquelas condições “o cão fica entediado, sofrerá de ansiedade e muitos desenvolvem comportamentos compulsivos que acabam por dar origem a frustração e agressividade.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31214, 25 de abril de 2017, p.14)

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https://bichodeape.com.br/ca…/animal-acorrentado-e-desumano/

domingo, 23 de abril de 2017

Gonçalves Correia nos Açores


Gonçalves Correia nos Açores

Nos Açores, as várias correntes anarquistas sempre tiveram muito pouca expressão, sendo muito reduzido o número de jornais libertários publicados e também reduzido o número de militantes.

No que diz respeito aos anarquistas açorianos, a esmagadora maioria deles teve uma militância fora do arquipélago. Entre eles, recordamos António José Ávila, Adriano Botelho e Jaime Brasil, os três naturais da ilha Terceira.

Da ilha de São Miguel conhecemos alguns nomes que durante uma fase das suas vidas aderiram às ideias libertárias, mas que não mantiveram os ideais até ao fim da vida. O mais conhecido terá sido Francisco Soares Silva que fundou e dirigiu o jornal “Vida Nova”, de periodicidade quinzenal, que se apresentava como “Órgão do Operariado Micaelense” e que começou a publicar-se a 1 de Maio de 1908, tendo o seu último número saído a 30 de Setembro de 1912.

O anarquista Gonçalves Correia esteve de passagem na ilha de São Miguel em 1910, tendo conversado com Francisco Soares Silva e tudo leva a crer que terá feito o mesmo com Maria Evelina de Sousa, professora primária que foi fundadora e diretora da “Revista Pedagógica”, publicação que se apresentava como órgão do professorado oficial açoriano e que, entre 1909 e 1915, esteve ao serviço da educação e dos professores, tendo sido distribuída a nível nacional.

No nº 54 do Vida Nova, de 31 de dezembro de 1910, foi publicado o texto de Gonçalves Correia “Amor Livre, nos números 55 e 56, respetivamente de 15 e 31 de janeiro de 1911, foi publicado o texto “A caminho do ideal”, e, por último ,no nº 57, de 15 de fevereiro de 1911, foi publicado o texto “Nós e os camponeses”.

A colaboração de Gonçalves Correia com a “Revista Pedagógica” ocorreu com a publicação do texto “O presente e o futuro”, datado de 29 de dezembro de 1910, publicado no seu número 167 de 9 de fevereiro de 1911.

Teófilo Braga

O Presente e o Futuro
*
Vergados ao peso brutal e desumano do maldito fardo posto aos seus ombros enfraquecidos, jungidos à canga infamíssima que a ordem burguesa criou, ei-los que passam tristes, os pobres proletários desprotegidos, sofrendo os horrores indescritíveis que uma sociedade madrasta lhes criou.

Na sua casa cheia de misérias e privações, não se ouvem as risadas francas e espontâneas das crianças, não se vê o riso jovial e presenteiro da companheira idolatrada, não se apalpa uma nesga sequer, daquele conforto que ele criou com o seu braço possante e fecundo, daquele conforto exagerado que sobra em casa de tantos parasitas…

Os seus olhos – pobres camaradas - não brilham porque o choro os inunda de lágrimas, o seu rosto, outrora alegre e sorridente, cobriu-se de rugas tristonhas; o seu andar, que era regular e normal quando as forças o não haviam abandonado, dá-nos agora a impressão desoladora da sua fraqueza. E tudo mais que lhe diz respeito, é pungente e angustioso. Pobres e desgraçados proletários!

Pobres que tendes de ver com fome os vossos filhos! Pobres que sentis partir o coração por não lhes poderdes satisfazer as mais imperiosas necessidades! Pobres que deixais morrer a companheira querida, tantas vezes a vossa maior alegria, a vossa maior consolação!

Quem sois vós!

Os degraus preciosos por onde sobem milhares de parasitas, a escada apetecida dos mais tirânicos burgueses!

Eis o presente.

*

Soberba de vegetação e verdura, riquíssima de águas cristalinas, e de avezinhas multicores, eis ante os meus olhos famintos do Belo a encantadora planície onde se erguem com orgulho majestosos chalets de formas várias, partes constituintes d’uma comuna fraternal e solidária, cujos habitantes, pondo de parte egoísmos do passado e vaidades que esqueceram, se amam, se compreendem, se solidarizam irmãmente, sabendo compreender a sua missão social até ao ponto de exigirem de cada um segundo as suas forças e de darem a cada um segundo as suas necessidades. As asas repelentes e agourentas da miséria não visitam aquele ponto ideal, enxotadas criteriosamente pelos seus habitantes que souberam atacá-las coletivamente, que compreenderam a tempo a beleza incomparável do comunismo livre.

Desgraças naquele paraíso?

É doença que por lá não medra porque a caudalosa corrente de solidariedade que ali se pratica não permite a sua propagação.

Tudo é livre e, ao mesmo tempo, tudo é criterioso. Todos amam e todos são felizes.

Ricos? Não há.

Pobres? Também não.

Pois? Solidariamente, coletivamente, fazem a riqueza da comuna, arrancando à terra, a mãe querida do homem, tudo que constitui os seus prazeres, os seus risos, as suas felicidades.

Vida de lágrimas e de crimes, trocada por uma vida de amor e de Justiça!

Eis o futuro.

Ponta Delgada, 29-12-910

Gonçalves Correia

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2017/01/29/lisboa-cruzeiro-seixas-na-apresentacao-da-revista-de-cultura-libertaria-a-ideia-relativa-a-2016/

Publicado na revista A Ideia, 77/80 de 2016

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Festa da Árvore


Açores, 2 de abril de 2017

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Ilídio Sardoeira, o professor


Ilídio Sardoeira, o professor

“ (…) Corri os riscos de haver sido professor durante quase meio século. Se pudesse recomeçar a minha vida, professor me queria, nessa aventura, entre afetiva e criativa que é aprender ensinando.” (Ilídio Sardoeira)

Em texto anterior, publicado no passado dia 4 de abril, dei a conhecer um pouco da vida e da obra do Dr. Ilídio Sardinheira, distinto professor da hoje denominada Escola Secundária Antero de Quental.

No mencionado texto, inseri o depoimento de dois dos seus alunos, o Doutor José Medeiros Ferreira e o Doutor João Vasconcelos Costa, que a ele se referiram em termos elogiosos. Hoje, antes de escrever um pouco sobre o seu pensamento enquanto professor, divulgo o depoimento do escritor picopedrense Cristóvão de Aguiar que no seu livro “Relação de Bordo, escreveu: “Ilídio Sardoeira era poeta e um grande “devoto” de Teixeira de Pascoais, que nos deu a conhecer no quinto ano do Liceu, levando-nos poemas do Poeta de Marânus, nas aulas de Ciências Naturais…Que belo que isto é! E que ventura é ter bons mestres na quadra genuína da vida…”

Depois de escrever que o Dr. Ilídio Sardoeira era “professor de Ciências Naturais e de sonho e de poesia, ou de tudo junto”, Cristóvão de Aguiar dá a conhecer o que pensava o mestre sobre o ofício de ensinar: “Um professor é um semeador. Não sabe quais as sementes que realmente ficam, mas não ignora que ele mesmo é uma parte da semente. É semeador e semente”.

De acordo com João Manuel Ribeiro, autor do livro “Ilídio Sardinheira: o caçador de madrugadas”, publicado em 2016, o Dr. Ilídio Sardinheira teve uma vida dedicada ao ensino, tendo lecionado “primeiro no Colégio de S. Gonçalo de Amarante durante quatro anos; depois, no Liceu Normal de Pedro Nunes, em Lisboa, onde fez o seu estágio de habilitação para a docência; finalmente, em muitos lugares do país: Évora, Figueira da Foz, Braga, Porto (Liceu D. Manuel II), Ponta Delgada (Liceu Antero de Quental), Viseu e Vila Nova de Gaia.”.

Como tive a oportunidade de conhecer através dos depoimentos dos seus alunos, o Dr. Ilídio Sardoeira estava longe de ser um professor tradicional, agarrado aos manuais, seguidor do conhecimento espartilhado pelas áreas de ciências e de letras e preso no interior das quatro paredes de uma sala de aula.

Sobre o ensino confinado à sala de aula, João Manuel Ribeiro, no livro citado, escreve que Ilídio Sardoeira “não queria que a escola fosse uma prisão para crianças onde se aprende amarrado às carteiras, ou um canteiro de plantas floridas cercado de arame farpado!”

Para se conhecer o pensamento do Dr. Ilídio Sardoeira sobre o ensino é importante a leitura do seu discurso proferido na Assembleia Constituinte, publicado no Diário da Assembleia Constituinte nº 118 de 12/03/1976. Dada a extensão do mesmo, apenas referirei algumas ideias chave, as quais ainda hoje não perderam atualidade.

Ao contrário do que pensam alguns, os problemas do ensino e os da sociedade não se resolvem na escola. Ilídio Sardoeira corrobora esta afirmação quando afirmou no discurso mencionado que: “os problemas centrais da degradação do ensino permanecem. São problemas, em grande medida, de raiz socioeconómica. Ao cabo e ao resto problemas que têm de encontrar primeiro as soluções políticas adequadas ao mundo dos adultos”.

Sobre a Escola, Ilídio Sardoeira, acrescentou que era “o espelho da sociedade; esta não transforma aquela, reprodu-la” e acrescentou: “Somos nós, os adultos, os responsáveis pelos fracassos escolares porque não temos a coragem de modificar radicalmente as condições, as contradições da sociedade portuguesa porque nos empenhamos em manter uma sociedade estratificada, caduca, per omnia secula seculorum, não é assim? E queremos depois que a escola resolva problemas que não tivemos a coragem de resolver nas ruas.”


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31209, 19 de abril de 2017, p. 17)

segunda-feira, 17 de abril de 2017

A terceira morte de Alice Moderno



A terceira morte de Alice Moderno

Se é verdade que ninguém sozinho consegue alterar seja o que for, também é verdade que há pessoas que pelo seu empenho e capacidade de liderança são capazes fazer com que outros se motivem para agir em prol de ideais sejam eles quais forem.

Alice Moderno foi uma das pessoas que, para além de apoiar os seus semelhantes mais desfavorecidos, dedicou grande parte da sua vida à causa animal, através da sua dedicação à Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, de que foi uma das fundadoras e sua presidente durante décadas.

A professora doutora Conceição Vilhena, aquando do incêndio que deflagrou na Universidade dos Açores, em 1989, e destruiu o seu espólio, escreveu uma pequena nota, no Correio dos Açores, intitulada “Alice Moderno morreu pela segunda vez”, onde afirmou:

“Alice Moderno morreu hoje, pela segunda vez. Uma grande mulher: forte, inteligente, culta, trabalhadora, bondosa. Que a casa do Gaiato de S. Miguel, comprada com o seu dinheiro, a não esqueça. Que todos aqueles que condenam a crueldade para com os animais, continuem a sua obra a favor dos mais fracos. Que todas as mulheres lhe prestem homenagem, conservando-a bem viva na sua memória.”

A terceira morte de Alice Moderno, esta a ocorrer todos os dias. Hoje a casa do Gaiato, nas Capelas já deu lugar a outro projeto, o Hospital Alice Moderno também já desapareceu e durante muito tempo não serviu para os fins destinados por Alice Moderno no seu testamento, a Assembleia Legislativa Regional depois de lhe prestar homenagem aprovou uma lei que, por um lado reconhece que o abate dos animais nos canis não é o método adequado para o seu controlo mas, por outro lado, adia a entrada em vigor para 2022.

Penso que este prazo dilatado não faz qualquer sentido se as entidades governamentais e as autarquias começassem a trabalhar a sério em campanhas de sensibilização e de esterilização de animais ditos de companhia.

Além disso, uma Região que apregoa ser pioneira na implementação de várias medidas não pode alegar que não é possível acabar com os abates sistemáticos quando a nível nacional aqueles serão proibidos definitivamente a partir de 2018.


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31208, 18 de abril de 2017, p.17)

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Ladrões em Vila Franca do Campo e não só



Através de um texto publicado no jornal “A Crença”, no passado dia 24 de fevereiro, fiquei a saber que infelizmente não sou o único a ser vítima de roubos de fruta. Com efeito, segundo Pedro Costa, autor do texto referido, muitos agricultores o têm procurado no sentido de se juntarem e agirem contra os amigos do alheio.

No que me diz respeito tenho duas situações que denuncio: o roubo de fruta em quantidades que creio que não seja para consumo próprio e a destruição de plantações sobretudo de fruteiras por parte de cabras cujos donos, sem terrenos para as pastar, usam e abusam da propriedade alheia, sem que, até hoje, todas as denúncias efetuadas tenham feito com que a situação se alterasse.

No passado, todas as denúncias feitas às autoridades resultaram em represálias, como destruição de ordenhas, roubo de rolos de erva e morte de animais, pela calada da noite, pelo que o apelo de Pedro Costa para que as pessoas apresentem queixa, embora correto, pois ninguém deve fazer justiça pelas próprias mãos, poderá não ser seguido por muitos que já conhecem bem a impunidade que têm gozado os larápios. Igualmente é de repudiar o dito medo dos compradores de fruta roubada em denunciarem os vendedores da mesma pois nalguns casos trata-se de conivência com o roubo, pois dá-lhes jeito comprar fruta mais barata ou quase dada.

No que diz respeito aos prejuízos causados pelas cabras, estamos perante a ausência de medidas por parte das entidades oficiais conducentes à proibição da existência de rebanhos por parte de pessoas que, não tendo terrenos para as mesmas pastarem, vivem à margem da lei. Com efeito, não respeitando o trabalho dos outros colocam os rebanhos em pastagens ou em quintas, onde comem a erva destinada às manadas dos proprietários e rendeiros ou destroem pequenas árvores, quer comendo as folhagens quer roendo as cascas das mesmas.

A situação que se vive não é inédita, tendo, em 1999, sido denunciada pela Associação Agrícola de São Miguel e pelo extinto Partido Democrático do Atlântico. De acordo com o PDA, naquele ano, as explorações caprinas onde existia qualidade sanitária não atingiam 5 por cento da produção de queijo de cabra produzido em São Miguel.

Para Joaquim Cabral, dirigente do referido partido, a forma de resolver o problema passava pelo seguinte: “Basta procurar junto dos pastores qual é o seu efetivo de cabras, quanto pasto é necessário para alimentá-las durante o ano e quantos alqueires possuem seus ou de renda. Depois, procurar junto dos lavradores e proprietários de terras ou quintais as razões das queixas. Por fim, obrigar ao abate de todas as cabras cujos cabreiros não tenham possibilidade de as alimentar nos seus pastos”.

No início de 1928, o Correio dos Açores denunciava situações semelhantes às de hoje e nos seguintes termos: “Com uma inaudita audácia, os cabreiros a tudo chamam seu, destruindo os tapumes, fazendo comer as ervas e as arvorezinhas, ameaçando aqueles que pretendem velar pelo que lhes pertence, exercendo represálias sobre quanto respeite àqueles que promoveram o justo castigo…”

Hoje, embora não tenha dados oficiais, penso que haverá muito menos rebanhos ilegais, o mesmo acontecendo com produtores de queijo desrespeitadores das leis em vigor, pelo que bastava que fossem punidos severamente e pagassem todos os prejuízos causados para pensarem duas vezes antes de colocarem os animais, que não têm culpa nenhuma das bestas dos donos que têm, em terrenos que não lhes pertencem.

Mas, tão ou mais grave do que a destruição do património vegetal é a persistência no fabrico e venda de queijo, desconhecendo-se as condições higiénicas em que o mesmo é feito e se os animais estão ou não saudáveis.

Espero que este texto seja lido por quem de direito e que sejam tomadas as devidas providências para bem de todos.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31204, 12 de abril de 2017, p. 14)

terça-feira, 11 de abril de 2017

De Ilídio Sardoeira a Teixeira de Pascoais

De Ilídio Sardoeira a Teixeira de Pascoais


Através da pesquisa sobre a vida e a obra do Dr. Ilídio Sardoeira, um dos grandes vultos da cultura nacional que foi professor do Liceu Antero de Quental, fiquei a saber que o mesmo foi um dos principais divulgadores da obra de Teixeira de Pascoais, escritor português que chegou a ser sugerido para Prémio Nobel da Literatura, mas que não teve o reconhecimento que merecia a nível nacional.

Sobre a mentira, Teixeira de Pascoais escreveu: A mentira reina sobre o mundo! Quase todos os homens são súbditos desta omnipotente Majestade. Derrubá-la do trono; arrancar-lhe das mãos o ceptro ensanguentado, é a obra bendita que o Povo, virgem de corpo e alma, vai realizando dia a dia, sob a direção dos grandes mestres-de-obras, que se chamam Jesus, Buda, Pascal, Spartacus, Voltaire, Rousseau, Hugo, Zola, Tolstoi, Reclus, Bakounine, etc. etc. ... “

Alice Moderno incluiu Teixeira de Pascoais entre os poetas zoófilos, tendo divulgado no Correio dos Açores de 25 de agosto de 1935, o seguinte soneto:

BUDA

Seguindo Buda, um dia, o seu caminho,
Sob os raios do Sol que o penetravam,
Quando avistou, deitado, um cão velhinho,
Com chagas, onde vermes pululavam.

E dele se abeirou; e com carinho,
Limpou-lhe as chagas podres que cheiravam
Tão mal! Livrando assim o pobrezinho,
Mendigo cão, dos vermes que o matavam.

Mas, preocupado, continuou andando…
E lembrou-se dos vermes que, ficando
Sem nenhum alimento, iam morrer

E voltou ao pé deles; e um pedaço
De carne ali cortara do seu braço
E abençoando-os, deu-lhes de comer.


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31203, 11 de abril de 2017, p.14)

domingo, 9 de abril de 2017

Energia elétrica


Correio dos Açores 23 de dezembro de 1989.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Ilídio Sardoeira, um professor distinto do Liceu de Ponta Delgada


Ilídio Sardoeira, um professor distinto do Liceu de Ponta Delgada


“Não sei coisas difíceis
Nem as faço nos versos, com palavras.
Difícil é ser simples
E é vestir as coisas de tal jeito
Que quem as veja, julgue que são nuas.”

(Ilídio Sardoeira)

Ilídio Ribeiro Sardoeira nasceu na freguesia de Canadelo, no concelho de Amarante, no dia 12 de novembro de 1915 e faleceu em Vila Nova de Gaia no dia 28 de novembro de 1987.

Licenciado em Ciências Biológicas, foi professor de Biologia, ensaísta, poeta, pedagogo, professor metodólogo e, a seguir ao 25 de abril de 1974, inspetor-orientador. Foi assistente da Universidade do Porto, tendo sido demitido pelo regime salazarista.

Depois do 25 de abril, teve alguma participação política, tendo sido Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Amarante e deputado à Assembleia Constituinte pelo MDP/CDE.

Para além do mencionado nos parágrafos anteriores, Ilídio Sardoeira, também, se dedicou ao jornalismo, tendo sido diretor da “Voz do Marão” e de “Alma Nova” e colaborou com outras publicações com destaque para as revistas "Vértice", "Seara Nova", "Labor", "Lusíada" e "Átomo".

Foi autor de muitos livros, de que destacamos, a título de exemplo, os seguintes: "A minha Aldeia", "Pascoaes - um Poeta de sempre", "Provas", "História do Sangue"", "Nota à margem de dois livros", "Influências do Principio da Incerteza no Pensamento de Pascoaes", “O vulcão dos Capelinhos: alguns aspetos humanos” e “ A origem da Vida”.

O livro “A origem da vida”, que ainda hoje é possível adquirir em alfarrabistas ou através da internet, foi um dos que foi publicado pela Biblioteca Cosmos que foi dirigida pelo insigne matemático Bento Jesus Caraça e tal como os restantes da coleção teve a pretensão de “contribuir para a expansão da cultura científica em Portugal”, inscrevendo-se “numa matriz ideológica de feição dita progressista, com evidentes laivos de utopia”. Para além de Ilídio Sardoeira colaboraram com a Biblioteca Cosmos vários vultos da cultura científica internacional e portuguesa. Dos portugueses, destacamos, entre outros, o médico Abel Salazar, o pensador e pedagogo António Sérgio, o professor e político Henrique de Barros, o matemático Rui Luís Gomes e o professor, pedagogo e poeta Rómulo de Carvalho (António Gedeão).

Como já escrevemos, Ilídio Sardoeira colaborou na revista Vértice, surgida em Coimbra em 1942, tanto antes como depois do 25 de abril de 1974, sendo o seu nome incluído, por Armando de Castro, no dos autores “que se reclamam do marxismo ou que no campo estético eram por ele influenciados. Entre os citados, mencionamos os seguintes: Joaquim Namorado (poeta), Mário Dionísio (professor, escritor e pintor), Mário Sacramento (médico e escritor), António José Saraiva (professor e historiador de literatura portuguesa), Fernando Lopes-Graça (maestro e compositor), Flausino Torres (historiador), e A. J. Avelãs Nunes (professor de Direito).

Com a promessa de que voltaremos a escrever sobre o professor Ilídio Sardoeira, deixamos a opinião de dois alunos seus:

“…era um homem culto – dava umas aulas de Ciências Naturais espantosas e também nos encorajava em atividades «circum-escolares», como as do círculo cultural” (José Medeiros Ferreira)

“Como professor de ciências naturais, dava muito mais importância à prática, incutindo-nos o gosto pela observação e pela limitada experimentação para que tinha magros recursos. Boa parte das nossas aulas era de campo, muitas vezes ao fim de semana, calcorreando a ilha em cata de exemplares da flora e da fauna típicas da Macaronésia. A matéria do programa que a estudássemos no livro, que era para isso que o tínhamos, compensando esse estudo pessoal com uma ou outra sessão de "tirar dúvidas". Mas muito mais lhe devemos, eu e os meus colegas, de que aqui ficam só alguns exemplos: as aulas teóricas em que se tratavam de todos os assuntos menos ciências naturais, fosse a poesia de Pascoais, as ideias essenciais da teoria da relatividade, os perigos da guerra nuclear, a vida e obra de Ghandi, eu sei lá que mais.” (João Vasconcelos Costa)

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31198, 5 de abril de 2017, p. 14)

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Jaulas Vazias


Jaulas Vazias

Manter uma colaboração semanal no Correio dos Açores nem sempre é tarefa fácil mas, com mais ou menos sacrifício, tenho feito o possível por não falhar o compromisso assumido.

Se nem sempre o que escrevo é do agrado de alguns leitores, o certo é que tal facto não me inibe de manifestar a minha opinião ou de dar a conhecer a opinião ou parte da biografia de personalidades ou vultos da sociedade açoriana, quer concorde ou não com o que fizeram, quer esteja de acordo ou não com as ideologias que seguiram.

Mas, se há quem mude de lado da rua para não me cumprimentar, há quem me incentive a continuar a escrever, mesmo não concordando na íntegra com os conteúdos e há, também, quem me ajude, dando pistas para algumas pesquisas que iniciei. Mais recentemente aconteceu o que não esperava, isto é, após a publicação de um texto sobre o filósofo americano Tom Reagan, recebi, a título de oferta, o livro “Empty Cages. Facing the Challenge of Animal Rights”, vindo dos Estados Unidos da América.

Como até agora não tive a oportunidade de ler o livro, que possui uma versão em português, editada no Brasil com o título “Jaulas Vazias - Encarando o Desafio dos Direitos Animais”, deixo aos leitores interessados em aprofundar o tema a opinião de Sónia Filipe, professora, escritora e filósofa brasileira, doutorada em filosofia moral e teoria política pela Universidade de Konstanz, Alemanha, sobre o mesmo:

“A experiência política de luta em defesa dos direitos animais e os argumentos éticos que a sustentam nas três décadas mais recentes da história euro-americana podem ser conhecidos em sua coerência e clareza de propósitos no livro Empty Cages, do filósofo moral norte-americano Tom Regan. Publicado em 2005 pela Rowman & Littlefield, o livro foi dedicado pelo autor a indivíduos de quaisquer partes do planeta que questionam a liberdade humana de infligir dor e sofrimento aos animais e de privá-los de direitos fundamentais. Esses direitos são os mesmos que os seres humanos não admitem perder: os direitos relativos à integridade do corpo e à liberdade de mover-se para prover seu próprio bem-estar”

Sobre o livro referido Jane Goodall, primatóloga, etóloga e antropóloga inglesa, escreveu que a sua leitura pode não transformar uma pessoa em defensora dos direitos dos animais, pelo menos de imediato, mas poderá levar à compreensão e à simpatia pelo movimento.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31197, 4 de abril de 2017, p.14)

quarta-feira, 29 de março de 2017

O Dr. Guilherme Fraga Gomes e a sua mata (2)



O Dr. Guilherme Fraga Gomes e a sua mata (2)

Convidado pelo Dr. Carreiro da Costa, o Dr. Guilherme Fraga Gomes escreveu dois textos para o Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores sobre fetos. O primeiro “A Beleza dos Fetos” foi publicado, em 1949, no número 10 daquela publicação e o segundo “A propósito do feto do cabelinho”, no número 11.

Hoje, apenas farei referência ao texto que o médico madeirense, Fraga Gomes, publicou sobre os fetos existentes na mata que hoje ostenta o seu nome, localizada junto à estrada regional de acesso às Furnas.

O médico Fraga Gomes, apaixonado pelas plantas, no seu texto faz referência a 27 (vinte e sete) fetos, alguns dos quais não identificados e outros com nome “impróprio” ou “talvez errado” pois como ele escreveu: “isto de identificar criptogâmicas tem dificuldades e muita música para quaisquer curiosos que não podem nem devem confiar nas próprias reminiscências e impressões pois, como amadores, fazem, mais ou menos, papel de papagaios.”

Dado o espaço disponível, a seguir apresenta-se alguns dos fetos mencionados pelo Dr. Fraga Gomes e que ainda poderão ser encontrados na mata ou na ilha de São Miguel.

A língua cervina (Phyllitis scolopendrium) que, segundo Fraga Gomes, não parece um feto, possui “folhas inteiras de 40 centímetros de comprimento por 5 de largura”. É um feto que existe em todas as ilhas dos Açores e é nativo da Macaronésia e da Europa.

O Asplenium marinum que tem como habitat “o terreno pobre da beira-mar” foi introduzido na mata e adaptou-se bem. De acordo com Fraga Gomes, as suas “folhas” são “lustrosas, segmentadas, de nervuras pretas, de 30 a 40 centímetros de comprimento”. Existe em todas as ilhas dos Açores e é nativo da Macaronésia e Europa Ocidental.

O feto-dos-muros (Polypodium azoricum), que foi transplantado de uma parede, onde se dá muito bem, é uma espécie endémica dos Açores que outrora foi muito usada para ornamentar os presépios. Existe em todas as ilhas dos Açores.

O feto do mato ou feiteira (Pteridium aquilinum) que hoje é “ uma dor de cabeça” para quem quer manter os seus terrenos sem “infestantes”, foi usado “pelos leiteiros” para rolhar “o bocal dos potes” e, segundo Fraga Gomes, “em épocas remotas de fomes, com os rizomas e raízes seco se reduzidos a farinha, houve quem simulasse pão com que foram enganados os estômagos de pobres e até de abastados, que não tinham onde comprar trigo, milho e outros alimentos”.

O feto de cabelinho (Culcita macrocarpa) com a sua beleza ímpar é um endemismo da Macaronésia que existe, também, em alguns locais da Península Ibérica. Ao contrário do anterior, este feto teve uma grande utilidade pois com o “cabelo” eram enchidas as almofadas.

Em 1893, Gabriel de Almeida depois de referir que “as raízes do rizoma são escuras, sedosas, brilhantes e muito leves, e por isso mui próprias para almofada ou enchimento de coxins”, menciona que o cabelinho “constitui artigo de comércio para Portugal e Brasil” e acrescenta o seguinte: “ a perseguição que por este motivo se faz à espécie, dá lugar a que se vá tornando rara sem querer ver-se, que por este caminho se extinguirá nas ilhas num futuro próximo uma das suas mais formosas plantas”.

O feto-do-botão (Woodwardia radicans) que é muito comum na Madeira e nos Açores, ornamentando algumas estradas e caminhos rurais foi considerado, por Fraga Gomes, como “muito bonito”. De acordo com o botânico alemão Hanno Schäfer, o feto-do-botão, que é nativo da Macaronésia, Sudoeste da Europa, Ásia e América Central, existe em todas as ilhas dos Açores, exceto na Graciosa.

Por último, apresenta-se o feto craca (Angiopteris evecta) originário da Malásia, Polinésia, Nova Guiné e Austrália.

Este feto muito bonito, que deve o seu nome, segundo Fraga Gomes, ao “aspeto áspero, rugoso, pedregoso do conjunto da inserção das nervuras verdes das folhas”, é usado, entre nós, como ornamental. Nas regiões donde provém foi usado na alimentação e na medicina popular.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31192, 29 de março de 2017, p.16)

terça-feira, 28 de março de 2017

O jornal “Estrela Oriental” e as aves



O jornal “Estrela Oriental” e as aves

No início do século passado, o jornal “Estrela Oriental” por várias vezes publicou textos onde alguém abordava a importância das aves para a agricultura e como forma de algumas pessoas passarem os seus tempos livres.

Num texto publicado a 28 de abril de 1900, o autor refere-se ao importante papel de combate às pragas de algumas aves que devem ser acarinhadas pelos agricultores. Entre as espécies mencionadas, destacamos o mocho e as corujas que “além dos ratos que destroem, devoram numerosos insetos noturnos e crepusculares”, o melro que “limpa os jardins das lesmas e caracóis”, a toutinegra que “caça no ar as moscas e mosquitos, e limpa as árvores de pulgões” e as alvéolas que, “em número de vinte”, “limpam em um dia uma colheita de todo o gorgulho”.

O texto termina com um apelo à proteção das aves que são seres “salvadores das nossas colheitas e, ao mesmo tempo, os infatigáveis cantadores dos jardins, dos campos e das florestas”.

Noutro texto, de 7 de abril de 1901, o jornal relata a história de M. Pol, um reformado que se entretinha com as aves existentes num jardim de Paris.

De acordo com a notícia, o senhor Pol que atribuía um nome a algumas aves de acordo com as suas características, para passar o seu tempo, dava-lhes alimento e estas, sem qualquer receio, iam comer às suas mãos.

Este segundo texto termina apelando aos leitores para compararem “o divertimento de M. Pol com o dos caçadores de pássaros à rede, que os atraem para lhes roubar a vida!”

Hoje, ainda há muitas pessoas que se dedicam às aves e é grande o número de pessoas que têm como passatempo a observação de aves, sendo os Açores um destino muito procurado para observação não só da avifauna nativa, mas também de aves marinhas e migradoras.
Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 31191, 28 de março de 2017, p.16)

quarta-feira, 22 de março de 2017

O Dr. Guilherme Fraga Gomes e a sua mata (1)

O Dr. Guilherme Fraga Gomes e a sua mata (1)


O Dr. Guilherme João de Fraga Gomes, filho de Maria Carlota de Faria de Fraga (natural do Corvo) e de João Cipriano de Gouveia Andrade Gomes, nasceu no Funchal no dia 11 de junho de 1875 e faleceu na mesma cidade no dia 9 de outubro de 1952.

O Dr. Fraga Gomes, formado na Escola Médico-Cirúrgica do Funchal, tendo concluído o seu curso no dia 13 de julho de 1897, veio para São Miguel a convite do seu conterrâneo Dr. José Maria dos Passos Henriques que exercia medicina na freguesia da Bretanha.

A 23 de julho de 1898, chegou a São Miguel, tendo-se fixado na Bretanha onde permaneceu um ano. O Dr. Fraga Gomes concorreu ao partido médico municipal da Maia, tendo sido nomeado para ocupar o cargo, passando a viver na Maia a 7 de agosto de 1899. Foi na Maia que passou grande parte da sua vida a exercer clínica geral, segundo ele “ a princípio desde a Lomba de São Pedro até à Ladeira da Velha, três anos depois, da Lomba da Maia até ao Porto Formoso, Ladeira da Velha”.

O Dr. Fraga Gomes não se limitou a exercer medicina, teve, também, uma participação cívica exemplar, sendo segundo o Dr. Francisco Carreiro da Costa “um dos grandes beneméritos da terra”.

De acordo com numa nota publicada no segundo volume do “Apontamento Histórico-Etnográfico de São Miguel e Santa Maria”, publicado, em 1982, pela Direção Escolar de Ponta Delgada “a 27 de outubro de 1919, reuniu-se um grupo de amigos da Maia que elegeram uma comissão iniciadora e fundadora de um pequeno hospital, constituindo a Assembleia Geral o Professor Manuel Jacinto da Ponte, Jaime Hintze e o Dr. Jacinto Gago de Faria e Maia, e a Comissão executiva o Dr. Guilherme de Fraga Gomes, José Melo Nunes, Padre João Joaquim Borges, Manuel de Sousa Leite e José Bento do Couto”.

Só cerca de 24 anos depois, a 8 de agosto de 1943 foi colocada a primeira pedra e no ano seguinte, no dia 24 de setembro de 1944, o mesmo foi inaugurado.

Mas, não foi apenas à medicina e à solidariedade ao próximo que o Dr. Fraga Gomes se distinguiu e se dedicou. Sobre o assunto, ele escreveu “o que fiz na Maia fora da minha profissão – o meu violino, foi a floricultura e a arboricultura”.

Sobre a sua paixão pelas plantas, o Dr. Carreiro da Costa, em artigo publicado no jornal “Açores”, de 11 de novembro de 1952, escreveu:

“ O seu amor às flores e às árvores esse ficou para sempre traduzido na magnífica mata do Outeiro Redondo, por ele criada e desenvolvida e hoje considerada uma das mais belas e ricas coleções botânicas existentes em São Miguel, a avaliar pelo que nos deixou escrito sobre “A Beleza dos Fetos”, ali existentes, em primoroso artigo publicado no nº 10 do Boletim da C.R.C.A.A. [1949]”.

No blogue da Associação Amigos da Mata, pode-se ler que a construção da mata “remonta ao século XIX, tendo sido finalizada na parte final dos anos 90 quando o seu proprietário terá introduzido a maior parte dos melhoramentos que são conhecidos com o propósito de valorizar a coleção botânica” e mais adiante refere-se à visita régia nos seguintes termos: “Conta-se que foi neste local que o rei D. Carlos e D. Amélia foram recebidos aquando da visita régia a São Miguel, em 1901”.

Temos algumas dúvidas em relação ao atrás mencionado, a não ser que a mata tenha começado a ser construída antes da chegada do Dr. Fraga Gomes à Maia e relativamente ao acolhimento dos reis de Portugal, até ao momento, não encontramos nenhum documento que o comprove.

O único relato que conhecemos da visita dos reis às Furnas com passagem pela Ribeira Grande é da autoria de Hintze Ribeiro e foi transcrito no jornal “A Estrela Oriental”, de 3 de agosto de 1901, não fazendo qualquer referência à mata. De acordo com o mesmo na Ribeira Grande ocorreu “a mais tocante e grandiosa receção”. Depois do acolhimento na então vila nortenha “ o almoço foi a meio caminho da Ribeirinha (….). Às 6 horas da tarde chegaram Suas Majestades às Furnas, hospedando-se em casa do Sr. Marquês da Praia”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31186, de 22 de maro de 2017, p.16)

terça-feira, 21 de março de 2017

Um parque zoológico que condena a Povoação ao ostracismo



Um parque zoológico que condena a Povoação ao ostracismo

Nos primeiros dias de fevereiro, foi divulgado um "Livro Negro do Parque Zoológico da Povoação" e um manifesto assinado por cerca de 100 pessoas propondo o encerramento daquele espaço que estará aberto há alguns anos apesar de desrespeitar a legislação em vigor.

Para os autores dos documentos mencionados, o parque zoológico tal como está ou com a remodelação anunciada, para além de não passar de uma prisão para os animais, não beneficia a economia local e, pelo contrário, é motivo para afastamento de visitantes ao centro da vila.

Para além dos relatos presentes, no livro citado, de cidadãos, sobretudo de outros países, que descrevem as más condições existentes para os animais, recebemos e divulgamos o depoimento de uma sócia de uma conhecida Agência de Viagens que afirmou ser "chocante" e "uma verdadeira vergonha… tratar animais dessa maneira", e acrescentou o seguinte: "Quando tenho grupos de turistas prefiro não parar no centro de Povoação para não mostrar uma vergonha e um crime …. A Camara devia fechar o espaço".

Sobre o referido parque no início deste ano circularam notícias que referem a morte, numa mesma semana, de dois macacos, um babuíno e um macaco-verde, sem que até hoje os responsáveis pelo espaço, indagados por uma associação local, tenham dado uma explicação para tal.

Termino, referindo que não se compreende que um espaço que não respeita a legislação, nomeadamente o Decreto-Lei nº 59/2003, de 1 de abril, alterado pelo Decreto-Lei nº 104/2012, de 16 de maio, continue aberto ao público, contribuindo para dar uma má imagem de um concelho que possui um património natural único no mundo, a freguesia das Furnas com todas as suas manifestações de vulcanismo e com os seus jardins botânicos e já possuiu uma rede de trilhos pedestres que metia inveja aos restantes concelhos da ilha.

Ao contrário do que propalam os autarcas a atração pelo centro da Vila não se fará só pelas fofas e muito menos pela remodelação do Parque Zoológico.

Ponham a imaginação a funcionar!

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31185, 21 de março de 2017, p. 13)

terça-feira, 14 de março de 2017

Mário Dionísio e o ensino

Retrato por João Abel Manta, 1949

Mário Dionísio e o ensino

Neste texto, pretendemos dar a conhecer um pouco do pensamento de Mário Dionísio (1916-1993) sobre a temática da educação, tendo por base o que ele escreveu e que está compilado no livro “O quê? Professor?!

Antes de entrarmos no assunto proposto, apresentamos sucintamente o percurso profissional de Mário Dionísio que foi pedagogo, poeta, ensaísta e pintor, tendo-se licenciado em Filologia Românica, em 1940, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

A sua dedicação ao ensino começou ainda antes da licenciatura, onde deu lições particulares e prosseguiu após esta. Concluiu o estágio pedagógico, em 1958, no Liceu Pedro Nunes, tendo prosseguido, até 1978, a lecionação no Liceu Camões.

Depois do 25 de Abril de 1974, foi presidente da Comissão de Estudo da Reforma Educativa e da Comissão Coordenadora dos Textos de Apoio que substituíram os antigos programas das várias disciplinas e terminou a sua vida profissional como Professor Associado Convidado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Mário Dionísio, depois do 25 de abril, recusou por duas vezes o convite para ser Ministro da educação, tendo também declinado o convite para presidir à instalação da Universidade Aberta.

Rui Canário, no prefácio ao livro citado, destaca quatro tópicos no pensamento pedagógico de Mário Dionísio. Neste texto, apenas, mencionamos três.

O primeiro diz respeito à profissão docente. Para Mário Dionísio “ser professor é uma profissão e não um emprego” e acrescenta” Um professor é para mim alguém de personalidade vincada, de sensibilidade aguda, de cultura geral apreciável e cultura especializada indiscutível”.

Sobre a pedagogia de Mário Dionísio, o autor citado considera-o “tributário de uma pedagogia racional (que integra as contribuições da sociologia e da pedagogia) e que se entrelaça com uma tradição que remonta aos libertários e à Escola Nova”. Para Mário Dionísio, “crítico da memorização inútil” …mas crítico também de conceções de não directividade” o ensino e a aprendizagem são: “ …uma responsabilidade dividida, mas nem por isso menos dirigida […] com a noção exata de que dirigir será fundamentalmente seduzir, atrair, guiar, guiar até à reflexão em comum e à prática comum, ponte de acesso para o desejo e o prazer da descoberta.”

Por último, Mário Dionísio defendeu a articulação entre a educação e a arte.

Mário Dionísio, que um dia escreveu: “faça-se negócio com tudo, menos com a educação e a saúde”, explicou por que razão escolheu ser professor, numa época em que “a imagem de professor estava intimamente ligada à de uma carreira humilde e pobretana”:

“ Pelo apelo inesquecível que havia nos olhinhos brilhantes daqueles pobres alunos tão vivos uns, tão mortiços outros, mas todos escandalosamente ludibriados nesse colégio de má morte? Pelo interesse que percebi ser capaz de despertar nalguns deles e pelo que eles pouco a pouco em mim foram despertando? Pela consciência nascente da importância humana e nacional da função do ensino? Por cedo ter compreendido que a criação literária em liberdade exigia não depender economicamente dela e o ensino me parecer a atividade (complementar) que com ela melhor se coadunaria?”

Mário Dionísio se hoje fosse vivo ficaria ainda mais desiludido com a situação do ensino em Portugal. Com efeito, em 1979, ele já denunciava “o contínuo abaixamento do nível da qualidade do ensino. Que não vem do 25 de abril, nem foi causado por ele. Que vem muito e muito de trás. E que se ele era (e é) muito útil aos propósitos do fascismo, só pode ser motivo de alarme e da mais profunda apreensão para todos nós.”

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31180, 15 de março de 2017, p.16)

Desmontando alguns argumentos mais comuns contra a incineração de resíduos


Desmontando alguns argumentos mais comuns contra a incineração de resíduos

Os detratores da incineração de resíduos são contra a mesma porque dizem que a energia produzida não é renovável.

Como vivemos numa sociedade de consumo e de esbanjamento de recursos, o que interessa é fazer o máximo de resíduos para depois serem usados para produzir eletricidade e tanto faz esta ser proveniente de fontes de renováveis ou não, o que importa é termos energia disponível para ser usada pelas pessoas.

A energia elétrica da incineradora de São Miguel é bem-vinda e se houver eletricidade a mais, não há problema. Com efeito, faz-se como na ilha Terceira, isto é, obriga-se as renováveis a ficarem paradas, mesmo que tenham de ser pagas para isto.

O negócio estará garantido pois serão sempre os consumidores a pagar. Não existem para isso?

Dizem, os que são contra a incineração, que esta cria menos postos de trabalho que a reciclagem.

Não se percebe por que razão há quem se preocupe com as questões do emprego. Na nossa sociedade o que interessa é que haja trabalho para alguns para manter a economia a funcionar.

Para os verdadeiros empresários o que é preciso é que haja muita mão-de-obra disponível para que os salários possam ser mantidos baixos, tornando assim as empresas competitivas.

Para o governo é importante que haja muito desemprego, pois só assim consegue manter os programas ocupacionais e disponibilizar o Rendimento Básico de Inserção, criando a ilusão de que estão a fazer um favor a quem está com dificuldades.

Por último, sem pessoas a viver na miséria como se manteriam as várias organizações oficiais ou particulares ditas de solidariedade social? Se tal acontecesse, acabava-se a caridade e há muita gente a arrotar que ficava sem nada para fazer.
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As incineradoras não são uma opção de manipulação de resíduos economicamente rentável e as incineradoras disfarçadas, como a gaseificação, ainda menos.

Este argumento seria válido se a sociedade fosse homogénea, isto é, se não houvesse empreendedores e colaboradores ou como diziam os adeptos de Marx, donos dos meios de produção e vendedores da força de trabalho.

Como tal não acontece, as incineradoras são sempre um bom negócio para quem as vende e para as empresas que as constroem ou as gerem. Com efeito, vendendo mais ou menos eletricidade, quer esta seja necessária ou não, os lucros estão sempre garantidos pois são as famílias que são obrigadas a pagar as taxas de resíduos aos preços que os políticos (autarcas e governantes) quiserem.

As incineradoras ao competirem com os programas de reciclagem inviabilizam esta última.

Não é mentira nenhuma, mas não pensamos que haja algum mal nisto já que o que pretendemos é resolver o problema dos lixos sem incomodar as pessoas. Mas não é só com a questão dos resíduos que dispensamos a participação dos cidadãos na vida cívica, não temos qualquer interesse que se associem para resolver os problemas com que a sociedade se debate, a nossa única preocupação é com a abstenção nos atos eleitorais.

No que diz respeito aos resíduos há muitos anos perseguimos o sonho da incineração por isso nunca apostamos a sério na implementação da política dos 3 R e sobretudo nunca quisemos fazer nada para que a sociedade reduzisse a produção de lixos.

A verdade é que os ambientalistas, pelo menos a maioria, também nos têm dado uma grande ajuda, isto é, têm esquecido o primeiro R, a redução, e pouco falam no segundo, a reutilização. Além disso, também registamos com apreço a mudança de opinião de alguns deles que antes não aceitavam a incineração e hoje já a toleram e até propõem para São Miguel uma incineradora, mas com menor potência.

As modernas incineradoras de resíduos da Europa continuam contaminando o clima e provocam um sério risco para a saúde e queimam muito dinheiro quer na sua construção quer na manutenção.

È claro que há sempre contaminação, mas que interessa isso quando comparado com o dinheiro que vai para os bolsos dos promotores da incineração. Quanto ao risco para a saúde, toda a atividade humana está associada a riscos para a saúde e contaminação do ambiente.

Os detratores da incineração podem mostrar os estudos que quiserem que nós conseguimos também apresentar estudos a dizer que os riscos são mínimos e que compensam, pelo menos para a parte mais nobre da sociedade, os detentores do poder e os grupos económicos mais poderosos.
J.S.
Março de 2017

Preso defendido com recurso a lei de proteção de animais


Preso defendido com recurso a lei de proteção de animais

Em 1935, ocorreu no Brasil uma revolta comunista que foi chefiada pelo oficial do exército brasileiro Luís Carlos Prestes, cuja “biografia poética” foi parcialmente escrita pelo escritor Jorge Amado, no seu livro “O Cavaleiro da Esperança”.

A revolta fracassou e Luís Carlos Prestes acabou por ser preso, tal como muitos dos organizadores da mesma, entre os quais a sua mulher Olga Benário Prestes que grávida foi entregue à Alemanha nazi, tendo tido uma filha na prisão, Anita Leocádia Prestes, antes de ter sido uma das 200 mulheres executadas numa câmara de gás, em 1942, na cidade de Bernburg.

Outro dos prisioneiros foi o alemão Arthur Ewert que foi amnistiado em 1945 e que acabou por morrer, em 1959, na antiga República Democrática Alemã, sem ter recuperado a razão.

O advogado Sobral Pinto que era anticomunista mas que acreditava que se deve “odiar o pecado e amar o pecador” ofereceu-se para defender tanto Prestes como Ewert, embora sabendo que “o comunismo nega Deus, afronta Deus” mas compreendendo “que os comunistas façam isso por serem pecadores”.

Sobral Pinto foi bem-sucedido no seu trabalho, tendo conseguido que Prestes passasse a receber correspondência da família. No caso do comunista alemão, que fora, tal como muitos outros alvo de torturas diversas, Sobral Pinto socorreu-se de uma notícia que mencionava o caso de um cidadão que havia sido condenado a prisão por ter morto um cavalo por espancamento. Segundo, Fernado Morais, autor do livro “Olga - a vida de Olga Benário Prestes” que é a principal fonte usada neste texto, o mencionado advogado “recorreu a um artigo da Lei de Proteção dos Animais para tentar salvar a vida de Ewert. A lei dizia que “todos os animais existentes no país são tutelados do Estado” – e já que a lei dos homens era insuficiente para impedir o flagelo do alemão, pelo menos que fosse protegido como um animal para que as torturas cessassem”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31179, 14 de março de 2017, p. 14)

segunda-feira, 13 de março de 2017

domingo, 12 de março de 2017

Com o Vasco da Gama


12 de março de 2017

quarta-feira, 8 de março de 2017

ARENA

terça-feira, 7 de março de 2017

Os amigos dos Açores

Miguel de Sousa Alvim




Miguel de Sousa Alvim

Miguel Pereira de Sousa Alvim nasceu em Ponta Delgada, no dia 20 de junho de 1882, e faleceu na mesma cidade, no dia 9 de maio de 1915.

Estudou no antigo Liceu da Graça onde, segundo Urbano Mendonça Dias, “encheu de vida e de graça o seu claustro, gravando assim o seu nome entre a geração moça que o rodeava”, e foi aluno de Alice Moderno que lhe deu aulas particulares de francês.

Miguel de Sousa Alvim interessou-se pela causa da defesa dos animais, tendo sido um dos fundadores da Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, que foi criada em 1911.

Eduíno de Jesus, num trabalho intitulado “Miguel Alvim, biografia e alguns inéditos, escreve o seguinte: “Além de jornalista e poeta, Miguel Alvim também cultivou o conto e o teatro, embora episodicamente, assim como a música (canto e violino)”.

Como jornalista, Miguel Alvim fundou com Francisco Carvalhal o semanário “Interesse Público” que durou de 6 de outubro a 22 de dezembro de 1904, tendo sido substituído por “O Arauto”, que se publicou entre 1 de janeiro e 26 de fevereiro de 1905.

Ainda no que diz respeito à sua atividade jornalística Miguel Alvim foi colaborador do Diário dos Açores, foi diretor do jornal “O Distrito”, de 8 a 29 de setembro de 1910, e foi redator principal do jornal “A República”, entre 4 de julho de 1911 e 13 de junho de 1914.

No “Interesse Público”, Miguel Alvim manteve uma rubrica intitulada “Origens do Homem”, onde apresentou as duas “teorias” em confronto: “a do homem formado de barro e insuflado do sopro Divino” e a “baseada em leis científicas, isto é, no transformismo ou evolucionismo material”, tendo tomado partido por esta última.

O tema na altura ainda era polémico pelo que o autor, prevendo reações negativas, teve o cuidado de avisar que não queria “levantar suscetibilidades ou abalar crenças, que na nossa opinião são sempre merecedoras do mais digno acatamento e respeito, quando sinceras”

A sua passagem por este mundo não deixou ninguém indiferente: uns elogiaram o seu mérito outros denegriram os seus trabalhos, recorrendo por vezes a insultos inadmissíveis em sociedade humanas.

A sua atividade como redator do jornal “A República “ são a prova de que Miguel Alvim era um cidadão progressista, aberto a várias correntes do pensamento e um opositor feroz ao clericalismo.

Através da peça teatral “Duas Dores”, cujo enredo anda à volta do diálogo entre “o dono de uma fábrica a quem, no meio da abundância, morreu uma filha e um operário que pede trabalho para que a sua lhe não morra à míngua”, para além de ficamos a conhecer a sua versatilidade como escritor, tomámos conhecimento das suas preocupações sociais. Este facto foi referido por Alice Moderno, no jornal “A Folha”, de 12 de Março de 1911, nos seguintes termos:

“No benefício do ator-diretor, sr. Carlos Shore foi desempenhado um episódio dramático da autoria do Sr. Miguel Alvim, nosso colega do “Diário dos Açores”.

Intitula-se “Duas Dores” e advoga os interesses dos operários, pelo que é merecedor de elogios o sr. Alvim pela sua generosa ideia”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31174 de 8 de março de 2017, p.14)