terça-feira, 17 de outubro de 2017

Alcanaitra e Alcoentre: Nem Ramiro III, nem Afonso Henriques. Prefiro o Derito


Alcanaitra e Alcoentre: Nem Ramiro III, nem Afonso Henriques. Prefiro o Derito

Ler para mim é uma obrigação profissional mas também é um prazer, sobretudo quando leio para ocupar o meu tempo livre ou quando leio para conhecer mais o mundo que me rodeia.
Se é verdade que leio de tudo um pouco, não é menos verdade que tenho uma predileção especial por ler biografias e memórias não só de chamadas personalidades que de algum modo se distinguiram a nível nacional ou internacional, mas também do denominado cidadão comum.
Neste momento estou a ler uma biografia de Marie Sklodowska Curie, a primeira mulher a receber um prémio Nobel e a primeira pessoa a ser galardoada com dois prémios Nobel e li há pouco tempo o livro “Alcanaitra e Alcoentre: Nem Ramiro III, nem Afonso Henriques. Prefiro o Derito” da autoria de Jorge M. Colaço, um colaborador d’ “A Batalha”, antigo órgão da Confederação Geral do Trabalho, jornal onde colaboraram vários açorianos, como Adriano Botelho, Jaime Brasil, Vitorino Nemésio e Aurélio Quintanilha e cofundador da Cooperativa Editora "Sementeira", em 1977, e membro da Direção/Administração da mesma entre 1988 e 1991.
Jorge Colaço, que tive o prazer de conversar no passado mês de agosto, era um nome que me era familiar pois foi diretor da revista Singularidades, uma publicação que assinei e que enquanto foi publicada deu uma “atenção crítica aos horrores da guerra, ao urbanismo desumano, às perseguições de todo o tipo, à desinformação massificada e alienante, à droga e seus negócios, às injustiças, às discriminações”. Para além do mencionado a revista apostou, também, “na divulgação de formas de vida e de modos de pensar alternativos e inconformistas; da política à poesia, da arquitetura às tecnologias alternativas, do cinema ao circo, da música à religião”.
O livro “Alcanaitra e Alcoentre: Nem Ramiro III, nem Afonso Henriques. Prefiro o Derito”, que daremos a conhecer, em parte, ao leitor, é o primeiro de Jorge M. Colaço, que segundo um texto publicado no jornal “A Batalha”, de Março/Abril de 2017, “trilhou um caminho muito próprio no anarquismo português: da participação activa na FARP-FAI a um libertarismo de cariz não-violento” que tem como referência principal Barthélémy De Ligt (1883-1938), pacifista antimilitarista libertário holandês que primeiro foi um pacifista cristão, tendo evoluído para o socialismo libertário”.
O autor que fez na vida um pouco de (quase) tudo, desde vindimador, escriturário, servente de copa, medidor orçamentista, moço de recados, empregado de mesa num restaurante, distribuidor de publicidade em caixas de correio, estagiário numa quinta de agricultura biológica, etc., no seu livro retrata uma variedade de situações não só relacionadas com a sua atividade profissional mas também com a sua militância cívica e política.
De leitura muito agradável para quem como eu devora biografias e memórias, o livro é também recomendado para quem aprecia poesia, pois no mesmo também há espaço para ela. Segundo o autor, a veia poética é uma herança de seu pai, a quem dedica o primeiro poema, de que deixamos aqui um pequeno extrato:
De ti, mal ou bem
herdei teus poemas
herdei o teu ritmo
herdei a tua mansidão
herdei a tua propensão para a paz

No livro, entre outros assuntos, Jorge M. Colaço recorda um jogo de futebol onde não havia adversários, o trabalho duro nas vindimas, em França, a detenção pela polícia política espanhola, que supôs que o autor e os seus companheiros de viagem andavam a espalhar propaganda contra o franquismo, a sua participação numa plantação de pinheiros e castanheiros em condições climatéricas bastante adversas, um discurso que fez no sétimo aniversário da “Modos de Ser – Associação Livre”, onde recordou que nela “não há politiquices, isto é, não há políticos profissionais mas, felizmente, há ideais, e o mais evidente de todos é o de defender e lutar pelo avanço da Liberdade, pela Justiça, pelo Pão, pela Fraternidade, pela Igualdade, pela Paz” e a homenagem que foi feita ao seu amigo José de Sousa Ramos, Professor Associado do Instituto Superior Técnico que contou com a presença do terceirense e amigo comum, Dimas Simas Lopes, médico, pintor, escultor e escritor, que para além de orador na cerimónia foi o autor da escultura inaugurada naquele dia.
Termino, referindo que Jorge M. Colaço também menciona no seu livro que foi bolseiro do projeto “Movimento Social Crítico e Alternativo: Memória e Referências” cujo objetivo foi a criação de um Portal na Internet baseado no “Arquivo Histórico – Social”, depositado na Biblioteca Nacional, que reúne espólios de antigos militantes sindicalistas e libertários, bem como das suas organizações específicas, sindicais e culturais.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31358, 18 de outubro de 2017, p. 16)

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Paula Cabral e os animais



Paula Cabral e os animais

A picopedrense Paula Cabral, professora de Língua Portuguesa na Escola Secundária Antero de Quental, publicou recentemente um livrinho intitulado “Crónicas da minha terra” que merece a máxima divulgação, não só pela sua qualidade literária, que é reconhecida pelos entendidos, mas também pela sensibilidade demonstrada pela autora perante os problemas das sociedades atuais.

De entre os vários textos publicados, chamou-me a atenção o intitulado “Versos que ficaram por dizer”, onde a autora relata a história do senhor José Duarte que aos 80 anos fugiu do Lar de Vila Franca para ir para a sua terra natal. Ao ler o texto referido lembrei-me de meu avô Manuel Soares que durante alguns anos ia da Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, com vacas, passar o inverno para o Pico da Pedra. Segundo ele, no Pico da Pedra tudo era melhor, as melancias eram mais doces e até as vacas pesavam mais.

Embora não tenha ficado surpreendido com o teor do texto “A mais genuína forma de afeição”, pois já vimos a autora tomar publicamente posição contra algumas formas de agravamento da tortura animal que alguns queriam legalizar nos Açores, aconselho a sua leitura que devia ser obrigatória para quem, miúdos ou graúdos, anda a precisar de aulas de educação cívica.

Não podia terminar este texto sem antes citar algumas passagens do texto referido:

“…Um animal em casa é como ter uma lareira que aconchega, é uma vida que lhe dá calor e que a preenche. Ser dono de um animal é uma condição, uma marca de idiossincrasia, julgando-se o carácter da pessoa pela generosidade que põe nesta relação altruísta, sem os jogos de interesses que minam as relações humanas.”

“…Sempre que lhes dispensarmos atenção e carinho, os mais pesados sentimentos do quotidiano dissipam-se nesta visita à mais pueril forma de afeição. Talvez a forma mais próxima da busca de tranquilidade espiritual que se pode experimentar quotidianamente.

Amar um animal é mesmo uma forma de depurar a nossa humanidade.”

O livrinho, que só o é pelo tamanho e número de páginas, é uma grande obra que li de um só folego e recomendo. Os meus parabéns à autora.


Teófilo Braga

Correio dos Açores, 31357, 17 de outubro de 2017, p. 10

domingo, 15 de outubro de 2017

terça-feira, 10 de outubro de 2017



Manuel Soares e o seu tempo (3)

Meu avô, Manuel Soares, sempre foi lavrador, isto é criador de gado bovino e como complemento dedicava-se à agricultura, sobretudo ao cultivo de milho, para fabrico de pão que era preparado por minha avó, Maria dos Santos Verdadeiro, e para consumo dos animais, galinhas, porcos e cavalos/éguas.

Em 1950, meu avô era portador de um Boletim de Sanidade, passado pela Delegação de Saúde de Vila Franca do Campo, com o número 49, onde estava indicada como sua profissão a de “Abastecedor e vendedor de leite”.

Estávamos longe dos bons períodos para os produtores de leite, em que o mesmo era vendido, a preço razoável às indústrias de laticínios. Com efeito, o leite que meu avô extraía das vacas era na sua maioria vendido numa mercearia em Vila Franca do Campo e acontecia muitas vezes que o mesmo não tinha compradores pelo que era devolvido e usado para alimentar o porco.

A crise da lavoura não acontecia apenas em Vila Franca. De acordo com o jornal Correio dos Açores, a 10 de maio de 1950, o Grémio da Lavoura reuniu-se com uma delegação de lavradores, tendo numa “Nota Oficiosa”, assinada por João Luís Pacheco da Câmara, decidido, por unanimidade, manter “o preço actual de 1$80 por litro, para venda de leite ao Público, visto haver sido considerado que qualquer baixa, neste momento, agravaria ainda mais a já precária situação da Lavoura”.

Sobre o cultivo de milho, de acordo com o Manifesto nº 540, da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, no ano de 1964 e 1965, em 7 alqueires de terra, situados na Quebrada e na Lomba da Cevada, foram produzidos 200 alqueires de milho amarelo e 80 alqueires de milho branco.

Não me recordo de minha avó fazer pão de milho amarelo que tinha um sabor diferente do branco e que apreciava muito. Só o comia quando ia a casa da minha tia Esméria Soares, a irmã mais nova de meu avô, que morava na rua da Palmeira, na Ribeira Seca, e que emigrou para os Estados Unidos da América, onde viveu na cidade de Bristol.

Nos últimos anos em que meu avô cultivou milho o transporte era feito através de um veículo motorizado, mas ainda me lembro do mesmo ser feito num carro de bois que meu avô possuía, sendo o mesmo puxado por dois bois “vermelhos”, possivelmente da raça Ramo Grande que também eram usados em trabalhos agrícolas, como lavrar e gradar as terras.

Foi a meados da década de 60 que chegou a casa de meu avô o primeiro aparelho de rádio, comprado pelos meus pais. Para ele a rádio não era bem-vinda e sobretudo incompreensível quando se tratava de relatos futebol que ele nunca terá visto ao vivo.

Mas como não há mal que nunca acaba, um dia a situação alterou-se, pelo menos parcialmente. Tal ocorreu quando, por mero acaso, ele ouviu umas quadras proferidas pelo Dr. Francisco Carreiro da Costa numa das suas palestras radiofónicas proferidas no Emissor Regional dos Açores, entre abril de 1945 e maio de 1974. A partir daí, semanalmente, meu avô tornou-se um ouvinte assíduo daquele programa naquela estação de rádio.

Com cerca de 90 anos meu avô ainda tratava de uns gueixos, tendo sido atacado por um deles e ficado ferido com alguma gravidade pelo que teve que ser visto por um médico, o que até então nunca tinha acontecido.

Como ele se recusava a ir ao hospital, a solução encontrada foi fazer um médico ir lá a casa para fazer uma primeira observação. Para o efeito foi um sobrinho seu que era veterinário que o foi visitar acompanhado de uma médica que lhe foi apresentada como veterinária amiga. Esta detetou que ele poderia ter algo partido e recomendou-lhe a sua deslocação ao hospital para fazer radiografias. Como resultado detetou-se que ele tinha costelas partidas recentemente e outras já soldadas que havia partido ao longo da vida.

Manuel Soares veio a falecer no dia 25 de setembro de 1989, às 23 horas e 55 minutos, sendo a causa da morte “insuficiência cardíaca congestiva”. Está sepultado no cemitério de Santo Amaro, em Vila Franca do Campo.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31352,11 de outubro de 2017, p. 17)

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O voto dos animais


O voto dos animais

No concelho da Ribeira Grande, concorreram às eleições para a Câmara Municipal da Ribeira Grande quatro forças partidárias: O PSD- Partido Social Democrata, o PS – Partido Socialista, o BE- Bloco de Esquerda e a CDU- Coligação Democrática Unitária que junta o PCP – Partido Comunista Português e o PV- Partido Ecologista “Os Verdes”.

Após uma consulta aos seus “programas eleitorais” cheguei à conclusão de que apenas dois dos concorrentes apresentaram propostas relativamente à melhoria dos direitos dos animais no concelho, o PSD e o BE, o que não é má pois o tema em eleições anteriores nem era abordado.

O PSD, fazendo jus ao trabalho, embora insuficiente mas muito positivo, iniciado no mandato anterior, apresentou como propostas a criação de “um Programa Educativo de Sensibilização para o bem-estar animal, criando um espaço para atividades com animais”, a dinamização da “Casa dos Animais” com iniciativas que promovam a adoção de animais”, a continuação de “Campanhas de Esterilização e de Identificação de Animais” e o aumento do “valor do “Cheque Veterinário””.

O BE, que tem evoluído muito desde a sua fundação, sobretudo devido à sensibilidade dos seus militantes mais jovens, defendeu a “esterilização gratuita para animais de famílias carenciadas, animais adotados no município, e animais errantes”, a disponibilização de “cuidados veterinários a preços acessíveis para os animais de famílias carenciadas”, a “isenção do pagamento de licença e gratuidade na colocação do microchip” e propôs a recusa de “apoio institucional ou cedência de recursos para a realização de espetáculos com animais”.

Era de esperar a omissão do tema por parte da CDU, em virtude do conservadorismo do PCP em termos de abordagem de novos temas, ao seu apoio à tauromaquia em algumas regiões do continente português e ao pouco peso do partido “Os Verdes”, nos Açores. Em relação ao PS é de estranhar a omissão dado que há uma franja de militantes socialistas que é sensível à questão do bem-estar animal e aos direitos dos animais.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31351, 10 de outubro de 2017, p. 16)



terça-feira, 3 de outubro de 2017

Manuel Soares e o seu tempo (2)


Manuel Soares e o seu tempo (2)

Aos quinze anos meu avô, Manuel Soares, assistiu ao derrube da monarquia que como é sabido ocorreu no dia 5 de outubro de 1910.

O jornal monárquico, que nunca virou a casaca, “O autonómico”, a 15 de outubro do referido ano, recebeu a notícia da transformação do regime politico e, pela mão do seu diretor, afirmou o seguinte: “A implementação da república em Portugal é um facto sensacional. Se feliz ou infelizmente, verá e dirá quem mais vida tiver”.

Com o novo regime foi nomeado para o cargo de administrador do concelho o Dr. Mariano d’Arruda, talvez o mais influente político vila-franquense da 1ª República, que de acordo com o jornal mencionado foi merecido pois aquele “se tem manifestado um fervoroso apóstolo da República e dado provas de competente e prudente para as atuais circunstâncias”.

Em 1916, no dia 12 de agosto, Manuel Soares fez a inspeção sanitária para o serviço militar, tendo sido “apurado definitivamente” para a infantaria. Das informações constantes na caderneta consta o seguinte: possuía a altura de 1 metro, 71 centímetros e 5 milímetros e apresentava os seguintes sinais particulares: cicatrizes na testa e na face esquerda e sinais de cor castanha pelo rosto.

Entrou para a tropa no dia 12 de janeiro de 1917, no Regimento de Infantaria nº 26, ficou pronto da instrução de recruta no dia 10 de abril de 1917 e licenciou-se em 31 de junho de 1919.

Na caderneta militar consta ainda a seguinte informação, que contradiz o certificado de habilitações: habilitações literárias e profissionais antes do serviço militar “Ler e escrever mal (2º grupo).

Quando meu avô foi cumprir o serviço militar, o mundo já estava em plena Guerra Mundial (28 de julho de 1914 - 11 de novembro de 1918) e Portugal que, segundo José Pacheco Pereira, participava “na guerra para defender os seus direitos coloniais e para se candidatar a parte das possíveis reparações alemães” estava prestes a assistir ao verdadeiro cataclismo que ocorreu a 9 de abril de 1918. Segundo, Luís Almeida Martins, naquele dia “morriam 614 militares portugueses e 6585 eram feitos prisioneiros” na Batalha de La Lys.

Estava meu avô a cumprir o serviço militar quando ocorreu um surto de gripe espanhola. Conta ele que transportava doentes e que comia e bebia parte dos alimentos que a estes eram destinados e que era recusado por eles dado o seu estado de saúde. Dizia ele que tinha de comer para ficar forte e não ser atingido pela doença e “ria-se” por não ter ficado doente.

Sobre a gripe espanhola que teve duas vagas em 1918, uma na primavera e outra nos finais de julho/início de agosto e em 1919 e 1920, o historiador Luís Almeida Martins, escreveu: “O mesmo não se pode dizer da tristemente célebre “pneumónica” que em 1919 e 1920 se abateu sobre quase todo o mundo, ceifando pelo menos 50 milhões de vidas, 120 mil das quais de cidadãos portugueses”.

A confirmar as memórias de meu avô o historiador Sérgio Rezendes, no seu livro “A Grande Guerra nos Açores- Património e Memória Militar”, escreveu: “ A epidemia já havia atingido uma tal dimensão que começavam a faltar para além de médicos e enfermeiros, os auxiliares de enfermaria, os faxinas e os operários que acabariam por ser substituídos por soldados do Exército”. O mesmo autor, no livro mencionado, também refere que também foram “atacadas algumas praças do RI 26”, precisamente o Regimento de Infantaria de que meu avô fazia parte.

Sobre os efeitos da gripe espanhola em Vila Franca do Campo, o jornal “O Autonómico”, de 9 de novembro de 1918, referiu o seguinte: “ A epidemia que, por infelicidade, não nos poupou, vai-se alastrando consideravelmente por todo o concelho, de dia para dia, sendo já grande o número de pessoas atacadas; porém atualmente, mercê de Deus, nenhuma com sintomas de gravidade” e acrescenta que “até agora, apenas dois óbitos se registaram: um, por falta de mais cautela d’um rapaz novo, casado, deixando viúva e três filhinhos, e outro, por a epidemia bater à porta d’um doente, já adiantado em anos e cansado bastante das grandes lutas pela vida”.

(continua)
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31347, 4 de outubro de 2017, p.10)

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Solidariedade sim, mas sem crueldade


Solidariedade sim, mas sem crueldade

Nada temos contra a solidariedade que pessoas e algumas instituições prestam a outras, embora pensemos que com uma melhor organização da sociedade e com mais justiça social a maioria dos problemas deixariam de existir.

Como forma de arrecadar fundos para apoio às mais diversas causas, algumas instituições e pessoas recorrem à realização de eventos, alguns dos quais com a participação de animais, como são as touradas.

No século passado, realizavam-se, no continente português, touradas e provas de tiros aos pombos. Hoje, apenas se realizam touradas, pois a legislação portuguesa não permite a tortura de animais, com exceção de touros e de cavalos que também acabam por ser vítimas.

A contestação a estes pretensos espetáculos solidários não é de agora. Com efeito, já em 1948, no jornal “O Zoófilo”, um colaborador da Sociedade Protetora dos Animais, de Lisboa, sobre o assunto escrevia: “Que estes espetáculos se realizassem em tempos remotos, em que a violência era a regra, a força e a agilidade eram tudo e o espírito pouco ou nada, entre a grande massa do povo, compreendia-se; mas atualmente, que tanto se fala na cultura do espírito e que no domínio deste é fácil recriar e distrair os nossos semelhantes, isso não”.

No passado tal como hoje em dia, os defensores dos animais são criticados, embora injustamente, por insensibilidade aos problemas dos seus semelhantes. Sobre o assunto a Sociedade Protetora dos Animais foi bem clara quando afirmou que na sua campanha contra os espetáculos cruéis nem exagerava nem preteria a espécie humana e acrescentou:

“Cada instituição tem o seu objetivo, e as Protetoras fundaram-se para defender os animais.
Cumpriu ela o seu dever, cumpram-no também todas as pessoas de coração, protestando, não frequentando esses espetáculos e censurando quem lá vai”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31346, 3 de outubro de 2017, p.11)

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Manuel Soares e o seu tempo (1)


Manuel Soares e o seu tempo (1)

Com este texto, mais do que fazer a biografia de um homem comum, o meu avô Manuel Soares, que durante cerca de 80 anos andou a trabalhar na terra, sobretudo a tratar das suas vacas, pretendo relatar alguns episódios que o mesmo contava ou relembrar alguns acontecimentos que ocorreram enquanto o mesmo viveu. Nalguns casos, devido à sua baixa escolaridade e à não existência dos meios de comunicação que temos hoje, ele nem sequer tomou conhecimento dos mesmos. A propósito, recordo que o primeiro aparelho de rádio só entrou na sua casa, comprado pelo meu pai, quando a sua idade já andava perto dos setenta anos e os jornais, levados por mim, um pouco mais tarde.

Manuel Soares, filho de Mariano Soares de Oliveira Júnior, de Água d’Alto, e de Teresa de Jesus (Brum) nasceu a 3 de agosto de 1895 em Vila Franca do Campo.

Naquele ano, a 8 de novembro, o físico alemão Wilhelm Conrad Röntgen descobriu os raios X, que mais tarde foram utilizados na medicina. Meu avô, apesar de ao longo da vida ter partido várias costelas, só viria a beneficiar da sua utilização com a idade aproximada de 90 anos.

No mesmo ano, no dia 19 de outubro, um violento tremor de terra sacudiu Vila Franca do Campo. Não sei se por teimosia ou por se ter habituado desde criança, meu avô não respeitava os conselhos da Proteção Civil para as pessoas abandonarem as casas durante as crises sísmicas e procurarem um lugar mais seguro.

Não sei se meu avô chegou a saber o nome do descobridor dos raios X, mas há uma personagem da história de Portugal que ele por diversas vezes falava, pois conheceu alguém que o tinha visto, o chefe dos Vátuas, Gungunhanha que terá sido preso, em Moçambique, no dia 27 de Dezembro de 1895 e que esteve exilado na ilha Terceira entre 1896 e 1906.

Outra figura mencionada por meu avô era a do Rei Dom Carlos, que, segundo ele, era um grande homem. Quando o rei passou por Vila Franca, em 1901, Manuel Soares tinha seis anos. Desconheço se meu avô considerava Dom Carlos, amado por uns e odiado por outros, como um bom rei ou se apenas se referia à sua altura.

O meu avô viu os reis no dia 10 de julho de 1901, vindos das Furnas. Em Vila Franca do Campo Dom Carlos e Dona Amélia foram recebidos na Câmara Municipal onde receberam os cumprimentos das autoridades concelhias. Segundo notícia publicada no jornal “O Autonómico”: “Em frente do edifício acumulavam-se milhares de pessoas da vila e das povoações rurais, cujos campos abandonaram desde que suas Majestades entraram em S. Miguel, e ali vivas aclamações se soltavam de todas as bocas”.

Em relação às suas habilitações literárias, a consulta do seu certificado, passado a 18 de julho de 1908 pelo professor da escola da Freguesia de S. Pedro, Jayme Maria Borges, permite sabermos que estava “optimamente habilitado no 1º grau de instrução primária preceituado no artigo 2º do decreto nº 8 de 24 de dezembro de 1901 e nos termos do respectivo programa”.

O decreto referido dividia o ensino primário em 1.º grau e em 2.º grau e definia as suas matérias e considerava o 1º grau obrigatório para ambos os sexos desde os seis anos aos doze anos completos. O meu avô enquanto frequentou a escola também esteve abrangido pelas disposições constantes do Decreto n.º 4 da Direção Geral de Instrução Pública de 19 de Setembro de 1902 que reafirmava que “o ensino primário do 1.º grau é obrigatório para todas as crianças de ambos os sexos domiciliadas no Continente do Reino ou Ilhas Adjacentes, desde os seis aos doze anos completos de idade” mas acrescentava que estavam “isentas dessa obrigação as crianças que residam a mais de 2 km de distância de escola gratuita pública ou particular”.

Estava Manuel Soares a terminar a sua escolaridade quando, a 1 de fevereiro de 1908, ocorreu o regicídio que o jornal monárquico vila-franquense “O Autonómico” classificou como ato infame e bárbaro.
(continua)

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31341, 27 de setembro de 2017, p. 9)

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Dias de Melo e os cavalos


Dias de Melo e os cavalos

José Dias de Melo nasceu na Calheta de Nesquim, ilha do Pico, a 8 de abril de 1925. Frequentou o liceu na cidade da Horta e radicou-se, em 1949, em Ponta Delgada, tendo exercido a profissão de professor do ensino primário e depois do ensino preparatório. Morreu aos 83 anos, no dia 24 de setembro de 2008.

Ao longo da sua vida, desde muito jovem, colaborou com vários jornais dos Açores, como “O Telégrafo”, “A Ilha”, o “Correio dos Açores” e o “Açoriano Oriental”, e nacionais, como o “Diário de Notícias” e o “Diário de Lisboa”.

Autor de uma vasta obra literária, com destaque para temas relacionados com a baleação, segundo uma nota de um dos Roteiros Culturais dos Açores, Dias de Melo foi “um dos poucos escritores açorianos da atualidade que têm projeção nacional, não só pela qualidade e pela quantidade dos livros que escreveu e publicou, mas também pela regularidade com que o fez; e, sobretudo, porque escolheu temas que só ele soube desenvolver, tocando o mais profundo e o mais universal do ser humano mas partindo da realidade açoriana”.

Dias de Melo também escreveu magistralmente sobre maus tratos a animais, como o seu fabuloso texto intitulado “O homem e o cavalo” em que ele põe um cavalo vítima de maus tratos por parte de um ser desumano a falar.

Tinha vontade de transcrever todo o texto, pois merece a sua divulgação, mas por razões que se prendem com o tamanho dos textos desta rubrica apenas citarei a seguir alguns extratos:

“…O homem agredia-o com raiva maior. O cavalo prosseguia: - Ele- é racional; eu sou – irracional. Ele-está bêbado; eu-estou no meu juízo perfeito, posto que o meu não seja mais que um juízo cavalar. Se quisesse, é verdade, dava com ele no chão…bastava-apenas bastava- que aligeirasse o passo, e logo me via livre dele. Do seu chicote.
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O bêbado…é um bêbado. Pode agredir: não pode resistir à agressão. Castigá-lo, como castigar uma criança ou castigar um velho, é o mesmo que bater num morto. E bater num morto é uma cobardia. Ele que seja cobarde: eu – não.”

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 31340, 26 de setembro de 2017, p.10)

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Escola da Ponte



A Ponte está cercada

A passos largos para atingir os quarenta anos de serviço como professor de várias escolas públicas, na ilha Terceira e em São Miguel, e com alguma experiência de lecionação em três escolas profissionais, continuo a interrogar-me sobre o papel das escolas na sociedade de hoje.

Aproveitei o período de férias anuais para ler vários livros, sobre os mais diversos temas e como não podia deixar de ser sobre os relacionados com a escola, o ensino e a educação.

De entre os livros que li, destaco o de Paulo M. Morais intitulado “Voltemos à Escola”, sobre a experiência da Escola da Ponte que, sendo uma escola pública, ensina de forma diferente, seguindo os mesmos princípios há 40 anos.

A Escola da Ponte existe, segundo António Sampaio da Nóvoa, graças à inteligência e energia de José Pacheco e de todas as pessoas que deram continuidade ao projeto até hoje. Ainda segundo o referido autor, a Escola da Ponte: “é apenas, e isso é o mais, uma iniciativa de educadores, que se foram juntando, pensando e construindo práticas pedagógicas diferentes, abrindo-se à sociedade, colaborando com os pais, dando aos alunos o seu lugar próprio na escola”.

Se antes da leitura do livro tinha muitas dúvidas, a verdade é que ainda continuo com muitas outras, uma das quais estava relacionada com o tipo de alunos que frequentavam a escola. Isto é, pensava que o sucesso da Escola da Ponte só era possível através de uma boa seleção de alunos, o que não é verdade, pois a escola trabalha com todo o tipo de crianças e jovens, até com aqueles a que denominavam “lixo”.

Depois da leitura de muitos pedagogos libertários, pensei que a Escola da Ponte fosse influenciada por algum deles, mas, através da leitura do livro, cheguei à conclusão de que, embora haja muito em comum, aqueles não foram referência para a Ponte. Com efeito, as referências pedagógicas da Escola da Ponte são uma publicação da Unesco sobre o ensino individualizado, o filósofo francês Emmanuel Mounier, o pedagogo francês Celéstin Freinet, a pedagoga e médica italiana Maria Montessori, o filósofo e pedagogo norte-americano John Dewey, o pedagogo norte-americano William Kilpatrick e o movimento pedagógico português “Movimento da Escola Moderna”. Para além do mencionado, José Pacheco acrescentou às suas influências: “Nunca cito isso, mas apetece-me: a maior referência para mim foi [Jiddu] Krishnamurti. E toda a tradição de Mahatma Gandhi e Lanza del Vasto.”.

Possuindo a Escola da Ponte mais de quarenta anos e tendo superado todas as avaliações externas, por que razão o seu “modelo” não se replicou e pelo contrário o seu isolamento é tal que vive sempre no fio da navalha?

A verdade é que a Escola da Ponte é mais conhecida no estrangeiro, sobretudo no Brasil, do que em Portugal e o seu projeto ao contrário de ser promovido pelas entidades governamentais tem sido alvo de ataques à espera que a mesma colapse.

Como exemplo, refiro o caso da colocação de professores que, ao contrário do que acontecia, passou a ser igual ao de todas as outras escolas, em vez de a mesma poder fazer a seleção. Assim, embora pareça que foi feita justiça, acontece que na Escola poderão passar a ser colocados professores “que não entendem ou se identificam com a metodologia em prática, equivale ao risco de que o projeto Fazer a Ponte possa ruir por uma espécie de autofagia”.

Embora a Escola da Ponte não seja o paraíso na Terra é uma escola onde se vive a democracia, onde “os alunos debatem e decidem tudo o que nela se passa, onde cada criança define o respetivo plano de aprendizagem, de acordo com conceitos de autonomia, solidariedade e responsabilidade e onde os professores trabalham em equipa dentro dos diferentes espaços”.

Para além do referido, os pais têm um envolvimento na vida da escola que não se verifica nas restantes. Com efeito, o Regulamento Interno reconhece “aos seus representantes uma participação determinante nos processos de tomada de todas as decisões com impacto estratégico no futuro do Projeto e da Escola”.

Será que nos Açores é possível haver uma escola pública a funcionar em moldes semelhantes? Infelizmente, creio que não!

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31335, 20 de setembro de 2017, p.10)

http://www.noticiasmagazine.pt/2017/escola-da-ponte/

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Nova legislação para a compra e venda de animais de companhia



Nova legislação para a compra e venda de animais de companhia

No passado dia 23 de agosto, foi publicada, no Diário da República, a Lei nº 95/2017 que regula a compra e venda de animais de companhia em estabelecimentos comerciais e através da internet.

Tal como acontece com outras leis onde costuma haver exceções, no caso desta lei ficam excluídos “as espécies da fauna selvagem autóctone e exótica e os seus descendentes criados em cativeiro, objeto de regulamentação específica, e os touros de lide e as espécies de pecuária”.

Se no caso das espécies da fauna selvagem há uma explicação, a de haver legislação para o efeito, nos outros casos não há. Como leigo na matéria, isto é sem formação jurídica, acho que devia existir uma justificação para a não inclusão dos touros de lide e das espécies de pecuária, que poderia ser a existência de legislação específica, não estarem incluídos nos animais de companhia ou no caso dos touros de lide, por serem os únicos em que as leis permitem a sua tortura e morte para divertimento.
Como não está no âmbito deste texto a divulgação de todas as alterações introduzidas através da lei mencionada que procedeu à alteração do Decreto-Lei n.º 276/2001, de 17 de outubro, a título de exemplo transcrevo apenas o artigo 54ª que apresenta os “requisitos de validade da transmissão de propriedade de animal de companhia”:
“Qualquer transmissão de propriedade, gratuita ou onerosa, de animal de companhia deve ser acompanhada, no momento da transmissão, dos seguintes documentos entregues ao adquirente:
a) Declaração de cedência ou contrato de compra e venda do animal e respetiva fatura, ou documento comprovativo da doação;
b) Comprovativo de identificação eletrónica do animal, desde que se trate de cão ou gato;
c) Declaração médico-veterinária, com prazo de pelo menos 15 dias, que ateste que o animal se encontra de boa saúde e apto a ser vendido;
d) Informação de vacinas e historial clínico do animal.”

Espero que esta legislação não seja como muitas outras. Boa no papel, mas ignorada pela maioria e esquecida por quem devia fiscalizar o seu cumprimento.


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31334, 19 de setembro de 2017, p.10)

terça-feira, 12 de setembro de 2017

“Intervenção” - um jornal estudantil de Angra do Heroísmo


“Intervenção” - um jornal estudantil de Angra do Heroísmo

Hélio Vieira, jornalista do Diário Insular, no passado dia 19 de agosto, escreveu um texto intitulado “Jornais da Escola”, onde deu a conhecer uma situação impar, talvez única a nível nacional, que foi o facto de num único estabelecimento de ensino terem circulado no mesmo ano letivo quatro jornais de estudantes. Tal aconteceu, no início da década de 80 do século passado, na Escola Secundária de Angra do Heroísmo com a publicação dos seguintes jornais: “Vida Académica”, “Olimpo”, “Jornal D' O Estudante” e “Intervenção”.

Neste texto, apenas farei referência ao Jornal “Intervenção”, que se publicou entre dezembro de 1981 e a março de 1982, pois é o que melhor conheço por ter dado algum apoio aos jovens estudantes que o faziam e por ter em minha posse uma coleção do mesmo.

Vou começar pelos obreiros do jornal, destacando em primeiro lugar o seu diretor, Hélio Vieira, que na altura tinha 17 anos. Na ficha técnica do número zero, surgem os nomes de Francisco Coelho, hoje deputado, como coordenador de Redação, como redatores efetivos são indicados os nomes de Ruben, Rui Fino, Rosa, que era o “pseudónimo de Sara Santos, Franclim Dutra, hoje bancário e como colaborador permanente Filipe Teixeira. No primeiro número, surge como redator efetivo Paulo Alexandre Borges, hoje professor e investigador da Universidade dos Açores, e no número três passa a figurar como redator efetivo Teófilo Braga, que já colaborava desde o início e na altura era professor na Escola Secundária de Angra do Heroísmo.

Os conteúdos do jornal eram muito diversificados e de entre eles destacamos as questões da guerra e da paz, da escola e do ensino, da música e a ecologia/defesa do ambiente.

A paz e a guerra e o serviço militar foram temas abordados no número zero, num texto em que é defendida a objeção de consciência, no número um através de depoimentos de um soldado, de um padre e de um professor e no número quatro através do texto sobre Einstein “O pai da bomba era pacifista”.

As questões relacionadas com o ensino educação e o desporto são abordadas no número zero através de dois textos, um dos quais sobre a disciplina de educação física, no número três é denunciada a situação do bufete e é feita uma reportagem sobre a associação de estudantes e no número quatro saiu um texto sobre o filósofo Ivan Illich.

Relativamente à cultura, a música aparece no número zero, através de um texto sobre John Lennon, no número dois com um texto sobre a vida e a obra de Chico Buarque e no quarto foi recordado Frank Zappa. No segundo número foi publicado um texto sobre a televisão, com uma apreciação às séries Cosmos e Balada de Hill Street e o professor António Neves Leal escreveu sobre “Censura, ou medo e incultura?”.

As preocupações ambientais foram tratadas no número um, através de dois textos. O primeiro “Ecologia, o que é?” e o segundo sobre o cuco cinzento. No número dois há um texto sobre “Os Montanheiros” e outro sobre o pardal. No número três há um texto sobre a ecologia e um sobre o queimado. Por último, a ecologia voltou a ser abordada no nº 4 com um texto sobre o garajau.

Se o jornal foi bem recebido junto dos alunos e dos angrenses em geral, não parece que o tenha sido junto de alguns governantes. Além disso, um jornalista do semanário “Açores” acusou, injustamente e sem qualquer fundamento, os responsáveis do “Intervenção”, do mesmo viver à custa de ajuda externa, pois segundo o mesmo o seu preço, sete escudos e cinquenta centavos (nos primeiros dois números) não dava para cobrir o custo da tipografia.

Alguns políticos também não apreciaram a pluralidade de opiniões. Assim, através do Conselho Diretivo da escola, foi proibida a venda dos jornais “Olimpo” e “Intervenção”, no interior da escola. No caso do “Intervenção” o argumento foi a existência de um colaborador que nem era aluno nem professor do referido estabelecimento de ensino.

Hélio Vieira, no seu texto, escreveu que suspeitava que a decisão do Conselho Executivo teria sido a mando da tutela, obrigando os alunos a partir do número três a ir “para as ruas de Angra do Heroísmo vender o jornal a 10 escudos cada exemplar”. Hoje, não tenho dúvidas de que o Conselho Executivo não tomou aquela decisão por sua iniciativa, pois a “perseguição” também acabou por chegar ao “Vida Académica”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31329, 13 de setembro de 2017, p.13)

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Raymond Poincaré



Raymond Poincaré

Raymond Nicolas Landry Poincaré (1860 – 1934) foi um político conservador francês responsável pela participação da França na Primeira Guerra Mundial. Formado em direito pela Escola Politécnica da Universidade de Paris, foi deputado, senador, ministro, primeiro-ministro e, finalmente, presidente da nação, entre 1913 e 1920.

Ao longo da sua vida Raymond Poincaré foi um acérrimo defensor dos direitos dos animais, tendo pertencido à Sociedade Protetora dos Animais de França.

Ao contrário de muitos políticos que são capazes de trair a sua própria consciência para agradar â populaça e para angariar votantes, Poincaré foi sempre coerente com os valores que defendia. Um dos episódios que mostra o referido foi a recusa em participar numa caçada oficial, em França, e numa tourada quando se deslocou a Espanha. a convite do rei D. Afonso XIII. Segundo os jornais da época, o presidente da República francês justificou a sua não comparência nos seguintes termos: “tendo a honra de pertencer, como sócio efectivo, à Sociedade Protectora dos Animais, de França, não era compatível, com a sua voluntária inscrição na referida Sociedade, a assistência a um espectáculo do género dos que os zoófilos condenam”.

O jornal “O Zoófilo”, de abril-junho de 1999, que serviu de fonte para este texto, publicou o poema “O cão do pobre” de Raymond Poincaré quando o mesmo tinha a idade de 13 anos. Dada a extensão do mesmo, divulgamos aqui, apenas, um extrato:

Nenhum amigo segue à fúnebre morada
O pobre, que não tendo a sorte afortunada,
Nem honras, nem prazer,

Um só amigo o segue, mas esse bem fiel:
O cão, que foi comparte de todo o amargo fel
Daquela dura vida;

Saudoso o cão amigo não busca alimentar-se,
Carpindo o seu pesar na lousa vai deitar-se,
E morre descuidado.

Haverá sobre a terra outra amizade forte
Igual à d’esse cão, fiel até à morte
Ao dono infortunado? ...

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31328, 12 de setembro de 2017, p.16)


quinta-feira, 7 de setembro de 2017

terça-feira, 5 de setembro de 2017

O hidrogénio: mito ou elixir?


O hidrogénio: mito ou elixir?

Por diversas vezes, várias vozes, não só de ambientalistas ou ecologistas, têm alertado para o esgotamento dos combustíveis fósseis e para a necessidade do homem procurar alternativas para os mesmos, não só por causa da sua crescente escassez mas sobretudo para acabar com os impactos ambientais negativos do seu uso.

Um dos processos há muito tempo conhecido é o do uso do hidrogénio que, ao contrário do que comumente se pensa, não é uma nova forma de energia, mas apenas um intermediário entre as energias primárias, que podem ser fósseis ou renováveis, e a energia final, de tipo elétrico.

O uso do hidrogénio nos automóveis ou outros meios de transporte não é de agora. Com efeito, o jornal Correio dos Açores, no dia 7 de fevereiro de 1958, publicou um artigo intitulado “Um italiano afirma que a água substituirá a gasolina”, onde é referido que “o velho sonho de utilização da água como combustível dos motores dos automóveis parece, finalmente, estar a ponto de concretizar-se”.

Ainda segundo o mesmo artigo, o inventor italiano Pietro Fasoli “explicou que o motor se baseia num sistema que, por eletrólise, liberta o hidrogénio; o carburante necessário ao motor que idealizou”.

Muito antes da data mencionada o hidrogénio já era usado. Com efeito, em 1794, o primeiro gerador de hidrogénio terá sido construído em França e, em 1920, as primeiras células produtoras de hidrogénio foram comercializadas nos Estados Unidos.

O primeiro grande defensor do hidrogénio como alternativa às outras “formas de energia terá sido o cientista John Haldane que também teve o cuidado de apontar o principal entrave ao seu uso futuro. Assim, segundo ele, o grande obstáculo era o custo inicial elevado e as grandes vantagens seriam que com o tempo a energia seria tão barata, o mercado descentralizado e não haver produção de “cinza nem fumaça”.

Nos Açores, no início do presente século também se pensou na economia do hidrogénio, tendo estudos conducentes à sua produção sido iniciados, em 2001, pelo Laboratório de Ambiente Marinho e Tecnologia (LAMTec), localizado na Praia da Vitória (Ilha Terceira).

De acordo com uma notícia publicada no Correio dos Açores, cuja data precisa desconhecemos, mas do ano de 2008, o investigador da Universidade dos Açores, Mário Alves, previa que os Açores poderiam “estar, dentro de quatro ou cinco anos, a produzir 100 toneladas diárias de hidrogénio para consumo regional e exportação”. O mesmo investigador calculava que em vinte anos os Açores seriam não autossuficientes mas também exportadores de energia e acrescentava que na sua “estimativa, o arquipélago, dentro de 10 a 15 anos, será auto-suficiente ao produzir, para as suas necessidades, 30 por cento de energia geotérmica, 15-20 por cento de eólica, 5 por cento de hídrica e 50 por cento de hidrogénio”.

Depois do investimento de centenas de milhares de euros (?) da Região e de fundos europeus, deixou-se de falar no hidrogénio e não se conhece a razão por que não terá avançado o projeto.

Sobre o hidrogénio há quem tenha uma visão otimista, como Jeremy Rifkin que escreveu que “pode acabar com a dependência do petróleo, reduzir a emissão de dióxido de carbono e o aquecimento global, além de apaziguar guerras políticas e religiosas. O hidrogénio poderá se tornar o primeiro sistema energético democrático da história”.

Dale Allenm Pfeiffer, por seu lado, arrasa a economia do hidrogénio. Segundo ele “no melhor dos casos ela é ingénua, e no pior desonesta. Uma economia do hidrogénio seria na verdade uma coisa lamentável e paupérrima” e acrescenta “ao invés de desenvolver uma economia do hidrogénio, faz mais sentido — e fará sempre mais sentido — comprar um carro mais eficiente, usar transporte público, andar de bicicleta ou ir a pé.”

Que se pronunciem os especialistas e os governantes!

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31323, 6 de setembro de 2017, p17)

Saber mais: http://sicnoticias.sapo.pt/mundo/2017-07-02-O-futuro-da-mobilidade-com-automoveis-a-hidrogenio
Imagem: http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/quimica/pilha-combustivel.htm

Memória de 1985

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O Dr. Luís Cebola e os animais



O Dr. Luís Cebola e os animais

José Luís Rodrigues Cebola (1876 - 1967) foi um psiquiatra e escritor português que desde muito cedo teve uma intervenção social digna de registo. Com efeito, com 21 anos de idade foi um dos diretores de uma revista que, ainda durante a monarquia, promoveu a república e o socialismo.

Para além de diversas obras relacionadas com a sua profissão, como o livro “Patografia de Antero de Quental” (1955), Luís Cebola – era assim que assinava os seus textos - escreveu vários artigos de opinião política e foi “poeta nas horas vagas”.

Alguns dos seus poemas foram divulgados por publicações de associações de defesa dos animais, como “O Zoófilo” e Alice Moderno incluiu Luís Cebola na rubrica “poetas zoófilos” que manteve no Correio dos Açores.

Abaixo, transcrevemos um poema dedicado aos burros que foi publicado no Correio dos Açores, no dia 11 de janeiro de 1933.

Burro Velho

Sem se queixar de canseira,
trabalha como um moirinho;
Leva os sacos ao moinho
E a roupa da lavadeira

Tem um passo miudinho
porque ele sabe – quem queira
ir ao longe na carreira,
deve andar devagarinho

Porém, já foi ágil, quando
cabriolava brincando
com sua mãe paciente

Mesmo agora, sendo idoso,
apesar de vagaroso
vale mais que muita gente


Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31322, 5 de setembro de 2017, p. 13)

sábado, 2 de setembro de 2017

Ilhéu de Vila Franca do Campo

Açoriano Oriental, 3 de setembro de 2002

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Alpendre e a Missa, Terra Lavrada

Percurso Pedestre Monte Escuro - Pico da Vela


Percurso Pedestre Monte Escuro - Pico da Vela


Hoje, terminamos uma série de textos, onde fizemos a sugestão de dez trilhos pedestres a percorrer na ilha de São Miguel, com a proposta de mais um trilho no concelho de Vila Franca do Campo.

O trilho Monte Escuro – Pico da Vela que tem a forma linear e com ponto de partida e de chegada no mesmo local, o Monte Escuro, possui uma extensão aproximada de 10 km e por não possuir grandes declives pode ser classificado como fácil.

O Monte Escuro, com 890 metros de altitude, encontra-se, hoje, em parte muito alterado devido à extração e inertes. No passado estava coberto de luxuriante vegetação como se pode constatar através da seguinte descrição de Gaspar Frutuoso: "... a alta Serra do Monte Escuro, que tem no cume uma grande alagoa, ao redor da qual, antes do segundo terremoto, havia tão cerrado mato maninho, de altíssimo arvoredo de muitos cedros, folhados, faias, louros e ginjas, que ninguém podia lá passar, nem o gado que entrava podia mais sair e ali morria de velho, aproveitando somente os donos algum que, com grande dificuldade, se lhe tornava a vir por si mesmo, que eles não podiam lá entrar para o tirarem”.

Inicia-se o percurso caminhando para Oeste num terreno onde, na sua maior parte, as árvores deram lugar a uma vegetação bastante rasteira, onde predomina a queiró. A dado passo observa-se, a Sul, a Lagoa do Areeiro. Esta ocupa o fundo de uma pequena cratera com um diâmetro médio de 200 m, cujo cone em parte está ocupado por um mato de vegetação endémica.

Prosseguindo, caminhando sempre no mesmo sentido chega-se a um marco geodésico que assinala o local designado por Cumeeira que possui uma altitude de 881 metros. Aqui a vegetação continua a ser bastante rasteira, com destaque para pequenas urzes e o queiró.

Vila Franca do Campo vista da Cumeeira, parece um pequeno aglomerado de construções e o “mais formoso ilhéu que há nas ilhas”, no dizer de Gaspar Frutuoso, aparece com outra fisionomia. Vale a pena uma visita ao ilhéu, não apenas por ser uma zona balnear mas sobretudo por constituir uma maravilha da natureza.

Depois de uns minutos de repouso, continua-se a caminhar em direção ao Pico da Vela, elevação com 863 metros de altura, que está coberto essencialmente por vegetação nativa dos Açores, como urzes, queirós, folhados, tamujos, louros, tomilhos, etc..

Depois de contornarmos parte do Pico da Vela, ficamos por cima da Lagoa do Fogo que daqui parece outra.

A Lagoa do Fogo, situada a uma cota de cerca de 610 metros, ocupa o fundo da caldeira do maciço vulcânico de Água de Pau que atinge o ponto mais alto, a 949 metros, no Pico da Barrosa. A lagoa possui uma área aproximada de 1,5 km2 e uma profundidade máxima de 30 metros, sendo o seu comprimento máximo de 2,4 km e a largura máxima de 1,2 Km.
Nas águas da lagoa vivem, entre outros peixes, a carpa e a truta arco-íris, esta última espécie introduzida, em 1941, pela Junta Geral do Distrito de Ponta Delgada, bem como a rã.
Nas margens da Lagoa do Fogo nidificam duas espécies de aves marinhas: a gaivota, cuja população tem vindo a crescer muito, e o garajau-comum, que é uma espécie migradora que se encontra protegida por legislação nacional e internacional.
Depois de algum tempo de repouso e de um lanche junto ao Pico da Vela, recomenda-se o regresso ao ponto de partida, fazendo o mesmo trilho em sentido contrário.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31319, 1 de setembro de 2017, p.16)

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

terça-feira, 29 de agosto de 2017

O minuto verde açoriano que não chegou a existir


O minuto verde açoriano que não chegou a existir

Na semana passada, escrevi sobre o projeto “Educar para a energia” que foi implementado, em 2008, por quatro alunos do Mestrado em Educação Ambiental da Universidade dos Açores.

No texto mencionado, referi que uma das componentes do projeto não foi concretizada, devido à doença de um dos alunos, o Veríssimo Borges, que acabou por falecer no dia 8 de outubro do referido ano. Contudo, apesar da doença que o acometia, o Veríssimo não se manteve parado e esteve a trabalhar na criação de algo semelhante ao que a Quercus produzia a nível nacional, desde 2006, a rubrica “Minuto Verde” e que se iria chamar “Um Minuto pelos Açores”.

Hoje, pretendo dar a conhecer parte dos sete textos elaborados pelo Veríssimo Borges que já tinha contactado para o efeito a Rádio Nova Cidade, da Ribeira Grande.

No primeiro texto, intitulado “As alterações climáticas já são o drama dos nossos dias”, o Veríssimo referiu-se ao facto de “na origem das alterações climáticas que estão a mudar o mundo em que vivemos e a hipotecar o futuro dos nossos filhos, estão as formas como produzimos e gerimos a energia que utilizamos no dia-a-dia” e deu a conhecer o que seria tratado na rubrica nos seguintes termos: “abordaremos temas ambientais e de cidadania, começando por nos centrar nas questões energéticas, não só nas vertentes de produção, mas principalmente na vertente da gestão equilibrada do consumo energético de cada cidadão, de cada família”.

No segundo texto “É preciso saber gerir os nossos recursos”, ao contrário do que os detratores costumam afirmar, não havia qualquer apelo ao regresso às cavernas, mas sim à arte de “poupar e gerir as nossas necessidades energéticas sem por em causa a qualidade de vida desejada”.

No terceiro texto “É preciso saber diminuir a conta da eletricidade” é feito um apelo à diminuição dos consumos elétricos, não só das máquinas existentes nas casas, mas sobretudo na iluminação. O texto terminava com a recomendação do uso de lâmpadas eficientes, pois “gerir a sua casa com economia é também, neste caso, proteger o Ambiente e o Planeta”.

No quarto texto “Será que as lâmpadas economizadoras têm efeitos ambientais colaterais negativos”, Veríssimo Borges, apesar de continuar a defender que as lâmpadas economizadoras eram a opção mais correta, não esconde que “tal como as lâmpadas fluorescentes normais, produzem uma luz branca crua e pouco “quente” que desagrada a alguns” e que “na área de resíduos, contendo pequenas quantidades de mercúrio, são classificadas como resíduos perigosos […] duram muito mais anos diminuindo a quantidade de resíduos produzidos, são relativamente compactas e difíceis de partir e irão merecer especial atenção da parte da gestão dos seus resíduos e reciclagem por parte dos responsáveis europeus e locais”.

No minuto quinto “Resumo da Semana” é anunciado que a Rádio Nova Cidade aos domingos iria fazer uma repetição dos minutos da semana (de segunda a quinta-feira), com a presença em estúdio de um ou dois elementos dos Amigos dos Açores/Quercus, havendo a possibilidade destes entrarem em diálogo com os ouvintes.

O sexto minuto “É preciso saber gerir os nossos recursos” é dedicado aos eletrodomésticos. Nele, Veríssimo Borges defende que “sem ser nosso objetivo abdicar de muitos destes eletrodomésticos podemos otimizar o seu custo por melhor utilização destes assim como pela aquisição de máquinas com melhor comportamento energético”.

No último minuto “É preciso saber comprar os nossos eletrodomésticos”, como o nome indica, o tema volta a ser o mesmo do anterior. Nele, para além da referência a como fazer uma boa compra, é recomendado o uso dos eletrodomésticos com eficácia e dá o exemplo de “só lavar com máquina cheia e abrir poucas vezes o frigorífico”.

Foi uma pena esta componente do projeto “Educar para a Energia” não ter avançado e uma “injustiça” profunda o Veríssimo não estar entre nós pois, embora não haja insubstituíveis, continua a fazer muita falta.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31317, 30 de agosto de 2017, p.16)

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Cidade da Horta pioneira


Cidade da Horta pioneira

Durante dezenas de anos, a cidade da Horta foi exemplo para todas as outras no que diz respeito à proteção dos animais. Com efeito as suas Posturas de 1882 foram muito elogiadas pelo jornal “O Zoófilo”, em 1950, nos seguintes termos: “Ainda hoje, 68 anos decorridos, se não encontra melhor, nem igual num só diploma, mesmo emanado do Poder Central; e quanto às Posturas, raras, e muito raras se aproximam da transcrita. Às protetoras cumpre apontar o nome do seu autor, e perpetuá-lo da melhor forma”.

Embora as medidas propostas, pelo menos as que são do nosso conhecimento, quase perderam atualidade, pois, hoje, são mais raros os animais usados no transporte de pessoas e cargas, vamos fazer referência a algumas delas.

No que diz respeito aos burriqueiros, o código de posturas proibia, entre outras, o uso de “animais extenuados, chagados, doentes ou famintos sob pena de 4$000 reis”, também proibia “aos burriqueiros carregar em bestas cargas superiores às forças dos animais, sob pena de 600 reis” e fixava uma punição com três meses de cadeia para todo “o indivíduo que nas ruas da cidade ou estradas públicas, espancar cruelmente as bestas mesmo quando emperram”.

No que diz respeito aos cocheiros, o código de posturas proibia “o emprego de cavalgaduras doentes, maltratadas, feridas, manhosas ou mal ensinadas, e no caso de contravenção seu dono ou proprietário do trem que as empregue será inibido de fazer serviço com elas e pagará a multa de 4$000 reis” e obrigava o uso de “chaireis de oleado em tempo chuvoso” para proteger “os animais muares ou cavalares empregados no serviço de trens”, “sob pena de 1$000 reis”.

No que diz respeito a outros animais que não os de tiro, as Posturas da cidade da Horta proibiam a condução “de aves ou quaisquer animais vivos, pendurados de cabeça para baixo sob pena de 480 reis de multa de cada vez” bem como proibiam o espancamento ou outras práticas de crueldade “ou ferocidade com os cães que divagam, sob pena de 240 reis de multa ou 24 horas de cadeia”.

Na ocasião, o jornal referido considerava que mais do que Posturas camarárias que dependiam das pessoas que num dado momento ocupavam os cargos era importante a existência de legislação a nível estatal que obrigasse todos a cumprirem.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31316, 29 de agosto de 2017, p. 13)

Topo Gigio

domingo, 27 de agosto de 2017

sábado, 26 de agosto de 2017

Para quê?

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Percurso Pedestre da Ribeira do Faial da Terra



Percurso Pedestre da Ribeira do Faial da Terra


Este percurso, que tem início na freguesia de Água Retorta, localiza-se, na sua maior parte, na freguesia do Faial da Terra, na costa Sul da ilha de São Miguel, a cerca de 5 km, a Este, da vila da Povoação.

Trata-se de um trilho linear, com cerca de 7 km de extensão, estando classificado com o grau de dificuldade médio.

Antes de iniciar o trilho recomenda-se uma visita ao Parque Florestal de Água Retorta, uma Reserva Florestal de Recreio criada pelo Decreto Regulamentar Regional nº 19/2003/A. A sua inauguração ocorreu a 9 de Julho de 2000, em cerimónia presidida pelo Presidente do Governo Regional dos Açores. No parque é de destacar a presença de algumas plantas endémicas como o cedro-do-mato, a ginja, o louro e o folhado. Para além destas, é de realçar a presença do pinheiro manso, do cipreste, da araucária, do carvalho e do castanheiro-da-índia.

O percurso inicial faz-se por um caminho de terra até se encontrar um antigo moinho de água. Junto ao moinho, a vegetação é luxuriante, distinguindo-se a presença de eucaliptos, acácias, incensos e conteiras.

Neste local e em quase todo o percurso é possível observar algumas espécies da avifauna local, como melros-negros, alvéolas, tentilhões, pombos torcazes e santantoninhos. Embora com maior dificuldade, também, é possível observarmos o coelho, espécie introduzida pelos primeiros povoadores e o morcego dos Açores.

A seguir ao moinho o percurso faz-se no interior de uma mata de criptoméria e de alguns incensos. Ao longo do trilho existem várias pontes de madeira construídas sobre pequenos afluentes que alimentam a Ribeira do Faial da Terra.

Continuando a caminhar em direção ao Sul chega-se ao trilho do Sanguinho. Aqui, o viajante tem as seguintes opções: vira à esquerda e desde um carreiro que o leva à bonita cascata do Salto do Prego ou continua a descer o trilho e um pouco mais à frente vira à direita e dirige-se ao Sanguinho.

Recomendamos uma descida até ao Salto do Prego, onde os mais corajosos poderão banhar-se nas águas frias mas límpidas da Ribeira do Faial da Terra. Aqui a vegetação não difere muito da que se encontra ao longo do trilho, mas é possível encontrar, junto à cascata, diversas espécies de fetos.

De entre as espécies de aves que se podem observar, destacamos a alvéola, uma ave que nunca foi perseguida pois dizia-se que era sagrada. Sobre esta espécie o padre vila-franquense Manuel Ernesto Ferreira escreveu o seguinte:

“Diz o povo micaelense: - Quando a Virgem Maria, fugindo à perseguição de Herodes, ia a caminho do Egipto, amaldiçoou o tremoço e a codorniz e abençoou a arvelinha. Ao tremoço, que com o ruído das suas vagens sêcas, denunciava a passagem da fugitiva Senhora, deu-lhe esta como castigo não poder o seu grão encher barriga nem matar fome. À codorniz que, adeantando-se, parecia com a sua voz dizer cá vai aos agentes do rei cruel, condenou-a a voar sempre rasteira. Mas à arvelinha, que com sua cauda ia diligentemente apagando todas as pegadas, bendisse-a a Virgem em recompensa de tam santo cuidado.”

Depois da visita ao salto do Prego, recomenda-se a passagem no Sanguinho, assim chamado, segundo cremos, devido à presença da planta endémica dos Açores denominada sanguinho que foi reintroduzida recentemente. Aqui, para além do casario, que continua em recuperação, avistam-se quintais com várias espécies de árvores de fruta, como araçazeiros, pessegueiros, macieiras, laranjeiras e bananeiras.
Continuando o percurso, depois de uma descida bastante íngreme, chega-se ao Burguete, onde se encontra um “Teatro” do Espírito Santo, cuja construção data de 1908.
Recomenda-se um passeio pela freguesia que é considerada o “Presépio da ilha”.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31313, 25 de agosto de 2017, p.10)

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Portugal, que ensino?

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Educar para a Energia, um projeto que não teve continuidade


Educar para a Energia, um projeto que não teve continuidade

No ano de 2008, no âmbito do Mestrado em Educação Ambiental da Universidade dos Açores, existia uma disciplina intitulada “Projetos de Intervenção Ambiental” que tinha como docentes o Professor Doutor António Félix Rodrigues e o Professor Doutor Pedro González.

Tratava-se, como o nome sugere, de uma disciplina essencialmente prática, onde os mestrandos eram obrigados a criar e implementar projetos de intervenção junto das comunidades. Um dos projetos intitulou-se “Educar para a Energia” e foi implementado por Cláudia Tavares, Helena Primo, Teófilo Braga e Veríssimo Borges.

Embora já se tenham passado nove anos, as razões para a implementação do projeto permanecem atuais. Com efeito, a energia continua a ser um recurso indispensável para a vida, ao bem-estar dos cidadãos e ao desenvolvimento socioeconómico, de todas as sociedades e também continua a ser um forte fator de pressão ambiental. Além disso, continua a não existir um programa continuado de educação que promova o uso racional dos recursos naturais e a conservação da qualidade do ambiente e no caso da energia continua-se a dar ênfase à produção e esqueceu-se, quase por completo, a aposta na eficiência energética, combatendo a irracionalidade e o desperdício.

Relativamente à educação para a energia, a Região já esteve em melhor situação, quando possuía uma verdadeira rede de ecotecas, geridas pelas mais diversas associações, e quando possuía uma Agência Regional de Energia, que em pouco tempo muito fez em termos de sensibilização da opinião pública e de educação para um consumo mais eficaz dos recursos energéticos. Curiosamente tanto as ecotecas como a agência foram destruídas, pelo governo do mesmo partido político que as criou, sem ter sido feita qualquer avaliação ao trabalho desenvolvido.

No que diz respeito ao projeto “Educar para a Energia”, em menos de um ano, três dos seus membros estiveram envolvidos em diversas atividades ou promoveram outras que, com todo o gosto, a seguir darei a conhecer aos leitores do Correio dos Açores. Mas antes de o fazer, esclareço que um dos participantes do projeto, o Veríssimo Borges, por razões de saúde, não pode participar, mas esteve a preparar uma das componentes do projeto que não chegou a ver a luz do dia e que em próximo artigo divulgarei.

No que diz respeito aos produtos resultantes do projeto, destaco a publicação de um “Guião para uma Auditoria Energética às Escolas” que permitia a quantificação dos consumos, tornando possível a identificação das melhores opções para a melhoria do desempenho energético das escolas.

Para além do guião referido, salienta-se a edição da brochura “Viagem no tempo”, destinada a crianças com idades compreendidas entre os 8 e 11 anos de idade, onde foram abordadas, para além das energias renováveis, as alterações climáticas e a poupança energética.

Para os mais pequeninos, alunos do 1º e do 2º ciclo do ensino básico, foi editada uma monofolha sobre energia eólica, onde para além de ensinar a construir um moinho de vento, informava sobre as potencialidades do vento, a sua importância e utilização na produção de energia e, ainda, sobre as vantagens e desvantagens da energia eólica.
No âmbito do projeto foram implementados três ateliers de construção de carrinhos fotovoltaicos e fornos solares, dois na Escola Secundária das Laranjeiras, com a participação de 32 alunos, e um na Ecoteca da Ribeira Grande, com a participação de 19 alunos da Escola Básica Integrada Gaspar Frutuoso.

Também foram realizadas quatro sessões de esclarecimento sobre Energias Renováveis e Eficiência Energética, destinadas a alunos do 1º e 2ºciclos de várias escolas que contaram com a participação de um total de 107 alunos.

Hoje, os materiais editados já se encontram esgotados, mas a versão digital de alguns deles pode ser consultada na página dos Amigos dos Açores e no blogue do projeto (http://educarparaaenergia.blogspot.pt/).

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31311, 23 de agosto de 2017, p.16)

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Manuel de Arriaga e a proteção dos animais


Manuel de Arriaga e a proteção dos animais

No dia 2 de agosto de 2016, publiquei um texto sobre o segundo presidente da república portuguesa, o micaelense Joaquim Teófilo Fernandes Braga (1843 - 1924) e os animais. Hoje, darei a conhecer o contributo do primeiro presidente da república portuguesa, o faialense Manuel de Arriaga (1840 - 1917).

De acordo com informação colhida na publicação “O Zoófilo”, da Sociedade Protetora dos Animais, de janeiro-março de 1999, o Dr. Manuel de Arriga foi sócio efetivo daquela associação, tendo visitado as suas instalações no início do seu mandato, EM 1911, como presidente da república. Na ocasião, ele mesmo estabeleceu o valor da sua quota que passou a ser a mais elevada de todas.

Sobre a sua dedicação à causa animal um jornal da época escreveu: “o presidente Arriaga, em Portugal, tem sobejamente demonstrado quanto se interessa pelo desenvolvimento e prosperidade das Sociedades Protectoras de Animais, consideradas como elemento de educação e, consequentemente, de progresso social”.

Em 1989, Manuel de Arriaga escreveu uma poesia sobre os maus tratos aos animais de tiro que intitulou “Bendito Coice!” que por ser longa apenas transcrevemos alguns extratos:

Subia à noite a rua de S. Bento
Um carro americano;
O peso é muito; o gado é lazarento
Sujeito a esforço insano!

Da mula onde caiu a chicotada,
A paz que tinha foi-se!...
E unindo as poucas forças indignada,
Ferrou no carro um coice!

Alguns dos passageiros, resolutos,
Resolvem-se a ir a pé,
E os mais já pedem a favor dos brutos
Amor, justiça até!...

O ódio aos animais, durante o resto
Da longa rua foi-se,
Devido àquele enérgico protesto,
Bendito aquele coice!...

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31310, 22 de agosto de 2017, p.13)

A obsessão do Arnaldo



A obsessão do Arnaldo

O dito especialista em direito regional, que também é especialista em touradas, publicou recentemente uma folha de couve onde afirma que “Na verdade, a primeira lei, na altura aprovada através de portaria governativa, é de 1978. Isto é, ainda em Portugal não se pensava nos direitos dos animais – e já os Açores tinham leis que protegiam o toiro da Terceira”.

Protegido pela famosa legislação de proteção aos touros da Terceira ainda ontem, dia 19 de agosto, morreu um touro numa tourada à corda na freguesia da Agualva.

Como o jurista parece não ser bom em história, recordamos o Decreto de Passos Manuel, de 19 de setembro de 1836, que sobre as touradas diz o seguinte:

“Considerando que as corridas de touros são um divertimento bárbaro e impróprio de Nações civilizadas, bem assim que semelhantes espetáculos servem unicamente para habituar os homens ao crime e à ferocidade, e desejando eu remover todas as causas que possam impedir ou retardar o aperfeiçoamento moral da Nação Portuguesa, hei por bem decretar que de hora em diante fiquem proibidas em todo o Reino as corridas de touros."
20 de agosto de 2017
José Ormonde

Bento de Jesus Caraça

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Percurso Pedestre Calhetas - Poços



Percurso Pedestre Calhetas - Poços


O trilho que propomos hoje tem uma extensão aproximada de 6,5 km e pode ser realizado em aproximadamente duas horas, estando classificado como fácil. O início deste percurso, que é praticamente plano, tanto pode ser feito nas Calhetas como na zona balnear dos Poços, em São Vicente.

Este trilho é um dos mais antigos que os turistas percorrem, sendo um dos mencionados para São Miguel no livro “The Azores – Garden Islands of the Atlantic”, da autoria de David Sayers e Albano Cymbron, publicado em 1991.

Propomos o começo do percurso junto à igreja da localidade, na freguesia das Calhetas, a mais pequena e a menos populosa do concelho da Ribeira Grande.

A primitiva igreja remonta a meados do século XVI, tendo sofrido várias alterações até que em 1830 foi decidido o seu aumento e passou a adquirir “a feição arquitetónica que hoje apresenta”.

Depois de uma breve caminhada, que se inicia na Rua da Boa Vista e prossegue num estreito carreiro sobre a arriba, chega-se ao local do Buraco de São Pedro. Neste ponto podemos observar a linha da costa que vai desde a Ponta da Agulha até à Ponta do Cintrão. Na paisagem, a Sul, sobressaem os cones de escórias do Complexo Vulcânico dos Picos.

Ao longo do percurso é possível observarmos, entre outras, as seguintes aves: o pombo da rocha, o pardal, o canário da terra, a gaivota, o garajau comum, o milhafre, o estorninho e, em alguns meses do ano, o garajau- comum.

Em relação à vegetação existente em redor do Buraco de São Pedro, destacamos a diabelha, fava da cova, o bracel e o feto falcão.

Continuando o percurso, e depois de percorrida a Rua de São Pedro, entra-se na Rua Infante D. Henrique, onde se situa um ponto de paragem sobranceiro ao mar. Daqui podemos apreciar uma bonita paisagem do litoral, onde se pode avistar a zona balnear dos Fenais da Luz e, à esquerda, a Igreja da localidade, o Morro das Capelas e a Ponta da Agulha.

Seguindo sempre próximo do litoral, depois de passarmos o casario dos Fenais da Luz vamos encontrar uma zona onde é possível observar relheiras, que são sulcos escavados pelas rodas dos carros de bois na rocha vulcânica, que existem em várias ilhas e que testemunham do trabalho árduo dos nossos antepassados e do esforço, muitas vezes não compensado ou reconhecido, dos animais de tiro que foram grandes auxiliares do homem até ao aparecimento dos veículos motorizados.

O percurso pedestre termina, na freguesia de São Vicente Ferreira, no lugar designado por Poços, depois de ter percorrido todo o litoral da freguesia dos Fenais da Luz. Ao longo do percurso entre aquelas duas localidades, é possível encontrar, entre outras, as seguintes espécies da flora dos Açores: diabelha, vidália, tintureira, usai-dela, murta e feto marítimo.

Os Poços são hoje uma das principais zonas balneares da costa norte de São Miguel e outrora foram sede da única fábrica de transformação de cetáceos da ilha de São Miguel, construída em 1934. A fábrica, que se encontra, hoje, em ruínas, deixou de laborar em 1972, data em que cessou a baleação no Grupo Oriental do Arquipélago dos Açores.

Hoje, como forma de relembrar a atividade que teve grande importância para a localidade e homenagear os baleeiros, realiza-se, desde 1991, a Semana Baleeira que anualmente apresenta um programa composto por várias atividades culturais, recreativas e desportivas.

É de assinalar, nos Poços, a existência de um moinho de vento, construído nos finais do século XIX que pertenceu ao Engª. Santos Simões, que o adquiriu aquando da sua permanência em São Miguel, onde escreveu o seu monumental livro Azulejaria nos Açores e na Madeira, editado pela Fundação Calouste Gulbenkian, em 1963.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31307, 18 de agosto de 2017, p.13)

Carnaval

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A Energia Nuclear no Estado Novo


A Energia Nuclear no Estado Novo


Ao longo dos tempos, no nosso país, tem surgido a ideia da utilização da energia nuclear para a produção de eletricidade. Neste texto, darei a conhecer o que se pensava fazer no Estado Novo e algumas notícias e textos sobre o assunto publicados na ilha de São Miguel.
Num texto publicado na revista “Brotéria”, em 1954, Abílio Martins, escreveu que, dado o “progresso técnico” alcançado, acreditava que “a construção e exploração industrial duma central atómica, destinada a valorizar os nossos minérios uraníferos e dar um largo apoio efectivo ao plano em marcha da nossa eletrificação, haja de se afirmar oportunamente como uma realidade triunfal”.

O autor referido, no seu texto, abordou a questão dos custos de produção das centrais atómicas que era mais elevado do que as centrais térmicas, mas mostrou-se otimista em relação ao assunto, como se depreende da leitura do seguinte extrato: “Ademais, a técnica da captação da energia nuclear encontra-se em decidida evolução, e tudo leva a crer que, dentro em breve, escolhendo bem o dimensionamento duma central “atómica”, possamos obter energia eléctrica a preços sensivelmente inferiores…”

Sobre o nuclear, o presidente do Conselho de Ministros, ao dar posse à Junta de Energia Nuclear, criada pelo Decreto-Lei nº 39580, de 29 de Março de 1954 e que tinha, entre outras atribuições, a de produzir e aproveitar combustíveis nucleares e produzir energia elétrica por via nuclear, disse: “…pode bem ser que a Providência, tendo-se mostrado avara connosco quanto a fontes conhecidas de energia – o carvão, os óleos minerais, mesmo a força hídrica – nos tenha compensado de alguma forma com um pouco de urânio e de outros minérios afins, mananciais a explorar no futuro”.

A 12 de fevereiro de 1958, o Dr. António Augusto Riley da Mota publicou no Correio dos Açores um longo texto intitulado “Milhões de graus…” onde abordou as duas formas de energia nuclear, a fissão, usada hoje nas centrais nucleares e que é fortemente contestada devido ao problema das radiações e dos resíduos nucleares, e a fusão que não tem os inconvenientes da fissão, sendo, portanto, uma forma de energia limpa.

No seu texto, o Dr. A. A. Riley da Mota, depois de referir que o cientista inglês Cockroft havia comunicado que “ele e os seus colaboradores estavam a ultimar uma grande descoberta”, escreveu o seguinte: “Tratar-se-ia da obtenção acessível de altíssimas temperaturas – da ordem de milhões de graus! – que permitiriam, dentro de poucos anos, fácil libertação de energia termonuclear a partir de elementos baratos, como o hidrogénio e semelhantes, especialmente o deutério, que abunda na água.”

A 10 de abril de 1958, o jornal “Correio dos Açores” publicou uma nota da ANI onde a dado passo se afirma que “dentro de dez anos a principal fonte de energia, para Portugal será atómica”. Na mesma notícia pode-se ler que estava a ser acelerada “a exploração dos jazigos de urânio no Norte do País” e em Angola e Moçambique estava “a ser executado um programa para a exploração de jazigos de urânio”. Por último, ainda se pode ler que “antes de dois anos, Portugal tenciona possuir a sua primeira estação geradora atómica”.

No dia 24 de dezembro de 1971, o Correio dos Açores publicou uma pequena nota onde se podia ler que sem centrais “electro-nucleares” não havia futuro e se previa que no ano dois mil 50% da energia elétrica seria produzida a partir de centrais nucleares.

A 3 de janeiro de 1974, o presidente da Junta de Energia Nuclear, general Kaúlza de Arriaga, considerou que aquele organismo era o “expoente maior da intelectualidade portuguesa e do conhecimento científico e da capacidade técnica nacionais” e acrescentou o seguinte: “Reactores térmicos de urânio natural ou ligeiramente enriquecido, reactores térmicos de urânio altamente enriquecido, reactores rápidos e fusão nuclear controlada constituirão, certamente, os marcos principais do caminho que salvará a Humanidade de uma penúria de energia que a conduziria a um retrocesso de séculos”.

Apesar das várias tentativas, não há centrais nucleares em Portugal e apesar da previsão otimista em relação à expansão da energia nuclear no mundo, em 2016, a energia nuclear era responsável por apenas 11% da energia elétrica produzida. A fusão nuclear, por seu turno, ainda não é uma realidade que se possa juntar às fontes renováveis de energia que estão em expansão no nosso planeta.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31306, 17 de agosto de 2017, p.13)