Mostrar mensagens com a etiqueta Rómulo de Carvalho/António Gedeão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rómulo de Carvalho/António Gedeão. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Rómulo de Carvalho/António Gedeão



Rómulo de Carvalho, a Cultura Científica e a Poesia

Ontem, 24 de novembro, passou quase despercebido, entre nós, a comemoração do Dia Nacional da Cultura Científica, instituído para celebrar o nascimento de Rómulo de Carvalho (24 de novembro de 1906-19 de fevereiro de 1977) e homenagear o seu trabalho ímpar na divulgação científica e no ensino da ciência, mais concretamente da Física e da Química.

Por ocasião do seu nonagésimo aniversário Rómulo de Carvalho/António Gedeão foi homenageado a nível nacional, tendo recebido do presidente da república, Jorge Sampaio, a Grã Cruz da Ordem Militar de Santiago e Espada e visto ser atribuído o seu nome ao laboratório de Física do Liceu Pedro Nunes, escola onde fez o seu estágio, foi professor durante 14 anos e depois professor metodólogo do grupo de Físico-Químicas.

Na ocasião e por sugestão da minha colega Maria Leonor Bastos Rego Costa, o grupo disciplinar de Física e Química da Escola Secundária das Laranjeiras enviou um cartão de aniversário, tendo Rómulo de Carvalho acusado a receção nos seguintes termos: “agradece, muito reconhecido, os parabéns que o Grupo de Físico-Químicas da Escola Secundária das Laranjeiras, em Ponta Delgada, teve a amabilidade de lhe enviar”.

Com a sua morte, em 19 de fevereiro de 1997, Rómulo de Carvalho não caiu no esquecimento, pois as suas obras, tanto na área das ciências como na da literatura, continuam a despertar a curiosidade de muitos leitores e sobre ela têm sido publicados vários trabalhos. Mas, tal como escreveu A. Nunes dos Santos, a maior homenagem que se pode fazer é: “ler e reler a sua obra, é sentir o uso, a força e a excelência da sua linguagem, as imagens claras, a alacridade às novas ideias que converterão, sem dúvida, os leitores a apaixonarem-se pela ciência.”

Para quem quiser conhecer melhor a sua biografia recomenda-se a leitura das suas “Memórias”, livro que foi editado pela Fundação Calouste Gulbenkian e cujo título completo é: “Memórias que para instrução e divertimento de seus tetranetos escreveu certa pobre criatura que, entre milhares de milhões de outras, vagueou por este mundo na última centúria do seguindo milénio da era de Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Neste livro, Rómulo de Carvalho, com muito humor, faz uma descrição do que foi a sua longa vida de 91 anos. De entre os vários episódios que ele relata recordo-me da ironia com que escreveu sobre o PREC, tendo ao mesmo dedicado alguns exercícios/problemas de cinemática “revolucionária”.

No final do livro e da vida, Rómulo de Carvalho, alvo de uma doença que o martirizou, escreveu: “O mundo é repugnante e a vida não tem sentido. É uma luta permanente e feroz em que cada um busca a satisfação dos seus interesses exatamente como outros quaisquer seres vivos, animais ou plantas, que se espreitam e atacam”.

Sobre a relação morte/vida, também escreveu. “A vida nunca me seduziu. Entre o viver e o morrer sempre preferi morrer. Se não tivesse nascido, ninguém daria pela minha falta. Reconheço que estou a ser indelicado com todos aqueles que gostam de mim, mas peço-lhes que me desculpem. É preciso ter vocação para viver…”

Discordamos destas últimas palavras de Rómulo de Carvalho/António Gedeão, já que a sua vida e obra foi riquíssima e sem o seu contributo o nosso país seria mais pobre. Sem ele não existia o magnifico poema que abaixo transcrevo:
Lágrima de preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

Teófilo Braga


(Correio dos Açores, 30793 de 25 de novembro de 1975 p.14)

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Uma selecção de poemas de António Gedeão


Fala do Homem Nascido


Pedra Filosofal

Lágrima de Preta

Poema para Galileu


Poema do Coração

"Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração
Então poderia dizer-vos:
"Meus amados irmãos,
falo-vos do coração",
ou então:
"com o coração nas mãos".
Mas o meu coração é como o dos compêndios
Tem duas válvulas (a tricúspide e a mitral)
e os seus compartimentos (duas aurículas e dois ventrículos).
O sangue a circular contrai-os e distende-os
segundo a obrigação das leis dos movimentos.
Por vezes acontece
ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados
e uma lâmina baça e agreste, que endurece
a luz nos olhos em bisel cortados.
Parece então que o coração estremece.
Mas não.
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,
que esse vento que sopra e ateia os incêndios,
é coisa do simpático.
Vem tudo nos compêndios.
Então meninos!
Vamos à lição!
Em quantas partes se divide o coração?"

Biografia e Bibliografia de Antonio Gedeão