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segunda-feira, 23 de abril de 2018
Notas sobre a “Pedagogia Libertária” de Edmond-Marc Lipiansky
Notas sobre a “Pedagogia Libertária” de Edmond-Marc Lipiansky
Edmond-Marc Lipiansky, professor de psicologia na Universidade de Paris X - Nanterre, é autor de um pequeno livro intitulado “A Pedagogia Libertária”, traduzido para português, por Plínio Augusto Coelho e editado no Brasil, em 1999.
O livro, que tivemos a oportunidade de ler graças ao empréstimo de um amigo que conhece o meu interesse pelo tema da educação, é constituído por duas partes: a primeira, intitulada “As teorias e as experiências anarquistas em matéria de educação” e a segunda com o título: “O sistema anarquista de educação: análise crítica”.
Na primeira parte, entre outros assuntos, o autor escreve, muito abreviadamente, sobre as ideias de Proudhon, as defendidas pela Primeira Internacional, as de Tolstói e de Ferrer e sobre a experiência das comunidades escolares de Hamburgo.
Na segunda parte do livro o autor esclarece que, ao contrário de outras correntes do pensamento, os anarquistas não pretendem a democratização do ensino, mas “transformá-lo radicalmente e lançar as bases de uma educação popular”.
Os pensadores anarquistas contestam os sistemas de educação existentes pois consideram que são autoritários, denunciam o fosso existente entre a escola e a vida e acusam o ensino de ser de classe, isto é, para além de servir os interesses das classes dominantes, serve também para “reproduzir a divisão da sociedade em classes”.
Não havendo unanimidade no que diz respeito à função da educação, podemos distinguir duas posições. Uma que considera que “a criança não é um adulto inacabado, é um ser tendo a sua sensibilidade, a sua inteligência, suas necessidades e seus interesses diferentes daqueles do adulto”, destinando-se, portanto, a educação a devolver a criança à sua natureza, não a adulterando. Contrariando a posição anterior, Proudhon e os seus discípulos defendem que a criança “deve ser preparada para o seu futuro papel de trabalhador e de cidadão livre”.
Em relação ao tipo de educação que defendem, os libertários são adeptos de uma educação integral, que alie a teoria à prática e preconizam “um ensino fundado sobre a verdade científica”. Não se pense que eles não refletem sobre a ciência que, segundo alguns, pode ser “um instrumento de poder nas mãos da classe dominante”. Para além do referido, os anarquistas defendem que a educação não deve ter qualquer componente de “instrução religiosa”.
Lipiansky, a dado passo do seu trabalho, afirma que o projeto educativo dos anarquistas está intimamente associado ao conceito de liberdade. Aqueles, também defendem que a relação pedagógica deve ser “livre porque tende à igualdade entre os parceiros na relação” e “inspirada pela amizade, pela fraternidade” entre professores e alunos.
Os pensadores anarquistas, também, defendem o trabalho em grupo, pois consideram “a camaradagem fraternal, a cooperação, “o treinamento progressivo do fraco ao forte” mais importante do “que a competição e a concorrência”.
Nas propostas pedagógicas dos anarquistas ou de quem defendia ideias afins, existe uma “dimensão utópica”, mas eles tinham consciência “de que numa sociedade de classes, e uma sociedade hierárquica e autoritária, o ensino só podia ser um ensino de classe, hierarquizado e repressivo”. Assim, embora acreditassem que uma pedagogia libertária só poderia ser implementada quando estivesse implantada uma sociedade socialista libertária - Bakunine foi claro ao dizer que a prioridade não era a educação, mas a emancipação económica -, os anarquistas não esperaram que a sociedade se alterasse para implementar as suas ideias, tendo criado diversas experiências pedagógicas, como a escola Iasnaia-Poliana, de Tolstói, a Escola Moderna, de Ferrer, ou as comunidades escolares de Hamburgo.
Por último, é preciso não esquecer que os pensadores anarquistas ou os seus inspiradores, como Tolstói, foram “percursores de inúmeras correntes recentes da pedagogia”. Sobre este assunto, Lipiansky cita, entre outras, a título de exemplo, a Escola de Summerhill, fundada pelo educador Alexander Sutherland Neill, a Escola do Povo, do pedagogo francês Célestin Freinet, a autogestão pedagógica e as ideias do austríaco Ivan Illich que defendeu que não era possível a educação universal através da escolarização.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 31506, 18 de abril de 2018, p.14)
terça-feira, 7 de novembro de 2017
O Pedagogo Adolfo Lima
O Pedagogo Adolfo Lima
Quando se fala no Movimento da Escola Moderna há nomes que é obrigatório referir pelo seu contributo para a filosofia daquela organização portuguesa de autoformação cooperada de professores.
Sérgio Niza, o nome mais conhecido e o líder daquele movimento, num texto publicado, em 2001, na revista “Escola Moderna”, recorda os nomes dos franceses Célestin Freinet e Barthélemy Profit, dos norte-americanos John Dewey e Jerome Bruner e do russo Liev Vygostky. Relativamente aos portugueses, Sérgio Niza destaca os nomes de António Sérgio, já mencionado em textos anteriores que publicamos no Correio dos Açores, e de Adolfo Lima, que daremos a conhecer no texto de hoje.
Adolfo Godfroy de Abreu e Lima, nasceu em Lisboa no dia 28 de maio de 1874 e faleceu, com 69 anos de idade, na mesma cidade a 27 de novembro de 1943. Filho de família abastada pertencente à nobreza, segundo Alexandre Vieira no seu livro “Figuras Gradas do Movimento Social Português, “poderia ter usado, após o desaparecimento do seu progenitor, o título de conde, que lhe pertencia, mas que não quis adoptar, do mesmo passo que abandonou todas as honrarias e proveitos, preferindo fazer uma vida apagada, mas plena de trabalho fecundo”.
Adolfo Lima que foi Bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, tendo exercido advocacia entre 1902 e 1910, abandonou a sua profissão para se dedicar ao ensino, segundo Alexandre Vieira, porque “capacitara-se de que estivera deslocado, até então, do ponto de vista profissional”. O historiador, arquivista e escritor Edgar Rodrigues, numa nota biográfica corrobora as afirmações anteriores quando afirma que: “Os seus sentimentos incompatibilizaram-no com a sua profissão e foi ser professor de Sociologia no Curso Livre de Arte de Representar na Associação de Classe dos Artistas Dramáticos”.
Não sendo operário, Adolfo Lima dedicou grande parte da sua vida á luta pela emancipação dos trabalhadores, tendo colaborado com as suas organizações sindicais, como a Comissão Executiva do Congresso Sindicalista, a União Operária Nacional e a Confederação Geral do Trabalho, tendo sido ele, segundo Edgar Rodrigues, o autor da tese Organização Social Sindicalista, apresentada no Congresso da Covilhã, realizado em 1922.
Na área da educação, Adolfo Lima foi professor do ensino particular em diversos estabelecimentos de ensino, lecionou no Liceu Pedro Nunes, de 1911 a 1923, na Escola Normal Primária de Lisboa onde foi responsável pela disciplina de Metodologia, criou e dirigiu a Escola-Oficina nº 1, foi chefe dos Serviços Escolares da Sociedade A Voz do Operário, colaborou com a Universidade Popular Portuguesa e foi dirigente da Sociedade de Estudos Pedagógicos e da Liga de Ação Educativa.
Para além de ter colaborado em diversas revistas e jornais de orientação libertária, traduziu várias obras de autores famosos, como a “Verdade”, de Emílio Zola, e “A Luta Univeral”, de Dante. Das diversas obras da sua autoria, destacamos a “Pedagogia Sociológica: princípios de pedagogia e plano de uma organização geral de educação”, em dois volumes, publicada em 1936. Ainda na área do ensino, Adolfo Lima fundou a revista Educação Social e a Enciclopédia Pedagógica Progredir.
De acordo com Edgar Rodrigues, “a sua actividade mais importante exerceu-a na Escola Oficina n.° 1, no Largo da Graça. Nesta escola que existiu entre 1906 e 1926 e que funcionava em regine de coeducação sexual e onde as punições físicas eram proibidas, há a destacar quatro aspetos que de acordo com o texto “Movimento operário português e educação (1900-1926) de António Candeias eram os seguintes:
1- A existência de trabalhos manuais:
2- A existência de uma associação de alunos, a Solidária, que tinha à sua responsabilidade a organização das refeições, de festas, competições desportivas, etc.;
3- A introdução de disciplinas como a dança, o teatro e a música;
4- A “preocupação de desagregação tanto social como sexual; fábricas para raparigas, bordado e dança para rapazes; música, teatro e dança para filhos de operários, fábricas de latoaria para filhos de intelectuais, etc.”
Casimiro Amado, por seu turno, num texto publicado em 1998, considerou Adolfo Lima como o “introdutor da escola única em Portugal” e o “autor duma verdadeira reflexão nacional sobre o problema ao relacioná-lo com a realidade educativa e social portuguesa”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31375, 8 de novembro de 2017, p.16)
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