quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Em memória do Dr. Eduardo Andrade Pacheco


Correio dos Açores, 27 de Novembro de 2012



Conheci o Dr. Eduardo Pacheco, em 1973, era ele reitor do Liceu de Ponta Delgada e eu um aspirante a aluno daquela instituição. Lembro-me de ter ido ao seu gabinete, acompanhado de minha mãe e da senhora professora Mariana Carreiro, com o objetivo de ser esclarecido acerca do conjunto de disciplinas que deveria frequentar para uma conseguir um melhor preparação para poder prosseguir um curso superior na área da engenharia.
No ano de 1975, fazendo parte de um grupo de alunos que, incentivado pela Dr.ª Otília Moura, fez um estudo teórico-prático sobre a rádio, com ele me cruzei, por diversas vezes, no Laboratório de Física daquele estabelecimento de ensino, que era o nosso ponto de reunião e o local onde ele costumava trabalhar, possivelmente onde preparava as suas atividades letivas e onde terá elaborado o inventário do seu material didático.
Mais tarde, voltei a encontrar o Dr. Eduardo Pacheco no Instituto Universitário dos Açores, tendo sido seu aluno em algumas disciplinas que ele lecionou. Embora já se tenham passado muitos anos, recordo a sua simpatia, o rigor usado na linguagem, a clareza das suas explicações e o esforço titânico que fazia para que associadas à teoria existissem atividades experimentais, o que não era fácil, na altura, pois os laboratórios estavam muito mal equipados.
Quando em 1984 voltei ao Liceu já na qualidade de professor, depois de ter feito o estágio na Escola Secundária Domingos Rebelo e de ter trabalhado três anos na ilha Terceira, já não encontrei fisicamente o Dr. Pacheco mas quase todos os dias pensava nele. Com efeito, bastava olhar para algum material e lá estava uma legenda escrita com a sua inconfundível letra. Além disso, como fui durante vários anos diretor de instalações (laboratório) também me socorri dos inventários por ele feitos sempre que alguma dúvida surgia. O mesmo terá acontecido com o meu colega Dr. Bruno Couto que ao Dr. Pacheco se refere na introdução ao seu livrinho “Espólio Museu de Física”, editado, recentemente, pela Escola Secundária Antero de Quental.
Há três anos, o professor Rubens Pavão, num texto a propósito dos 90 anos do Dr. Eduardo Pacheco, mencionou as suas qualidades como cidadão exemplar, sempre disposto a ajudar os seus semelhantes, nomeadamente os da sua comunidade de São Roque. No mesmo texto, o professor Rubens Pavão referiu um facto que levou a que pela primeira vez o Dr. Eduardo Pacheco se zangasse.
Durante o tempo em que com ele tive contato, nunca o vi zangado e guardo na minha memória um episódio que me marcou e que me vem à memória, quase diariamente, quando estou em contato com os meus alunos menos disciplinados, que felizmente, este ano letivo, são muito poucos.
Num dos dias em que estávamos a trabalhar voluntariamente no Laboratório de Física a preparar a montagem do aparelho de rádio, entrou, sem que o esperássemos, o Dr. Pacheco, tendo encontrado alguns de nós sentados em cima das mesas. Apanhados de surpresa não nos mexemos, tendo depois de o saudar, continuado com a conversa.
O Dr. Pacheco aproximou-se de nós, pediu-nos para nos afastarmos um pouco da mesa e pegou em algumas cadeiras e colocou-as sobre aquela. Depois disso, disse-nos que já nos podíamos sentar sobre a mesa.
Não foram precisas mais palavras, aprendemos a lição. Santos tempos…
Apesar da sua idade, foi com pesar que li a notícia da sua morte, embora tenha a certeza de que o seu exemplo como cidadão e como professor perdurará para sempre e será transmitido às futuras gerações por todos os que o conheceram.
Conquanto todas as instituições que o Dr. Eduardo Pacheco serviu ao longo da sua vida possam e devam tomar a iniciativa de o recordar, acho que a Escola Secundária Antero de Quental, pelo fato de ele ter sido seu aluno, de ter feito parte do seu corpo docente e de ter sido reitor de 1969/70 até 1973/74 , devia tomar a iniciativa de organizar uma mais do que justa homenagem. Tenho a certeza de que o Conselho Executivo, se já não pensou no assunto, poderá contar com a colaboração de muitas pessoas da comunidade educativa, nomeadamente de todos os ex-alunos do Dr. Pacheco quer sejam ou não, atualmente, docentes daquele estabelecimento de ensino.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, , 5 de Dezembro de 2012)

1 comentário:

Carolina Martins disse...

Muito obrigada pelas suas palavras sobre o meu querido Avô embora este agradecimento seja tardio. Haja saúde!