A propósito da maçonaria
Era ainda criança quando em conversa com alguns
colegas ouvi pela primeira vez falar em maçonaria. Estávamos nos últimos anos
da década de sessenta do século passado e vivíamos numa localidade rural, onde
os seus habitantes eram maioritariamente camponeses sem terra ou pequenos
(muito pequenos) lavradores, com uma baixa escolaridade e possuidores de uma
formação religiosa caraterizada pela intolerância face a todas as outras
crenças.
Na altura, penso que foi o meu amigo de infância Paulo
Carreiro que, no Canto da Ponta Garça, me disse que em Vila Franca do Campo
existia alguém que era da maçonaria e que, ao contrário dos católicos que
adoravam Deus que está no céu, os seguidores daquela organização eram adeptos
do Diabo que pretendiam dominar o mundo a fim de escravizar todas as pessoas.
Na altura, fiquei com medo mas não dei grande
importância, pois não me pareceu que a situação para a maioria das pessoas que
viviam muito mal, algumas de esmola, poderia piorar ainda mais. Mas, a
apreensão inicial deu origem à curiosidade que procurei, sem sucesso, saciar,
através da biblioteca móvel da Gulbenkian que mensalmente visitava a Ribeira
Seca.
Não havendo muita informação imparcial disponível,
considero natural que persistam preconceitos contra a instituição e contra os
maçons que na sua maioria continuam a não tornar pública a sua condição de
membros da maçonaria.
Embora não ache que se justifique, na sociedade atual,
pelo menos no nosso país, o secretismo existente, a Grande Loja Legal de
Portugal considera que “ser maçom não será
propriamente perigoso, mas poderá ser incómodo, trazer prejuízos. Onde o
preconceito contra a Maçonaria e os maçons ainda dura e ser maçom e ser
conhecido como tal ainda pode causar danos profissionais ou sociais. Também
nestes locais se justifica, e facilmente se percebe que justifica, a reserva de
identidade do maçom, a não divulgação dessa condição.”.
Situação completamente diferente era a existente em
ditadura, como a do Estado Novo, onde o direito de associação foi bastante
condicionado, tendo a Lei nº 1901, de 21 de maio de 1935 ilegalizado e
dissolvido as sociedades secretas e previsto sanções para os seus membros.
Através da leitura do livro “"A Maçonaria
Portuguesa e os Açores (1792-1935) ", da autoria de António Lopes, fiquei
a conhecer que foram os valores da liberdade, igualdade, fraternidade e o da
tolerância que nortearam a organização e que são perfeitamente atuais, numa
sociedade, desmotivada e depauperada pelas políticas que têm sido implementadas,
como é a que vivemos.
Para além dos princípios seguidos pela maçonaria, o
livro mencionado dá a conhecer as escolas e instituições de carácter social que
foram criadas pela ação dos maçons, algumas delas elitistas, como a Sociedade
Amor da Pátria, no Faial, e o Clube Micaelense, em São Miguel.
No que diz respeito ao ensino, destaca-se a criação de
algumas escolas “João de Deus” que tinham como objetivo principal diminuir o
analfabetismo existente, e a implementação das escolas agrícolas Maria Cristina
que desempenharam um papel ímpar no desenvolvimento agrícola da ilha de São
Miguel.
Por último,
embora de menos importância do que aquilo que já referimos, o autor apresenta
listagens dos membros das várias lojas existentes nos Açores. A partir delas,
esclarecemos as nossas dúvidas relativas ao concelho de Vila Franca do Campo e
ficamos a saber que alguns dos maiores vultos da cultura e da vida social,
política e até religiosa açoriana foram membros da maçonaria.
Aproveitamos a oportunidade para um esclarecimento final, para que não fiquem a pairar quaisquer dúvidas: não temos nenhuma ligação a qualquer loja maçónica onde, com certeza, tal como nas restantes organizações, haverá pessoas boas, as que seguem os seus ideais, e as menos boas, as que se aproveitam para tirar dividendos pessoais.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, nº 30337, 7 de Maio de 2014,
p.16)
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