Fotografia: Instituto Cultural de Ponta Delgada
Quem foi Simplício
Gago da Câmara?
Simplício Gago da Câmara, filho de Gil Gago da Câmara e de sua esposa
Branca Guilhermina do Canto Medeiros, nasceu a 19 de maio de 1808 e foi
batizado no dia 29 do mesmo mês, na igreja de São Pedro, em Ponta Delgada.
Faleceu a 7 de agosto de 1888. Foi Comendador da Ordem de Nossa Senhora da
Conceição de Vila Viçosa.
Simplício Gago da Câmara foi um notável filantropo, funcionando a sua casa,
em Vila Franca do Campo, como uma verdadeira Misericórdia. Com efeito, “o seu
coração é grande, como larga é a sua mão: dá de comer aos que têm fome, consola
os aflitos, anima os tímidos e fornece gratuitamente aos enfermos clínicos e
medicamentos” (Simplício Gago da Câmara…, 1888).
Com o objetivo de promover o desenvolvimento da sua terra, Simplício Gago
da Câmara, grande proprietário rural da ilha de São Miguel, criou ao longo da
sua vida cinco navios e três grandes fábricas. Nas suas casas e propriedades
empregou um elevado número de trabalhadores, garantindo‑lhes o sustento.
Grande amante e estudioso da natureza, realizou longas viagens pela Europa,
América e Austrália, tendo recolhido vasta informação e elaborado um estudo
sobre o cachalote.
O seu espírito aventureiro levou‑o à Austrália, onde procurou explorar
jazigos de ouro, com o intuito de obter meios financeiros para estabelecer
novas indústrias e desenvolver a sua terra. Embora a exploração aurífera não
tenha sido bem‑sucedida, a estadia naquele continente permitiu‑lhe selecionar
diversas espécies da flora australiana que mais tarde introduziu em São Miguel,
nomeadamente eucaliptos, acácias e araucárias.
A par de José do Canto e de Ernesto do Canto, Simplício Gago da Câmara foi
um dos grandes impulsionadores da reflorestação da ilha de São Miguel, através
da oferta de centenas ou mesmo milhares de plantas provenientes dos seus
viveiros, localizados no prédio do Convento, em Vila Franca do Campo. Mandou
igualmente plantar, nas suas matas de São Brás e da Fajã do Calhau, para além
das espécies já referidas, pinheiros, giestas e criptomérias.
Outra iniciativa que encetou, embora sem sucesso duradouro, foi a da pesca
do bacalhau. Tentando introduzir esta atividade nos Açores, decidiu construir
um navio no Porto Formoso, utilizando madeiras das suas próprias matas. Partiu
para a Terra Nova, onde a pesca foi proveitosa, mas acabou por perder grande
parte do bacalhau capturado durante o transporte para Vila Franca do Campo,
onde pretendia proceder à sua secagem. Tratou‑se de uma experiência falhada,
mas potencialmente exemplar para os armadores das ilhas.
O contributo de Simplício Gago da Câmara para a modernização da agricultura
micaelense foi de grande relevância, quer a título individual, quer através da
Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, na qual exerceu funções de
secretário da Comissão Vinícola.
Agricultor, produtor de vinho e exportador de laranja, foi o responsável
pela introdução em São Miguel da chamada “laranja sevilha”, a partir de
sementes obtidas em Londres.
Na Gorreana, no concelho da Ribeira Grande, para além da plantação de
matas, cultivou chá em conjunto com a sua filha, Ermelinda Pacheco Gago da
Câmara (1832-1913), dando início à respetiva industrialização.
Enquanto produtor de vinho, explorou sobretudo as vinhas do prédio do
Convento, na freguesia de São Pedro. Posteriormente, após adquirir o ilhéu de
Vila Franca do Campo, introduziu aí plantações de vinha que subsistiram até
meados do século XX.
Para além do cultivo do linho, em parte proveniente de sementes oriundas de
Riga, cultivou igualmente trigo, tendo introduzido pequenas máquinas portáteis
de debulhar, acionadas por dois homens. No domínio da mecanização agrícola, é‑lhe
ainda atribuída a introdução de uma máquina a vapor multifuncional existente em
São Miguel, utilizada tanto para moer trigo ou milho como para serrar madeira.
A criação de gado bovino constituiu igualmente uma das suas atividades,
cultivando beterraba para alimentação de suínos, bois de engorda e vacas
leiteiras.
Entre 1 de julho de 1863 e 1 de julho de 1868, exerceu o cargo de Provedor
da Santa Casa da Misericórdia de Vila Franca do Campo, período durante o qual
saneou a administração daquela instituição, eliminando vícios e abusos que a
afetavam. Durante o seu mandato, foram equilibradas as contas da Santa Casa,
construída a enfermaria feminina e admitidos dois médicos. Após um período de
afastamento motivado por calúnias, voltou a ser eleito provedor, procedendo à
atualização dos estatutos, concluindo a enfermaria das mulheres e admitindo um
farmacêutico.
Demonstrou ainda profunda preocupação com a instrução pública, tendo sido o
maior apoio financeiro da Associação das Escolas Móveis, cuja missão era
ministrar o ensino das primeiras letras às crianças, segundo o método de João
de Deus. Para Vila Franca do Campo, requisitou a 32.ª missão, prestando um
valioso auxílio ao professor da associação, José Gonçalves Martins.
Principal bibliografia consultada
- (1888). Simplício Gago da Câmara-biografia. Lisboa,
Imprensa Minerva. 15 pp.
Braga, T. (2020). Vidas Exemplares. Ponta Delgada, Letra
Lavadas. 327 pp.

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