É possível
salvar as araucárias gémeas de Santa Maria?
Na ilha de Santa Maria existem várias araucárias introduzidas nos Açores
durante o século XIX. A maioria pertence à espécie Araucaria heterophylla,
originária da ilha de Norfolk. No entanto, da espécie Araucaria columnaris
(araucária-colunar ou pinheiro-da-Nova-Caledónia) existem apenas dois
exemplares na ilha, ambos localizados na Baía de São Lourenço.
Estas duas árvores possuem um valor natural, paisagístico e patrimonial
excecional. Com uma idade centenária, apresentam um porte notável, atingindo
33,7 e 34,7 metros de altura, respetivamente, e exibem a inclinação
característica da espécie. Sendo os únicos exemplares de Araucaria
columnaris existentes em Santa Maria, constituem um elemento singular e
emblemático da paisagem da Baía de São Lourenço.
Importa ainda recordar que estas araucárias foram retratadas, em 1939, num
quadro do pintor Domingos Rebelo, atualmente exposto no Palácio da Conceição,
em Ponta Delgada. Acresce que ambas integram a Rede de Árvores Singulares da
Macaronésia, reconhecimento que reforça o seu elevado valor histórico, cultural
e ambiental.
Recentemente, tivemos conhecimento da intenção de proceder ao abate destes
dois exemplares, alegadamente por representarem um risco para um edifício
construído nas proximidades e para a segurança dos seus ocupantes.
Simultaneamente, fomos contactados por diversos marienses, incluindo antigos
residentes da Baía de São Lourenço e visitantes habituais daquele local, que
manifestaram profunda preocupação e tristeza perante a possibilidade de
desaparecerem duas árvores que fazem parte da memória coletiva de várias
gerações.
É evidente que a segurança das pessoas e dos bens deve constituir a
prioridade absoluta. Contudo, precisamente por estarmos perante exemplares de
elevado valor patrimonial, entendemos que a decisão de os abater só deverá ser
tomada depois de esgotadas todas as alternativas viáveis.
Assim, defendemos que seja realizada uma avaliação técnica independente e
rigorosa do estado fitossanitário e estrutural das árvores, bem como um estudo
das soluções que possam compatibilizar a sua preservação com a segurança
pública. Entre essas soluções poderão incluir-se intervenções de estabilização,
poda especializada, monitorização contínua, criação de zonas de segurança ou
outras medidas de engenharia e arboricultura que permitam minimizar o risco.
O abate deverá constituir apenas o último recurso, caso fique
inequivocamente demonstrado, com base em pareceres técnicos fundamentados, que
não existe qualquer alternativa capaz de garantir a segurança das pessoas e a
preservação destas árvores singulares.
Salvar as araucárias gémeas da Baía de São Lourenço é preservar uma parte
da história, da identidade e da paisagem de Santa Maria para as gerações
futuras.
16 de julho de 2026
Núcleo Regional dos Açores da IRIS- Associação Nacional de Ambiente
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