quinta-feira, 16 de julho de 2026

É possível salvar as araucárias gémeas de Santa Maria?

 

É possível salvar as araucárias gémeas de Santa Maria?

 

 

Na ilha de Santa Maria existem várias araucárias introduzidas nos Açores durante o século XIX. A maioria pertence à espécie Araucaria heterophylla, originária da ilha de Norfolk. No entanto, da espécie Araucaria columnaris (araucária-colunar ou pinheiro-da-Nova-Caledónia) existem apenas dois exemplares na ilha, ambos localizados na Baía de São Lourenço.

 

Estas duas árvores possuem um valor natural, paisagístico e patrimonial excecional. Com uma idade centenária, apresentam um porte notável, atingindo 33,7 e 34,7 metros de altura, respetivamente, e exibem a inclinação característica da espécie. Sendo os únicos exemplares de Araucaria columnaris existentes em Santa Maria, constituem um elemento singular e emblemático da paisagem da Baía de São Lourenço.

 

Importa ainda recordar que estas araucárias foram retratadas, em 1939, num quadro do pintor Domingos Rebelo, atualmente exposto no Palácio da Conceição, em Ponta Delgada. Acresce que ambas integram a Rede de Árvores Singulares da Macaronésia, reconhecimento que reforça o seu elevado valor histórico, cultural e ambiental.

 

Recentemente, tivemos conhecimento da intenção de proceder ao abate destes dois exemplares, alegadamente por representarem um risco para um edifício construído nas proximidades e para a segurança dos seus ocupantes. Simultaneamente, fomos contactados por diversos marienses, incluindo antigos residentes da Baía de São Lourenço e visitantes habituais daquele local, que manifestaram profunda preocupação e tristeza perante a possibilidade de desaparecerem duas árvores que fazem parte da memória coletiva de várias gerações.

 

É evidente que a segurança das pessoas e dos bens deve constituir a prioridade absoluta. Contudo, precisamente por estarmos perante exemplares de elevado valor patrimonial, entendemos que a decisão de os abater só deverá ser tomada depois de esgotadas todas as alternativas viáveis.

Assim, defendemos que seja realizada uma avaliação técnica independente e rigorosa do estado fitossanitário e estrutural das árvores, bem como um estudo das soluções que possam compatibilizar a sua preservação com a segurança pública. Entre essas soluções poderão incluir-se intervenções de estabilização, poda especializada, monitorização contínua, criação de zonas de segurança ou outras medidas de engenharia e arboricultura que permitam minimizar o risco.

 

O abate deverá constituir apenas o último recurso, caso fique inequivocamente demonstrado, com base em pareceres técnicos fundamentados, que não existe qualquer alternativa capaz de garantir a segurança das pessoas e a preservação destas árvores singulares.

 

Salvar as araucárias gémeas da Baía de São Lourenço é preservar uma parte da história, da identidade e da paisagem de Santa Maria para as gerações futuras.

 

16 de julho de 2026

 

Núcleo Regional dos Açores da IRIS- Associação Nacional de Ambiente

 

 

 

 

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