sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Faias


Faias

Desde criança, conheço a faia-da-terra quando na companhia dos meus pais visitava uma terra localizada na Courela, na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo. Lá a faia-da-terra, também conhecida como faia ou faia-das-ilhas, era usada como cortina de abrigo para uma plantação de bananeiras, onde também se encontravam algumas laranjeiras, uma mandarineira e um pessegueiro. No outono, mais ou menos por altura das vindimas, regalava-me com uma barrigada dos seus frutos.

A faia, que é uma árvore ou arbusto perenifólio que atinge em média uma altura que varia entre os 10 e os 15 metros e que está em floração nos meses de março e abril, é uma planta nativa dos Açores cuja presença deu origem a alguns nomes de localidades das nossas ilhas, como, por exemplo, Faial (ilha) e Faial da Terra (freguesia do concelho da Povoação).

A propósito da toponímia da freguesia referida, Gaspar Frutuoso, nas Saudades da Terra, escreveu o seguinte: “…Lugar do Faial, assim chamado por ser antigamente aquele vale coberto de muitas faias e altas, com raras sombras de brandos vimes e outras espessas de verdes árvores regadas não somente com a ribeira e levada…”. Sobre o nome dado à ilha do Faial, o mesmo autor escreveu o seguinte: “tomou o nome do que nela havia”.

As designações faia-da-terra e faia-das-ilhas terão surgido para distinguir a nossa espécie Morella faya da faia-da-holanda ou faia-do-norte (Pittosporum tobrira).

A faia-da-holanda, originária da China do Japão e da Coreia, cuja presença nos Açores é muito antiga, foi também usada como sebe por ser muito resistente aos ventos, mesmo aos salgados.

Com uma altura que pode atingir 8 m e com floração que vai de março a maio, a faia-da-holanda, que é uma planta de crescimento rápido, também é usada como planta ornamental e as suas flores, que exalam um perfume adocicado semelhante ao das flores da laranjeira, são muito apreciadas pelas abelhas.

Enquanto a faia-da-terra pertence à família Myricacea, a faia-da-holanda pertence à família Pittosporaceae, à qual também pertence o incenso (Pittosporum undulatum) que, segundo Ruy Telles Palhinha, também é conhecido popularmente por faia.

O incenso, originário da Austrália, é uma árvore perenifólia que pode atingir até 25 metros de altura, sendo devido à sua rusticidade, crescimento rápido e boa rebentação uma das principais plantas usadas, hoje, como sebe. Tendo escapado da cultura tornou-se uma invasora. Mas como há sempre o outro lado, as flores de incenso que surgem de fevereiro a maio são muito aromáticas e apreciadas pelas abelhas que a partir delas elaboram o afamado mel de incenso dos Açores.

Accurcio Garcia Ramos, no seu livro “Noticia do Archipelago dos Açores e do que ha mais importante na sua história natural”, publicado em 1871, escrevia que a faia-da-terra era uma árvore sempre verde que se plantava para sebe dos laranjais e acrescentava que “é muito boa para construções; a sua casca aproveita aos curtidores, e os seus despojos utilizam ao solo”.

O Dr. Luís da Silva Ribeiro refere o uso da faia-da-terra como planta tintureira ligada à tecelagem. Segundo ele, na freguesia dos Altares, ilha Terceira, a casca da faia era usada para a obtenção do preto. A receita usada era a seguinte: “Deitam-se as cascas de molho durante dois dias, findos os quais se fervem umas oito horas, côa-se e põe-se de novo ao lume. Quando ferve a segunda vez deita-se pedra hume e capa rosa e deixa-se ferver meia hora”.

Em 1990, num inquérito que aplicámos em várias localidades da ilha de São Miguel encontrámos muito poucas referências ao uso da faia-da-terra como planta medicinal. A exceção ocorreu na Ribeira Seca de Vila Franca do Campo, onde mais do que uma das pessoas inquiridas referiu que se fazia um “chá que era bom para a tosse”, “queimando açúcar colocado sobre uma toca de faia em brasa e acrescentando água por cima”.

Para além das faias mencionadas, também é possível encontrar outras faias como a faia-europeia (Fagus sylvatica) que pode ser encontrada no Jardim do Palácio de Santana, no Parque Terra Nostra, no Jardim do Pico Salomão, no Viveiro Florestal das Furnas e na Mata Jardim José do Canto.

Pico da Pedra, 1 de dezembro de 2023

Teófilo Braga

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